Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

MACHU PICCHU – O ENIGMA DA FALHA TECTÔNICA

Muito tem se falado na incrível capacidade do povo inca, em se construir cidades em locais inimagináveis, escarpas montanhosas e cumes aparentemente inacessíveis. O principal exemplo dessa capacidade é, sem dúvida, Machu Picchu. Contudo, novas investigações estão relacionando essa capacidade de construção a locais geológicos previamente escolhidos.

Segundo as investigações de Rualdo Menegat (Instituto de Geociências da UFRGS), a escolha do local de um novo assentamento urbano, está associada à capacidade deste tornar a futura cidade orgânica, em relação à paisagem que o circunda. Mas quais os elementos os incas encontraram que podem tornar isso possível? Podemos citar uma rede de falhas tectônicas, a forma das montanhas ao redor e as pedras provenientes dessa falha geológica.

A teoria investe no princípio do menor esforço civilizatório. Isso significa que os incas viram, no topo da montanha Huayna Picchu, condições favoráveis para a construção de um assentamento. E que condições seriam estas? Em primeiro lugar, povoamentos construídos sobre falhas e fraturas geológicas dispõem naturalmente de afloramentos rochosos fragmentados, ou seja, abundância de material rochoso para suas construções. Nota-se que Machu Picchu – ao contrário de outras construções ciclópicas – não apresenta grandes rochas moldadas. Sua maior parte é formada por pedras de tamanhos médio e pequeno. Utilizar a matéria prima local já é, por si, uma economia de energia humana.

Outra vantagem nesse processo seria a de criar possibilidade em “moldar” mais facilmente o solo topográfico de acordo com o plano da cidade e seus patamares de plantio. A retirada de rochas fragmentadas permite adaptar os setores urbanos às elevações do terreno. Esse design orgânico nas construções incaicas fazia parte, inclusive, da identidade que esse povo queria passar aos demais, como uma marca registrada de capacidade técnica e poder. Também podemos mencionar aqui, que a escolha do local estava associada à segurança que este criava em relação a deslizamentos de terra. A escolha de um local alto, com solo rochoso, impedia possíveis avalanches.

Contudo, talvez a principal vantagem ao se construir uma cidade sobre uma fratura geológica, seja mesmo a de proporcionar excelentes aquíferos! Por meio das fissuras rochosas, a água corria de forma abundante, precisando “apenas” ser canalizada da forma correta. Em se tratando de canalização da água, os povos pré-colombianos são mestres no assunto. Em Machu Picchu, podemos observar como a água que brota das fraturas rochosas é controlada por filetes esculpidos e canais artificiais que as direcionam aos patamares de plantio e residências desse mítico povoamento incaico.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite nossa página “Arqueologia Americana” no Facebook.

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 15/06/2020 às 09h50 | daltonmaziero@uol.com.br

O CALENDÁRIO ASTECA

México. Em 17 de dezembro de 1790, um grupo de operários realizava processos de nivelamento da Praça de Armas, no centro da cidade. Ainda não se sabia, mas ali, onde hoje fica a catedral, uma série de templos mexicas (antes chamados astecas) possuíam suas fundações, incluindo o hoje famoso Templo Mayor. O artefato que esses operários localizaram tinha 22 toneladas, 4 metros de diâmetro e quase 1 metro de espessura. Era verdadeiramente impressionante, coberto de hieróglifos enigmáticos.

O artefato ficou conhecido como “Pedra do Sol”, devido a imagem central do deus Tonatuih (Deus Sol). Após sua descoberta, a pedra ficou exposta na parede externa da Catedral (torre ocidental), até o ano de 1885, momento em que o general José de la Cruz Porfírio Diaz Mori (1830-1915) a mandou recolher para exposição e preservação, no Museu Nacional. Na ocasião, os países americanos recém-independentes, buscavam por símbolos de construção de sua própria identidade. E a descoberta desse artefato contribuiu em muito, com esse intuito. Alguns estudiosos acreditam que a pedra foi esculpida ao longo de 50 anos (século XV), e que sua elaboração exigiu um profundo conhecimento dos hieróglifos mexicas associados aos símbolos do tempo. É muito provável que a pedra, na prática, tenha funcionado como calendário de ciclos rituais e agrícolas; mas também como altar de sacrifícios em ocasiões especiais.

