Jornal Página 3
Coluna
ALBC Ecos Literários
Por Academia de Letras

A brisa d’alma

Alguns ouvem a melodia da vida,
Outros sentem a brisa que toca a alma,
Tem aqueles que percebem muito além dos sentidos,
Há também os que se tocam e, por isso, tocam corações,
Alguns ainda conseguem ouvir o inaudível e decifrar a grandiosidade da vida
E tem, com certeza, os que reconhecem o aroma da excelência do ser,
Esses são os que se tornam um com o Todo, revelando A Divina melodia da própria
existência.
Nesse estado de graça, tudo é possível, o encontro se dá em cada olhar
E a cada gesto, reconhecemos a manifestação do
Imponderável.

Miriam de Almeida

Escrito por Academia de Letras, 13/09/2018 às 12h24 | elianarjz@gmail.com

Tração Humana

Crônica de Eliana Jimenez selecionada para antologia no Prêmio SESC de Literatura: Crônicas Rubem Braga – Brasília/DF – 2013.

Sábado, 8h de uma manhã de inverno. Dirigia devagar sem familiaridade com as ruas daquele bairro distante. Numa colina logo à frente reduzi a velocidade ao ver uma carroça de duas rodas amontoada com toda sorte de materiais recicláveis, reaproveitáveis ou nem tanto. Pilhas de papelão, teclados de computador, monitores antigos, embalagens plásticas, vidros e até uma cadeira de três pés.

A carroça vencia a subida metro a metro penosamente e não havia espaço para ultrapassagem. Atrás de mim o motorista de um carro de luxo começou a buzinar incessantemente. Pelo retrovisor observei que fazia gestos obscenos e depois começou a bater ensandecido com as duas mãos no volante num acesso de fúria.

Tentou por duas vezes me ultrapassar de maneira perigosa, mas acabou demovido do intento pelo fluxo de carros em sentido contrário.

Sem pressa e somente quando tive segurança, ultrapassei a carroça. Observei o homem que a arrastava: idoso, com longa barba branca, vestindo uma roupa surrada e descalço. Confesso que se tal carga fosse conduzida por um cavalo, já me traria comoção pelos maus-tratos ao animal, mas era muito pior. Uma carroça de despojos de toda sorte conduzida por tração humana, na verdade tração desumana.

Assim que terminei a ultrapassagem, o carro de luxo já passou por mim e mais uma vez acionou a buzina registrando o seu protesto por ter sido retido em seu trajeto.

Trocamos olhares durante os segundos em que nossos carros ficaram emparelhados. Tinha o semblante enfurecido e balbuciou um xingamento na minha direção, daqueles fáceis de entender por leitura labial. Seguiu o homem do carro de luxo cantando pneus, indiferente ao padecimento alheio.

Observei mais uma vez o carroceiro. Um pobre coitado que carregava o peso do descaso de uma sociedade desigual. Um homem sem chances, sem dignidade, em estado de miséria, cuja visibilidade passa a existir somente no momento em que atrapalha o fluxo de trânsito.

Acabei por me sentir mal em também passar por aquele homem sem dar-lhe nenhum conforto além de uma solidariedade em pensamento, que de nada lhe adiantaria.

As pessoas estão preocupadas apenas com a própria vida, no máximo com a própria genética, cuidando dos seus familiares sem se imaginarem como componentes de uma família única e universal de seres humanos com as mesmas necessidades e os mesmos anseios.

A indiferença precisa ser combatida. Olhar o outro como o próximo, espalhar atitudes fraternas, atenuar fronteiras, não separar as pessoas por crenças, opções ou religiões é o caminho que leva ao bem comum.

No meu trajeto naquela manhã fria, sonhei com um mundo de mãos justapostas, iguais e diferentes, calejadas, bem tratadas, coloridas, antigas, recém-nascidas, mas que fossem mãos enlaçadas, engajadas na busca de um novo tempo de trabalhos dignos, pés calçados e sofrimentos apaziguados.

Escrito por Academia de Letras, 03/09/2018 às 16h03 | elianarjz@gmail.com

O bêbado e a "desequilibrista"

Crônica de Hang Ferrero

Fico imaginando aqui a aparência – partindo do princípio de que nunca tenha visto um – dos anjos protetores dos desprovidos de cuidados que promovam a redução de danos próprios. Os anjos dos estabanados, xucros, imprudentes, desatentos e em outras palavras: dos desastrados! Agora, imagine você, caro leitor, depois dessa atmosfera criada, a aparência de um anjo “cuidador” de um bêbado, destes que curtem um bom pileque diário como dever cívico! E a coragem do ser angelical pra aceitar tal fardo? Imagino ele exigindo lá no céu os equipamentos de proteção individual: ” Não desço da minha nuvem sem lança e armadura! E ponto final!”

