Amanheceu chovendo no sábado, 22 de novembro. Era o 16º final de semana seguido com chuva, naquela Primavera de 2008 tão ruim para os negócios turísticos e o humor das pessoas.
Quem estava na beira do rio Camboriú percebeu a correnteza descendo rápido, com muita sujeira, sinal inconfundível que nas nascentes estava caindo um aguaceiro.
Nas 72 horas seguintes choveu 540 mm em Balneário Camboriú, quatro vezes o esperado para o mês – e em Camboriú o dilúvio foi impossível de quantificar, porque a cidade não possuía estações de monitoramento.
Ao amanhecer de domingo as cidades de Camboriú, Balneário Camboriú e Itajaí estavam isoladas, com milhares de pessoas flageladas pelas inundações. Outras cidades próximas padeciam de calamidade pública. As rádios falavam de mortos em Ilhota, por causa de um morro que deslizou, mas ainda não era seguro chegar ao local.
Essa enxurrada, após dois meses de chuvas que encharcaram o solo, foi o pior evento climático do século na região, atingindo 60 cidades, 1,5 milhão de pessoas, deixando 78 mil desabrigados e causando 135 mortes, principalmente por deslizamentos de terra.

Foi sob o impacto dessa catástrofe que o engenheiro de carreira da Empresa Municipal de Água e Saneamento de Balneário Camboriú (Emasa), Felippo Ferreira Brognoli, produziu, entre os anos de 2008 e 2010, a monografia “Proposta de Implantação de um Parque Inundável Multiuso na Bacia do Rio Camboriú”, apresentada no Programa de Pós-Graduação em Gerenciamento de Águas e Efluentes, da Faculdade de Tecnologia Senai, Blumenau, sob orientação do Mestre em Engenharia Ambiental, professor Nicolau Cardoso Neto.
“A Emasa procurava soluções para o abastecimento de água quando aconteceu a enchente, que mostrou outra necessidade, aí veio a ideia de utilizar as áreas de várzea da rizicultura como solução para os dois problemas, um multiuso”, detalhou Felippo em entrevista concedida ao Jornal Página 3 há poucos dias.
O engenheiro aguardou 15 anos para ver sua proposta sair das gavetas, o que ocorreu no dia 19 de setembro de 2025, quando o governo federal liberou R$ 73 milhões para o Parque Inundável do Rio Camboriú, um grande lago que reduzirá o efeito das chuvas fortes e aumentará a reservação de água para as cidades de Camboriú e Balneário Camboriú.
As expectativas de Felippo em ver o projeto se tornar realidade variaram conforme o tempo passava, mas havia algum otimismo pelo fato do ex-prefeito de Camboriú, Élcio Rogério Kuhnen, figura importante nesse processo, ter resistido ao assédio do mercado imobiliário – e renovado os decretos que mantinham as arrozeiras como áreas de interesse público para fins de desapropriação, visando a implantação do Parque Inundável.
Quando a monografia foi escrita já havia pressa, porque áreas rurais de Camboriú estavam se transformando em loteamentos, piorando a situação que poderia, em extremo, se assemelhar à de Itajaí, onde a ocupação urbana insensata só deixou a alternativa de, como exemplificou Felippo, “aprender a conviver com as enchentes e minimizar impactos”.
“O planejamento urbano sempre deveria reservar áreas naturalmente inundáveis, para essa finalidade”, destacou o engenheiro, citando o exemplo do Parque Barigui, em Curitiba, idealizado na década de 1970; e o Parque da Pampulha, em Belo Horizonte, construído no início dos anos 2000, ambos com o mesmo propósito: reter água para amenizar inundações.
A ideia geral é que as áreas de arroz ainda disponíveis em Camboriú possuem a função natural de acumular água, e devem ser usadas para proteger outros locais, também naturalmente inundáveis, que foram equivocadamente urbanizados como os bairros Santa Regina, Iate Clube e Municípios.
