Jornal Página 3

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'Inferninho' acerta no tom alucinatório e revela-se uma adorável surpresa
Divulgação

Quinta, 23/5/2019 10:46.

(SÉRGIO ALPENDRE/FOLHAPRESS) Em 2009, após alguns curtas interessantes e apaixonados, o grupo da Alumbramento, formado no Ceará por Luiz e Ricardo Pretti, Guto Parente e Pedro Diógenes, conquistou o Festival de Tiradentes com o longa "Estrada para Ythaca".

Desde então, os quatro, juntos ou separadamente, ou mesmo em duplas ou trios (por vezes com outros diretores) têm se arriscado em filmes muito pessoais, de qualidade variável, mas sempre com a admirável virtude de correr riscos.

Podem fazer obras fortes como "Doce Amianto" (Guto Parente e Uirá dos Reis, 2012) e "A Misteriosa Morte de Pérola" (Guto Parente e Ticiana Augusto Lima, 2014), ou longas aborrecidos como "O Último Trago" (Luiz e Ricardo Pretti e Pedro Diógenes, 2016) e "O Estranho Caso de Ezequiel (Guto Parente, 2016).

Felizmente, "Inferninho", assinado por Guto Parente e Pedro Diógenes, joga no primeiro time. Os diretores acertam no tom alucinatório desse relato de excluídos reunidos no estabelecimento que dá título ao filme.

Se falta a contundência e a invenção de "Doce Amianto", espécie de Fassbinder mergulhado em ácido, sobra a sensibilidade na representação da solidão que une os frequentadores do bar.

São personagens à margem. Eles se encontram no inferninho de Deusimar (Yuri Yamamoto) para curtir uma melancolia coletiva, regada por uma música monótona e engraçada ao mesmo tempo, interpretada por uma cantora desajeitada e um tecladista meio zumbi.

Tem ainda um coelho cor-de-rosa gigante, uma Mulher Maravilha de bigodes, um marinheiro que parece o Sean Penn e logo conquista a confiança de Deusimar, um Homem Aranha desconjuntado, um Wolverine depois da gripe e uma moça surpreendentemente normal que, assim como o coelho, trabalha no bar.

O filme sofre com alguns clichês (felizmente poucos), como quando o marinheiro bate na porta e Deusimar atende pensando ser novamente o coelho (que havia a procurado um pouco antes). Mas tem no humor um grande trunfo, além, claro, da criatividade que vem do baixo orçamento.

Em certo momento, Deusimar se irrita e manda todos embora dali. O personagem que se veste como uma Mulher Maravilha bigoduda, antes de se retirar, gira rapidamente como sua personagem fazia na série de TV, com o corte no momento certo para que o humor se fortaleça.

Algumas frações de segundo a menos, não captaríamos a brincadeira. Um segundo a mais, ficaria esgarçado. O dom do tempo certo é algo raro em cinema, e os meninos da Alumbramento mostram esse dom em alguns momentos de "Inferninho".

Quando Deusimar vende o bar e resolve seguir os seus sonhos, entramos numa outra dimensão. Não podemos adiantar de que modo isso acontece. Mas é bom dizer que é quando o filme, que já estava mais do que digno, revela-se uma adorável surpresa.

INFERNINHO
PRODUÇÃO BRASIL, 2018
DIREÇÃO Guto Parente e Pedro Diógenes
ELENCO Yuri Yamamoto, Démick Lopes, Samya de Lavor
CLASSIFICAÇÃO 12 anos
AVALIAÇÃO Muito bom 

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'Inferninho' acerta no tom alucinatório e revela-se uma adorável surpresa

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Quinta, 23/5/2019 10:46.

(SÉRGIO ALPENDRE/FOLHAPRESS) Em 2009, após alguns curtas interessantes e apaixonados, o grupo da Alumbramento, formado no Ceará por Luiz e Ricardo Pretti, Guto Parente e Pedro Diógenes, conquistou o Festival de Tiradentes com o longa "Estrada para Ythaca".

Desde então, os quatro, juntos ou separadamente, ou mesmo em duplas ou trios (por vezes com outros diretores) têm se arriscado em filmes muito pessoais, de qualidade variável, mas sempre com a admirável virtude de correr riscos.

Podem fazer obras fortes como "Doce Amianto" (Guto Parente e Uirá dos Reis, 2012) e "A Misteriosa Morte de Pérola" (Guto Parente e Ticiana Augusto Lima, 2014), ou longas aborrecidos como "O Último Trago" (Luiz e Ricardo Pretti e Pedro Diógenes, 2016) e "O Estranho Caso de Ezequiel (Guto Parente, 2016).

Felizmente, "Inferninho", assinado por Guto Parente e Pedro Diógenes, joga no primeiro time. Os diretores acertam no tom alucinatório desse relato de excluídos reunidos no estabelecimento que dá título ao filme.

Se falta a contundência e a invenção de "Doce Amianto", espécie de Fassbinder mergulhado em ácido, sobra a sensibilidade na representação da solidão que une os frequentadores do bar.

São personagens à margem. Eles se encontram no inferninho de Deusimar (Yuri Yamamoto) para curtir uma melancolia coletiva, regada por uma música monótona e engraçada ao mesmo tempo, interpretada por uma cantora desajeitada e um tecladista meio zumbi.

Tem ainda um coelho cor-de-rosa gigante, uma Mulher Maravilha de bigodes, um marinheiro que parece o Sean Penn e logo conquista a confiança de Deusimar, um Homem Aranha desconjuntado, um Wolverine depois da gripe e uma moça surpreendentemente normal que, assim como o coelho, trabalha no bar.

O filme sofre com alguns clichês (felizmente poucos), como quando o marinheiro bate na porta e Deusimar atende pensando ser novamente o coelho (que havia a procurado um pouco antes). Mas tem no humor um grande trunfo, além, claro, da criatividade que vem do baixo orçamento.

Em certo momento, Deusimar se irrita e manda todos embora dali. O personagem que se veste como uma Mulher Maravilha bigoduda, antes de se retirar, gira rapidamente como sua personagem fazia na série de TV, com o corte no momento certo para que o humor se fortaleça.

Algumas frações de segundo a menos, não captaríamos a brincadeira. Um segundo a mais, ficaria esgarçado. O dom do tempo certo é algo raro em cinema, e os meninos da Alumbramento mostram esse dom em alguns momentos de "Inferninho".

Quando Deusimar vende o bar e resolve seguir os seus sonhos, entramos numa outra dimensão. Não podemos adiantar de que modo isso acontece. Mas é bom dizer que é quando o filme, que já estava mais do que digno, revela-se uma adorável surpresa.

INFERNINHO
PRODUÇÃO BRASIL, 2018
DIREÇÃO Guto Parente e Pedro Diógenes
ELENCO Yuri Yamamoto, Démick Lopes, Samya de Lavor
CLASSIFICAÇÃO 12 anos
AVALIAÇÃO Muito bom 

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