Jornal Página 3
Coluna
ALBC Ecos Literários
Por Academia de Letras

DOIS DEDOS

Conceda-me dois dedos de prosa
É a distância entre duas arvores
Onde estão pendurados
Pedaços de sonhos que o vento carregou
Me dê dois dedos
os coloco na presença do meu olhar
para tatuar impressões digitais
nas retinas do tempo
me dê dois sóis de setembro entre
a distância das arvores
me dê
uma prosa
me dê
uma esquina de pensamento
me dê
que enlouqueço com o que
me dás.


By MLK
Maria Luiza Kuhn
2019

Escrito por Academia de Letras, 27/02/2019 às 12h56 | elianarjz@gmail.com

Trovas Ecológicas

Enquanto se der endosso
à ganância insaciável,
futuro é fundo de poço
que não tem água potável.
Eliana Jimenez/SC


A árvore cai vencida,
cai vencida sem um gesto,
sem um gesto perde a vida,
perde a vida sem protesto.
Sônia Sobreira/RJ


Poluindo o mar, a serra,
devastando tudo, a esmo,
o homem, agredindo a Terra
declara guerra a si mesmo!
Antonio Juracy Siqueira/PA


É dinheiro abençoado,
merecedor de elogio,
todo aquele que é usado
ao despoluir um rio!
Eliana Palma – PR


Quem nos pomares da vida
planta o mal, colhe seus frutos
que a Natureza, agredida,
cobra pesados tributos!
Antonio Juracy Siqueira/PA


Que a ganância descabida
poupe os bens fundamentais.
- Sem ouro mantém-se a vida;
sem água limpa, jamais.
A. A. de Assis/PR


Hão de nos ser muito gratas
as futuras gerações,
se, em vez de queimar as matas
queimarmos as ambições!...
A. A. de Assis/PR


O mar de um azul profundo
e as montanhas esverdeadas,
são belezas desse mundo,
precisam ser preservadas.
Eliana Jimenez/SC

Escrito por Academia de Letras, 12/02/2019 às 15h15 | elianarjz@gmail.com

Mariana e Brumadinho

Num tom profético, Carlos Drummond de Andrade publicou o poema "Lira Itabirana" no Jornal Cometa Itabirano, em 1984:

O Rio? É doce.
A Vale? Amarga.
Ai, antes fosse
Mais leve a carga.
Entre estatais
E multinacionais,
Quantos ais!
A dívida interna.
A dívida externa
A dívida eterna.
Quantas toneladas exportamos
De ferro?
Quantas lágrimas disfarçamos
Sem berro?

Por todo o país, poetas transformam o sentimento de dor em poemas como esses abaixo:

Mariana e Brumadinho
tristes destinos iguais:
Os dois vão pagando o preço
da tristeza dos seus ais;
e a ganância dos minérios
fez deles, dois cemitérios
da rota dos lamaçais!

Prof. Francisco Garcia, Caicó/RN

POR QUEM MAIS AINDA OS SINOS DOBRARÃO?
Mariana e Brumadinho são aquelas
Construídas no caminho da tormenta!
Soçobraram sob as mais cruéis procelas
Na cruel realidade lamacenta.

E as paisagens quais sublimes aquarelas
Sucumbiram à hecatombe mais sangrenta
Qual tragédias que seguiam paralelas
Filhas, sim, da realidade fraudulenta.

Qual o preço recebido, deputado?
E a barragem sendo assim, mal construída?
E do que é feito, enfim, seu coração?

Jaz o irmão, lá, sob o barro, sepultado,
Que pagou por sua cobiça com a vida!
Por quem mais ainda os sinos dobrarão?

JB Xavier, São Paulo - SP

Escrito por Academia de Letras, 31/01/2019 às 10h35 | elianarjz@gmail.com

SUGESTÃO PARA O NOVO ANO

            (ou para a nova vida)

              expande teu olhar
                para mais além
            que a vista enxerga

              estende tua mão
             para mais distante
          que teu braço alcança 

            dispersa teu sorriso
              para mais rostos
          que os que conheces 

               distribui teu pão
             para mais pessoas
            que as da tua mesa

            abre teu coração
            para mais irmãos
       que em teu afeto acolhes

             Teca Mascarenhas

Escrito por Academia de Letras, 02/01/2019 às 09h56 | elianarjz@gmail.com

A TOALHINHA DE NATAL

Não sou do tipo que se comove com comercial de margarina no Natal e aproveito os feriados para mexer nas minhas coisas, organizar armários, sem necessariamente me sentir miserável por não ter uma família grande e festiva. Gosto principalmente de achar coisas de que não mais me lembrava e as ganho novamente como se novas fossem.