Os antigos mexicanos contavam seus anos através da combinação de 4 signos (Tlalpilli Tochtli, Acatl, Tecpatl e Calli) mais 13 signos variáveis que, juntos, formavam um período de 52 anos, chamado Xiuhnelpilli. Da mesma forma, as semanas e os anos recebiam símbolos próprios, muitas vezes associando animais (ou eventos climáticos) aos deuses: chuva = Tláloc; vento = Chantico; jaguar = Quetzalcoatl; macaco = Patecatl, e assim por diante. O ciclo ritual tinha 260 dias (260 Tónalpóhualli), divididos em 20 signos com 13 dias cada. Já o ciclo agrícola contava com 365 dias divididos em 18 meses de 20 dias cada. A estes se acrescentava um tempo extra de 5 dias.

Os dois ciclos (ritual e agrícola) caminhavam independentes, mas a cada 52 anos, eles coincidiam. Era então um momento muito especial na vida dos mexicas, quando ocorria grande número de sacrifícios solicitando à Tonatuih, que brilhasse por mais 52 anos, com seus raios solares. Esse ritual era chamado Fogo Novo, e tinha uma duração de aproximadamente 12 dias. Segundo informações do Museu Nacional de Antropologia do México – onde hoje está exposta – o artefato nunca foi finalizado devido a uma fratura na rocha. Segundo a mesma fonte, “se trata de um grande altar de sacrifícios gladiatórios, conhecido como temalacatl...foi utilizado com o propósito de sustentar a luta de guerreiros na cerimônia de tlacaxipehualiztli”

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite nossa página “Arqueologia Americana” no Facebook (clique aqui)
 

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 27/05/2020 às 11h07 | daltonmaziero@uol.com.br

USME – UMA NECRÓPOLE PRÉ-COLOMBIANA

Em 2007, uma fantástica descoberta arqueológica ocorreu na fazenda El Carmen (Usme), Colômbia. Uma cápsula do tempo, uma necrópole, que se soube depois, abrigava mais de 3 mil corpos dos povosmuisca e herrera. Ao todo, o terreno ocupa uma área de 30 hectares, convertendo-se na primeira área de conservação arqueológica de Bogotá. A descoberta só foi possível graças à um projeto social da empresa Metrovivienda, que projetava ali, mais de 3.500 residências do que seria um novo bairro popular. Quando uma retroescavadeira arrancou da terra, uma dúzia de corpos, deu-se conta da descoberta.

Ernesto Montenegro (ICANH – Instituto Colombiano de Antropologia e História) acredita que a descoberta jogará luz sobre o cotidiano e o modo de vida dos herreras e muiscas entre 800 e 1600 dC. Em sua opinião, “o que impressiona é que durante tantos séculos, havia sido esse local o escolhido por diversas culturas para enterrar seus mortos”. Para Virgílio Becerra (Universidade de Sorbona), o caráter sagrado do lugar está intimamente relacionado à presença da água, que brota em abundânciados rios Funcha, Requilina e Água Dulce. Segundo a mitologia muisca, a água era como o leite, que brotava dos seios da deusa Bachué, para alimentar os povos da terra.

Um dado interessante revelado, foi o da relação entre os últimos muiscas e os primeiros colonos da região. Isso foi comprovado nas escavações, com a descoberta de colares com contas de vidro italiano e em ossadas que apresentavam ferimentos de armas de fogo. Além disso, foram desenterradas 35 vasilhas completas, 300 mil fragmentos de cerâmica, peças em cobre, sementes, colares e ossos de animais. A estimativa é que nem 1% do potencial do sítio foi explorado ainda.

Segundo o Drº Ernesto Montenegro (ICANH), “Outro aspecto muito importante é que, historicamente, se falava dos Herreras e dos Muiscas como períodos diferentes da história. Todavia, nesta necrópole encontramos restos de pessoas do período Herrera (600 a 1000 dC) e Muisca (1200 a 1600 dC) sem que houvesse cortes temporais. É a primeira vez que se realiza uma descoberta que testemunhe essa continuidade”. Outro dado interessante foi a descoberta de fauna amazônica nos enterramentos. Isso prova que existia uma relação muito viva entre as duas regiões.

Embora a Necrópole de Usme não se enquadre na categoria de sítio monumental, como San Agustín ou Ciudad Perdida, é sem dúvida de vital importância para a reconstrução da história dos povos pré-colombianos. Segundo Clarisa Ruiz – Secretaria de Cultura de Bogotá – o objetivo é criar um projeto de um Parque Arqueológico, de interesse cultural, com museu e trilhas.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite nossa página “Arqueologia Americana” no Facebook.

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 04/05/2020 às 16h14 | daltonmaziero@uol.com.br

WARU WARUS - ALIMENTO NO MUNDO PRÉ-COLOMBIANO

 

Em 1997, quando contornei a pé o Lago Titicaca (Peru/Bolívia), tive a oportunidade de conhecer uma das maiores criações do mundo pré-colombiano: os WaruWarus ou Camellones, como também são conhecidos. Trata-se de um sistema de plantio quenão foi superado por nenhum outro povo do passado. Eu os vi em pleno Altiplano, em um experimento comunitário.

