Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

O "Candelabro" de Paracas

Numa manhã ensolarada, pegamos uma lancha às Ilhas Ballestas (Peru), que adentrava na Baia de Paracas, rumo a um santuário marinho, repleta de aves, pinguins, leões marinhos, iguanas e focas. No trajeto, uma singular parada frente a um dos maiores mistérios da arqueologia Sul-Americana: o “Candelabro” de Paracas! A imagem é impressionante. Um geoglifo gigante paira numa encosta arenosa e desertica...

Verdade seja dita! Até hoje, só existem dúvidas sobre quem o fez e para que serviu. Este enorme geoglifo encontra-se “pendurado” numa encosta, sem acesso ao mar. Ou seja, não existe caminho viável a ele para quem vem pelo mar. Mas por estar reclinado em um local alto, pode ser visto ao longe. Ele possui cerca de 180 metros de comprimento, e suas valas cavadas na areia chegam a 3,20 metros de profundidade. Graças aos constantes e fortes ventos dessa região, criou-se uma grossa capa cristalina de sal, que protege o geoglifo de intempéries até os dias de hoje. Acredita-se – baseado nos poucos vestígios materiais encontrados – que ele tenha 2.500 anos.

Na falta de uma explicação sólida, surgem hipóteses absurdas, como sinalizador de tesouros escondidos, feito por piratas; ou símbolo maçom, feito a mando de José de San Martin (1778-1850). Outras teorias apontam para uma utilização de “farol”, que guiava antigos navegantes; ou uma relação com a constelação “Cruz do Sul”, conhecida também como Cruz dos Navegantes. Mas fato é, que toda e qualquer teoria apresentada até o momento, carece de fundamentos.

Se formos pensar neste geoglifo, como parte integrante dos diversos e enormes campos de geoglifos que existiam no passado - e se formos levar em conta a cosmovisão nativa e sua relação com a natureza - podemos traçar uma teoria: assim como Nazca, este geoglifo deve ter uma função simbólica, relacionada ao desejo de água e chuva, e direcionada às forças da natureza que eram importantes para as comunidades que lá viviam. Talvez não fosse uma mensagem aos humanos, mas aos deuses regionais.

Da mesma forma, como ocorria em território do Atacama (norte do Chile), os geoglifos também podiam significar uma “ocupação” territorial. Na falta de uma ocupação física, com casas e povoados, esse controle do território (e da paisagem) era feita por sinais. A dificuldade em se explicar tal obra encontra-se no fato dela flertar mais com o mundo simbólico do que arqueológico, dificultando assim a definição de sua função. Seja como for, hoje o “Candelabro” é reconhecido como “Patrimônio Cultural da Nação” peruana, pelo seu valor histórico, arqueológico e artístico, mesmo sem sabermos suas reais funções práticas.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/

 

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 01/08/2017 às 15h27 | daltonmaziero@uol.com.br

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Dalton Delfini Maziero

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Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.
















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