Naquela tarde, uma das gavetas que acabara de arrumar emperrou e eu não conseguia mais encaixá-la no lugar. A solução que me ocorreu foi remover todas as gavetas do armário para ver se não havia algo trancando por trás. Encontrei, nas catacumbas da minha falta de tempo, uma meia solitária que perdeu seu par há muito tempo e, mais ao fundo, uma toalhinha de lavabo delicadamente bordada com uma fileira de papais-noéis amarelados.

Como num portal do tempo, viajei trinta anos até o dia em que ganhei a toalha, presente de uma aluna. Professorinha recém-formada, fui contratada para lecionar Português e Literatura em curso matutino de supletivo. A turma era composta por senhoras já idosas, mas alegres, interessadas e esforçadas.  Inexperiente, julguei que, pela maturidade, poderiam se deliciar com O menino do Engenho, de José Lins do Rego, e indiquei o livro para um fichamento.

As senhoras da cidade grande ficaram horrorizadas com as aventuras de Carlinhos na fazenda do avô e certa manhã me esperavam consternadas para uma conversa séria. Questionaram o porquê de eu adotar um livro tão impudico, com meninos fazendo porcarias. “Onde já se viu, escrever uma coisa dessas”, disse uma delas,  apontando um trecho sublinhado em vermelho, onde se lia “tínhamos as nossas cabras e as nossas vacas para encontros de lubricidade”. Fui pega de surpresa e não defendi a obra. Seria inútil dizer que a premiada narrativa de 1932 retratava a realidade de uma época e estava bem longe de ser uma indecência. Recusaram-se a prosseguir na leitura e indiquei outro título para o trabalho, que de tão inócuo na literatura nacional, nem me recordo mais do nome.

Superado o episódio, continuamos com ótimo relacionamento e no final do ano recebi vários presentinhos, entre eles a toalhinha primorosamente bordada pela mais idosa da turma, que acredito estivesse já beirando os setenta anos na época. Hoje, passados mais trinta, a matemática me faz sentir uma pitada de dor por não conseguir imaginá-la centenária. Admito sentir certa culpa por não lembrar seu nome, mas me restou a lembrança de sua habilidade e gentileza em forma de toalha.

Meu primeiro ano como professora acabou em festa naquela turma de senhoras, mas foi também o meu último ano de magistério. Em dezembro o diretor daquela escola particular mandava embora todos os funcionários, porque era época de inflação alta e os contratados ganhavam aumentos que o mercado não acompanhava. Em fevereiro, fazia nova seleção, preenchendo o quadro de professores com recém-formados, pagando muito menos e aumentando os lucros. Foi assim que desisti da minha vocação de melhorar o mundo em sala de aula.

Fui trabalhar numa multinacional, apartando-me das Letras. Como alento, escrevia poesias tristes na hora do almoço:

Escritório
sina de todo dia
multidão comprimida
na total monotonia.
A porta fecha
deixando a vida lá fora
o relógio é moroso
e a saída demora.
Presos na caverna de luxo
onde o sol não entra
onde a chuva não molha
e até o ar é condicionado [...].

Passei por uma enchente nessa época em que trabalhava no escritório e perdi quase tudo o que havia de material na minha vida. Só me restaram as coisas laváveis ou as que não estavam comigo. Após alguns dias, recebi os livros que havia emprestado, gravações com as músicas favoritas, um álbum de fotos, meu caderno de poesias e outras coisas mais. Devagar, fui me resgatando nesses pedacinhos espalhados de mim.


Depois de todos esses anos, a velha toalha de Papai Noel, que resistiu à enchente e bravamente me acompanhou, mesmo escondidinha no fundo do armário, mostrou a importância de dedicar a quem nos cerca aquilo que temos de melhor: um trabalho, uma obra, um poema, um pensamento. Agradeço àquela minha aluna por ter ensinado essa importante lição à professora: só permanecemos além da própria existência naquilo que repartimos.


