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Filme mostra momento em que juventude russa quis enterrar cadáver do comunismo

Quarta, 17/10/2018 16:29.

CÁSSIO STARLING CARLOS
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O comunismo de verdade, não o fantasma que o atual exército brasileiro de zumbis finge temer, está morto e enterrado faz tempo. Sua agonia final foi por sufocamento, fixação no passado e medo obsessivo da liberdade e do questionamento. "Verão", do russo Kirill Serebrennikov, nos leva ao momento em que a juventude russa deu os primeiros sinais de que era hora de enterrar o cadáver.
O filme, injustamente ignorado pelo júri de Cannes, se passa em São Petersburgo, no início dos anos 1980, e reconstitui a amizade de duas personalidades centrais da emergência do pop na União Soviética, cujas lideranças temiam o poder de contágio desse signo maior da decadência capitalista.
Mayk Naumenko, bardo à frente da banda Zoopark, seguiu as pegadas de Lou Reed e David Bowie para fortalecer sua crença na potência poética do rock. Sob sua influência, o mais jovem Viktor Tsoi criou o grupo Kino, fenômeno pop que tornou manifesta a incapacidade de o velho regime se sintonizar com os anseios das novas gerações.
Ambos morreram no início dos anos 1990 e não conheceram o lado B da nova ordem repressiva que veio depois do colapso do comunismo russo.
Serebrennikov nos aproxima desse retrato de ícones locais sem exagerar na reverência. A primeira cena sinaliza sua estratégia ao acompanhar o movimento de garotas que entram pelos fundos no clube onde Naumenko se apresenta, anunciando a natureza clandestina e subversiva daquela música.
O controle do comportamento da plateia ou a censura permanente às letras e ao estímulo disruptivo das guitarras funciona como anedotas de um tempo que tem seus nostálgicos tanto lá como aqui.
As imagens em preto e branco poderiam servir como retórica da evocação do passado, mas o filme não demora a desvirtuar essa premissa com deliciosas passagens de abandono do realismo.
Com uma estética de videoclipe dos anos 1980, intervalos musicais interrompem o fluxo narrativo e inserem canções dos Talking Heads, Iggy Pop e Bowie no cinzento cotidiano soviético. Enquanto isso, um dos personagens faz comentários irônicos que tornam o filme uma reflexão sobre a rebeldia, identificando seu alcance e seus limites.
Outra vantagem das escolhas de Serebrennikov é evocar fatos e biografias de seus personagens sem restringi-los ao passado. Como o próprio diretor russo encontra-se desde agosto de 2017 em prisão domiciliar, acusado de desvio de recursos por um governo ao qual nunca prestou obediência, não é preciso esforço para reconhecer a alegoria.

Verão
Avaliação: muito bom
Quando 18/10, às 16h40, Reserva Cultural; 19/10, às 19h30, Cinesala; 21/10, 17h20, Frei Caneca 1; 28/10, às 19h20, Reserva Cultural.
Elenco: Roman Bilyk, Rami Malek, Teo Yoo, Irina Starshenbaum
Produção: Rússia /França, 2018 (16 anos)
Direção: Kirill Serebrennikov

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Filme mostra momento em que juventude russa quis enterrar cadáver do comunismo

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Quarta, 17/10/2018 16:29.

CÁSSIO STARLING CARLOS
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O comunismo de verdade, não o fantasma que o atual exército brasileiro de zumbis finge temer, está morto e enterrado faz tempo. Sua agonia final foi por sufocamento, fixação no passado e medo obsessivo da liberdade e do questionamento. "Verão", do russo Kirill Serebrennikov, nos leva ao momento em que a juventude russa deu os primeiros sinais de que era hora de enterrar o cadáver.
O filme, injustamente ignorado pelo júri de Cannes, se passa em São Petersburgo, no início dos anos 1980, e reconstitui a amizade de duas personalidades centrais da emergência do pop na União Soviética, cujas lideranças temiam o poder de contágio desse signo maior da decadência capitalista.
Mayk Naumenko, bardo à frente da banda Zoopark, seguiu as pegadas de Lou Reed e David Bowie para fortalecer sua crença na potência poética do rock. Sob sua influência, o mais jovem Viktor Tsoi criou o grupo Kino, fenômeno pop que tornou manifesta a incapacidade de o velho regime se sintonizar com os anseios das novas gerações.
Ambos morreram no início dos anos 1990 e não conheceram o lado B da nova ordem repressiva que veio depois do colapso do comunismo russo.
Serebrennikov nos aproxima desse retrato de ícones locais sem exagerar na reverência. A primeira cena sinaliza sua estratégia ao acompanhar o movimento de garotas que entram pelos fundos no clube onde Naumenko se apresenta, anunciando a natureza clandestina e subversiva daquela música.
O controle do comportamento da plateia ou a censura permanente às letras e ao estímulo disruptivo das guitarras funciona como anedotas de um tempo que tem seus nostálgicos tanto lá como aqui.
As imagens em preto e branco poderiam servir como retórica da evocação do passado, mas o filme não demora a desvirtuar essa premissa com deliciosas passagens de abandono do realismo.
Com uma estética de videoclipe dos anos 1980, intervalos musicais interrompem o fluxo narrativo e inserem canções dos Talking Heads, Iggy Pop e Bowie no cinzento cotidiano soviético. Enquanto isso, um dos personagens faz comentários irônicos que tornam o filme uma reflexão sobre a rebeldia, identificando seu alcance e seus limites.
Outra vantagem das escolhas de Serebrennikov é evocar fatos e biografias de seus personagens sem restringi-los ao passado. Como o próprio diretor russo encontra-se desde agosto de 2017 em prisão domiciliar, acusado de desvio de recursos por um governo ao qual nunca prestou obediência, não é preciso esforço para reconhecer a alegoria.

Verão
Avaliação: muito bom
Quando 18/10, às 16h40, Reserva Cultural; 19/10, às 19h30, Cinesala; 21/10, 17h20, Frei Caneca 1; 28/10, às 19h20, Reserva Cultural.
Elenco: Roman Bilyk, Rami Malek, Teo Yoo, Irina Starshenbaum
Produção: Rússia /França, 2018 (16 anos)
Direção: Kirill Serebrennikov

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