A ambulância já vinha se manifestando à distância, com os seus sinais estridentes característicos apontando que tava trazendo “pepino”ao pronto atendimento. Adentra o espaço reservado pras viaturas e desce em maca um camaradinha “restrito”- leia-se amarrado na maca. Os socorristas fazem uso de tirantes e coxins e maca rígida, que é do protocolo de atendimento pra cidadãos caídos em via pública. Mas neste caso específico, pela agitação da nossa vítima, tiveram que amarrá-lo também, afim de prestar atendimento e pra minimizar os riscos da tal “agitação psicomotora”. Nem preciso dizer nada sobre o clássico hálito alcoólico do paciente né? Evolução dos socorristas: ” indivíduo masculino, aproximadamente 35 anos, vítima de acidente de moto em via pública. Glasgow 14 ( “Glasgow” é como é chamada a avaliação do nível de consciência que chega ao máximo de 15 e; perdeu um ponto pela desorientação clássica conferida aos beberrões ). Deixaram o “incauto etílico”, mas não sem antes demonstrarem o ar de satisfação ao se livrarem do “abacaxi”.

- Tá tendo um dia difícil amigão?
- Quero ir embora- responde ao enfermeiro.
- Você caiu de moto e precisamos te avaliar, te medicar e só depois disso poderemos te liberar pra casa ok?
- Não. não! Quero ir agora! E tenta se desvencilhar das amarras.
- Calma parceiro! Vai ficar tudo bem!
- Tem alguma dor? Tá doendo em algum lugar?
- Eu quero ir embora! Aiiiiii!!!
- Dói essa perna?
- Não tá doendo nada!
- Mas eu mexi aqui e você gritou.
- Não dói em lugar nenhum! Aiii!
- Tá doendo ou não?
- Não!
Chega o médico. Faz a avaliação geral e aos poucos vai liberando o paciente dos tirantes ao que quase é surpreendido por um pontapé.
- Fica calmo aí amigão, senão vou pedir pra te amarrar de novo!
- Eu quero ir embora.
- Seguinte: quem bebeu foi você! Quem caiu de moto foi você! Aprontou essa “M” e veio parar aqui então cala essa matraca aí, fica tranquilinho e colabora que a gente te libera tão logo saibamos que não tens nada fraturado aí!
E encaminhou o cara pro raios-x. Na volta, imagens normais. Admnistração de analgésico pra dor.
- Tens alergia a algum remédio?
- Tenho alergia à água! Dá uma cachaça que eu melhoro!
- Cheio de graça né? Seguinte: vou te aplicar uma injeção pra passar a dor.
- Injeção??? Injeção não, injeção! Não querooo!!!
- Mas precisamos fazer cara! É antiinflamatório também e a gente precisa fazer.
- Mas não tá doendo nada, aiiii!
- Então por que tá gritando? Estica essa perna!
- Aiiiii, estica não , estica não!
- Tá doendo assim?
- Não dói nada, não tá doendo!
- Mas por que tá gritando?
- Porque tá doendo muito!
A equipe inteira já havia desistido do cara. Várias tentativas de contato com a esposa, a pedido dele.
Horas depois ela aparece tão embriagada quanto ele. Saem embriagados, abraçados, da unidade.
Momentos depois outra viatura do Samu aparece no pronto atendimento. Evolução dos socorristas: “acidente com múltiplas vítimas, um masculino de aproximadamente 35 anos e uma feminina…”
Dessa vez, o anjo voltou ao céu para os devidos reparos.

