Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

Ekkekkose Anchanchus

A mitologia Andina é repleta de seres pertencentes a um mundo mágico. Quando percorri a pé a região da Cordilheira Real (Peru/Bolívia), os nativos aymaras me alertaram a não permanecer nas montanhas à noite. Dizem que entidades más aparecem com as tempestades! Chamam esses seres de Anchanchus. São espíritos sinistros e maliciosos, que trazem doenças às pessoas. Alguns aymaras me garantiam que eles assemelhavam-se a anões barrigudos e carecas.

Os Anchanchus são ardilosos e astutos. Ganham a confiança dos caminhantes com uma simpatia irresistível e, quando conseguem se aproximar, atacam suas vítimas, bebendo de seu sangue e instalando doenças. Assim muitas comunidades explicam o medo, a tremedeira e a febre que se instala no corpo das pessoas. A cura para esse mal é realizada através de rituais, dirigido por um membro experiente no uso de ervas e práticas de curandeirismo. A crença em mitos e seres da natureza é muito presente nas sociedades andinas, e o foi também nas antigas culturas pré-colombianas.

Perguntei certa vez a um aymara, se também existiam entidades boas. Ele me explicou que na cosmovisão andina, tudo tem dois lados. O oposto dos Anchanchus são os Ekkekkos, que trazem boa sorte e prosperidade às pessoas. Dizem que fisicamente são muito semelhantes, mas que ao contrário, seus sorrisos são verdadeiros! Por esse motivo, presenciei em muitas casas do Altiplano Andino, a presença de Ekkekkos em miniatura. Nas residências, são usados para dar sorte. Existe até uma festa em sua homenagem, comemorada no dia 24 de janeiro, chamada de Festa de Alacitas.

Nos séculos XVI e XVII, os espanhóis encontraram entre os índios, uma estranha e bizarra figura: um amuleto representando um homenzinho com um órgão sexual avantajado. Eram os antigos Ekkekkos, que possuíam no passado, uma conotação sexual, relacionados ao culto da fertilidade. Óbvio que os religiosos da época não aprovaram tal amuleto, e proibiram os nativos de os carregarem. Desse modo, o Ekkekko passou para a clandestinidade e teve sua real função alterada com o passar do tempo.

Atualmente, o Ekkekko é sinônimo de abundância, sendo encarregado de trazer felicidade e bens materiais, inclusive dinheiro! Nas festas de Alacitas, os bonecos são vendidos nus! O objetivo é que as pessoas o comprem para vesti-lo com roupas e prendas que representarão os bens que o comprador gostaria de ganhar em vida. Esses bonecos nus são conhecidos como Ekkekkos Khala. Assim, junto com ele, encontra-se uma infinidade de miniaturas – casas, carros, dinheiro, aviões (viagens), sacos de farinha, pão, pimenta – que são adquiridas conforme o gosto do freguês, e coladas em sua roupa.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 30/11/2016 às 09h16 | daltonmaziero@uol.com.br

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Dalton Delfini Maziero

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Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.
















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