Jornal Página 3
Aventureiro conta como foi ir de carona até o Ushuaia
Fotos Guilherme Hoefelmann
Guilherme e a Laguna de Los Tres
Guilherme e a Laguna de Los Tres

Por Daniele dos Reis

Nome: Guilherme Cesar Hoefelmann
Idade: 27 anos
Natural de: Itajaí/SC.
Mora em: Balneário Camboriú desde sempre
Estado Civil: Solteiro
Formação: Superior completo - Design Industrial
Profissão: Designer gráfico
Lazer: Livros, futebol, cerveja e churrasco.
Um livro: Cozinha Confidencial - Anthony Bourdain
Comida preferida: Carne. Mal passada, por favor.
Música: “Tenho um gosto bastante esquizofrênico que vai de Leci Brandão à Calle 13”.
Um hobby: Cozinhar
Perfil: Não sou um jornalista, não sou um correspondente estrangeiro; sou, na melhor das hipóteses, apenas um entusiasta.

Desde que conheceu o encanto da estrada, o designer Guilherme Hoefelmann mudou. No site “Não me espera pro jantar” ele revela a influência que seus mochilões trouxeram à forma como ele enxerga o mundo agora. Resolveu propagar suas constatações, inspirar aventureiros e ser muito mais que um simples guia de viagem. Este ano, ele embarcou com o amigo Luiz Felipe Fayad em uma trip de 40 dias, de carona, até o Ushuaia, a cidade mais austral do mundo localizada no extremo sul da Argentina. Ele contou ao Página 3 como foi a viagem e o que trouxe de volta na bagagem, confira.

No seu blog você revela que é designer por profissão, mas quase um Indiana Jones por amor à aventura. De onde vem isso?

É um grande resquício da minha infância. Eu costumava me imaginar como um arqueólogo, sempre envolvido em alguma grande aventura pela Amazônia peruana ou no coração da África, atrás de algum artefato importante. Quase todos meus gibis contavam histórias sobre dinossauros ou cidades perdidas. Muito disso se deve ao meu pai que sempre alimentou minha imaginação. Ouvia suas histórias sobre as Linhas de Nazca ou Angkor Wat, e com o tempo passei a mirabolar minhas próprias teorias sobre Atlântida e a sonhar em desmatar meia Amazônia atrás de Eldorado. Muito por conta desse desejo por aventuras, hoje me tornei alguém com total incapacidade de dizer não a qualquer viagem com a mínima chance de conhecer algum novo lugar. Encontrei nas minhas viagens uma forma de explorar o mundo como eu sonhava. A diferença é que ainda não dei de cara com nenhuma múmia viva voltando das trevas ou cidade banhada a ouro. Mas está tudo na minha lista.

“Pra mim, carona é um estado de espírito”

Como foi quando você resolveu fazer o primeiro mochilão?

Meu primeiro mochilão foi em agosto de 2011. Eu estava sem muitos planos quando um amigo - que na época nem era tão amigo assim - me convidou para ir até Machu Picchu. Algum tempo depois eu havia arrumado uma mochila e estava na Estação de Quijarro (Bolívia) comprando um bilhete para o Trem da Morte.

Deixou o que para trás por aqui?

Na época eu tirei férias e não precisei deixar nada para trás, mas de alguma forma, aquela viagem me preparou para acontecimentos futuros onde eu precisaria fazer alguma escolha. Entendi que era aquilo o que eu mais gostava de fazer na vida.

Prefere viajar sozinho ou acompanhado, por quê?

Não vejo problemas em viajar sozinho, mas acho que prefiro quando alguém me acompanha. É bom ter alguém com quem compartilhar o que você encontra na estrada. Sem contar que em caso de perrengue são duas cabeças pra pensar. Aquela frase "antes só do que mal acompanhado" tende a valer menos quando você está em durante a noite, abaixo de zero, em um posto de gasolina no sul da Argentina, sem dinheiro, sem lugar para dormir e com fome. Esses valores acabam mudando um pouco.

Você diz que o seu objetivo não é fazer um guia de viagem, que quer mais...

Eu aprendi que, antes mesmo de ler qualquer guia do Lonely Planet ou pensar em comprar uma mochila, existe algo que todo viajante deve compreender: você será o elo de ligação entre aqueles que te ouvem e o lugar para onde você vai. Logo, cabe a quem põe o pé na estrada ter a humildade para assimilar isso e assumir a responsabilidade mostrando o mundo como ele é de verdade. Há que deixar um pouco de lado os locais turísticos.


Glaciar Perito Moreno

O que você busca na estrada?

