Jornal Página 3
Presidente da Sinduscon fala sobre o momento da construção civil em BC

 Por Marlise Schneider Cezar & Waldemar Cezar Neto

“ É um orgulho dizer que a construção civil de Balneário está muito além de muitos lugares.”

Nelson Edilberto Nitz, 64, catarinense de Blumenau, que mora em Balneário Camboriú há 59 anos, engenheiro, construtor, hoteleiro, acaba de assumir uma nova responsabilidade: comandar o Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon), o mais poderoso da praia e que ele ajudou a fundar. 

Uma tarefa para os próximos três anos, que ele assume com grande disposição. “Estou num bom momento da minha vida, boa saúde, família na volta, estou bem feliz”.

Nelson é viúvo, divorciado, tem quatro filhos (Silvia, Bruno, Juliethe e Tayana), dois netos (Bruna e Aaron) e o terceiro a caminho. Nas horas de lazer, curte praia, pesca e viagens. Peixe é o cardápio preferido. Outro ‘cardápio’ que curte é política. Sempre foi liberal (PFL e DEM) participou ativamente, foi vereador, presidente do Legislativo, concorreu a prefeito, a vice e na última eleição foi o principal cabo eleitoral de sua filha Juliethe, agora vereadora. 

Como começou a sua história na praia?

Começamos em 76, formamos em engenharia civil, em 77 em janeiro estávamos aqui, eu e o Carlos Humberto Silva, formamos a construtora Pecon. O Carlos foi o segundo presidente do Sinduscon, que nós fundamos juntamente com o Carlos Alberto Pereira...

Naquela época era mais fácil do que hoje, dirigir um sindicato desses?

Não, acho que tudo tem o seu tempo, hoje o Sinduscon está bastante organizado, tem uma estrutura boa. Quando iniciou era mais precário. Hoje temos vários associados, eles sabem da importância que é o Sinduscon, entendendo até todo o contexto da cidade, quantas coisas o sindicato participou e participa.

A construção civil é vista como vilã por uma parcela da sociedade. O que você pensa sobre isso?

É bem injusta essa forma de pensar, às vezes surgem esses comentários, porque quando constroem ao lado da sua casa realmente causa um transtorno (...). Mas hoje todo mundo ganha com a construção civil, a cidade toda, veja o turismo, veja o poder público, e as pessoas que aqui estão e que pra cá vieram, hoje o prédio em que eu moro tem 10 funcionários.

Sem verticalização qual é o futuro das cidades? 

É, sem verticalização a coisa é mais complicada. Agora temos aí problemas que acho que vão ser sanados a médio e curto prazo. Esse negócio de transporte urbano, as pessoas vão ter que aprender a se locomover dentro da cidade de uma forma diferente que essa do carro. Mas acho que já estão vindo alternativas...

De que forma a construção civil trabalha pra se adequar a essa questão da mobilidade urbana que hoje é uma coisa essencial em todas as cidades?

Eu acho que as pessoas se adequam né... Porque não tem a necessidade de você se locomover muito, comércio tem bastante e variado na cidade, supermercado tem em quase tudo que é canto, mesma coisa com farmácia, padarias... então a cidade nesse sentido é muito confortável. Não precisa andar de carro aqui, a gente anda de carro muitas vezes por se deslocar mais, mas o cidadão em geral, não precisa andar muito de carro não.

Ainda na questão de imagem da construção civil, uma auditoria feita e concluída no final do ano passado, tirou uma série de conclusões que culpavam a construção civil. Agora veio um funcionário graduado da secretaria de Planejamento da prefeitura, pra dizer que aquele relatório estava todo errado, que os auditores erraram. Vocês não estão devendo 30 milhões pra cidade. Vocês já estavam sabendo disso?

Foi um dos assuntos da pauta no sindicato, a gente contratou um advogado para fazer um contraponto daquela auditoria que a gente sabe que ali existem erros, lógico que existem erros de construtores, mas não é daquela forma que é colocado ali. Foi muito radical...

Mas ali foi erro de auditoria mesmo. Tem uma contra-auditoria produzida pela própria prefeitura, que reduz aquilo ali a muito pouco, sabe. Muito pouco. Mas o que ficou, o mal tá feito né,  porque a mídia, inclusive o Jornal Página 3, todos noticiaram que era um absurdo e tal. E... não sei como é que o pessoal da prefeitura...

Talvez essas coisas é que dão uma imagem ruím para a construção civil. Porque a maioria dos empresários é bem intencionado, não é assim. O cara não quer prejudicar o vizinho quando ele constrói, ele não quer que caia material em cima do carro que passa em frente da construção, ele não quer que o funcionário dele se acidente, ele dá atenção tanto ao funcionário quanto à família. Ele tem um seguro, salários dificilmente atrasam... A gente tem um bom relacionamento com o sindicato do trabalhador, um relacionamento de parceria. Você vê a história do nosso Sinduscon, comentei que a gente fez vários empreendimentos, com nossos presidentes que nos antecederam, de cursos, de escola, de aula para funcionários, além de aperfeiçoamento da mão de obra. Tu vê que esses prédios novos surgindo aí, altos, grandes, são tudo mão de obra nossa. Os próprios engenheiros dos projetos estão sediados aqui. Então essas coisas todas que acho que é um orgulho dizer que a construção civil de Balneário Camboriú está muito além de muitos lugares.