Existem camellones de vários tamanhos. Os maiores foram localizados nas proximidades da antigaTiwanaku, na Bolívia. Possuíam 50 metros de largura por 200 de comprimento. O termo “camellones” provém de sua semelhança às corcovas de um camelo. Na verdade, são plataformas artificiais, construídas em camadas, aproveitando terrenos baixos e alagados. Essa fabulosa engenharia agronômica foi aplicada principalmente para o plantio de batatas e quinua. Para se ter uma ideia de seu potencial, basta fazer uma comparação: em terreno normal, um hectare produz 2 mil quilos de batata; nos camellones essa produção sobre para 20 mil quilos!

Em 1920, o arqueólogo Max Uhle chamou a atenção para o potencial dos waruwarus. Em recentes experimentos governamentais, vi fotos de batatas enormes, quase do tamanho da cabeça de uma pessoa. Vestígios desse sistema forma encontrados em uso no ano 1000 aC. Com isso, muitos conseguiram uma superprodução agrícola. O segredo do sistema está na criação de morros artificiais entremeados por canais de água. Dentro desses morros, foram encontrados quatro estratos: ao nível d'água (base), colocavam uma camada de pedras. Por cima desta, uma de argila impermeável. Em seguida, vinham duas camadas de cascalho, sendo a de cima mais fina. Por cima de tudo, vinha a terra para o plantio.O sistema foi utilizado pelos povos chiripa, púcara, tiwanaku, colla, pacajes, lupacas, entre outros. Além da superprodução resultante, este sistema tem outras vantagens para a região: com a distribuição das águas, cria-se um microclima que ameniza as bruscas mudanças, inclusive sobre os efeitos da geada. Permite trazer para cima, uma terra considerada menos alcalina. Protege a terra de inundações, aproveitando terrenos em desuso. Amenizam a estiagem com as águas acumuladas nos canais e recuperam drenagem deficiente.

O homem andino é agricultor por tradição. Se ele atingiu o conhecimentonecessário para dominar o meio ambiente do Altiplano foi, certamente, àscustas de muito trabalho e observação. Olhando para o céu, sabe exatamente quando e como plantar. As técnicas desenvolvidas foram resultado dessas observaçõespor centenas de anos. Trabalhando em conjunto, previne-se contra geadas e intempéries com criatividade e sabedoria. Ao plantar, nunca o faz em um único local. Diferentes sementes são cultivadas em diferentes terrenos. Ao pressentir uma geada, saem para acender suas fogueiras. A fumaça - sabe o andino - altera o clima, criando uma barreira contra geadas. Neste mundo hostil, alguns produzem mais do que os outros; mas no final, ninguém morre de fome.

Dalton DelfiniMaziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite nossa página “Arqueologia Americana” no Facebook

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 08/04/2020 às 12h46 | daltonmaziero@uol.com.br

CIEZA DE LEÓN – AS CRÔNICAS DO PERU

Crônica histórica é uma narrativa feita por pessoas que, no passado, vivenciaram determinado fato ou acontecimento. Embora esteja associada ao cotidiano das cidades, é também um relato particular, calcado na observação pessoal, de uma região, costumes e vida de culturas do passado. Existem algumas crônicas brilhantes da época da conquista da América, mas talvez nenhuma supere a Crônica del Peru (1553), escrita por um soldado espanhol de profunda sensibilidade e curiosidade. Através dela, podemos recuperar muito do universo incaico, de seus costumes, lendas e mistérios; assim como dos povos que recente estavam sob sua administração, como os collas, lupacas e pacajes.

Cieza de León descreveu todos os lugares por onde passou, mas de modo especial, nos trouxe informações preciosas sobre os antigos povos do Altiplano. Como muitos outros de sua época, o passado de Cieza perdeu-se em parte pela falta deregistros. Era um anônimo, como tantos outros. Sua história começa, para nós, em 1532, quando embarca ao Novo Mundo como ajudante de cavaleiro. Na época, era um adolescente subnutrido de apenas 14 anos de idade. Não se sabe exatamente os motivos que levaram o jovem Cieza a enfrentar a duríssima vida de soldado. Talvez a busca por riquezas ou, quem sabe, o ímpeto de ver, com seus próprios olhos, um Mundo Novo. O fato é que decidiu, em 1540, aos 22 anos, fazer um diário de tudo aquilo que tinha presenciando em terras peruanas. O livro que nos legou é surpreendente por dois motivos: por possuir um apurado senso crítico e por ser muito bem escrito. Isso já era por si, um fato raro na época em que vivia. Ele teve o privilégio de ver e participar dos primeiros anos de conquista da América, e nos legou informações preciosas sobre o passado dos povos pré-colombianos.

