Jornal Página 3
PÁGINA 3 / Cidade
14 moradores de rua de Balneário Camboriú morreram em 2019

É o maior número já registrado na história da cidade que tem 128 pessoas morando nas ruas

Quinta, 17/10/2019 16:04.
Sérgio Salles, 55 anos, era morador de rua em BC há mais de 10 anos. Ele foi encontrado morto, por causas naturais, na Rua 600 no último dia 2.

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A secretária de Desenvolvimento e Inclusão Social, Christina Barichello ficou preocupada quando foi informada de que neste ano 14 mendigos e andarilhos da cidade morreram, vítimas de crimes, de causas naturais e de doenças decorrentes da vida nas ruas.

Há suspeita de um grupo que estaria agredindo os andarilhos, inclusive com registro de casos de espancamento. Na manhã desta quarta-feira (16), a secretária convocou uma reunião emergencial para tratar esse assunto. Balneário Camboriú possui atualmente 128 moradores de rua, sendo que 55 chegaram recentemente à cidade.

O agente social Peterson Alan Boll, que atua no Resgate Social desde 2008, disse que estas 14 mortes são de ‘usuários’ do Resgate, sendo o maior registro desde o início deste controle, há 11 anos.

No início de outubro teriam aparecido, juntamente com esses óbitos, moradores de rua que foram ‘severamente espancados’.

“Em conversa com os mesmos acerca dos agressores, (se por exemplo, foram agentes públicos das forças de segurança) os mesmos disseram que não, não eram pessoas fardadas. Os agredidos pareciam estar com muito medo, e preferiram desconversar”, diz.

Ainda segundo Peterson, um dos agredidos, que teria se identificado apenas como ‘Anderson’ estaria bastante machucado. Ele foi encontrado pela equipe de abordagem social no Bairro dos Estados. Nesse mesmo bairro houve outras duas agressões e um homicídio em datas recentes. Anderson teria aceitado ajuda, mas ao saber que seria encaminhado ao hospital deixou a Casa de Passagem (espécie de ‘albergue’ que recebe os mendigos), negando o auxílio.

Os outros registros de mortes (todas as vítimas eram homens) foram em decorrência do alcoolismo crônico (5); doenças decorrentes do uso de crack aliado ao não cumprimento ao tratamento de HIV (4); atropelamentos na BR-101 (2) e três homicídios.

Dessas 14 pessoas, apenas duas não tinham vínculo com Balneário Camboriú, estando há pouco tempo na cidade. Todas as vítimas tinham mais de 30 anos e receberam auxílio do Resgate Social em pelo menos uma oportunidade.

Secretária preocupada

Christina Barichello explicou que todo mês recebe relatórios dos atendimentos do Resgate e se surpreendeu com a quantidade de mortes envolvendo andarilhos.

“Algumas foram naturais, por uso de drogas, outras envolvem doenças comuns de quem vive na rua, como tuberculose. Perguntei à equipe do Resgate se esse número é registrado todos os anos, e eles falaram que nunca havia tido um tão alto assim. Não tem nada de muito extraordinário, mas é preocupante porque batemos um recorde de mortes”, diz.

Christina planeja falar com o secretário de Segurança, David Queiroz, e pediu que a equipe do Resgate Social fosse até a delegacia, já que não cabe ao governo municipal investigar casos criminais.

“Há a suspeita da atuação de um grupo de extermínio e isso inclusive está assustando os moradores de rua. A informação passa de um para o outro e houve alguns que foram embora da cidade por isso, porque estão com medo”, explica.

Mesmo assim, a cidade está hoje com 128 moradores de rua, sendo que 55 chegaram recentemente. A secretária pontua que a maioria deles querem ficar na rua, mesmo tendo a chance de se internarem gratuitamente em clínicas de reabilitação ou serem acolhidos na Casa de Passagem, com chance de conseguirem um emprego e poderem recomeçar a vida.

“É um gasto grande para o município, e infelizmente muitos não aceitam. Há ainda brigas de mendigos nas ruas por situação de uso de drogas. Há crimes de furto/roubo cometidos entre eles. Recebi uma foto da DEIC (Diretoria Estadual de Investigações Criminais) de um morador de rua de Balneário bastante machucado, que havia sido espancado. A realidade das ruas é diferente, eles tem um código de conduta, é uma vida desregrada, às vezes até parece uma sobrevivência na selva”, acrescenta.

A secretária salienta que como poder público, a secretaria está tentando cada vez internar mais mendigo, inclusive com internação compulsória, mas às vezes é um gasto grande e que não adianta nada.

Sem esmolas

Christina conta que recentemente internaram uma mulher que está grávida, mas a própria mãe dela foi até a clínica e a soltou, e a moça foi encontrada novamente usando crack nas ruas de Balneário.

“É um mundo muito difícil, com a nuance da dificuldade social, marginalidade e a lei da rua. A população precisa parar de dar esmola e entender que a solidariedade é encaminhar para o serviço certo, que é ligar para o 156. Trabalhamos 24h todos os dias, inclusive domingos e feriados”, diz.

