Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

QORIKANCHA – O TEMPLO DO SOL

Em 1950, religiosos dominicanos se desesperaram nas ruas da cidade de Cusco (Peru). Um grande terremoto devastou vários edifícios, e fez vir abaixo - pela segunda vez - boa parte do Convento de Santo Domingo, que ocupava a região central desde 1534. Enquanto uns lamentavam a derrocada do Convento, outros viam a oportunidade para fazer renascer o verdadeiro templo local: O Qorikancha (Koricancha), ou Templo do Sol, construído e ampliado por vários dignitários Incas, em especial Tupa Yupanki.

O terremoto expôs uma das mais imponentes construções do Império Inca. Enquanto os edifícios modernos ruíam, os alicerces do Qorikancha suportaram os tremores, graças a primorosa arquitetura inca, com rochas habilmente encaixadas e reclinadas para suportarem tremores de terra.

O Qorikancha era mais que um templo. Foi um espaço sagrado de oração, e nele estavam além do Templo do Sol, o Templo Chuki Illapa (Trovões), o Templo da Lua, o Templo de Vênus e das Estrelas e o K’uychi, Templo do Arco Iris. Neste amplo espaço sagrado, só podiam adentrar o próprio Imperador, o sumo sacerdote (Willaq Umu), e um número restrito de sacerdotes e Virgens do Sol. Esse grupo de profissionais eram responsáveis pela celebração de datas importantes, cerimônias e monitoração de atividades celestes. O cronista “Inca” Garcilaso de La Veja (1501-1536), nos conta que no Templo do Sol estavam os corpos embalsamados dos Filhos do Sol (Imperadores), em um recinto onde tudo - mesas, cadeiras - era feito em ouro. Já no Templo da Lua, por ser considerada esposa do Sol, encontravam-se as Coyas, esposas dos Incas. Neste templo, os ornamentos eram feitos em prata.

Cieza de León (1520-1554) nos dá uma descrição impressionante das riquezas nesse recinto sagrado: “era uma vasta muralha... [Qoricancha]... retangular de 400 passos de perímetro, construía em pedras secas, perfeitamente entalhadas e ajustadas umas às outras sem outro cimento além do betume ...[...]... As portas, inteiramente revestidas de ouro, abriam-se para um jardim coberto de fragmentos de ouro fino e plantado com um milho cujo caule, folhas e espigas eram igualmente de ouro. Em meio a essa vegetação artificial, passavam umas 20 lhamas de ouro em tamanho natural. No interior do jardim se elevavam quatro santuários cujos muros eram externas e inteiramente recobertos de placas do metal precioso”.

Podemos acreditar - literalmente - nas palavras de Garcilaso e de Cieza de Leon sobre o aspecto do Qoricancha? Acredito que uma boa parte seja verdade, embora talvez haja certo exagero em relação aos ornamentos de ouro. Quem sabe novas escavações não possam nos revelar detalhes ainda mais incríveis...

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 06/09/2018 às 15h44 | daltonmaziero@uol.com.br



Dalton Delfini Maziero

Assina a coluna América Misteriosa

Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.














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QORIKANCHA – O TEMPLO DO SOL

Em 1950, religiosos dominicanos se desesperaram nas ruas da cidade de Cusco (Peru). Um grande terremoto devastou vários edifícios, e fez vir abaixo - pela segunda vez - boa parte do Convento de Santo Domingo, que ocupava a região central desde 1534. Enquanto uns lamentavam a derrocada do Convento, outros viam a oportunidade para fazer renascer o verdadeiro templo local: O Qorikancha (Koricancha), ou Templo do Sol, construído e ampliado por vários dignitários Incas, em especial Tupa Yupanki.

O terremoto expôs uma das mais imponentes construções do Império Inca. Enquanto os edifícios modernos ruíam, os alicerces do Qorikancha suportaram os tremores, graças a primorosa arquitetura inca, com rochas habilmente encaixadas e reclinadas para suportarem tremores de terra.

O Qorikancha era mais que um templo. Foi um espaço sagrado de oração, e nele estavam além do Templo do Sol, o Templo Chuki Illapa (Trovões), o Templo da Lua, o Templo de Vênus e das Estrelas e o K’uychi, Templo do Arco Iris. Neste amplo espaço sagrado, só podiam adentrar o próprio Imperador, o sumo sacerdote (Willaq Umu), e um número restrito de sacerdotes e Virgens do Sol. Esse grupo de profissionais eram responsáveis pela celebração de datas importantes, cerimônias e monitoração de atividades celestes. O cronista “Inca” Garcilaso de La Veja (1501-1536), nos conta que no Templo do Sol estavam os corpos embalsamados dos Filhos do Sol (Imperadores), em um recinto onde tudo - mesas, cadeiras - era feito em ouro. Já no Templo da Lua, por ser considerada esposa do Sol, encontravam-se as Coyas, esposas dos Incas. Neste templo, os ornamentos eram feitos em prata.

Cieza de León (1520-1554) nos dá uma descrição impressionante das riquezas nesse recinto sagrado: “era uma vasta muralha... [Qoricancha]... retangular de 400 passos de perímetro, construía em pedras secas, perfeitamente entalhadas e ajustadas umas às outras sem outro cimento além do betume ...[...]... As portas, inteiramente revestidas de ouro, abriam-se para um jardim coberto de fragmentos de ouro fino e plantado com um milho cujo caule, folhas e espigas eram igualmente de ouro. Em meio a essa vegetação artificial, passavam umas 20 lhamas de ouro em tamanho natural. No interior do jardim se elevavam quatro santuários cujos muros eram externas e inteiramente recobertos de placas do metal precioso”.

Podemos acreditar - literalmente - nas palavras de Garcilaso e de Cieza de Leon sobre o aspecto do Qoricancha? Acredito que uma boa parte seja verdade, embora talvez haja certo exagero em relação aos ornamentos de ouro. Quem sabe novas escavações não possam nos revelar detalhes ainda mais incríveis...

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 06/09/2018 às 15h44 | daltonmaziero@uol.com.br



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