Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

PARIME – O LAGO LENDÁRIO

Se olharmos com cuidado para a América do Sul - entre os séculos XV e XVIII - veremos nos mapas um gigantesco lago localizado em Roraima e sul das Guianas. Depois, ele desaparece da cartografia! Essa geografia imaginária foi referência para exploradores europeus que buscavam o mítico Reino de El Dorado, ou Manoa. Terá mesmo existido o Parime, este lago imaginário?

O primeiro a falar dele - e de Manoa - foi o corsário inglês Walter Raleigh. Mesmo sem ter atingido o Parime, Raleigh o descreve com entusiasmo em sua obra “The Discoverie of the Large, Rich e Bewtiful Empyre of Guiana” (1596). Segundo o autor, todo o ouro de Manoa era proveniente dos inúmeros afluentes que desembocavam no lago. Hoje, sabemos que Raleigh sequer chegou perto da região, mas sua descrição impulsionou diversos exploradores.

Baseados na descrição do corsário, muitos cartógrafos incluíram-no em seus trabalhos. Jodocus Hondius foi um dos pioneiros, publicando em 1598 seu “Nieuwe Caerte van het Wonderbaer”. Nele, descreve Manoa como a maior cidade do mundo! Um ano depois, Theodore de Bry publica sua “Grands Voyages”, também citando o Parime. Podemos encontrar o lago em alguns mapas do início do XIX, mas em 1730 sua existência era posta em dúvida. Neste ano, Guillaume Delisle inclui o Parime em sua cartografia, mas com a seguinte nota: “É nessa região que a maioria dos autores coloca o Lago Parime e Cidade de Manoa de El Dorado”. Interessante notar que, com o passar dos anos – e o fracasso em localizá-lo – os cartógrafos mudavam o lago de lugar, empurrando-o sempre para alguma região mais e mais remota do território.

Entre os grandes exploradores que buscaram pelo Parime e Manoa, podemos citar Thomas Roe (1611); Walter Raleigh (1617) que perdeu seu filho nessa segunda expedição; o jesuíta Samuel Fritz (1689); Nicholas Horstman (1739) enviado pelo governo holandês e preso pelos portugueses; Charles Marie de La Condamine (1743) cientista que duvidou do mito; Alexander Humboldt e Aimé Bonpland (1799-1803) que desmistificam o Parime e Manoa; Charles Waterton (1812) que aposta ser o lago uma inundação sazonal; Robert Schomburgk (1840) que diz ser o lago Amicu o verdadeiro Parime; e Jacob van Heuvel (1844) que aposta também tratar-se de uma inundação sazonal.

Contudo, estudos realizados pelo explorador Roland Stevenson e pelos geólogos Gert Woeltje e Frederico G. Cruz entre 1977 e 1985, detectou evidências de um lago extinto na região. Hoje seco, deixou uma linha no horizonte detectável, com estimativa de ter possuído 400 km de diâmetro e cerca de 80 mil km². Sua drenagem natural, segundo dados geológicos, ocorreu ao final do XVIII e início do XIX, quando mais se assemelhava a uma série de pequenas lagunas. Às vezes, um mito pode oferecer evidências e surpresas por muitas décadas ainda!

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 07/08/2018 às 12h07 | daltonmaziero@uol.com.br



Dalton Delfini Maziero

Assina a coluna América Misteriosa

Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.


Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade

Fale Conosco - Anuncie no Página 3 - Normas de Uso
© Desenvolvido por Página 3

Endereço: Rua 2448, 360 - Balneário Camboriú - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: jornal@pagina3.com.br