O Parque Inundável resolverá também o problema crucial da escassez de água bruta, que causa desabastecimento na alta temporada de verão e submete as duas cidades a uma grave insegurança hídrica.
O projeto pretende ainda recuperar e conservar matas ciliares dos principais afluentes da Bacia Hidrográfica do Rio Camboriú e oferecer áreas para recreação, esportes, lazer e turismo.
A monografia listou detalhadamente os impactos do Parque Inundável, concluindo que no total 3 são negativos e 16 positivos. “O empreendimento tem 85% de benefícios contra 15% de malefícios para a área de estudo… é altamente viável do ponto de vista socioambiental”, destacou o autor.
O principal impacto econômico é a perda de 289 ha de lavouras de arroz, de um total de 1.200 ha, porém o efeito deletério das arrozeiras é descrito na monografia:
“Praticamente toda área plana da bacia foi ocupada, inclusive as áreas de preservação permanente destinadas à mata ciliar. Ainda há um grande agravante que é causado pelos diques junto às margens, que foram construídos pelos rizicultores para protegerem suas lavouras de cheias e extravasamentos. A consequência da ausência de mata ciliar e o confinamento da calha do rio pelos diques, é a aceleração do escoamento que proporciona o aumento da erosão e sedimentação. Este processo torna mais frequentes as inundações e diminui a disponibilidade hídrica na estiagem.”
DINHEIRO E OPÇÕES
Os R$ 73 milhões recebidos do governo federal a fundo perdido, através do Novo Programa de Aceleração do Crescimento, permitem construir o dique, mas para concluir a obra, desapropriando áreas para formar o lago, será necessário mais dinheiro.
As administrações municipais de Camboriú e Balneário Camboriú estão avaliando opções, dentre elas a urbanização diferenciada do entorno do lago, com cobrança sobre o direito de construir, transferências de potenciais construtivos e outros mecanismos típicos de planos diretores, que podem gerar os recursos necessários – até com certa facilidade.
O engenheiro Auri Pavoni, hoje diretor-geral da Emasa, que a partir de 2008 implantou com sucesso o conceito de adicionais construtivos pagos, no Plano Diretor em Balneário Camboriú, acredita que o Parque Inundável poderá obter recursos para chegar a 500 ha, pois será um grande atrativo para o investimento imobiliário qualificado.
CINCO PERGUNTAS RESPONDIDAS
Quando a monografia foi elaborada, em 2010, seu autor escreveu que o trabalho se propunha a responder cinco perguntas essenciais. A reportagem do Página 3 pediu ao engenheiro Felippo que respondesse novamente essas perguntas, porém agora sob a ótica de 15 anos de espera, confira:
1 – A área de interesse para implantação do parque pode comportar o volume de água necessário para conter cheias que ocasionam as inundações à jusante?
Resposta: Sim. Conforme o projeto, os volumes de detenção irão reduzir em 71% a vazão de cheia com tempo de recorrência de 100 anos (chance de ocorrer uma vez a cada 100 anos).
2 – A área de interesse para implantação do parque pode comportar o volume de água necessário para aumentar a disponibilidade hídrica do manancial, para demandas semelhantes aos de outros projetos para a bacia?
Resposta: Sim. O parque irá aumentar a Q98 (vazão de permanência em 98% do tempo) do rio de 800 l/s para 1.250 l/s.
3 – É viável tecnicamente conciliar a área de estudo em um parque que atue hora como reservatório de detenção e hora como reservatório de retenção, e ainda possa-se atribuir-lhe usos recreacionais?
Resposta: Sim. O projeto demonstrou que até determinada cota de lâmina d’água o Parque atuaria como reservatório de água para abastecimento. Acima desta cota, atuaria como reservatório de detenção de cheias.
4 – É viável economicamente a implantação do parque para as finalidades propostas?
