Jornal Página 3
Comer bem é comer relaxado e comer o suficiente, não é comer tudo
Arquivo pessoal

Fabiolla Duarte, de São Paulo, é mãe, educadora, doula, e há seis anos inventou o “Colher de Pau”, uma maneira de trazer informação e conhecimento a quem quer saber mais sobre a introdução alimentar para bebês e o que se segue depois disso. Ela traz luz à uma série de equívocos cometidos pela sociedade nessa fase importante de construção de hábitos, mas principalmente, de autonomia e liberdade do ser que está em formação.

Ninguém erra de propósito e a intenção da família, dos médicos, e de quem está envolvido nessa fase, é quase sempre boa, porém, o que acontece, é que repete-se uma série de condicionamentos que foram impostos mas não tem sentido e não respeitam o desenvolvimento natural da criança. É natural, por exemplo, ela se movimentar em direção do alimento, conseguir segurá-lo, poder experimentar as texturas, usar as mãos e o corpo todo nesse processo. Não é natural, por exemplo, ela ser forçada a comer algo que rejeita, ou ser distraída para engolir uma quantidade que deixe os pais confortáveis, considerando que agora sim ela está bem nutrida.

O Colher de Pau é um encontro que aborda questões como a prontidão para comer, a diferença de comer com a colher ou as mãos, papinhas, engasgos, o açúcar e o sal na comida de bebês, temperos e outros assuntos. Num segundo módulo, traz as questões dos limites, da relação com o mercado, compras, preparos, da relação familiar como um todo na hora das refeições, as chantagens e barganhas, fases seletivas e como lidar com questões que vão surgindo com o tempo.

Fabiolla estará em Balneário Camboriú pela primeira vez no próximo final de semana e conversou antecipadamente com a reportagem. O roteiro dessa edição traz todas as informações da palestra e da vivência, organizados pelo movimento Amaroelo.

Entrevista

Existe uma regra, uma convenção social, que diz que bebês, a partir dos seis meses, precisam começar a “introdução alimentar”: normalmente com sucos, papinhas de frutas e depois papinhas salgadas. Como você enxerga essa prática, que já impera faz um tempo?

Enxergo que é inadequada. Porque ela tem a ver com um pensamento onde uma mudança na vida do bebê tão importante como essa, deve acontecer a partir de uma data pré-estabelecida e não a partir da prontidão do bebê para comer.
Estar pronto para comer, a partir de minha visão, é ter um corpo 100% autônomo. Não faz sentido comer se o bebê não dá conta de se sustentar. Isso não é seguro. E comer só deveria acontecer quando o bebê está pronto para mastigar e digerir. Não faz sentido estar pronto para digerir papinha, mas ainda não para mastigar. Ou estar pronto para digerir tais alimentos, mas outros não. Comer é um sistema fisiológico todo integrado. E é também parte de um sistema cultural familiar muito importante, que tem efeitos diretos na relação que o bebê terá com a comida disponibilizada.

O que indica que um bebê está pronto pra comer?

Isso fica claro numa conversa ao vivo e com vivências que vou proporcionando e que vão trazendo luz para a experiência infantil, mas é um conjunto de prontidões de três sistemas: cognitivo, motor e fisiológico. O mais destacante é o sistema motor. E é ele que deveria nos servir como guia. É só observarmos a natureza e nos fazermos perguntas. Quais são os pré-requisitos para os animais filhotes mamíferos comerem? Recebem na boca o alimento?

O que o adulto pode fazer pra facilitar essa aproximação? O que é bom para o início de contato com o alimento?

É bom não fazer nada no que concerne à alimentação. É bom deixar o bebê se movimentar bem pela casa e fortalecer sua autonomia motora. O resto acontece espontaneamente. E quando é deixado livremente surgir, é excelente para a vinculação do bebê com a comida. Esse é o segredo.

É mais importante trabalhar os pais do que se preocupar com a comida do bebê? O que precisa ser desconstruído nos adultos para que essas descobertas alimentares sejam leves e fluídas?

É preciso desconstruir a ideia de que comer bem é comer tudo. Comer bem é comer o que cada um necessita, e comer com calma, sem pressão, conectado, fazendo escolhas. É importante também que os pais olhem para a relação que têm com a comida que comem. Seja ela qual for. Muitos pais e mães foram forçados a comer na infância. Se eles não acessam isso, é comum repetirem esse mesmo padrão.

E se começou “errado”, tem como consertar? Como ir melhorando o relacionamento da criança com a comida, com as refeições, e principalmente com os adultos envolvidos?

Tem sim como consertar. Impossível eu aqui explicar como, porque não existe uma fórmula. Se alguém aparecer com uma fórmula, algo está errado nesse discurso, porque todo comportamento alimentar tem uma história. Sem olhar para essa história, não se compreende a raiz da questão e então não tem como desconstruir padrões. O trabalho às vezes é desafiante, mas vale muito a pena.

A chantagem e a barganha estão muito presentes nas refeições. Qual sua dica para aumentar a atenção em relação a esses gestos quase automáticos?

Olhar para a desconstrução que precisamos muito fazer: comer bem é comer relaxado e comer o suficiente, não é comer tudo, ou raspar o prato. Precisamos falar isso para nós mesmos, como num mantra. E também olhar para como comemos. Quantos de nós come mesmo sem sentir fome? Por que fazemos isso? Faz sentido? O que está relacionado a isso? Que emoções? Olhando para gente, fica mais fácil o resto.

Como “sobreviver” em meio à ação massiva das propagandas e rótulos de alimentos industrializados?

Desligando a tv. Isso é serio. A televisão é uma janela que lança informações massificantes muito ruins e as crianças são muito facilmente impactadas. Fora isso é investir em novas culturas. Não se tira um sistema perverso, se cria um mais forte. Por exemplo: ir à feiras livres ou até orgânicas. Ambas são eventos sociais. Agregam humanidade à experiencia. Se compra comida e se encontra gente. Evitar supermercados, escolher ir à atacadões, e portanto ir menos vezes por mês. Etc. Estratégias de remanejar a vida doméstica familiar, para criar novas práticas onde a vida fica com mais encontros humanos do que fazermos apenas compras onde não nos relacionamos. Apenas obtemos coisas. Apenas consumimos, consumimos, consumimos.

Você pode comentar com uma frase curta cada lugar-comum desses?

“Come mais um pouquinho só”.

Forçar a comer. Qual o sentido de comer mais um pouco? A meta é comer o suficiente.

“Precisa comer salada, é saudável”.

Seria bom sim, mas não é essencial. É preciso variedade, e o mundo vegetal por ser apresentado de variadas formas.

“Se você comer tudo ganha a sobremesa”.

Barganha bem ruim. É por isso que hoje nós adultos nos premiamos com doces.

“Só vai levantar quando limpar o prato”.

Então, ruim. Já falei acima. A criança tem todo direito de levantar quando quiser. Direito de ir e vir. E tem totalmente o direito de comer o quanto quiser. Só assim para ela gostar de comer, com leveza misturada com comida.


Quarta, 29/6/2016 21:37.


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