Ainda tem construtores pequenos fazendo picaretagens no mercado, vendendo três vezes o mesmo apartamento. Gente que não faz parte da tradição da construção da cidade... e isso era uma prática antiga, que havia sido erradicada. A dra. Cláudia Nolli, promotora, botou ordem no mercado. E agora voltou a acontecer, o MP deve estar agindo, mas vocês do sindicato tem consciência disso? É meia dúzia de empresa, não é mais do que isso.

É outro assunto na pauta da nossa reunião. Estamos pleiteando junto à prefeitura, que seja agilizada essa aprovação de projetos. O que ocorre muitas vezes é que aprova-se o estudo inicial e o pessoal começa a construir. Não devia acontecer isso(...). O comprador também tem que ser disciplinado.

O comprador está mais exigente já, mas ainda continua caindo no golpe do vigário... apartamento por 300 mil.

É, mas aí eu acho que o cara não pode ser tão ingênuo. Comprou um apartamento que vale 1 milhão por 300 mil, sabe que tá sendo logrado. 

Mas isso causa um desgaste ao mercado. 

Quase sempre as construtoras organizadas tem uma pasta onde ele tem as negativas federais, estaduais e municipais. Ele tem o projeto aprovado, ele tem o registro da incorporação, isso tudo é um direito do comprador exigir. Agora comprar um apartamento e não  se precaver com relação a essa documentação toda, é porque ele quer ser logrado. Perdão, a palavra é essa, ele quer ser logrado. Ele tá procurando.

O mercado está em recessão há três anos mas...

...o Brasil está em recessão...

Sim, mas o mercado também.  Os preços baixam mas não muito. Talvez vocês estejam gastando gordura daquela época, não é?

Veja bem, houve época em que a margem era bastante boa. Vamos dizer assim, era uma margem grande. Então, com o tempo essa margem foi diminuindo, porque hoje há necessidade de um controle mais rígido, fez com que você pudesse também trabalhar com uma margem menor.

Vocês sempre falam... que o pote de ouro no final do arco íris da construção civil é o alargamento da faixa de areia, é isso? 

Olha, eu sempre falei nisso desde 88, quando fui candidato a prefeito. Se lembra disso? Porque essa faixa de areia da praia diminuiu e como a cidade aumentou, existem mais pessoas. Hoje pra andar de bicicleta na ciclovia é complicado. Gente correndo entre o skate ali a pé, com a bicicleta. Eu acho que tem que aumentar, eu acho que a calçada na praia, aumentar essas faixas...  O bondindinho por exemplo, porque ele não corre dentro de um trilho na praia, na Atlântica e com vários pontos? 

Porque não tem espaço.

Porque esse negócio de passar pela Brasil congestiona todo o trânsito. Logicamente que ele presta um grande serviço, a gente sabe disso. É um coletivo. Os turistas adoram. Mas essa reurbanização terá que ser feita. É como o molhe da Barra Sul...da 3800 em diante não existia mais praia. Teve que fazer e hoje é uma das regiões mais bonitas da cidade.

É meio difícil encontrar alguém que é construtor e hoteleiro ao mesmo tempo. A hotelaria passou por algumas dificuldades, muitos até venderam, você pensou em vender seu hotel?

É, ela teve um momento ruim, mas hoje está melhor e acredito que agora com a vinda do Centro de Convenções vai ficar melhor ainda. Aí vai ter falta de hotéis.

Quer dizer, quem segurou o seu hotel acabou lucrando...

É, e até o próprio Plano Diretor em vigência, quase impossibilita de construir apartamentos de hotéis. Porque você concorre com edifícios de apartamentos (...).

Parece meio contraditório, enquanto a construção civil evolui para prédios de luxo, a hotelaria estacionou. Não tem hotel 5 estrelas aqui...

Não, que eu saiba não. A nossa legislação também dificultou. Porque não se faz, vamos dizer assim, vamos dar um exemplo, o Hotel Fischer.  Foi tributado lá para fazer uma incorporação, porque não se privilegia o hotel também ali? De repente ele vai fazer 50 andares de apartamentos...faz uns 20 de hotel sei lá...pode ter um elevador só para o hotel, uma entrada só para o hotel e a outra entrada para o edifício... aquele terreno é enorme.  Isso podia se fazer em mais lugares. Com certeza daria um implemento nesse setor de hotéis e vai precisar. Logo, logo com o Centro de Convenções, os nossos hotéis eles são mais pra turismo. Pro pessoal mais exigente, executivos etc...vai ter dificuldade.

