Jornal Página 3
PÁGINA 3 / Cidade
Harold Schultz, o empreendedor que desbravou o Mercosul

#BC54anos

Segunda, 23/7/2018 10:35.
Reprodução / Arquivo Pessoal
Um dos anúncios publicados no jornal argentino Clarin, e no detalhe Schultz.

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Se fosse elaborada a lista das pessoas que mais contribuiram para tornar Balneário Camboriú conhecida nacional e internacionalmente, com certeza no topo apareceria o ex-prefeito Harold Schultz, falecido aos 81 anos em setembro passado.

Homem trabalhador Harold Shultz teve também sorte, seus negócios foram notavelmente impulsionados pelo câmbio favorável a outros países, em especial a Argentina.

A H.Schultz teve filiais e/ou representantes de vendas em capitais de países vizinhos. Um exército de corretores, alguns ostentando correntes e pulseiras de ouro como sinal de riqueza, andavam pelo continente atrás de compradores.

Balneário Camboriú falava castelhano, a estimativa é que 10% a 15% dos apartamentos da cidade na época pertencessem a argentinos. A H. Schultz anunciava nos principais jornais “gringos” e seu bordão era “Balneário Camboriú, la mini Copacabana”. Os negócios com os países vizinhos eram tão intensos que a construtora tinha um avião para os deslocamentos, fato incomum na década de 1960.

No auge do sucesso a H.Schultz construiu também em Itajaí, Piçarras, Barra Velha, Blumenau e Florianópolis. Ele entregou em Balneário o Edifício Imperador, com 24 pavimentos, o mais alto do litoral catarinense e no dia da inauguração anunciou a construção do Imperatriz, com impressionantes -para a época- 30 andares que se tornaria o mais alto numa praia brasileira.

O centro da vida econômica, social e política de Balneário Camboriú era a “Casa do Schultz”, um casarão plantando num enorme terreno que ia da Avenida Brasil até quase a Terceira Avenida.

As vendas dos imóveis corriam bem, mas a administração não era sólida. Schultz verticalizou operações e pode ter perdido o foco ao montar porto de areia, usina de concreto, fábrica da esquadrias, fábrica de móveis e loja de materiais de construção.

Também colocou dinheiro em um restaurante (o Imperatriz, no topo do prédio de mesmo nome), posto de gasolina, loteamentos, agricultura e fazendas para criação de gado, delegando a administração dos negócios a parentes e funcionários.

Pessoas que viveram esse período contam que o empresário, em vez de privilegiar os conselhos da área técnica, escutava mais os corretores cujo interesse principal não era a saúde financeira da empresa e sim ganhar a comissão sobre as vendas.

Além disso, ele se meteu com política na hora errada: seu mandato como prefeito de Balneário Camboriú, entre 1983 e 1988 coincidiu com a derrocada da economia argentina o que afetou seriamente a H.Schultz.

Entre 1988 e 1989 o PIB da Argentina caiu 8% e os vizinhos enfrentariam anos de recessão. A inflação explodiu, chegando a 3.100% em 1989 e até a classe média baixa que aqui gastava a rodo perdeu a capacidade de investir e, em muitos casos, de manter suas propriedades.

O fluxo de dólares para o caixa da empresa cessou e ficou estagnada, com sérias dificuldades.

Ao escrever sobre isso em janeiro desse ano o jornalista Aníbal Mendoza do argentino La Nación foi ao ponto: “Os anos 80, tão ricos em mitologia e devassidão, levaram a um dos muitos sucessos de verão entre os argentinos e o Brasil. De um dia para o outro... milhares de compatriotas empreenderam a colonização das praias de Santa Catarina. Balneário de Camboriú atendeu ao sonho molhado de alguns que acordaram em chinelos com dois ambientes voltados para o mar e uma caipirinha em cada mão. A ilusão durou mais de uma década até que a economia da região, aquecida pelo reinvestimento imobiliário, desencorajasse a permanência... A praia, afinal, encontrou novos pretendentes. No entanto, o ataque deixou um legado cultural para a posteridade: os churros estão a cada vinte metros em todo o corredor da Praia Central. Com doce de leite até e alguma outra inovação local”.

Seu empreendimento mais arrojado nunca chegou a ser feito, “Camboriú 2020”, composto por 18 prédios entre as avenidas Atlântica e Brasil ligados através de uma passarela.

Todos esses prédios teriam nomes de estrelas, mas apenas dois, Aldebaran e Arcturus foram construídos.

Além de tudo que fez como empresário o prefeito Schultz deixou marcas duradouras na cidade: implantou a rede de esgotos e construiu a Igreja Santa Inês em terreno e com a maior parte dos materiais doados por ele.