Resposta: Sim, os custos de reparação dos desastres causados pelas grandes cheias são inestimáveis. Uma metodologia simples seria comparar os valores de imóveis em áreas atingidas e não atingidas por inundação. Soma-se a quantidade de imóveis beneficiados e todo valor que será agregado. Com relação ao abastecimento público, a análise pode ser feita em comparação ao investimento de outras alternativas. Somente as quatro barragens que foram projetadas anteriormente ao Parque, já possuíam custo superior. Somando os benefícios múltiplos, pois se trata de uma solução multiuso, a viabilidade econômica é ainda maior.
5 – Qual é a forma mais viável institucionalmente para a criação do parque?
Resposta: Acredito que através de um consórcio público entre os dois municípios, ou criação de uma autarquia pública intermunicipal.
LINHA DO TEMPO
- 2006 – Seca intensa resultou em desabastecimento por falta de água bruta. Um estudo de manancial verificou que a demanda já era maior que a disponibilidade hídrica prevista na legislação. Para solucionar em curto prazo foram projetadas quatro barragens na bacia do rio Camboriú e a solução de médio prazo seria a transposição do rio Itajaí Mirim. Essas alternativas não evoluíram.
- 2007 – Chegou a ser contratado o projeto da barragem da Encantada em Camboriú, e o projeto da adutora da transposição do Itajaí Mirim. No entanto, análises de técnicos da Emasa indicaram que a barragem não era um bom projeto, pois adicionaria pouca vazão e haveria problemas de qualidade da água que ficaria muito tempo parada no reservatório.
- 2008 – Acontece a grande enchente.
- 2010 – Monografia de pós-graduação resultou na proposta de um Parque Inundável Multiuso, apresentado e validado pelo Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Camboriú, órgão que nos anos seguintes pressionaria constantemente pela construção do Parque e dando, com essa insistência, grande contribuição à sociedade.
- 2012 – A validação dos estudos hidráulicos do Parque Inundável é realizada pelo consultor Carlos Eduardo Morelli Tucci, mestre em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e doutor em Recursos Hídricos pela Colorado State University.
- 2017 – É contratada a empresa Engeplus para elaboração do projeto básico, projeto executivo e estudos ambientais do Parque Inundável.
- 2018 – O Parque Inundável Multiuso é incluído como ação de curto prazo do Plano de Recursos Hídricos da Bacia Hidrográfica do Rio Camboriú e Bacias Contíguas.
- 2023 – O Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina emite a Licença Ambiental Prévia para o Parque Inundável.
- 2025 – O Governo Federal anuncia a liberação, a fundo perdido (não precisa pagar) de R$ 73 milhões, no âmbito do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), para o Parque Inundável do Rio Camboriú.
PARA LEMBRAR O QUANTO É URGENTE
No dia 29 de novembro de 2008 o Jornal Página 3 publicou uma edição especial, com 48 páginas impressas, tentando mostrar em textos e fotos a imensidão daquela enchente.
Passados 17 anos, grande parte da população talvez nem saiba ou tenha esquecido o que aconteceu, mas essas fotos podem ajudar a mostrar o quanto é necessário e urgente construir o Parque Inundável.








FRASES

“A ideia do parque inundável surgiu de um servidor engenheiro da Emasa, para um trabalho de conclusão de pós-graduação, no qual vinculou um problema real ao aprendizado acadêmico. Digo que o engenheiro Felippo é um entre um milhão, extremamente pró-ativo e responsável, identifica o problema e se dedica a resolver”. (Tania Pedrelli, funcionária pública municipal, cursou com Felippo o Programa de Pós-Graduação em Gerenciamento de Águas e Efluentes, da Faculdade de Tecnologia Senai, Blumenau.
“Merece elogios, é um bom exemplo a ser seguido, trabalha aqui, entendeu o problema, pesquisou a solução, é um prêmio para ele e um prêmio para a cidade”. (Auri Pavoni, diretor-geral da Emasa).
“É gratificante quando um servidor público se dedica realmente a servir ao público, indo além das suas obrigações funcionais em busca de soluções que beneficiem toda a sociedade”. (Waldemar Cezar Neto, jornalista, autor desta reportagem).