Mostrar às pessoas, por exemplo, que primeiro passo para começar a entender o mundo é saber que o julgamento que fazemos sobre uma cultura é formado com base em valores da nossa própria. Logo, o que é certo ou errado, bom ou ruim, bonito ou feio é relativo em cada sociedade. Acho que existe um dever moral de todo viajante. Se você tem a oportunidade de visitar o Iran, evidencie o quão boas são as pessoas e o que elas tem feito de incrível, e confronte, com a propriedade de quem esteve lá, o estereótipo de terrorista adotado apenas pela falta de informação. É dessa forma que, desde que me predispus a viajar e escrever, tento buscar algo mais do que meras dicas de viagem. Acredito, com toda certeza, que o ato de viajar só é completo quando você sai do roteiro pré-determinado e se coloca em situações anormais. É nesse momento em que aprendemos a relativizar, questionar e agir. Eu quero ir a lugares inalcançáveis, falar com pessoas que muito tem a dizer e abraçar causas impossíveis. Viajar, registrar, compreender e exibir grandes dramas e histórias. Derrubar barreiras geográficas, romper preconceitos, tentar reagir a situações imutáveis e oferecer uma humilde interpretação. Ver o mundo como ele é e, sem florear, reportar tudo de verdadeiro que há nele, sejam coisas boas ou ruins.

Você já sentiu medo? Seja de largar tudo e viajar ou mesmo medo de alguma situação quando está fazendo seu mochilão?

O medo faz parte. Quando você faz viagens não convencionais, é normal sempre ter algum receio. Já tive que atravessar a pé e desviando de barricadas por protestos no coração da Bolívia, invadir casa das Forças Armadas chilenas para fugir do frio no Estreito de Magalhães e atravessar viadutos vazados sem parapeito há mais de 100 metros de altura. Eu estaria mentindo se dissesse que não estava apavorado. Mas pior do que esse tipo de medo é aquele de não sair de casa. Meu maior temor é ver minha vida passar enquanto eu estou sentado frente à tela de um computador com o Photoshop aberto.

Recentemente você fez um mochilão de 40 dias, de carona, até o Ushuaia. O que trouxe de mais valioso dessa experiência?

Sem dúvida, a crença nas pessoas! Esse tal de ser humano que anda tão mal falado por aí acabou me reconquistando com a bondade que encontrei nessa viagem. Acredito que o Luiz, que me acompanhou nessa trip, tem a mesma impressão. Como se tratava de uma viagem de baixo orçamento - bem por isso surgiu a ideia de ir de carona - dependíamos na maioria das vezes da ajuda das pessoas. Seja por rodar alguns quilômetros, arrumar um lugar onde dormir ou conseguir informações quando o mapa não fazia sentido algum. À medida que nos movíamos, acabávamos percebendo que as pessoas que cruzavam nosso caminho ganhavam cada vez mais espaço nessa viagem. Muito cedo deixou de ser uma busca por paisagens ou boas fotos. O destino final em si diminuía em relevância, ao passo que vislumbrávamos e calculávamos a imensa experiência de vida que nos estava sendo proporcionada. E tudo isso graças a cada uma das boas almas com quem esbarramos pelo caminho.

O fato de ter ido de carona foi um complicador ou foi positivo?

Eu nunca havia pego carona na vida. Bem por isso é fácil você imaginar a cara dos meus pais ao saberem do meu plano. Mas para quem, como eles (e eu também, admito!), imaginava uma viagem perigosa e pesada: ledo engano. Em troca disso, encontrei dezenas de boas almas, uma infinidade de amigos e verdadeiros irmãos. Foram mais de 10 mil quilômetros de carona; trinta e poucas diferentes. Todos dispostos a estender a mão e ajudar. Meu único dia difícil foi logo o primeiro, onde passamos horas num posto de gasolina de Itajaí tentando convencer algum caminhoneiro a nos dar uma carona pro oeste do Estado. Mas esse foi um ponto fora da curva. No restante de toda a viagem, nunca esperamos por mais de vinte minutos. Houve um dia em que, com ajuda de cinco caronas diferentes, fiz 2.300 km em pouco mais de 30 horas, saindo do meio do nada na Patagônia e chegando à Província de Buenos Aires. Foram em momentos como esse que percebi o quão mal acostumado eu estava (risos). Me pergunto se existe uma relação de confiança mais rápida e momentânea do que quando você pega ou dá carona? A coragem de quem sai da zona de conforto, escreve no papelão e levanta o polegar em contraste com a bondade e o espírito de equipe do motorista. Ambos se arriscam. Ambos escolhem ver o melhor lado um do outro e embarcam para serem melhores amigos por uma simples viagem. Compartilhando histórias, gostos, quilômetros. Não é pelo dinheiro; não é pelo tempo; não é pela comodidade ou falta dela. Seja por mil quilômetros ou por 200 metros. A aventura dá lugar à empatia. Pra mim, carona é um estado de espírito!