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Harold Schultz, o empreendedor que desbravou o Mercosul

Reprodução / Arquivo Pessoal
Um dos anúncios publicados no jornal argentino Clarin, e no detalhe Schultz.
Um dos anúncios publicados no jornal argentino Clarin, e no detalhe Schultz.

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Segunda, 23/7/2018 10:35.

Se fosse elaborada a lista das pessoas que mais contribuiram para tornar Balneário Camboriú conhecida nacional e internacionalmente, com certeza no topo apareceria o ex-prefeito Harold Schultz, falecido aos 81 anos em setembro passado.

Homem trabalhador Harold Shultz teve também sorte, seus negócios foram notavelmente impulsionados pelo câmbio favorável a outros países, em especial a Argentina.

A H.Schultz teve filiais e/ou representantes de vendas em capitais de países vizinhos. Um exército de corretores, alguns ostentando correntes e pulseiras de ouro como sinal de riqueza, andavam pelo continente atrás de compradores.

Balneário Camboriú falava castelhano, a estimativa é que 10% a 15% dos apartamentos da cidade na época pertencessem a argentinos. A H. Schultz anunciava nos principais jornais “gringos” e seu bordão era “Balneário Camboriú, la mini Copacabana”. Os negócios com os países vizinhos eram tão intensos que a construtora tinha um avião para os deslocamentos, fato incomum na década de 1960.

No auge do sucesso a H.Schultz construiu também em Itajaí, Piçarras, Barra Velha, Blumenau e Florianópolis. Ele entregou em Balneário o Edifício Imperador, com 24 pavimentos, o mais alto do litoral catarinense e no dia da inauguração anunciou a construção do Imperatriz, com impressionantes -para a época- 30 andares que se tornaria o mais alto numa praia brasileira.

O centro da vida econômica, social e política de Balneário Camboriú era a “Casa do Schultz”, um casarão plantando num enorme terreno que ia da Avenida Brasil até quase a Terceira Avenida.

As vendas dos imóveis corriam bem, mas a administração não era sólida. Schultz verticalizou operações e pode ter perdido o foco ao montar porto de areia, usina de concreto, fábrica da esquadrias, fábrica de móveis e loja de materiais de construção.

Também colocou dinheiro em um restaurante (o Imperatriz, no topo do prédio de mesmo nome), posto de gasolina, loteamentos, agricultura e fazendas para criação de gado, delegando a administração dos negócios a parentes e funcionários.

Pessoas que viveram esse período contam que o empresário, em vez de privilegiar os conselhos da área técnica, escutava mais os corretores cujo interesse principal não era a saúde financeira da empresa e sim ganhar a comissão sobre as vendas.

Além disso, ele se meteu com política na hora errada: seu mandato como prefeito de Balneário Camboriú, entre 1983 e 1988 coincidiu com a derrocada da economia argentina o que afetou seriamente a H.Schultz.

Entre 1988 e 1989 o PIB da Argentina caiu 8% e os vizinhos enfrentariam anos de recessão. A inflação explodiu, chegando a 3.100% em 1989 e até a classe média baixa que aqui gastava a rodo perdeu a capacidade de investir e, em muitos casos, de manter suas propriedades.

O fluxo de dólares para o caixa da empresa cessou e ficou estagnada, com sérias dificuldades.

Ao escrever sobre isso em janeiro desse ano o jornalista Aníbal Mendoza do argentino La Nación foi ao ponto: “Os anos 80, tão ricos em mitologia e devassidão, levaram a um dos muitos sucessos de verão entre os argentinos e o Brasil. De um dia para o outro... milhares de compatriotas empreenderam a colonização das praias de Santa Catarina. Balneário de Camboriú atendeu ao sonho molhado de alguns que acordaram em chinelos com dois ambientes voltados para o mar e uma caipirinha em cada mão. A ilusão durou mais de uma década até que a economia da região, aquecida pelo reinvestimento imobiliário, desencorajasse a permanência... A praia, afinal, encontrou novos pretendentes. No entanto, o ataque deixou um legado cultural para a posteridade: os churros estão a cada vinte metros em todo o corredor da Praia Central. Com doce de leite até e alguma outra inovação local”.

Seu empreendimento mais arrojado nunca chegou a ser feito, “Camboriú 2020”, composto por 18 prédios entre as avenidas Atlântica e Brasil ligados através de uma passarela.

Todos esses prédios teriam nomes de estrelas, mas apenas dois, Aldebaran e Arcturus foram construídos.

Além de tudo que fez como empresário o prefeito Schultz deixou marcas duradouras na cidade: implantou a rede de esgotos e construiu a Igreja Santa Inês em terreno e com a maior parte dos materiais doados por ele.


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