DOMINGO, 24 DE JANEIRO DE 2016
IV Prêmio Literário Cidade Poesia - Bragança Paulista/SP - 2015
O ESTRANHO

Tarde entediante no escritório. Os ponteiros do grande relógio na parede central pareciam zombar da minha vontade de ir embora.
O falatório de um grupo de engravatados em frente à máquina de café me chamou a atenção. Um dos homens pareceu me fitar. “Não pode ser” – pensei, incrédula. Disfarcei e olhei novamente. Aquele estranho estava me olhando acintosamente. Havia algo de familiar nele. Senti um arrepio capaz de eriçar até os meus cílios. Tentei me concentrar na tela do computador, sem sucesso. Ele terminou o café e virou-se na minha direção. Estremeci.
- O que eu faria se ele viesse até mim e dissesse “Boa tarde”.
- Boa tarde, - responderia, tímida como sempre, lamentando os anos de terapia que paguei sem me transformar na mulher segura e extrovertida dos meus sonhos.
- Você tem a cotação da soja de hoje? – perguntaria ele, para puxar conversa.
- Tenho sim, está aqui no sistema – e naquele momento não conseguiria mais digitar, sequer lembraria da minha senha e sentiria as mãos suarem, num gotejar incômodo. Notando meu desconforto, ele pousaria suavemente sua mão sobre a minha e falaria com uma voz sonora e relaxante:
- Não fique nervosa, Bia, sou eu!
- Você? Sabe que o esperei a vida toda? Por onde andou todo esse tempo? – perguntaria, já confessando os meus sentimentos, encorajada pelo semblante seguro e afável daquele homem.
- Foram tantos caminhos desviados, tantas bifurcações e escolhas erradas, que pensei que nunca a encontraria, mas, agora que a encontrei, nunca mais vou perder você de vista, - afirmaria ele. Emocionada, assentiria com a cabeça, enquanto uma lágrima placidamente deslizaria no meu rosto...
Naquele instante, o telefone tocou, fazendo com que eu saísse do meu momento de devaneio. Atendi, enquanto observava o homem jogando o copo de café no cesto de lixo e iniciando a caminhada até a minha mesa, mas naquele exato momento, o gerente da área o chamou e o levou para outro setor da empresa. Não o vi mais.
O horário de saída chegou sem me deixar feliz. Só pensava naquele homem. Procurei por ele nas salas de reunião, na lanchonete em frente ao escritório, nas ruas movimentadas. Depois seguidamente, na minha rotina, nas noites vazias, nos sonhos secretos e até hoje, persistentemente, espero por ele, o homem que virá na minha direção com a certeza das coisas que têm que ser. O homem que vai mudar a minha vida.


Eliana Ruiz Jimenez
Crônica classificada no Prêmio Nacional de Artes da Estância Turística de Tupã 5º. Festival de Literatura - 2015

Escrito por Academia de Letras, 19/12/2018 às 12h52 | elianarjz@gmail.com

Mais um ano se finda!

