Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

Nos subterrâneos de Chavín de Huántar

O sítio arqueológico de Chavín de Huantar (1500 aC-500 dC.) é um dos mais complexos e surpreendentes do Peru. A civilização que o construiu deixou um sistema de profundos túneis que ainda não foram escavados por completo. São mais de 25 corredores subterrâneos! O cenário é digno do filme “Caçadores da Arca Perdida”: um labirinto escuro, formado por passagens estreitas, lajeadas por pedras, com esculturas representando ferozes homens-jaguar!

Chavín está localizado na Cordilheira Branca - um maciço montanhoso gigantesco - a 3.185 metros de altitude. Fica a exatos 462 km da capital Lima. Sua arquitetura é tão impressionante que, em 1553, o cronista espanhol Pedro Cieza de León anotou em seu diário tratar-se de obra de uma “raça de gigantes”. Hoje sabemos que não foram gigantes que a construíram, mas o cenário surpreende pelas três pirâmides que, unidas, formam um templo em “U”, um estilo que influenciou outros grupos do mesmo período, no litoral do Peru. A mais antiga dessas pirâmides esconde a porta de entrada para o mundo subterrâneo de Chavín.

Em uma das passagens abaixo da antiga pirâmide - provavelmente erguida sobre estrito critério mágico-religioso -, encontra-se o maior símbolo de Chavín: uma escultura conhecida como “Lanzón Monolítico”. Trata-se de uma escultura em forma de “lâmina de faca”, com mais de 5 metros, com um desenho tão complexo que é difícil distinguir a primeira vista um “homem sorridente com presas de felino”: o homem-jaguar. Essa figura sobrenatural parece ser feita para causar terror aos visitantes. Acredita-se que ele simbolize a fecundidade da terra, marcando a localização do universo na cosmologia Chavín.

Em 2011, uma equipe de arqueólogos peruanos e americanos descobriu outra rede de túneis sete metros abaixo da estátua “Lanzón Monolítico”. Essa nova rede se estende por mais de 550 metros. Além dos tuneis, existe também um eficiente sistema de canais utilizados para drenagem da água subterrânea. O arqueólogo John Rick (EUA) acredita que as novidades não parem por ai, uma vez que apenas 20% das ruínas foram escavadas!

O horror que as ruínas causam até hoje na população local encontra ecos em seu passado. Arqueólogos encontraram inúmeros esqueletos humanos no labirinto subterrâneo, todos sem cabeça! Isso leva a crer que existiu um ritual de decapitação. Ainda hoje, as pessoas procuram se afastar de Chavín durante a noite. Dizem escutar estranhos sons provenientes dos labirintos. É provável que seja apenas resultado dos ventos da Cordilheira e de um eficiente sistema de ventilação subterrânea, embora se saiba que a cultura chavin tenha desenvolvido uma acústica capaz de se fazer escutar – dentro dos túneis – uma pessoa conversando do lado de fora, como se ela estivesse ao seu lado!

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

 

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 23/10/2017 às 15h10 | daltonmaziero@uol.com.br

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Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.
















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