Cieza foi um curioso compulsivo, e um escritor irrefreável. Em uma famosa frase, deixa transparecer muito de sua personalidade:"A desoras, quando os outros soldados dormiam, eu cansava-me a mim mesmo, escrevendo. Nem a fadiga, nem a índole fragosa da paisagem, nem as montanhas, nem os rios, nem a fome torturante, nem os sofrimentos, foram suficientes, jamais, para obstruir a execução dos meus dois deveres: ode escrever a minha crônica, e o de seguir, sem resistência, a minha bandeira e o meu capitão".

Após 18 anos na América, o soldado volta à Espanha. Corria então o ano de 1550. Aos 32 anos, vivia miseravelmente nos porões da cidade de Sevilha, pobre e enfermo. Mesmo em condições tão adversas, compôs solitariamentesua crônica. Em determinado momento, escreve como se estivesse fazendo um desabafo pessoal: "As durezas que tiveram de ser suportadas, naqueles países, foram tão terríveis...Oh! Ter ido para lá, haver prejudicado a minha consciência, desperdiçado o meu tempo e perdido os meus dentes!"Morreu pouco tempo depois, abandonado, angustiado e doente, sem ter visto sua crônica impressa.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana.

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 24/03/2020 às 16h09 | daltonmaziero@uol.com.br

PARACAS – A TATUAGEM COMO STATUS SOCIAL

A Península de Paracas – litoral sul do Peru – é um local que ainda guarda aspectos geográficos que nos remetem a um período de ancestralidade. Essa paisagem árida e selvagem nem sempre foi assim, mas nos últimos 10 mil anos, moldou os costumes e forma de viver de um dos povos mais fascinantes da América do Sul: os Paracas! Um de seus aspectos mais curiosos, diz respeito às tatuagens corporais. Em 1927, o arqueólogo Julio C. Tello escavou na região o que parecia ser um grande cemitério. O local foi chamado de Warikayan (500 aC-100 dC), e classificado por Tello pertencente ao período Paracas Necrópolis (500 aC-200dC). Existe ainda uma discussão nos meios acadêmicos se os vestígios encontrados em Warikayan pertencem mesmo aos Paracas, ou se fazem parte de outra tradição conhecida como Topara. Mas, fato é que ali foram descobertos 429 fardos funerários do período, em excelente estado de conservação.

Do total de fardos descobertos em Warikayan, 100 deles foram abertos para estudos. E deste, constatou-se que 43% das múmias apresentavam tatuagens. Um estudo paleopatológico da epiderme revelou que as mais tatuadas eram as mulheres (65%), e que a idade média girava entre 35 e 49 anos. As múmias apresentavam também diversos símbolos de mandatários, portando adornos pessoais em diadema, narigueiras, braceletes, orelheiras, colares de conchas marinhas, penachos, perucas, abanadores de penas e varas de madeira.

A maior parte das tatuagens (37%), concentra-se nas mãos: palma, dorso e dedos. Contudo, algumas múmias apresentavam desenhos que cobriam quase 50% do corpo! Pesquisadores acreditam que essa prática está associada ao status social do indivíduo, pois as tintas e desenhos utilizados são os mesmos de cerâmica cerimonial e dos famosos mantos (têxteis), usados apenas por uma casta mais importante.

Sobre as tintas – aplicadas com uso de agulhas de espinhos e ossos – a maior incidência ocorre nas cores negro e azul. O negro é oriundo de fuligem residual de pedras queimadas e do carvão. Já o azul é proveniente de uma alteração residual do negro na pele. Um efeito óptico que ocorre com a perda de luz na pigmentação, gerando tons azulados na pele. Além destes, utilizavam também tinta orgânica, oriundas de material vegetal queimado. Quanto aos desenhos, podemos dividi-los nas seguintes categorias: Zoomorfos (aves, felinos, peixes), Geométricos (pontos, linhas, círculos), Figuras míticas e sobrenaturais (ser “oculado” e orca assassina) e símbolos sociais (greca escalonada). A greca escalonada é um símbolo de poder social, usado praticamente em toda América. A sofisticação do processo de tatuagem nos antigos Paracas parece, portanto, oriunda de uma sociedade hierarquizada, onde o poder espiritual e a liderança política confirmavam-se através da ornamentação da pele.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite nossa página “Arqueologia Americana” no Facebook (clique aqui)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 02/03/2020 às 11h52 | daltonmaziero@uol.com.br



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Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.