Enquanto o Centro de Eventos não provar que precisa de camas, de quartos, não vão construir. Porque você não vai investir pra ficar fechado seis meses por ano.

Isso é, o mundo gira assim né? A demanda faz com que haja investimento. Não vai haver investimento se não houver a demanda.

O Sr. é favorável à construção de prédios com mais de 60, 70 andares?

Qual é a diferença? Desde que haja a taxa de ocupação, desde que haja recuos, garagens... porque, “ah mas o esgoto, a água...”. Isso tudo hoje no Panamá, se trata o esgoto dentro do prédio. Mas os prédios hoje são muito altos mesmo, a tendência é essa por falta de espaço urbano. 

Qual o espaço que Balneário tem para construção civil ainda? 50km², e desses 40% é morro. Não pode construir.

Olha, tem vários terrenos disponíveis. E vários prédios, como no meu caso, onde o meu pai fez um prédio nas décadas de 70 e 60. Hoje aquele prédio antigo vai ser removido e construído um novo. Porque ele tem vida útil também. O sistema hidráulico, o sistema elétrico... chega uma hora que é melhor desmanchar  e fazer de novo. 

Tem prédio na Barra Sul, vamos dizer com 100 apartamentos, que tem 40 anos. As pessoas não querem vender, mas os filhos querem. Assim que eles morrerem, vai se transformar num prédio de 1000 apartamentos.

Os filhos não querem mais porque eles já tem um outro conceito. Eles não querem apartamento que tem aquele chuveirozinho de Corona, de praia, aquele armário velho que veio da casa do pai. Hoje todo mundo quer o moderno, o novo. Quer o sistema de água quente aquecida com o gás, aquecido a elétrico. Então o público é mais exigente, principalmente o público mais jovem.

Loja de material de construção, de decoração e arquitetura, Balneário tem bastante. Esse mercado é suficiente para a construção civil aqui? 

Esse mercado é de boa qualidade. As lojas de arquitetura ou de decoração, hoje o que tem de bonito e novo no mundo está aqui. O pessoal vai pra China, Panamá, pra vários lugares pra ver os lançamentos...os prédios novos estão cada vez mais bonitos, com hall de entrada lindíssimos, salões de festa que são verdadeiros clubes.

É mito ou verdade que a construção civil de Balneário é uma das mais caras do país?

Eu acredito que sim. É o comprador que exige essa qualidade toda. Hoje não se admite mais que se faça um salão de festas que não esteja mobiliado, isso alguém vai pagar. Tem uma parafernália de dispositivos que o mercado oferece, como tubulação para ar condicionado central, até piso aquecido, janelas duplas...

O Sr. ajudou a construir o sindicato da construção, construiu prédios, construiu hotel, é mais fácil isso tudo ou é mais facil construir um partido político? 

É diferente. No Sinduscon a vantagem é que você reúne a comunidade da construção civil, independente se o cara é de uma religião ou de outra, se é de um partido politico ou de outro, ali há negócios e interesses mais ou menos comuns. Porque eu posso ser concorrente na hora de vender, mas na produção a gente tem que ser parceiros. Agora estamos discutindo sobre a aprovação de um projeto junto à prefeitura, para fazer uma sistemática mais lógica, mais eficiente. E isso é uma coisa que vai envolver todos nós, não é a construtora A, B ou C (...). Se tem um Plano Diretor e alguém é responsável por aquela construção,  o engenheiro é responsável, ele pode ser penalizado civilmente, criminalmente. Pode perder até o CREA dele. Então hoje construir irregular é risco demais.

Vocês tem alguma posição em relação ao Plano Diretor? A posição do secretário Edson Kratz é de respeitar o que foi decidido nos bairros, em relação à ocupação...

...foram feitas as oficinas, audiências públicas...isso não dá para mudar!

Qual é a divergência então, entre vocês e o municipio? 

Nós temos coisas pontuais ali. Vou dar um exemplo:  a lei diz que “um prédio é considerado iniciado a partir da hora...”. sempre houve o entendimento que a partir da fundação... feita a fundação o prédio já tinha dado o início. Agora querem que seja lá no primeiro tipo. Imagina, você  fazendo o térreo, depois garagem, garagem, garagem e depois para. Porque normalmente as construtoras tem dois ou três prédios. Um em acabamento, um iniciando e um no meio. Então ninguém faz...é mais dificil fazer 10 juntos, entendeu? A não ser uma ou outra que são maiores...

O sr. concorreu a prefeito, a vice, não chegou lá. Guarda ressentimento por isso?

Pelo contrário, foram experiências produtivas, mas já passou o momento. Minha filha é vereadora, ela tem as pretensões políticas dela...Eu tenho mais que apoiá-la.  Não só a minha filha, como o próprio Carlos Humberto (vice-prefeito), que é filho do meu sócio Carlos.. a bola da vez está com eles.


 


Sexta, 28/7/2017 12:48.


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