Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

ISKANWAYA RENASCIDA!

Foi com muita felicidade que li a recente notícia da retomada das escavações de Iskanwaya (Bolívia) e do objetivo de fazer daquele local, um polo turístico. Mas tudo deve ser feito com muito cuidado! Afinal, são 325 km de distância da capital La Paz e já se vão mais de 30 anos desde as últimas escavações.

Segundo Carlos Lemuz (Presidente da SALP – Sociedade de Arqueólogos de La Paz): “Já no passado tentaram realizar projetos semelhantes, com resultados incompletos ou falidos, principalmente por falta de supervisão e fiscalização”. Eu mesmo vi o resultado de uma dessas tentativas em 1997, quando realizei uma caminhada pela Cordilheira - entre despenhadeiros traiçoeiros - até atingir Aucapata, o povoado mais próximo às ruínas. Na entrada do sítio, uma placa enferrujada alertava para o “Projeto Iskanwaya”. Na época, os moradores me disseram que aquele foi apenas mais uma das tentativas frustradas de fazer dali, um atrativo turístico.

Iskanwaya é um lugar difícil de ser atingido e compreendido. Espremida num pequeno espaço de terreno, apresenta "ruas" estreitas, separadas por enormes muralhas com leve grau de inclinação. Tudo ali fora meticulosamente planejado pelo povo Mollo. As ruínas são divididas em blocos, onde podemos distinguir vários agrupamentos de casas. Um deles, no entanto, é maior e mais completo, contendo todas as características típicas dos antigos mollos. Elas estão localizadas a 1700 metros de altitude, cobrindo uma área de aproximadamente 13 hectares. As inclinações de seus terraços e dos muros são de 1,5 graus em relação à perpendicular. Reclinadas, evitam possíveis deslizamentos.

Impossível não reparar as casas geminadas, originalmente pintadas de vermelho. Todas com duas dependências. A da frente é aberta para o pátio central da cidade. Cozinhavam, teciam e produziam seus objetos de cerâmica. Neste espaço, moíam seus grãos, esfregando-os sobre uma pedra côncava com o auxílio de outra circular. Ainda hoje podemos ver vários desses moedores em pedra! Já o cômodo dos fundos era fechado e acessado apenas por uma janela em forma de trapézio. Esse estilo de janela foi idealizado para suportar tremores de terra e, ao contrário do que dizem, não foi invenção dos Incas, mas sim dos Mollos!

Em Aucapata, me contaram uma interessante lenda sobre o abandono do lugar. Dizem que os mollos não conhecia o sol. Viviam de noite, e dormiam de dia. Então, os sábios de Iskanwaya - aos gritos - anunciando que uma desgraça iria se abater sobre a cidade. Falavam que uma grande bola de fogo (Sol) surgiria no céu, prognosticando uma série de calamidades. Apavorados, os moradores se trancaram em suas casas a fim de não presenciarem o acontecimento. Tão temerosos ficaram que pereceram todos de fome e medo. Assim, Iskanwaya caiu em abandono e ruína.


Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 31/10/2018 às 16h04 | daltonmaziero@uol.com.br



Dalton Delfini Maziero

Assina a coluna América Misteriosa

Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.


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ISKANWAYA RENASCIDA!

Foi com muita felicidade que li a recente notícia da retomada das escavações de Iskanwaya (Bolívia) e do objetivo de fazer daquele local, um polo turístico. Mas tudo deve ser feito com muito cuidado! Afinal, são 325 km de distância da capital La Paz e já se vão mais de 30 anos desde as últimas escavações.

Segundo Carlos Lemuz (Presidente da SALP – Sociedade de Arqueólogos de La Paz): “Já no passado tentaram realizar projetos semelhantes, com resultados incompletos ou falidos, principalmente por falta de supervisão e fiscalização”. Eu mesmo vi o resultado de uma dessas tentativas em 1997, quando realizei uma caminhada pela Cordilheira - entre despenhadeiros traiçoeiros - até atingir Aucapata, o povoado mais próximo às ruínas. Na entrada do sítio, uma placa enferrujada alertava para o “Projeto Iskanwaya”. Na época, os moradores me disseram que aquele foi apenas mais uma das tentativas frustradas de fazer dali, um atrativo turístico.

Iskanwaya é um lugar difícil de ser atingido e compreendido. Espremida num pequeno espaço de terreno, apresenta "ruas" estreitas, separadas por enormes muralhas com leve grau de inclinação. Tudo ali fora meticulosamente planejado pelo povo Mollo. As ruínas são divididas em blocos, onde podemos distinguir vários agrupamentos de casas. Um deles, no entanto, é maior e mais completo, contendo todas as características típicas dos antigos mollos. Elas estão localizadas a 1700 metros de altitude, cobrindo uma área de aproximadamente 13 hectares. As inclinações de seus terraços e dos muros são de 1,5 graus em relação à perpendicular. Reclinadas, evitam possíveis deslizamentos.

Impossível não reparar as casas geminadas, originalmente pintadas de vermelho. Todas com duas dependências. A da frente é aberta para o pátio central da cidade. Cozinhavam, teciam e produziam seus objetos de cerâmica. Neste espaço, moíam seus grãos, esfregando-os sobre uma pedra côncava com o auxílio de outra circular. Ainda hoje podemos ver vários desses moedores em pedra! Já o cômodo dos fundos era fechado e acessado apenas por uma janela em forma de trapézio. Esse estilo de janela foi idealizado para suportar tremores de terra e, ao contrário do que dizem, não foi invenção dos Incas, mas sim dos Mollos!

Em Aucapata, me contaram uma interessante lenda sobre o abandono do lugar. Dizem que os mollos não conhecia o sol. Viviam de noite, e dormiam de dia. Então, os sábios de Iskanwaya - aos gritos - anunciando que uma desgraça iria se abater sobre a cidade. Falavam que uma grande bola de fogo (Sol) surgiria no céu, prognosticando uma série de calamidades. Apavorados, os moradores se trancaram em suas casas a fim de não presenciarem o acontecimento. Tão temerosos ficaram que pereceram todos de fome e medo. Assim, Iskanwaya caiu em abandono e ruína.


Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 31/10/2018 às 16h04 | daltonmaziero@uol.com.br



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