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América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

MACHU PICCHU – O ENIGMA DA FALHA TECTÔNICA

Muito tem se falado na incrível capacidade do povo inca, em se construir cidades em locais inimagináveis, escarpas montanhosas e cumes aparentemente inacessíveis. O principal exemplo dessa capacidade é, sem dúvida, Machu Picchu. Contudo, novas investigações estão relacionando essa capacidade de construção a locais geológicos previamente escolhidos.

Segundo as investigações de Rualdo Menegat (Instituto de Geociências da UFRGS), a escolha do local de um novo assentamento urbano, está associada à capacidade deste tornar a futura cidade orgânica, em relação à paisagem que o circunda. Mas quais os elementos os incas encontraram que podem tornar isso possível? Podemos citar uma rede de falhas tectônicas, a forma das montanhas ao redor e as pedras provenientes dessa falha geológica.

A teoria investe no princípio do menor esforço civilizatório. Isso significa que os incas viram, no topo da montanha Huayna Picchu, condições favoráveis para a construção de um assentamento. E que condições seriam estas? Em primeiro lugar, povoamentos construídos sobre falhas e fraturas geológicas dispõem naturalmente de afloramentos rochosos fragmentados, ou seja, abundância de material rochoso para suas construções. Nota-se que Machu Picchu – ao contrário de outras construções ciclópicas – não apresenta grandes rochas moldadas. Sua maior parte é formada por pedras de tamanhos médio e pequeno. Utilizar a matéria prima local já é, por si, uma economia de energia humana.

Outra vantagem nesse processo seria a de criar possibilidade em “moldar” mais facilmente o solo topográfico de acordo com o plano da cidade e seus patamares de plantio. A retirada de rochas fragmentadas permite adaptar os setores urbanos às elevações do terreno. Esse design orgânico nas construções incaicas fazia parte, inclusive, da identidade que esse povo queria passar aos demais, como uma marca registrada de capacidade técnica e poder. Também podemos mencionar aqui, que a escolha do local estava associada à segurança que este criava em relação a deslizamentos de terra. A escolha de um local alto, com solo rochoso, impedia possíveis avalanches.

Contudo, talvez a principal vantagem ao se construir uma cidade sobre uma fratura geológica, seja mesmo a de proporcionar excelentes aquíferos! Por meio das fissuras rochosas, a água corria de forma abundante, precisando “apenas” ser canalizada da forma correta. Em se tratando de canalização da água, os povos pré-colombianos são mestres no assunto. Em Machu Picchu, podemos observar como a água que brota das fraturas rochosas é controlada por filetes esculpidos e canais artificiais que as direcionam aos patamares de plantio e residências desse mítico povoamento incaico.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite nossa página “Arqueologia Americana” no Facebook.

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 15/06/2020 às 09h50 | daltonmaziero@uol.com.br

O CALENDÁRIO ASTECA

México. Em 17 de dezembro de 1790, um grupo de operários realizava processos de nivelamento da Praça de Armas, no centro da cidade. Ainda não se sabia, mas ali, onde hoje fica a catedral, uma série de templos mexicas (antes chamados astecas) possuíam suas fundações, incluindo o hoje famoso Templo Mayor. O artefato que esses operários localizaram tinha 22 toneladas, 4 metros de diâmetro e quase 1 metro de espessura. Era verdadeiramente impressionante, coberto de hieróglifos enigmáticos.

O artefato ficou conhecido como “Pedra do Sol”, devido a imagem central do deus Tonatuih (Deus Sol). Após sua descoberta, a pedra ficou exposta na parede externa da Catedral (torre ocidental), até o ano de 1885, momento em que o general José de la Cruz Porfírio Diaz Mori (1830-1915) a mandou recolher para exposição e preservação, no Museu Nacional. Na ocasião, os países americanos recém-independentes, buscavam por símbolos de construção de sua própria identidade. E a descoberta desse artefato contribuiu em muito, com esse intuito. Alguns estudiosos acreditam que a pedra foi esculpida ao longo de 50 anos (século XV), e que sua elaboração exigiu um profundo conhecimento dos hieróglifos mexicas associados aos símbolos do tempo. É muito provável que a pedra, na prática, tenha funcionado como calendário de ciclos rituais e agrícolas; mas também como altar de sacrifícios em ocasiões especiais.

