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Atriz, produtora e ativista Ruth Escobar morre em SP aos 82 anos
João Sal/Folhapress.

SÉRGIO ROVERI*
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Não foi apenas no teatro, nos mais de 30 espetáculos em que atuou, que a atriz e produtora Ruth Escobar, morta nesta quinta em São Paulo (5), aos 82, desdobrou-se em inúmeras personagens.

Longe das coxias, essa portuguesa nascida Maria Ruth dos Santos, em 31 de março de 1935, na cidade do Porto, foi deputada estadual em duas gestões, empresária, ativista política, líder feminista, autora de uma autobiografia lançada em 1987 e militante em tempo integral cuja disponibilidade para criar e defender projetos comunitários impressionava até os mais próximos.

A trajetória de Escobar, que deixa quatro filhos após duas décadas de luta contra o Alzheimer, sendo tão eclética, foi marcada ora pelo signo do sucesso, ora pelo da polêmica. E, muitas vezes, simultaneamente pelos dois.

Se fosse possível abrigar tantas vocações sob uma única denominação, não seria injusto dizer que Ruth Escobar foi, acima de tudo, uma personalidade.

Ela chegou ao Brasil aos 15 anos, em 1951 –as décadas que viveria por aqui ajudaram a atenuar, sem eliminar, seu acento lusitano. No fim dos anos 50, já casada com o dramaturgo e filósofo Carlos Henrique Escobar, partiu para estudos na França.

Ao retornar, criou sua primeira companhia, o Novo Teatro, e convidou para suas primeiras produções o diretor italiano Alberto D'Aversa, que havia chegado a São Paulo em 1957 para dar aulas na Escola de Arte Dramática.

As primeiras peças que dirigiu para ela e sua trupe foram "Mãe Coragem e Seus Filhos", de Bertolt Brecht, em 1960, um fracasso de bilheteria tão grande a ponto de comprometer o salário da equipe, e "Males da Juventude", de Ferdinand Bruckner, em 1961.

RESISTÊNCIA

O passo determinante para a consolidação de seu nome como atriz e produtora se deu em 1964, com a criação do teatro que leva seu nome, na Bela Vista, no centro paulistano.

O endereço, que entraria para a história recente do país tanto pela ousadia e ineditismo das produções quanto por sua inclinação para polo de resistência à ditadura (1964-85), foi inaugurado com um texto de Brecht, "A Ópera dos Três Vinténs", dirigida por José Renato (1926-2011).

Em julho de 1968, numa das apresentações da peça "Roda Viva", de Chico Buarque, o teatro foi invadido por 20 integrantes do CCC (Comando de Caça aos Comunistas). O grupo destruiu o cenário da peça, danificou equipamentos e espancou artistas e público.

"Vivi muitos momentos importantes com a Ruth. O mais marcante na minha memória foi estarmos juntas, presas, no Segundo Exército em São Paulo, em 1968", recordaria a atriz Marília Pêra (1943-2015), que foi agredida no camarim na invasão do teatro pelo CCC.

"Naquela noite na sede do Segundo Exército, éramos cinco os 'marcados': Ruth Escobar, Augusto Boal, Plínio Marcos, Renato Consorte e eu", disse ainda a atriz.

"Boal e Plínio conseguiram escapar. Ruth e eu fomos presas. Passamos duas noites no mictório dos militares, deitadas em dois colchões no chão, falando e temendo tudo. Além de tudo o que vi dela ali, vi também que ela foi uma luz no teatro brasileiro, desde todos os espetáculos que fez acontecer, até suas festas inesquecíveis, e mais suas inacreditáveis interpretações como atriz. A vida dela não cabe em dez livros. Louca e criativa."

No fim da década de 1960, a atriz produziu –e protagonizou– alguns dos mais lendários espetáculos já encenados no país em qualquer época. Entre eles, "Cemitério de Automóveis", de Fernando Arrabal, que estreou em setembro de 1968 em uma velha garagem na Rua 13 de Maio, e "O Balcão", de Jean Genet, que entrou em cartaz em dezembro do ano seguinte.

As duas peças, surpreendentes pelo arrojo da encenação, foram dirigidas pelo argentino Victor García (1934-1982), que Ruth trouxera para trabalhar no Brasil em 1967.

A montagem de "O Balcão", apontada pelo próprio Genet como a melhor que seu texto teve no mundo, subverteu até a arquitetura do teatro, que teve parte da plateia e mezanino destruídos para obter um vão de 20 metros de altura.

A peça conquistou os principais prêmios de teatro naquele ano e fez de Ruth Escobar a vencedora do Troféu Roquette Pinto na categoria personalidade do ano.

Ao longo dos anos 1970, colocou o Brasil no mapa da vanguarda teatral mundial com seu Festival Internacional de Teatro, que, ao longo de oito edições, desde 1974, permitiu ao público local tomar contato com a obra de encenadores como Bob Wilson, Andrei Serban e Jerzy Grotowski.

Depois da terceira edição do festival, em 1981, candidatou-se a deputada estadual e foi eleita duas vezes (1983 e 1987). Acabou expulsa do PMDB ao apoiar, em 1986, a candidatura do empresário Antonio Ermírio de Moraes ao governo do Estado pelo PTB.

A edição seguinte do festival ocorreria, de forma mais modesta, somente em 1994, sob o nome de Festival Internacional de Artes Cênicas, que seria produzido até 1999.

No início dos anos 2000, recebeu o diagnóstico de que tinha o mal de Alzheimer. Aos poucos a atriz, cinco casamentos e mãe de cinco filhos –um deles, Christian, morreu–, começou a se distanciar dos palcos e da vida pública.

Ainda teve tempo de lançar, em maio de 2001, um dos seus espetáculos mais controversos, o musical "Os Lusíadas", superprodução de R$ 2 milhões inspirada na obra do poeta português Luís de Camões.

Brigou com o diretor e o figurinista, foi aos jornais criticar a encenação, tirou a peça de cartaz para, em outubro do mesmo ano, montá-la com nova direção e equipe técnica.

Em 2011, o nome de Ruth Escobar ressurgiu no noticiário por um motivo preocupante. Abandonado, seu monumental acervo, prédios e material artístico, deteriorava-se.

A melhor tradução do empreendedorismo e das controvérsias de Ruth Escobar talvez seja expressa pela letra de "Essa Vida é um Mafuá".
Interpretou a canção, composta especialmente para ela pelo jornalista e ator Oswaldo Mendes, com um conhecimento de causa ímpar, no espetáculo "Revista do Henfil", de 1978.

"Aqui, os versos de "Essa Vida é um Mafuá":

Ei cara, vale tudo aqui na [casa
só não me faça trapaça...
De trapaceiro aqui dentro
sou a mais eficiente
e jogo duro somente
se o inimigo apelar
traiçoeiro.
Enquanto houver um só
[triste
eu pintarei os meus lábios
de cintilante carmim...
Enquanto houver um só
[triste
não fecho o meu mafuá.
Ei, cara
pra ser sincera, confesso
tenho a coragem do novo
e a safadeza do velho."

*SÉRGIO ROVERI é jornalista e dramaturgo.


Sexta, 6/10/2017 7:30.


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