Jornal Página 3
Coluna
ALBC Ecos Literários
Por Academia de Letras

Para o dia em que a pandemia acabar

Pé ante pé. Como se qualquer ruído pudesse acordar o inimigo. Aproximei-me da porta, girei a chave e abri devagar. Estremeci com os rangidos da madeira e dos metais enferrujados por falta de uso.
Haveria mesmo segurança? O medo ainda me questionava, companheiro de tantos meses. Como seria voltar a andar pela cidade, ver vitrines de lojas abertas, pedir um café na lanchonete, sem imaginar tosse e espirros.

Foram tantos filmes de catástrofes que vi no cinema. Duas horas de tragédias que terminavam tranquilamente na praça de alimentação. O homem sempre vencia os terremotos, tsunamis, guerras, invasões de alienígenas, colisão de asteroides.

Tudo era fácil e acessível e a vida corria vaidosa entre uma selfie e outra nas redes sociais. Nada tinha o poder de transformar apatia em empatia, de aproximar ricos e pobres no mesmo grau de risco.

A insignificância humana ficou tão amargamente exposta. Que ser vivo é esse que sabota o equilíbrio do planeta incendiando florestas, sujando rios, maltratando animais a ainda brinca com energia nuclear, constrói bombas e deixa seus iguais à míngua do próprio infortúnio enquanto faz média com o divino, comparecendo ao culto dominical, “just in case”.

Veio o vírus da China, assim como vem a quase totalidade das lâmpadas produzidas no planeta. Escuridão e luz vindos do mesmo lugar.

Um vírus que transformou crianças em assintomáticos mosquitinhos transmissores da doença, cancelando os almoços com os avós.

Infectou os idosos na velocidade e na ordem crescente de suas vivências, deixou camas vazias em casas de saúde e fez escorrer pelos dedos o poder de quem achava que o detinha.

Quarentena. Trancada comigo mesma, domando meus leões, amestrando meus medos e saltando de picadeiros imaginários em noites sem sono.

Era preciso caminhar pelo túnel longo escuro sem a bendita luz arredondada que vai aumentando quando a saída está próxima, mostrando os verdes da estrada. Para prosseguir, uma vela iluminando apenas o passo seguinte, um de cada vez.

Passado o tempo necessário, chegou o momento tão sonhado: a pandemia sob controle. “Tudo chega, tudo passa”, dizia meu pai, que por sorte não estava mais aqui para presenciar o maior desafio da humanidade depois da 2ª. Guerra Mundial.

Lentamente tiro a máscara cirúrgica. A brisa faz um carinho delicado no rosto que nunca antes havia me permitido valorizar. Com vários novos hábitos adquiridos e com a exata dimensão do que realmente importa, respiro fundo e ganho a rua, a praça, a praia e a vida de volta. 

Eliana Ruiz Jimenez é a atual presidente da ALBC.
Escreve crônicas, contos, poemas livres, trovas, haicais e literatura infantil e infantojuvenil. Possui mais de 100 prêmios literários em vários gêneros. Autora dos livros: A tropa do ambiente em: A internet do futuro, HAHAHA Não tem graça, O AMBIENTALISTA – Uma aventura mística em Balneário Camboriú e ATOBÁ – o cão-guia. O próximo lançamento, para o segundo semestre de 2020, será Maré de Haicais em Balneário Camboriú.
Escrito por Academia de Letras, 13/04/2020 às 14h57 | elianarjz@gmail.com



Academia de Letras

Assina a coluna ALBC Ecos Literários














Fale Conosco - Anuncie no Página 3 - Normas de Uso
© Desenvolvido por Página 3

Endereço: Rua 2448, 360 - Balneário Camboriú - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: [email protected]

Página 3
ALBC Ecos Literários
Por Academia de Letras

Para o dia em que a pandemia acabar

Pé ante pé. Como se qualquer ruído pudesse acordar o inimigo. Aproximei-me da porta, girei a chave e abri devagar. Estremeci com os rangidos da madeira e dos metais enferrujados por falta de uso.
Haveria mesmo segurança? O medo ainda me questionava, companheiro de tantos meses. Como seria voltar a andar pela cidade, ver vitrines de lojas abertas, pedir um café na lanchonete, sem imaginar tosse e espirros.

Foram tantos filmes de catástrofes que vi no cinema. Duas horas de tragédias que terminavam tranquilamente na praça de alimentação. O homem sempre vencia os terremotos, tsunamis, guerras, invasões de alienígenas, colisão de asteroides.

Tudo era fácil e acessível e a vida corria vaidosa entre uma selfie e outra nas redes sociais. Nada tinha o poder de transformar apatia em empatia, de aproximar ricos e pobres no mesmo grau de risco.

A insignificância humana ficou tão amargamente exposta. Que ser vivo é esse que sabota o equilíbrio do planeta incendiando florestas, sujando rios, maltratando animais a ainda brinca com energia nuclear, constrói bombas e deixa seus iguais à míngua do próprio infortúnio enquanto faz média com o divino, comparecendo ao culto dominical, “just in case”.

Veio o vírus da China, assim como vem a quase totalidade das lâmpadas produzidas no planeta. Escuridão e luz vindos do mesmo lugar.

Um vírus que transformou crianças em assintomáticos mosquitinhos transmissores da doença, cancelando os almoços com os avós.

Infectou os idosos na velocidade e na ordem crescente de suas vivências, deixou camas vazias em casas de saúde e fez escorrer pelos dedos o poder de quem achava que o detinha.

Quarentena. Trancada comigo mesma, domando meus leões, amestrando meus medos e saltando de picadeiros imaginários em noites sem sono.

Era preciso caminhar pelo túnel longo escuro sem a bendita luz arredondada que vai aumentando quando a saída está próxima, mostrando os verdes da estrada. Para prosseguir, uma vela iluminando apenas o passo seguinte, um de cada vez.

Passado o tempo necessário, chegou o momento tão sonhado: a pandemia sob controle. “Tudo chega, tudo passa”, dizia meu pai, que por sorte não estava mais aqui para presenciar o maior desafio da humanidade depois da 2ª. Guerra Mundial.

Lentamente tiro a máscara cirúrgica. A brisa faz um carinho delicado no rosto que nunca antes havia me permitido valorizar. Com vários novos hábitos adquiridos e com a exata dimensão do que realmente importa, respiro fundo e ganho a rua, a praça, a praia e a vida de volta. 

Eliana Ruiz Jimenez é a atual presidente da ALBC.
Escreve crônicas, contos, poemas livres, trovas, haicais e literatura infantil e infantojuvenil. Possui mais de 100 prêmios literários em vários gêneros. Autora dos livros: A tropa do ambiente em: A internet do futuro, HAHAHA Não tem graça, O AMBIENTALISTA – Uma aventura mística em Balneário Camboriú e ATOBÁ – o cão-guia. O próximo lançamento, para o segundo semestre de 2020, será Maré de Haicais em Balneário Camboriú.
Escrito por Academia de Letras, 13/04/2020 às 14h57 | elianarjz@gmail.com



Academia de Letras

Assina a coluna ALBC Ecos Literários