Os antigos mexicanos contavam seus anos através da combinação de 4 signos (Tlalpilli Tochtli, Acatl, Tecpatl e Calli) mais 13 signos variáveis que, juntos, formavam um período de 52 anos, chamado Xiuhnelpilli. Da mesma forma, as semanas e os anos recebiam símbolos próprios, muitas vezes associando animais (ou eventos climáticos) aos deuses: chuva = Tláloc; vento = Chantico; jaguar = Quetzalcoatl; macaco = Patecatl, e assim por diante. O ciclo ritual tinha 260 dias (260 Tónalpóhualli), divididos em 20 signos com 13 dias cada. Já o ciclo agrícola contava com 365 dias divididos em 18 meses de 20 dias cada. A estes se acrescentava um tempo extra de 5 dias.

Os dois ciclos (ritual e agrícola) caminhavam independentes, mas a cada 52 anos, eles coincidiam. Era então um momento muito especial na vida dos mexicas, quando ocorria grande número de sacrifícios solicitando à Tonatuih, que brilhasse por mais 52 anos, com seus raios solares. Esse ritual era chamado Fogo Novo, e tinha uma duração de aproximadamente 12 dias. Segundo informações do Museu Nacional de Antropologia do México – onde hoje está exposta – o artefato nunca foi finalizado devido a uma fratura na rocha. Segundo a mesma fonte, “se trata de um grande altar de sacrifícios gladiatórios, conhecido como temalacatl...foi utilizado com o propósito de sustentar a luta de guerreiros na cerimônia de tlacaxipehualiztli”

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite nossa página “Arqueologia Americana” no Facebook (clique aqui)
 

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 27/05/2020 às 11h07 | daltonmaziero@uol.com.br

USME – UMA NECRÓPOLE PRÉ-COLOMBIANA

Em 2007, uma fantástica descoberta arqueológica ocorreu na fazenda El Carmen (Usme), Colômbia. Uma cápsula do tempo, uma necrópole, que se soube depois, abrigava mais de 3 mil corpos dos povosmuisca e herrera. Ao todo, o terreno ocupa uma área de 30 hectares, convertendo-se na primeira área de conservação arqueológica de Bogotá. A descoberta só foi possível graças à um projeto social da empresa Metrovivienda, que projetava ali, mais de 3.500 residências do que seria um novo bairro popular. Quando uma retroescavadeira arrancou da terra, uma dúzia de corpos, deu-se conta da descoberta.

Ernesto Montenegro (ICANH – Instituto Colombiano de Antropologia e História) acredita que a descoberta jogará luz sobre o cotidiano e o modo de vida dos herreras e muiscas entre 800 e 1600 dC. Em sua opinião, “o que impressiona é que durante tantos séculos, havia sido esse local o escolhido por diversas culturas para enterrar seus mortos”. Para Virgílio Becerra (Universidade de Sorbona), o caráter sagrado do lugar está intimamente relacionado à presença da água, que brota em abundânciados rios Funcha, Requilina e Água Dulce. Segundo a mitologia muisca, a água era como o leite, que brotava dos seios da deusa Bachué, para alimentar os povos da terra.

Um dado interessante revelado, foi o da relação entre os últimos muiscas e os primeiros colonos da região. Isso foi comprovado nas escavações, com a descoberta de colares com contas de vidro italiano e em ossadas que apresentavam ferimentos de armas de fogo. Além disso, foram desenterradas 35 vasilhas completas, 300 mil fragmentos de cerâmica, peças em cobre, sementes, colares e ossos de animais. A estimativa é que nem 1% do potencial do sítio foi explorado ainda.

Segundo o Drº Ernesto Montenegro (ICANH), “Outro aspecto muito importante é que, historicamente, se falava dos Herreras e dos Muiscas como períodos diferentes da história. Todavia, nesta necrópole encontramos restos de pessoas do período Herrera (600 a 1000 dC) e Muisca (1200 a 1600 dC) sem que houvesse cortes temporais. É a primeira vez que se realiza uma descoberta que testemunhe essa continuidade”. Outro dado interessante foi a descoberta de fauna amazônica nos enterramentos. Isso prova que existia uma relação muito viva entre as duas regiões.

Embora a Necrópole de Usme não se enquadre na categoria de sítio monumental, como San Agustín ou Ciudad Perdida, é sem dúvida de vital importância para a reconstrução da história dos povos pré-colombianos. Segundo Clarisa Ruiz – Secretaria de Cultura de Bogotá – o objetivo é criar um projeto de um Parque Arqueológico, de interesse cultural, com museu e trilhas.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite nossa página “Arqueologia Americana” no Facebook.

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 04/05/2020 às 16h14 | daltonmaziero@uol.com.br

WARU WARUS - ALIMENTO NO MUNDO PRÉ-COLOMBIANO

 

Em 1997, quando contornei a pé o Lago Titicaca (Peru/Bolívia), tive a oportunidade de conhecer uma das maiores criações do mundo pré-colombiano: os WaruWarus ou Camellones, como também são conhecidos. Trata-se de um sistema de plantio quenão foi superado por nenhum outro povo do passado. Eu os vi em pleno Altiplano, em um experimento comunitário.