Fica claro que você não curte muito os roteiros tradicionais. Como a trilha da viagem acontece para você?

É claro que eu faço meu dever de casa antes de sair. Tento imaginar uma rota, alguns pontos chaves e marco lugares que quero conhecer. Acontece sim uma boa pesquisa antes. Mas no geral, nunca é um roteiro fechado. Trata-se apenas um rascunho, que muda constantemente conforme vou avançando. Acredito que quando você viajar com uma cartilha ou um seguindo a risca um guia, você está seguindo um caminho já traçado. O que você está fazendo é algo que alguém já viu, já interpretou. Bem por isso, gosto de deixar que as pessoas e as oportunidades que aparecem moldem meu itinerário. É conversando com os locais, e não seguindo um blog com dicas de viagem, que você vai conseguir arrancar o máximo de determinado lugar. Nem tudo está escrito. Na minha sincera opinião, quem viaja somente pra ver pontos turísticos, tem alma de turista e não de viajante.

Tem alguma coisa da estrada que te incomoda?

Ølfrygt é uma palavra em dinamarquês. Ela significa "medo de faltar cerveja; especialmente de não ser capaz de encontrar cerveja enquanto se viaja." Isso me perturba.

A questão financeira é, para muita gente, um fator importante na hora de decidir viajar ou não. Como você enfrentou isso?

Não vou mentir: você vai precisar de dinheiro. Talvez mais, talvez menos, mas em algum momento você precisará. Tudo na verdade depende de como você planeja encarar essa viagem, por quanto tempo ou o que está disposto a fazer. Sei de pessoas que saíram de casa com pouquíssimo dinheiro e já estão há quase dois anos na estrada, trabalhando com as oportunidades que aparecem. Não é pra qualquer um, mas eles continuam avançando. De qualquer forma, dinheiro não deve ser o fator principal para essa decisão. Talvez você precise apenas adaptar as coisas. Eu mesmo não tinha muito para viajar até o Ushuaia, bem por isso optei por ir de carona e buscar hospedagem no Couchsurfing (rede que facilita a hospedagem gratuita na casa de locais). E sou muito grato por, nesse caso, não ter minha conta bancária recheada. Não teria sido a mesma coisa pegando um simples voo.

O que diria para quem tem o sonho de desbravar o mundo também?

Não existe uma fórmula mágica. Apenas faça acontecer! Saiba que esse desejo de colocar o pé na estrada nunca vai acabar ou sequer diminuir. Não estou dizendo para você largar agora o emprego sem qualquer planejamento e cair no mundo. Cada um tem uma vida diferente e prioridades distintas, mas o importante é realizar! Se você quer conhecer um lugar, saiba que você nunca esteve tão perto de fazer isso como agora. Desculpas estão lá apenas para adornar a falta de coragem. Durma no chão se for preciso, peça carona, coma qualquer coisa. Mas vá logo atrás desse chamado. Se você quer conhecer as Pirâmides do Egito ou comer cérebro de macaco vivo no meio de uma floresta no Congo, ou você faz isso enquanto tem saúde e tempo, ou no máximo e com muita sorte, vai acabar viajando depois de aposentado em uma excursão ao lado de japoneses atrapalhados e suas câmeras com lentes de 1 metro.

Quais os seus planos?

Meus planos na verdade são uma imensa lista de locais que quero conhecer e coisas que quero fazer. Subir vulcões na Islândia, conhecer a Muralha Verde no Senegal, pedalar por Burma, entender o Curdistão. Vamos ver qual realizo primeiro. Na minha última viagem tive um contato muito forte com a triste história da Guerra das Malvinas e o quanto isso ainda é uma ferida aberta para o povo argentino. Em Buenos Aires fiz amigos e compartilhei mates durante uma longa conversa com ex-veteranos de guerra que fizeram questão de me mostrar sua versão da história. Entretanto, escutar somente um lado é diretamente condenar o outro. O certo para um é o errado para o outro. E meu dever de desassossegado me manda ir até essas ilhas e tentar entender o outro lado desse conflito. Quem sabe eu consiga logo uma carona pra lá.

Mais em naomeesperaprojantar.com


Quinta, 7/7/2016 14:37.


Fale Conosco - Anuncie neste site - Normas de Uso
© Desenvolvido por Pagina 3

Endereco: Rua 2448, 360 - Balneario Camboriu - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: jornal@pagina3.com.br