Jornal Página 3
Entrevista com Frei Ladí Antoniazzi, pároco da Igreja Matriz Santa Inês
Fotos Waldemar Cezar Neto

Por Marlise Schneider Cezar e Waldemar Cezar Neto

Frei LADÍ ANTONIAZZI, 72, gaúcho de Severiano de Almeida, completou em fevereiro uma década em Balneário Camboriú. Depois de trabalhar 24 anos em Bauru e no Espírito Santo, ficou surpreso quando colocaram Balneário na sua rota. Filho de descendentes italianos, nasceu em uma família grande, nove irmãos. Quando descobriu sua vocação ainda era criança. Deixou o tempo passar, mas na adolescência a vontade de dedicar-se à igreja voltou com mais força e determinação. Estudou em Petrópolis (Rio). Ingressou na Ordem Franciscana em 1971, foi ordenado sacerdote em 1976. Na entrevista, Frei Ladí conta que identificou-se com a cidade que o acolheu muito bem. E lembra com tristeza o assalto que sofreu há quase dois anos onde mora (junto à igreja). Os ladrões queriam um cofre, mas não tinha, então agrediram o frei, que ficou bastante machucado e só recuperou a voz, porque tem ajuda de uma fonoaudióloga até hoje. No último dia 11, Frei Ladí recebeu a reportagem para uma longa conversa.

Confira os principais trechos:

Chegando aqui, vimos que a igreja está toda pichada. Antigamente as igrejas eram respeitadas, hoje não respeitam mais...

É tão verdade que não respeitam mais porque há oito dias levaram dois microfones que a gente usa para a celebração, aquele microfone sem fio e quinta-feira levaram embora nosso teclado.

Roubar igreja é um negócio meio...

É uma situação muito delicada, complicada. É uma agressão não apenas ao indivíduo, mas a toda uma instituição. Na verdade todo o povo de Balneário foi agredido por isso.

Teve uma época que as igrejas católicas eram agredidas por fiéis de outras igrejas que não cultuam imagens e coisa tal. Mas felizmente isso não prosperou, mas nesse caso aí é ladrão mesmo né?

Sim, é caso de ladrão que vem atrás de dinheiro ou coisas que possa vender, porque um teclado que custa uns R$ 6, 7 mil, vai vender por quanto?

Vai vender por crack, por droga...

Aí é que está, então você priva uma comunidade, que no fim de semana é em torno de sete ou oito mil pessoas, em troca de quê?

A administração do Camelódromo procurou a igreja para um projeto comum, cobrindo a área, uma espécie de um bulevar, integrando tudo. Na ocasião o síndico Nelson Oliveira disse que por essa igreja passam mais de 10 mil pessoas por semana. Isso é 10% da cidade...

Tanto assim que entramos com um pedido para a instalação de quatro câmeras inclusive, uma em cada canto que seriam inicialmente patrocinadas pelos moradores daqui. Depois houve a conversa de que o Itaú iria oferecer essas câmeras e à prefeitura caberia instalar, mas na verdade não aconteceu. Nós estamos preocupados. Eu tenho certeza que somando a igreja e o camelô passam mais de 15 mil pessoas aqui no fim de semana.

O Sr. acha que esse projeto de integrar, cobrir, seria viável? Também integraria a rua.

Muito viável. Houve uma reunião que eu estava presente no Lions Clube e lá surgiu essa conversa. Eu acho complicado fechar a rua da frente da igreja pelo seguinte, é a rua dos ônibus. Imagina o ônibus fazendo o U, no que vai virar essa igreja (...). Se tirar tudo bem, mas se continuar a passar ônibus aqui eu não vou ter mais sossego, porque não tem a mínima condição.

A sua igreja está crescendo ou diminuindo em Balneário?

Crescendo e muito. Cada dia se consolida mais uma comunidade permanente (...) Tanto assim que nos outros anos com a temporada a igreja superlotava. Nesse ano superlotou, mas não tanto quanto, mas aumentou muito durante a semana a participação. Então, os turistas estão vindo durante a semana, coisa que eles não faziam antes.

Quando o Sr. fala num público de sete mil pessoas, isso é de moradores mesmo, no final de semana?