Existem camellones de vários tamanhos. Os maiores foram localizados nas proximidades da antigaTiwanaku, na Bolívia. Possuíam 50 metros de largura por 200 de comprimento. O termo “camellones” provém de sua semelhança às corcovas de um camelo. Na verdade, são plataformas artificiais, construídas em camadas, aproveitando terrenos baixos e alagados. Essa fabulosa engenharia agronômica foi aplicada principalmente para o plantio de batatas e quinua. Para se ter uma ideia de seu potencial, basta fazer uma comparação: em terreno normal, um hectare produz 2 mil quilos de batata; nos camellones essa produção sobre para 20 mil quilos!

Em 1920, o arqueólogo Max Uhle chamou a atenção para o potencial dos waruwarus. Em recentes experimentos governamentais, vi fotos de batatas enormes, quase do tamanho da cabeça de uma pessoa. Vestígios desse sistema forma encontrados em uso no ano 1000 aC. Com isso, muitos conseguiram uma superprodução agrícola. O segredo do sistema está na criação de morros artificiais entremeados por canais de água. Dentro desses morros, foram encontrados quatro estratos: ao nível d'água (base), colocavam uma camada de pedras. Por cima desta, uma de argila impermeável. Em seguida, vinham duas camadas de cascalho, sendo a de cima mais fina. Por cima de tudo, vinha a terra para o plantio.O sistema foi utilizado pelos povos chiripa, púcara, tiwanaku, colla, pacajes, lupacas, entre outros. Além da superprodução resultante, este sistema tem outras vantagens para a região: com a distribuição das águas, cria-se um microclima que ameniza as bruscas mudanças, inclusive sobre os efeitos da geada. Permite trazer para cima, uma terra considerada menos alcalina. Protege a terra de inundações, aproveitando terrenos em desuso. Amenizam a estiagem com as águas acumuladas nos canais e recuperam drenagem deficiente.

O homem andino é agricultor por tradição. Se ele atingiu o conhecimentonecessário para dominar o meio ambiente do Altiplano foi, certamente, àscustas de muito trabalho e observação. Olhando para o céu, sabe exatamente quando e como plantar. As técnicas desenvolvidas foram resultado dessas observaçõespor centenas de anos. Trabalhando em conjunto, previne-se contra geadas e intempéries com criatividade e sabedoria. Ao plantar, nunca o faz em um único local. Diferentes sementes são cultivadas em diferentes terrenos. Ao pressentir uma geada, saem para acender suas fogueiras. A fumaça - sabe o andino - altera o clima, criando uma barreira contra geadas. Neste mundo hostil, alguns produzem mais do que os outros; mas no final, ninguém morre de fome.

Dalton DelfiniMaziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite nossa página “Arqueologia Americana” no Facebook

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 08/04/2020 às 12h46 | daltonmaziero@uol.com.br

CIEZA DE LEÓN – AS CRÔNICAS DO PERU

Crônica histórica é uma narrativa feita por pessoas que, no passado, vivenciaram determinado fato ou acontecimento. Embora esteja associada ao cotidiano das cidades, é também um relato particular, calcado na observação pessoal, de uma região, costumes e vida de culturas do passado. Existem algumas crônicas brilhantes da época da conquista da América, mas talvez nenhuma supere a Crônica del Peru (1553), escrita por um soldado espanhol de profunda sensibilidade e curiosidade. Através dela, podemos recuperar muito do universo incaico, de seus costumes, lendas e mistérios; assim como dos povos que recente estavam sob sua administração, como os collas, lupacas e pacajes.

Cieza de León descreveu todos os lugares por onde passou, mas de modo especial, nos trouxe informações preciosas sobre os antigos povos do Altiplano. Como muitos outros de sua época, o passado de Cieza perdeu-se em parte pela falta deregistros. Era um anônimo, como tantos outros. Sua história começa, para nós, em 1532, quando embarca ao Novo Mundo como ajudante de cavaleiro. Na época, era um adolescente subnutrido de apenas 14 anos de idade. Não se sabe exatamente os motivos que levaram o jovem Cieza a enfrentar a duríssima vida de soldado. Talvez a busca por riquezas ou, quem sabe, o ímpeto de ver, com seus próprios olhos, um Mundo Novo. O fato é que decidiu, em 1540, aos 22 anos, fazer um diário de tudo aquilo que tinha presenciando em terras peruanas. O livro que nos legou é surpreendente por dois motivos: por possuir um apurado senso crítico e por ser muito bem escrito. Isso já era por si, um fato raro na época em que vivia. Ele teve o privilégio de ver e participar dos primeiros anos de conquista da América, e nos legou informações preciosas sobre o passado dos povos pré-colombianos.

