Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

O mistério dos geoglifos gaúchos

Existem no sul do Brasil, estranhas formações terrestres que desafiam a ciência. São círculos “anelados”, feitos de terra, que se assemelham muito aos recentes geoglifos descobertos no Acre. Porém, chamá-los de geoglifos é apenas uma forma de categorizá-los, de aproximá-los a algo que já conhecemos. Embora as tradições populares atribuam a eles a função de currais, a verdade é que não sabemos a que se destinavam.

Levantamentos terrestres - e através do Google Earth - detectaram mais de 1000 formações espalhadas entre o Rio Grande do Sul, Argentina e Uruguai. Contudo, a maior parte delas é feitas por pequenas muretas de pedra ou por cercas vivas de plantas. Mas existem também os gigantescos círculos formados por terra, que alcançam entre 20 e 170 metros de diâmetro. Algumas tradições populares apontam os círculos de terra como estruturas fabricadas por escravos, no início da colonização, cuja função seria a de um curral.

Círculos formados por árvores e palmas são citados na obra de Auguste Saint-Hilaire em 1820. Eram os chamados “currais de palmas”, que nem sempre eram palmas! Muitos foram cercados por ananás, pessegueiros, caibros de madeira, espinheiros, bananeiras ou cana de açúcar. Mas pesquisadores como Joaquim Dias e André Oliveira estimam que os círculos tenham mais de 200 anos, e que estariam associados ao movimento de tropeiros do século XVIII.

Contudo, apesar dessa associação natural com os antigos currais gaúchos de pedra e palmas, os círculos anelados de terra ganharam uma nova perspectiva após a descoberta dos geoglifos do Acre. Lá também existiam teorias que aproximavam as antigas valas às reservatórios indígenas de água ou mesmo a trincheiras da Revolução Acreana (1899-1903). Posteriormente, os arqueólogos provaram tratar-se de antigas estruturas arqueológicas. Seriam então, os círculos gaúchos, construções de povos pré-históricos, utilizados posteriormente como currais ao longo da colonização europeia?

Pesquisadores como Rodrigo Aguiar, André Prous e os arqueólogos Fábio Vergara Cerqueira e Alceu Ranzi, parecem estar convencidos que alguns deles realmente pertençam a uma tradição pré-histórica. Embora Prous – “O Brasil antes dos brasileiros”, 2006 – associe os círculos gaúchos com aqueles do Acre e os aproxime da cultura Taquara, outros estudiosos - como Ana Maria Ruthschlling - lembram que os mesmos não são originários da região, ou seja, pertencem a um movimento de invasão das terras sulistas. Sendo assim, os círculos podiam já estar ali muito antes de seu movimento migratório.

Tudo indica que os círculos anelados de terra do sul do Brasil ainda guardarão seus segredos por algumas décadas, até que decidam por escavá-los da forma como fizeram com seus semelhantes no Acre.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 23/08/2018 às 17h09 | daltonmaziero@uol.com.br



Dalton Delfini Maziero

Assina a coluna América Misteriosa

Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.














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O mistério dos geoglifos gaúchos

Existem no sul do Brasil, estranhas formações terrestres que desafiam a ciência. São círculos “anelados”, feitos de terra, que se assemelham muito aos recentes geoglifos descobertos no Acre. Porém, chamá-los de geoglifos é apenas uma forma de categorizá-los, de aproximá-los a algo que já conhecemos. Embora as tradições populares atribuam a eles a função de currais, a verdade é que não sabemos a que se destinavam.

Levantamentos terrestres - e através do Google Earth - detectaram mais de 1000 formações espalhadas entre o Rio Grande do Sul, Argentina e Uruguai. Contudo, a maior parte delas é feitas por pequenas muretas de pedra ou por cercas vivas de plantas. Mas existem também os gigantescos círculos formados por terra, que alcançam entre 20 e 170 metros de diâmetro. Algumas tradições populares apontam os círculos de terra como estruturas fabricadas por escravos, no início da colonização, cuja função seria a de um curral.

Círculos formados por árvores e palmas são citados na obra de Auguste Saint-Hilaire em 1820. Eram os chamados “currais de palmas”, que nem sempre eram palmas! Muitos foram cercados por ananás, pessegueiros, caibros de madeira, espinheiros, bananeiras ou cana de açúcar. Mas pesquisadores como Joaquim Dias e André Oliveira estimam que os círculos tenham mais de 200 anos, e que estariam associados ao movimento de tropeiros do século XVIII.

Contudo, apesar dessa associação natural com os antigos currais gaúchos de pedra e palmas, os círculos anelados de terra ganharam uma nova perspectiva após a descoberta dos geoglifos do Acre. Lá também existiam teorias que aproximavam as antigas valas às reservatórios indígenas de água ou mesmo a trincheiras da Revolução Acreana (1899-1903). Posteriormente, os arqueólogos provaram tratar-se de antigas estruturas arqueológicas. Seriam então, os círculos gaúchos, construções de povos pré-históricos, utilizados posteriormente como currais ao longo da colonização europeia?

Pesquisadores como Rodrigo Aguiar, André Prous e os arqueólogos Fábio Vergara Cerqueira e Alceu Ranzi, parecem estar convencidos que alguns deles realmente pertençam a uma tradição pré-histórica. Embora Prous – “O Brasil antes dos brasileiros”, 2006 – associe os círculos gaúchos com aqueles do Acre e os aproxime da cultura Taquara, outros estudiosos - como Ana Maria Ruthschlling - lembram que os mesmos não são originários da região, ou seja, pertencem a um movimento de invasão das terras sulistas. Sendo assim, os círculos podiam já estar ali muito antes de seu movimento migratório.

Tudo indica que os círculos anelados de terra do sul do Brasil ainda guardarão seus segredos por algumas décadas, até que decidam por escavá-los da forma como fizeram com seus semelhantes no Acre.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 23/08/2018 às 17h09 | daltonmaziero@uol.com.br



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