Escrito por Academia de Letras, 24/08/2018 às 11h40 | elianarjz@gmail.com

Poesia em trovas

O meu peito tem a chama,
minha voz muda de tom;
sabe disso só quem ama
pois amor é muito bom.
Tamara Kaufmann

À noite vou namorar
da lua já nem preciso,
só quero o teu lindo olhar
atiçando o meu sorriso.
Ari Santos de Campos

Ser feliz eu me propus
e segui esta verdade:
quem semeia a própria luz
colhe sempre claridade.
Eliana Jimenez

Qual boca sensual, a onda
beija as areias da praia.
Ao final de cada ronda
volta ao seu leito... e desmaia.
Maria Luiza Walendowsky (membro correspondente)


Sem limites são as metas
para as livres criaturas...
Veja as águias e os poetas
como planam nas alturas!
A. A. de Assis (membro correspondente)

Escrito por Academia de Letras, 20/08/2018 às 15h29 | elianarjz@gmail.com

1º. Lugar em Crônica - Prêmio Mario Sergio Cortella

Concurso Literário da 16ª. Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto - 2016


Drummond em Copacabana (foto: Blog Estrela Binária)

Tema:
"A beleza não está nem na luz da manhã, nem na sombra da noite, está no crepúsculo, nesse meio tom, nessa incerteza."
Lygia Fagundes Telles

A transposição das pedras

Sentei bem pertinho do poeta, no banco de concreto, frente ao mar.
Um estranho contentamento me tomou. Ofereci a ele o meu melhor sorriso. Ele me correspondeu com o reflexo do sol em seu olhar por trás dos óculos empoeirados.
Titubeei na etiqueta. Não sabia se deveria me dirigir a ele como Carlos, afinal eu o conhecia desde o meu primeiro livro de literatura. Melhor seria ser mais respeitosa, decidi usar Sr. Drummond. Pousei minha mão sobre a dele, num contrassenso com a formalidade escolhida.
- Como devo transpor as pedras do caminho? Como ver a beleza além do excesso de luz ou das sombras dos que me acompanham na caminhada? – perguntei.
Seu semblante permaneceu imóvel, perpetuado num invólucro de bronze.
- Como poderia me responder?
De costas para o mar, o poeta não viu o espetáculo que o sol apresentava ao tingir o céu de tons de fogo, até sua última reverência antes do mergulho no horizonte, cedendo assim o palco para que a noite se fizesse estrelada. Nos meios tons do crepúsculo, as incertezas são inspiradoras.
A resposta às minhas dúvidas estaria na própria vida de Drummond, servidor público, modesto e recatado, mas que deixou um trabalho que é um dos mais importantes da literatura brasileira e que continuará influenciando as novas gerações, fazendo com que permaneça vivo muito além de seu tempo.
Conclui que a beleza não está na luz que ofusca quem também quer iluminar nem na sombra provocada por quem quer se agigantar.
A beleza está no legado que cada um vai deixar.

Escrito por Academia de Letras, 17/08/2018 às 10h01 | elianarjz@gmail.com

ELES CONTINUAM AFIRMANDO, TU ÉS LOUCO!

Será que sou louco mesmo?

Só porque em lugar desses braços,
eu queria ter duas asas,
para poder voar
como uma gaivota anda na terra?

Sou louco, porque
eu ando pelas ruas
com a mão no bolso do infinito.

Louco porque ando
de cabeça baixa,
olhando para os pés,
porque são verdes de esperança.

Doido, porque amo minhas duas Mães:
a que me criou e fez eu ser o que sou...
e a que me deixa verde de alegria,
a natureza.

Eu posso, ser louco, e daí?

Um louco que quer
uma casinha onde mora o sol,
que dorme no chão,
para não cair da cama.

E ter na parede do meu quarto,
o pôster do futuro.
Sabe o que eu acho?
Devo ser louco!

Porque eu vi a estátua de Jesus Cristo,
bater palmas, quando o Brasil ganhou a copa.
corro para o meu quarto,
e me escondo, debaixo da cama!

Você está sacando?
Que o homem pode ocupar a lua.

Pobrezinha da lua,
ficaria igualzinha à terra.

Dizem que sou tantã,
porque converso com os insetos!
Doido, pois penso pelas estrelas.
Pinel, porque medito através da lua.

Além de tudo, sou desligado,
e tenho mais percepção do que visão,
e creio no destino.

Sou lelé porque curto a música,
sou careta porque estudo,
e não admiro o álcool.

Não é à toa que me chamam de louco...
mas na verdade,
me acho estranho.

Além de ser doido, louco,
careta, Pinel, lelé, tantã e estranho,
gosto demais de viver,
amo a vida como ela é...

Eu sou um ser humano,
um animal que dizem ser racional,
e sendo tal sou normal.

Vocês não acham que é uma
lou... lou... loucura
extraordinária e inédita...?

 

Eduardo Torto Meneghelli (composta em 1985)

 

Site da Academia de Letras: http://albc.com.br/

Escrito por Academia de Letras, 06/08/2018 às 10h25 | elianarjz@gmail.com



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