Cieza foi um curioso compulsivo, e um escritor irrefreável. Em uma famosa frase, deixa transparecer muito de sua personalidade:"A desoras, quando os outros soldados dormiam, eu cansava-me a mim mesmo, escrevendo. Nem a fadiga, nem a índole fragosa da paisagem, nem as montanhas, nem os rios, nem a fome torturante, nem os sofrimentos, foram suficientes, jamais, para obstruir a execução dos meus dois deveres: ode escrever a minha crônica, e o de seguir, sem resistência, a minha bandeira e o meu capitão".

Após 18 anos na América, o soldado volta à Espanha. Corria então o ano de 1550. Aos 32 anos, vivia miseravelmente nos porões da cidade de Sevilha, pobre e enfermo. Mesmo em condições tão adversas, compôs solitariamentesua crônica. Em determinado momento, escreve como se estivesse fazendo um desabafo pessoal: "As durezas que tiveram de ser suportadas, naqueles países, foram tão terríveis...Oh! Ter ido para lá, haver prejudicado a minha consciência, desperdiçado o meu tempo e perdido os meus dentes!"Morreu pouco tempo depois, abandonado, angustiado e doente, sem ter visto sua crônica impressa.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana.

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 24/03/2020 às 16h09 | daltonmaziero@uol.com.br

PARACAS – A TATUAGEM COMO STATUS SOCIAL

A Península de Paracas – litoral sul do Peru – é um local que ainda guarda aspectos geográficos que nos remetem a um período de ancestralidade. Essa paisagem árida e selvagem nem sempre foi assim, mas nos últimos 10 mil anos, moldou os costumes e forma de viver de um dos povos mais fascinantes da América do Sul: os Paracas! Um de seus aspectos mais curiosos, diz respeito às tatuagens corporais. Em 1927, o arqueólogo Julio C. Tello escavou na região o que parecia ser um grande cemitério. O local foi chamado de Warikayan (500 aC-100 dC), e classificado por Tello pertencente ao período Paracas Necrópolis (500 aC-200dC). Existe ainda uma discussão nos meios acadêmicos se os vestígios encontrados em Warikayan pertencem mesmo aos Paracas, ou se fazem parte de outra tradição conhecida como Topara. Mas, fato é que ali foram descobertos 429 fardos funerários do período, em excelente estado de conservação.

Do total de fardos descobertos em Warikayan, 100 deles foram abertos para estudos. E deste, constatou-se que 43% das múmias apresentavam tatuagens. Um estudo paleopatológico da epiderme revelou que as mais tatuadas eram as mulheres (65%), e que a idade média girava entre 35 e 49 anos. As múmias apresentavam também diversos símbolos de mandatários, portando adornos pessoais em diadema, narigueiras, braceletes, orelheiras, colares de conchas marinhas, penachos, perucas, abanadores de penas e varas de madeira.

A maior parte das tatuagens (37%), concentra-se nas mãos: palma, dorso e dedos. Contudo, algumas múmias apresentavam desenhos que cobriam quase 50% do corpo! Pesquisadores acreditam que essa prática está associada ao status social do indivíduo, pois as tintas e desenhos utilizados são os mesmos de cerâmica cerimonial e dos famosos mantos (têxteis), usados apenas por uma casta mais importante.

Sobre as tintas – aplicadas com uso de agulhas de espinhos e ossos – a maior incidência ocorre nas cores negro e azul. O negro é oriundo de fuligem residual de pedras queimadas e do carvão. Já o azul é proveniente de uma alteração residual do negro na pele. Um efeito óptico que ocorre com a perda de luz na pigmentação, gerando tons azulados na pele. Além destes, utilizavam também tinta orgânica, oriundas de material vegetal queimado. Quanto aos desenhos, podemos dividi-los nas seguintes categorias: Zoomorfos (aves, felinos, peixes), Geométricos (pontos, linhas, círculos), Figuras míticas e sobrenaturais (ser “oculado” e orca assassina) e símbolos sociais (greca escalonada). A greca escalonada é um símbolo de poder social, usado praticamente em toda América. A sofisticação do processo de tatuagem nos antigos Paracas parece, portanto, oriunda de uma sociedade hierarquizada, onde o poder espiritual e a liderança política confirmavam-se através da ornamentação da pele.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite nossa página “Arqueologia Americana” no Facebook (clique aqui)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 02/03/2020 às 11h52 | daltonmaziero@uol.com.br



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Dalton Delfini Maziero

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Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.