Odir Lehmkuhl

É, estamos chegando a mais um final de ano! Você sabe que quando 2018 começou, o ano era todinho teu, pois tinhas em tuas mãos, 365 dias pra ti viver!  Quase todos você já viveu. Tu podias fazer o que quisesses, pois o ano era como um livro em branco e, no prefácio podias e devias colocar teus objetivos de vida! Podias, agora não podes mais, pois 2018 já não é mais todinho teu. O que fizestes com teus dias deste ano? Podias durante esse tempo do ano, fazer e viver poesias, romances, pesadelos, blasfêmias, erros, sonhos, desejos, realizações, orações, raivas, ódios, ofensas, perdões, paz, verdades e amores! Agora o ano de 2018 é teu livro já quase todo escrito, mais uns dias e estará concluído, pois ainda te restam uns dias, tu tens ainda algumas folhas do livro em branco. Cuida para que as próximas páginas tenham lindos registros, antes que chegue o fim, teu epílogo. Esse livro da tua vida que está sendo escrito por ti, um dia te será lido, com todos os detalhes e, tu não poderás mais corrigi-lo, pois estará registrado no Salão das Memórias, no Castelo das Recordações, editado e registrado no Registro Akáshico da vida! Mas hoje, antes que 2018 termine, reflita, toma esse teu livro, folheia com cuidado e leia! Veja no teu livro da vida o que escrevestes. Repasse cada página pela tua mente, conscientemente. Reveja tuas ações nos escritos dos teus dias, leia tudo! Aprecie aquelas páginas da tua vida nas quais usastes de ti o melhor. Leia também naquelas páginas aquilo que gostarias de nunca as ter escrito. Não tente arrancar essas folhas do livro da tua história, não dá mais pra apagar nem rasgar teus escritos da vida. Hoje tens nova página da vida, use-a com teu estilo melhor! Você que me lê, lembre que em breve mais um ano termina! Desejo que esse restante de ano, venha repleto de surpresas agradáveis e lindas na tua vida! E quando continuares a escrever as últimas páginas do teu livro da vida, veja bem o que vais escrever. Se quiser, podes repetir as coisas boas que já escrevestes e, escrever coisas novas e lindas também mas, evita repetir coisas ruins que pra você já não prestam, tu tens livre arbítrio. Mas atente, presta atenção: se você tiver vontade de beijar o teu velho livro deste ano, beije-o! Se tiver vontade de chorar, chore! Se você tiver vontade de rir, de cantar, dançar, faça isso! Ainda que tenha páginas que gostarias de não as ter escrito, agradeça a Deus pelo dom da tua vida! Continuas com vida, que bom! Não te esqueças de te lembrar que, quando 2018 terminar e, 2019 raiar, terás em tuas mãos um livro novo em branco, será teu diário da vida. Ao receberes o novo livro no dia primeiro de janeiro de 2019, registre as tuas lindas histórias todo dia e, procura viver bem! Que na última página nesse livro deste ano, como epílogo, entes de escreveres FIM, quero ver escrito assim: - Tudo isso passou, me serviu de experiência e foi bom, pois mais um ano eu vivi, mais um ano eu venci!

Escrito por Academia de Letras, 12/12/2018 às 10h26 | elianarjz@gmail.com



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DOIS DEDOS

Conceda-me dois dedos de prosa
É a distância entre duas arvores
Onde estão pendurados
Pedaços de sonhos que o vento carregou
Me dê dois dedos
os coloco na presença do meu olhar
para tatuar impressões digitais
nas retinas do tempo
me dê dois sóis de setembro entre
a distância das arvores
me dê
uma prosa
me dê
uma esquina de pensamento
me dê
que enlouqueço com o que
me dás.


By MLK
Maria Luiza Kuhn
2019

Escrito por Academia de Letras, 27/02/2019 às 12h56 | elianarjz@gmail.com

Trovas Ecológicas

Enquanto se der endosso
à ganância insaciável,
futuro é fundo de poço
que não tem água potável.
Eliana Jimenez/SC


A árvore cai vencida,
cai vencida sem um gesto,
sem um gesto perde a vida,
perde a vida sem protesto.
Sônia Sobreira/RJ


Poluindo o mar, a serra,
devastando tudo, a esmo,
o homem, agredindo a Terra
declara guerra a si mesmo!
Antonio Juracy Siqueira/PA


É dinheiro abençoado,
merecedor de elogio,
todo aquele que é usado
ao despoluir um rio!
Eliana Palma – PR


Quem nos pomares da vida
planta o mal, colhe seus frutos
que a Natureza, agredida,
cobra pesados tributos!
Antonio Juracy Siqueira/PA


Que a ganância descabida
poupe os bens fundamentais.
- Sem ouro mantém-se a vida;
sem água limpa, jamais.
A. A. de Assis/PR


Hão de nos ser muito gratas
as futuras gerações,
se, em vez de queimar as matas
queimarmos as ambições!...
A. A. de Assis/PR


O mar de um azul profundo
e as montanhas esverdeadas,
são belezas desse mundo,
precisam ser preservadas.
Eliana Jimenez/SC

Escrito por Academia de Letras, 12/02/2019 às 15h15 | elianarjz@gmail.com

Mariana e Brumadinho

Num tom profético, Carlos Drummond de Andrade publicou o poema "Lira Itabirana" no Jornal Cometa Itabirano, em 1984:

O Rio? É doce.
A Vale? Amarga.
Ai, antes fosse
Mais leve a carga.
Entre estatais
E multinacionais,
Quantos ais!
A dívida interna.
A dívida externa
A dívida eterna.
Quantas toneladas exportamos
De ferro?
Quantas lágrimas disfarçamos
Sem berro?

