Jornal Página 3
Cinema
‘Borrasca’: Mário Bortolotto na boca cariada do luto
Quinta, 2/5/2019 13:18.

Publicidade

Rodrigo Fonseca

Tem um negócio bom pacas que o Mário Bortolotto escreveu no melhor livro de poemas que li em 2018 que reflete assim sobre os buracos que cultivamos ou cativamos: “Mais melancólico do que as luzes de um parque de diversões se apagando/ Maior que a noite/ O perdão que fica trancado/ debaixo do assoalho/ do coração devastado/ por cupins de sua condenação”. Você acha essa joia aí em “O pior lugar que eu conheço é dentro da minha cabeça”, editado pela Reformatório. Mas tem verborragia parecia (e de igual voltagem) no que ele vomita no filme “Borrasca”, autópsia em corpo vivo da amizade, com todo o ônus e todo bônus de se imolar em amor fraterno a outrem. O longa-metragem é de Francisco Garcia, que colecionou elogio pelo mundo com o desencapado “Cores” (2013), e que volta aqui falando de carraspanas de dissoluções e da frente fria que a chuva traz (nome de uma peça de Mário, filmada em 2015 por Neville D’Almeida). O léxico desta nova incursão do audiovisual ao universo de raspas e restos do dramaturgo por trás de “Getsêmani” e “Nossa vida não vale um Chevorlet” é o do dente cariado, do bafo de conhaque, do arroto choco. A estrutura faz parecer teatro: locação única, unidade de tempo bem determinada, fala como ação. Cinematograficamente, tem lá seus contatos e contágios com o John Huston de “À sombra do vulcão” (1984) e guarda uma parentela com “Carreiras” (2005), de Domingos Oliveira. Tem timbre de peça, mas vai além da mecânica do teatro, graças a precisos componentes que Garcia escolheu para compor seu puzzle sobre o desmantelo afetivo ampliam: no caso, a direção de arte de Monica Palazzo e a fotografia de Alziro Barbosa. São estes os amálgamas sinestésicos que dão relevo à Fortaleza da Solidão de Bortolotto: a trama se passa num apartamento onde dois amigos que choram o luto de um companheiro de cachaça e falação. Remorso é o rosário que eles desfiam, com contas de um substantivo prostituto chamado saudade, que derrete na boca. A reza deles pelo bem do morto revela fraquezas, ternuras e (im)potências, numa homilia de perdas e danos.

É um filme para ver correndo. E pra rever com responsabilidade.

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Destaques

O Tonino Lamborghini Residences Balneário Camboriú será desenvolvido pela Embraed Empreendimentos  


Sexto lugar no ranking das 50 cidades catarinenses que mais abriram empresas em 2019


 Uma restauração histórica de fotos aéreas para o primeiro plano diretor do município



 Em 12 meses foram registradas 2,4 infrações desse tipo por hora


 “Afastar a corrupção é o dever de todos”, disse o prefeito


Cidade

O Tonino Lamborghini Residences Balneário Camboriú será desenvolvido pela Embraed Empreendimentos  


Economia

Sexto lugar no ranking das 50 cidades catarinenses que mais abriram empresas em 2019


Variedades

 Uma restauração histórica de fotos aéreas para o primeiro plano diretor do município


Variedades


Policia

 Em 12 meses foram registradas 2,4 infrações desse tipo por hora


Política

 “Afastar a corrupção é o dever de todos”, disse o prefeito


Publicidade


Publicidade


Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade

Página 3

‘Borrasca’: Mário Bortolotto na boca cariada do luto

Publicidade

Quinta, 2/5/2019 13:18.

Rodrigo Fonseca

Tem um negócio bom pacas que o Mário Bortolotto escreveu no melhor livro de poemas que li em 2018 que reflete assim sobre os buracos que cultivamos ou cativamos: “Mais melancólico do que as luzes de um parque de diversões se apagando/ Maior que a noite/ O perdão que fica trancado/ debaixo do assoalho/ do coração devastado/ por cupins de sua condenação”. Você acha essa joia aí em “O pior lugar que eu conheço é dentro da minha cabeça”, editado pela Reformatório. Mas tem verborragia parecia (e de igual voltagem) no que ele vomita no filme “Borrasca”, autópsia em corpo vivo da amizade, com todo o ônus e todo bônus de se imolar em amor fraterno a outrem. O longa-metragem é de Francisco Garcia, que colecionou elogio pelo mundo com o desencapado “Cores” (2013), e que volta aqui falando de carraspanas de dissoluções e da frente fria que a chuva traz (nome de uma peça de Mário, filmada em 2015 por Neville D’Almeida). O léxico desta nova incursão do audiovisual ao universo de raspas e restos do dramaturgo por trás de “Getsêmani” e “Nossa vida não vale um Chevorlet” é o do dente cariado, do bafo de conhaque, do arroto choco. A estrutura faz parecer teatro: locação única, unidade de tempo bem determinada, fala como ação. Cinematograficamente, tem lá seus contatos e contágios com o John Huston de “À sombra do vulcão” (1984) e guarda uma parentela com “Carreiras” (2005), de Domingos Oliveira. Tem timbre de peça, mas vai além da mecânica do teatro, graças a precisos componentes que Garcia escolheu para compor seu puzzle sobre o desmantelo afetivo ampliam: no caso, a direção de arte de Monica Palazzo e a fotografia de Alziro Barbosa. São estes os amálgamas sinestésicos que dão relevo à Fortaleza da Solidão de Bortolotto: a trama se passa num apartamento onde dois amigos que choram o luto de um companheiro de cachaça e falação. Remorso é o rosário que eles desfiam, com contas de um substantivo prostituto chamado saudade, que derrete na boca. A reza deles pelo bem do morto revela fraquezas, ternuras e (im)potências, numa homilia de perdas e danos.

É um filme para ver correndo. E pra rever com responsabilidade.

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Publicidade



Destaques

O Tonino Lamborghini Residences Balneário Camboriú será desenvolvido pela Embraed Empreendimentos  


Sexto lugar no ranking das 50 cidades catarinenses que mais abriram empresas em 2019


 Uma restauração histórica de fotos aéreas para o primeiro plano diretor do município



 Em 12 meses foram registradas 2,4 infrações desse tipo por hora


 “Afastar a corrupção é o dever de todos”, disse o prefeito