Christina opina ainda que a legislação é muito amena, e que infelizmente muitos mendigos são flagrados cometendo crimes, são presos e logo liberado.

“Enquanto os andarilhos tiverem ganho secundários, através de esmolas, eles vão continuar na rua. Muitos fazem pequenos ou grandes delitos, traficam drogas, arrombam as casas das pessoas, abordam e machucam. Uma funcionária do Resgate foi ferida recentemente. É primordial termos o apoio da comunidade, que precisa entender que dar esmola não é positivo”, completa.

“Grupo de extermínio é inverídico”, diz secretário de Segurança

Procurado pela reportagem, o secretário de Segurança de Balneário Camboriú, David Queiroz, disse que a Guarda Municipal acompanha os casos envolvendo moradores de rua quando há registro de ocorrência criminal, além de acompanhar o Resgate Social em rondas semanais.

“Desconhecemos as mortes criminosas e não há muitas denúncias envolvendo andarilhos. Esse caso de grupo de extermínio é total inverídico. Se fosse verdade saberíamos sobre, e não estávamos sabendo. Vejo que a situação dos mendigos é um problema biopsicossocial que envolve dependência química e precisa de intervenção familiar e da Saúde. Muitos inclusive têm casa em Balneário ou Camboriú e optam por ficar na rua. Fica difícil imaginar que com intervenção da polícia essa situação melhore, já que nem todos cometem crimes”, explica.

Queiroz avalia que o apoio da comunidade é essencial para amenizar o problema, salientando que o público não pode ‘fomentar’ a situação e isso acontece ao dar esmola, comida e roupas.

“Existe um estímulo, hoje é vantajoso para o mendigo ficar na rua. O ‘altruísmo’ dá vazão para algo que a própria comunidade reclama. Não é um problema policial. Se cometem crimes, eles podem ser presos, mas não podem ser encaminhados à delegacia só por estarem na rua”, acrescenta. Assim como Christina, Queiroz afirma que há uma série de limitações no que se refere aos andarilhos não aceitarem o acolhimento ou internação gratuita, citando ainda que a situação se repete em todo o mundo e não é um problema só de Balneário Camboriú.

“É um problema mundial de difícil solução, mas há um esforço muito grande do município para mitigar essa situação e dependemos também da colaboração da população, que em qualquer tipo de conflito pode ligar para o 153”, finaliza.


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Sérgio Salles, 55 anos, era morador de rua em BC há mais de 10 anos. Ele foi encontrado morto, por causas naturais, na Rua 600 no último dia 2.
Sérgio Salles, 55 anos, era morador de rua em BC há mais de 10 anos. Ele foi encontrado morto, por causas naturais, na Rua 600 no último dia 2.

14 moradores de rua de Balneário Camboriú morreram em 2019

É o maior número já registrado na história da cidade que tem 128 pessoas morando nas ruas

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Quinta, 17/10/2019 16:04.

A secretária de Desenvolvimento e Inclusão Social, Christina Barichello ficou preocupada quando foi informada de que neste ano 14 mendigos e andarilhos da cidade morreram, vítimas de crimes, de causas naturais e de doenças decorrentes da vida nas ruas.

Há suspeita de um grupo que estaria agredindo os andarilhos, inclusive com registro de casos de espancamento. Na manhã desta quarta-feira (16), a secretária convocou uma reunião emergencial para tratar esse assunto. Balneário Camboriú possui atualmente 128 moradores de rua, sendo que 55 chegaram recentemente à cidade.

O agente social Peterson Alan Boll, que atua no Resgate Social desde 2008, disse que estas 14 mortes são de ‘usuários’ do Resgate, sendo o maior registro desde o início deste controle, há 11 anos.

No início de outubro teriam aparecido, juntamente com esses óbitos, moradores de rua que foram ‘severamente espancados’.

“Em conversa com os mesmos acerca dos agressores, (se por exemplo, foram agentes públicos das forças de segurança) os mesmos disseram que não, não eram pessoas fardadas. Os agredidos pareciam estar com muito medo, e preferiram desconversar”, diz.

Ainda segundo Peterson, um dos agredidos, que teria se identificado apenas como ‘Anderson’ estaria bastante machucado. Ele foi encontrado pela equipe de abordagem social no Bairro dos Estados. Nesse mesmo bairro houve outras duas agressões e um homicídio em datas recentes. Anderson teria aceitado ajuda, mas ao saber que seria encaminhado ao hospital deixou a Casa de Passagem (espécie de ‘albergue’ que recebe os mendigos), negando o auxílio.

Os outros registros de mortes (todas as vítimas eram homens) foram em decorrência do alcoolismo crônico (5); doenças decorrentes do uso de crack aliado ao não cumprimento ao tratamento de HIV (4); atropelamentos na BR-101 (2) e três homicídios.