Por todo o país, poetas transformam o sentimento de dor em poemas como esses abaixo:

Mariana e Brumadinho
tristes destinos iguais:
Os dois vão pagando o preço
da tristeza dos seus ais;
e a ganância dos minérios
fez deles, dois cemitérios
da rota dos lamaçais!

Prof. Francisco Garcia, Caicó/RN

POR QUEM MAIS AINDA OS SINOS DOBRARÃO?
Mariana e Brumadinho são aquelas
Construídas no caminho da tormenta!
Soçobraram sob as mais cruéis procelas
Na cruel realidade lamacenta.

E as paisagens quais sublimes aquarelas
Sucumbiram à hecatombe mais sangrenta
Qual tragédias que seguiam paralelas
Filhas, sim, da realidade fraudulenta.

Qual o preço recebido, deputado?
E a barragem sendo assim, mal construída?
E do que é feito, enfim, seu coração?

Jaz o irmão, lá, sob o barro, sepultado,
Que pagou por sua cobiça com a vida!
Por quem mais ainda os sinos dobrarão?

JB Xavier, São Paulo - SP

Escrito por Academia de Letras, 31/01/2019 às 10h35 | elianarjz@gmail.com

SUGESTÃO PARA O NOVO ANO

            (ou para a nova vida)

              expande teu olhar
                para mais além
            que a vista enxerga

              estende tua mão
             para mais distante
          que teu braço alcança 

            dispersa teu sorriso
              para mais rostos
          que os que conheces 

               distribui teu pão
             para mais pessoas
            que as da tua mesa

            abre teu coração
            para mais irmãos
       que em teu afeto acolhes

             Teca Mascarenhas

Escrito por Academia de Letras, 02/01/2019 às 09h56 | elianarjz@gmail.com

A TOALHINHA DE NATAL

Não sou do tipo que se comove com comercial de margarina no Natal e aproveito os feriados para mexer nas minhas coisas, organizar armários, sem necessariamente me sentir miserável por não ter uma família grande e festiva. Gosto principalmente de achar coisas de que não mais me lembrava e as ganho novamente como se novas fossem.

Naquela tarde, uma das gavetas que acabara de arrumar emperrou e eu não conseguia mais encaixá-la no lugar. A solução que me ocorreu foi remover todas as gavetas do armário para ver se não havia algo trancando por trás. Encontrei, nas catacumbas da minha falta de tempo, uma meia solitária que perdeu seu par há muito tempo e, mais ao fundo, uma toalhinha de lavabo delicadamente bordada com uma fileira de papais-noéis amarelados.

Como num portal do tempo, viajei trinta anos até o dia em que ganhei a toalha, presente de uma aluna. Professorinha recém-formada, fui contratada para lecionar Português e Literatura em curso matutino de supletivo. A turma era composta por senhoras já idosas, mas alegres, interessadas e esforçadas.  Inexperiente, julguei que, pela maturidade, poderiam se deliciar com O menino do Engenho, de José Lins do Rego, e indiquei o livro para um fichamento.

As senhoras da cidade grande ficaram horrorizadas com as aventuras de Carlinhos na fazenda do avô e certa manhã me esperavam consternadas para uma conversa séria. Questionaram o porquê de eu adotar um livro tão impudico, com meninos fazendo porcarias. “Onde já se viu, escrever uma coisa dessas”, disse uma delas,  apontando um trecho sublinhado em vermelho, onde se lia “tínhamos as nossas cabras e as nossas vacas para encontros de lubricidade”. Fui pega de surpresa e não defendi a obra. Seria inútil dizer que a premiada narrativa de 1932 retratava a realidade de uma época e estava bem longe de ser uma indecência. Recusaram-se a prosseguir na leitura e indiquei outro título para o trabalho, que de tão inócuo na literatura nacional, nem me recordo mais do nome.