Isso é o comum durante o ano, porque eu tenho sete missas...mil pessoas por missa...a igreja comporta 1147 pessoas sentadas e sempre tem gente em pé.

Hoje em dia os jovens frequentam menos as igrejas, porque tem muitas outras coisas pra fazer. O Sr. percebe isso?

Eu vejo que temos muitos jovens. Nós temos muitas crianças também, nas missas de domingo são mais de 500 crianças. O que me espanta é que o jovem está vindo em todas as missas, o que não se via antes.

As famílias católicas têm mais influência sobre seus jovens?

Tem, tem influência e também eu vejo um ponto positivo muito interessante que é a nossa catequese. Nós temos uma média de 900 e poucos cada ano (…) Estamos dando o enfoque e eles aceitam isso muito bem, não em vista do sacramento, mas em vista da vida cristã. Trabalhamos em cima da formação humana e cristã. Formar bons cidadãos e bons cristãos.

Temos atrás havia uma ótima relação entre as diferentes religiões em Balneário, participavam de esforços em comum para a sociedade, isso continua?

Não...nós tentamos até. Eu tenho ido até em algumas igrejas e vejo que isso diminuiu muito. Não sei por detalhes, não sei se o próprio tempo ou a ocupação ou não sei o que...

Uma época existia uma comissão que atuava na rede municipal por exemplo, que era o ensino religioso nas escolas que hoje não tem mais.

Não tem mais, então isso diminuiu muito, porque esse era um dos motivos para estarmos juntos. Também havia aquela chamada da caminhada da paz que a prefeitura promovia em setembro e que era tudo junto...era ecumênica. Mas a última que nós estivemos juntos, acho que foi há uns dois ou três anos, não se conseguiu conciliar e a prefeitura não conseguiu realizar o projeto (...). A prefeitura não conseguiu despertar o interesse, porque as pessoas estavam desacreditando no poder público. “Ah vocês dizem que fazem mas depois não fazem”, “vocês dizem que organizam isso e depois não organizam”, “vocês não fazem propaganda” ,“não fazem nada”... ninguém sabe das coisas, na verdade as coisas da prefeitura não aparecem na mídia. Não apareciam, agora não sei né... daqui pra frente é outra historia.

O Sr. está dizendo que a prefeitura no governo anterior foi um pouco ausente no relacionamento com a sociedade?

Na minha opinião sim. A gente nunca sabia o que eles estavam fazendo. Eles não apareciam na mídia, nem se estavam arrumando um bueiro, ou não sei o que, nem shows, nem nada. Você não sabia. Então quer dizer, é um poder público que não dialoga com a sociedade...

Acha que Balneário é uma cidade essencialmente católica ainda?

Essencialmente eu não diria, mas o catolicismo tem uma influência muito grande aqui (...). Considero que a religião católica aqui, tem um grande respeito e uma grande consideração e eu diria “ela tem um pré domínio (...). Mas não estou preocupado com isso, estou mais preocupado com a vivência cristã. O cristão hoje é mais consciente do que era, não importa qual é a igreja.

Se for dar uma volta na cidade, vai se surpreender com a quantidade de igrejas...Aí o pessoal fala “ah, os evangélicos estão dominando a cidade”, como o país também. O Sr. pensa isso também?

Eu penso assim, uma coisa é da 101 pra cá, outra coisa é da 101 pra lá. Da Terceira Avenida pra cá, você pode contar as igrejas...

...não tem igreja. Ou seja, quanto mais carente a região mais igreja tem, é isso? Em Camboriú, por exemplo, tem mais igreja que aqui, quase uma por quadra. E são igrejas minúsculas, para 100 pessoas. Claro, cada um faz a igreja do tamanho que quiser né?

Mas é que nem aqui. Eu estou procurando lá pela Rua 3000 e tanto, um terreno que se possa construir uma igreja, mas não há disponibilidade e mesmo se houver, um lote não custa menos do que um milhão e meio, um milhão e seiscentos.

O Sr. quer construir mais uma igreja católica?