Dessas 14 pessoas, apenas duas não tinham vínculo com Balneário Camboriú, estando há pouco tempo na cidade. Todas as vítimas tinham mais de 30 anos e receberam auxílio do Resgate Social em pelo menos uma oportunidade.

Secretária preocupada

Christina Barichello explicou que todo mês recebe relatórios dos atendimentos do Resgate e se surpreendeu com a quantidade de mortes envolvendo andarilhos.

“Algumas foram naturais, por uso de drogas, outras envolvem doenças comuns de quem vive na rua, como tuberculose. Perguntei à equipe do Resgate se esse número é registrado todos os anos, e eles falaram que nunca havia tido um tão alto assim. Não tem nada de muito extraordinário, mas é preocupante porque batemos um recorde de mortes”, diz.

Christina planeja falar com o secretário de Segurança, David Queiroz, e pediu que a equipe do Resgate Social fosse até a delegacia, já que não cabe ao governo municipal investigar casos criminais.

“Há a suspeita da atuação de um grupo de extermínio e isso inclusive está assustando os moradores de rua. A informação passa de um para o outro e houve alguns que foram embora da cidade por isso, porque estão com medo”, explica.

Mesmo assim, a cidade está hoje com 128 moradores de rua, sendo que 55 chegaram recentemente. A secretária pontua que a maioria deles querem ficar na rua, mesmo tendo a chance de se internarem gratuitamente em clínicas de reabilitação ou serem acolhidos na Casa de Passagem, com chance de conseguirem um emprego e poderem recomeçar a vida.

“É um gasto grande para o município, e infelizmente muitos não aceitam. Há ainda brigas de mendigos nas ruas por situação de uso de drogas. Há crimes de furto/roubo cometidos entre eles. Recebi uma foto da DEIC (Diretoria Estadual de Investigações Criminais) de um morador de rua de Balneário bastante machucado, que havia sido espancado. A realidade das ruas é diferente, eles tem um código de conduta, é uma vida desregrada, às vezes até parece uma sobrevivência na selva”, acrescenta.

A secretária salienta que como poder público, a secretaria está tentando cada vez internar mais mendigo, inclusive com internação compulsória, mas às vezes é um gasto grande e que não adianta nada.

Sem esmolas

Christina conta que recentemente internaram uma mulher que está grávida, mas a própria mãe dela foi até a clínica e a soltou, e a moça foi encontrada novamente usando crack nas ruas de Balneário.

“É um mundo muito difícil, com a nuance da dificuldade social, marginalidade e a lei da rua. A população precisa parar de dar esmola e entender que a solidariedade é encaminhar para o serviço certo, que é ligar para o 156. Trabalhamos 24h todos os dias, inclusive domingos e feriados”, diz.

Christina opina ainda que a legislação é muito amena, e que infelizmente muitos mendigos são flagrados cometendo crimes, são presos e logo liberado.

“Enquanto os andarilhos tiverem ganho secundários, através de esmolas, eles vão continuar na rua. Muitos fazem pequenos ou grandes delitos, traficam drogas, arrombam as casas das pessoas, abordam e machucam. Uma funcionária do Resgate foi ferida recentemente. É primordial termos o apoio da comunidade, que precisa entender que dar esmola não é positivo”, completa.

“Grupo de extermínio é inverídico”, diz secretário de Segurança

Procurado pela reportagem, o secretário de Segurança de Balneário Camboriú, David Queiroz, disse que a Guarda Municipal acompanha os casos envolvendo moradores de rua quando há registro de ocorrência criminal, além de acompanhar o Resgate Social em rondas semanais.

“Desconhecemos as mortes criminosas e não há muitas denúncias envolvendo andarilhos. Esse caso de grupo de extermínio é total inverídico. Se fosse verdade saberíamos sobre, e não estávamos sabendo. Vejo que a situação dos mendigos é um problema biopsicossocial que envolve dependência química e precisa de intervenção familiar e da Saúde. Muitos inclusive têm casa em Balneário ou Camboriú e optam por ficar na rua. Fica difícil imaginar que com intervenção da polícia essa situação melhore, já que nem todos cometem crimes”, explica.

Queiroz avalia que o apoio da comunidade é essencial para amenizar o problema, salientando que o público não pode ‘fomentar’ a situação e isso acontece ao dar esmola, comida e roupas.

“Existe um estímulo, hoje é vantajoso para o mendigo ficar na rua. O ‘altruísmo’ dá vazão para algo que a própria comunidade reclama. Não é um problema policial. Se cometem crimes, eles podem ser presos, mas não podem ser encaminhados à delegacia só por estarem na rua”, acrescenta. Assim como Christina, Queiroz afirma que há uma série de limitações no que se refere aos andarilhos não aceitarem o acolhimento ou internação gratuita, citando ainda que a situação se repete em todo o mundo e não é um problema só de Balneário Camboriú.

“É um problema mundial de difícil solução, mas há um esforço muito grande do município para mitigar essa situação e dependemos também da colaboração da população, que em qualquer tipo de conflito pode ligar para o 153”, finaliza.


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