Superado o episódio, continuamos com ótimo relacionamento e no final do ano recebi vários presentinhos, entre eles a toalhinha primorosamente bordada pela mais idosa da turma, que acredito estivesse já beirando os setenta anos na época. Hoje, passados mais trinta, a matemática me faz sentir uma pitada de dor por não conseguir imaginá-la centenária. Admito sentir certa culpa por não lembrar seu nome, mas me restou a lembrança de sua habilidade e gentileza em forma de toalha.

Meu primeiro ano como professora acabou em festa naquela turma de senhoras, mas foi também o meu último ano de magistério. Em dezembro o diretor daquela escola particular mandava embora todos os funcionários, porque era época de inflação alta e os contratados ganhavam aumentos que o mercado não acompanhava. Em fevereiro, fazia nova seleção, preenchendo o quadro de professores com recém-formados, pagando muito menos e aumentando os lucros. Foi assim que desisti da minha vocação de melhorar o mundo em sala de aula.

Fui trabalhar numa multinacional, apartando-me das Letras. Como alento, escrevia poesias tristes na hora do almoço:

Escritório
sina de todo dia
multidão comprimida
na total monotonia.
A porta fecha
deixando a vida lá fora
o relógio é moroso
e a saída demora.
Presos na caverna de luxo
onde o sol não entra
onde a chuva não molha
e até o ar é condicionado [...].

Passei por uma enchente nessa época em que trabalhava no escritório e perdi quase tudo o que havia de material na minha vida. Só me restaram as coisas laváveis ou as que não estavam comigo. Após alguns dias, recebi os livros que havia emprestado, gravações com as músicas favoritas, um álbum de fotos, meu caderno de poesias e outras coisas mais. Devagar, fui me resgatando nesses pedacinhos espalhados de mim.


Depois de todos esses anos, a velha toalha de Papai Noel, que resistiu à enchente e bravamente me acompanhou, mesmo escondidinha no fundo do armário, mostrou a importância de dedicar a quem nos cerca aquilo que temos de melhor: um trabalho, uma obra, um poema, um pensamento. Agradeço àquela minha aluna por ter ensinado essa importante lição à professora: só permanecemos além da própria existência naquilo que repartimos.


DOMINGO, 24 DE JANEIRO DE 2016
IV Prêmio Literário Cidade Poesia - Bragança Paulista/SP - 2015
O ESTRANHO

Tarde entediante no escritório. Os ponteiros do grande relógio na parede central pareciam zombar da minha vontade de ir embora.
O falatório de um grupo de engravatados em frente à máquina de café me chamou a atenção. Um dos homens pareceu me fitar. “Não pode ser” – pensei, incrédula. Disfarcei e olhei novamente. Aquele estranho estava me olhando acintosamente. Havia algo de familiar nele. Senti um arrepio capaz de eriçar até os meus cílios. Tentei me concentrar na tela do computador, sem sucesso. Ele terminou o café e virou-se na minha direção. Estremeci.
- O que eu faria se ele viesse até mim e dissesse “Boa tarde”.
- Boa tarde, - responderia, tímida como sempre, lamentando os anos de terapia que paguei sem me transformar na mulher segura e extrovertida dos meus sonhos.
- Você tem a cotação da soja de hoje? – perguntaria ele, para puxar conversa.
- Tenho sim, está aqui no sistema – e naquele momento não conseguiria mais digitar, sequer lembraria da minha senha e sentiria as mãos suarem, num gotejar incômodo. Notando meu desconforto, ele pousaria suavemente sua mão sobre a minha e falaria com uma voz sonora e relaxante:
- Não fique nervosa, Bia, sou eu!
- Você? Sabe que o esperei a vida toda? Por onde andou todo esse tempo? – perguntaria, já confessando os meus sentimentos, encorajada pelo semblante seguro e afável daquele homem.
- Foram tantos caminhos desviados, tantas bifurcações e escolhas erradas, que pensei que nunca a encontraria, mas, agora que a encontrei, nunca mais vou perder você de vista, - afirmaria ele. Emocionada, assentiria com a cabeça, enquanto uma lágrima placidamente deslizaria no meu rosto...
Naquele instante, o telefone tocou, fazendo com que eu saísse do meu momento de devaneio. Atendi, enquanto observava o homem jogando o copo de café no cesto de lixo e iniciando a caminhada até a minha mesa, mas naquele exato momento, o gerente da área o chamou e o levou para outro setor da empresa. Não o vi mais.
O horário de saída chegou sem me deixar feliz. Só pensava naquele homem. Procurei por ele nas salas de reunião, na lanchonete em frente ao escritório, nas ruas movimentadas. Depois seguidamente, na minha rotina, nas noites vazias, nos sonhos secretos e até hoje, persistentemente, espero por ele, o homem que virá na minha direção com a certeza das coisas que têm que ser. O homem que vai mudar a minha vida.