Sim, pretendo. Estamos construindo na Santa Catarina, perto da rodoviária, uma igreja grande, bonita, mas preferíamos uma do lado de cá...mas primeiro temos que conseguir um terreno, segundo que não temos dinheiro pra comprar isso tudo.

Quantas igrejas católicas temos? A da Barra que é a pioneira...

Nós temos sete igrejas lá para o lado da Vila Real até a divisa com Itapema. A Santa Clara (Municípios), a Nossa Sra. Aparecida (Vila Real), a da Barra, tem no São Judas, tem no Nova Esperança, Estaleirinho e a São Miguel Arcanjo, na divisa com Itapema. Aqui tem a Santa Inês, a São Sebastião (Pioneiros), São Roque, São Francisco e Nossa Sra. Fátima (Nações), Santa Catarina (Ariribá).

Tem padre pra tudo isso?

Somos cinco padres.

E está querendo abrir mais uma, o Sr. é um empreendedor? (risos)

Sim, mas desculpe, eu esqueci uma. Tem a Rua 2300, a capela da Paz. Tenho missa lá toda a segunda-feira.

A igreja luterana começou ali.

Sim, só que era patrimônio do município e a Ciaplan assumiu isso e abriu gratuitamente pra nós (...). Até falei lá com o pessoal dos luteranos e disse ‘estou indo celebrar lá, mas não tem nada de falta de respeito’. Mesmo porque tenho vários luteranos que vêm aqui, e alguns deles foram lá e ficaram muito contentes. Estamos muito contentes porque está sendo usado para fim religioso.

O Sr. acha que o Papa Francisco trouxe um novo ânimo para a igreja? Parece que ele tem um carisma grande com as pessoas.

Na parte do povo, houve uma outra vibração. Por parte da hierarquia, alguns não se desinstalaram ainda. Não tiveram a coragem para aderir ao pensamento e a vibração do Papa Francisco, né. Mas na igreja deu um outro ar. Tanto assim que as pessoas fazem questão hoje de ler os escritos dele, antigamente o pessoal não lia esses documentos.

E ele mexe com uns assuntos bem polêmicos...

É, ele tem um modo pastoral e uma linguagem muito simples e é fácil de entender. E que tem a ver com o dia a dia da gente. Então isso é muito bom, porque você tem um acesso real. É que nem político, ficam falando lá em cima, de dados e não sei o que, o povo não entende nada disso. Agora se começa a falar do boeiro, da enchente aí todo mundo entende. O Papa também fez isso, desceu a escadaria e começou a falar a linguagem que interessa pra gente. A linguagem que mostra a importância de quem está na igreja e não apenas aquilo que a igreja pensa ou daquilo que a igreja elabora como pensamento e assim por diante. Eu vejo que é importante.

O Sr. nunca se apaixonou na vida?

Apaixonar a gente apaixona e vou dizer uma coisa, você tocou num assunto que é o mais complicado de todos.

Para os padres?

Sim, para os padres. Esse tal de relacionamento afetivo com as pessoas. Eu sempre tenho tentado manter o equilíbrio, mas você é perseguido constantemente (...).As pessoas hoje são mais abusadas do que vocês pensam.

Mas elas ficam tentando o... religioso?

Ficam tentando e ficam insinuando e ficam dizendo. Hoje é difícil. Hoje é difícil. E depois o problema é que você tenta preservar o seu estado de vida, e aí você ainda vai escutar ofensas.

Sério?

Sério...Eu não dou muita importância pra isso porque sei muito bem o que quero. Depois eu vou dizer assim. Eu sempre falo “ninguém me dá mais do que eu tenho”. Por exemplo quando vieram aqui dizer assim “nós queremos que você seja cidadão de Balneário”, eu falei assim pra eles....esse título não quer dizer nada pra mim. Você vai me entregar uma placa e daqui a um ano eu não sei o que fazer com essa placa. Isso foi em Vila Velha e foi em Bauru, nunca aceitei (...). Ninguém me dá mais do que tenho e nenhum título humano vai me dar mais do que aquilo que tenho hoje...

O Sr. é a favor do celibato?

Sou. Eu digo assim, deveria ser um sistema como a igreja luterana tem. Eu acho que esse sistema é muito bom, a pessoa casa, exerce o seu pastoreio, seu ministério... O pastor ou o padre não é pertencente à igreja, digo assim no sentido de propriedade. Ele é um funcionário da igreja...

O Sr. acha que isso é uma tendência que pode mudar?

Vai, vai. Isso é uma questão de tempo. Essa questão no mundo hoje tem uma aceitação muito maior.

Rápido na igreja é um século, na igreja católica (risos). Quando foi rápido demorou 100 anos...

Eu tenho uma expressão que é a seguinte: “A igreja é um elefante. Caminha devagar”.

O Sr. não sente solidão?

Não. As pessoas já me perguntaram muitas vezes, “mas frei, o senhor celebra, depois vai pra casa. O senhor não sente solidão?”. Eu digo assim: “Até hoje não senti solidão, até porque eu chego em casa, eu vou tomar o meu banhozinho, vou me preparar e já vou descansar porque no dia seguinte às 5h30 tenho que estar de pé para começar a dar as atividades.

O Sr. trabalha muito e trabalha de pé.

Trabalho de pé, por isso a cada hora que fico de pé ganho três dias (risos)...de vida. Então é bom ficar bastante em pé.

O que gosta de fazer quando não está trabalhando?

Gosto de caminhar. De circular pela praia...

Os luteranos comemoram no dia 31 de outubro, 500 anos da Reforma. E de uma certa forma os católicos têm a ver com essa história, porque o Lutero era um padre né? Como o senhor vê essa... os 500 anos da reforma Luterana?

Acho que teve um contributo muito grande e foi bom. Inclusive eu diria assim, vamos usar a palavra “purificação da igreja”.

A ideia foi essa né?

Foi muito bom. Pena que o Lutero não queria o que aconteceu, ele foi pressionado por questões politicas do estado germânico com o Vaticano. Então por causa disso houve a separação. Então eles aproveitaram a crise de Lutero para separar o restante do império de Roma. Por causa das taxas, de tudo isso, dos chamados estados vaticano...

Sim, mas a igreja católica sempre estava no meio dessas como uma arma política a favor ou contra...

Sim e eles aproveitaram isso e Lutero foi… mas pra mim vejo assim, independente disso, acho que houve uma reflexão muito boa, nos temos teólogos excelentes hoje… hoje não antigamente dos luteranos né. Nós temos vários, inclusive na nossa teologia nos utilizamos a literatura desses, que são muito interessantes.

O Papa inclusive falou dessa Reforma que ele vai participar…

Vai participar. E tem gente criticando por causa disso, mas eu acho que ele tem que ir. A igreja luterana, igreja metodista, a igreja anglicana são a mesma coisa. A anglicana só não tem o primado do papa, o resto é igual.

O primado é do rei né? Anglicano...

É da rainha.

Como define Balneário hoje?

É acolhedora, uma cidade que é gostoso de morar, que as pessoas acolhem e sobretudo pra mim como igreja, percebo que há uma abertura e uma sede muito grande pela busca do saber, do entender e do viver. Há uma sede muito grande pela busca de uma transformação na vida. Todos querem uma vida diferente. Ninguém aceita uma vida de agressão, de bandidagem e tudo isso. As pessoas não querem. Então Balneário é uma cidade que quer viver com tranquilidade e se incomoda quando alguma coisa atrapalha. Mas se incomoda mais do que em outros lugares. É muito bom trabalhar aqui. Há uma resposta muito grande, tem um feedback das pessoas muito grande e você vê a satisfação das pessoas em poderem participar de atividades promovidas pela igreja. Vejo assim, uma benção muito grande em poder trabalhar aqui.

O que acontece com um padre quando fica velho? Quando ele tem que se aposentar, o que acontece com ele? Ele vai para um retiro?

Não, sou aposentado pelo INSS, entendeu? Nós somos autônomos. Já cumpri o tempo. Porque eu fui pagando e entrei naquele esquema anterior, que agora seria diferente. Nós temos na província lugares onde o frade que fica doente ou fica velhinho, pode ficar. É uma casa de fraternidade dos doentes, dos velhinhos (...)


Quinta, 23/3/2017 8:12.


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