Eliana Ruiz Jimenez
Crônica classificada no Prêmio Nacional de Artes da Estância Turística de Tupã 5º. Festival de Literatura - 2015

Escrito por Academia de Letras, 19/12/2018 às 12h52 | elianarjz@gmail.com

Mais um ano se finda!

Odir Lehmkuhl

É, estamos chegando a mais um final de ano! Você sabe que quando 2018 começou, o ano era todinho teu, pois tinhas em tuas mãos, 365 dias pra ti viver!  Quase todos você já viveu. Tu podias fazer o que quisesses, pois o ano era como um livro em branco e, no prefácio podias e devias colocar teus objetivos de vida! Podias, agora não podes mais, pois 2018 já não é mais todinho teu. O que fizestes com teus dias deste ano? Podias durante esse tempo do ano, fazer e viver poesias, romances, pesadelos, blasfêmias, erros, sonhos, desejos, realizações, orações, raivas, ódios, ofensas, perdões, paz, verdades e amores! Agora o ano de 2018 é teu livro já quase todo escrito, mais uns dias e estará concluído, pois ainda te restam uns dias, tu tens ainda algumas folhas do livro em branco. Cuida para que as próximas páginas tenham lindos registros, antes que chegue o fim, teu epílogo. Esse livro da tua vida que está sendo escrito por ti, um dia te será lido, com todos os detalhes e, tu não poderás mais corrigi-lo, pois estará registrado no Salão das Memórias, no Castelo das Recordações, editado e registrado no Registro Akáshico da vida! Mas hoje, antes que 2018 termine, reflita, toma esse teu livro, folheia com cuidado e leia! Veja no teu livro da vida o que escrevestes. Repasse cada página pela tua mente, conscientemente. Reveja tuas ações nos escritos dos teus dias, leia tudo! Aprecie aquelas páginas da tua vida nas quais usastes de ti o melhor. Leia também naquelas páginas aquilo que gostarias de nunca as ter escrito. Não tente arrancar essas folhas do livro da tua história, não dá mais pra apagar nem rasgar teus escritos da vida. Hoje tens nova página da vida, use-a com teu estilo melhor! Você que me lê, lembre que em breve mais um ano termina! Desejo que esse restante de ano, venha repleto de surpresas agradáveis e lindas na tua vida! E quando continuares a escrever as últimas páginas do teu livro da vida, veja bem o que vais escrever. Se quiser, podes repetir as coisas boas que já escrevestes e, escrever coisas novas e lindas também mas, evita repetir coisas ruins que pra você já não prestam, tu tens livre arbítrio. Mas atente, presta atenção: se você tiver vontade de beijar o teu velho livro deste ano, beije-o! Se tiver vontade de chorar, chore! Se você tiver vontade de rir, de cantar, dançar, faça isso! Ainda que tenha páginas que gostarias de não as ter escrito, agradeça a Deus pelo dom da tua vida! Continuas com vida, que bom! Não te esqueças de te lembrar que, quando 2018 terminar e, 2019 raiar, terás em tuas mãos um livro novo em branco, será teu diário da vida. Ao receberes o novo livro no dia primeiro de janeiro de 2019, registre as tuas lindas histórias todo dia e, procura viver bem! Que na última página nesse livro deste ano, como epílogo, entes de escreveres FIM, quero ver escrito assim: - Tudo isso passou, me serviu de experiência e foi bom, pois mais um ano eu vivi, mais um ano eu venci!

Escrito por Academia de Letras, 12/12/2018 às 10h26 | elianarjz@gmail.com



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