Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

UM NOVO ROSTO PARA LUZIA?

Na noite de 02 de setembro de 2018, assistimos estarrecidos o incêndio de grandes proporções que destruiu quase a totalidade de um dos maiores acervos históricos do Brasil e do mundo, no Museu Nacional do Rio de Janeiro. Independente dos culpados por esse descaso, fato é que lá se perdeu a ossada de “Luzia”, peça fundamental para o entendimento da ocupação da América.

Nos anos de 1990, ocorreu uma quebra de paradigma relacionado a essa ocupação. Até os anos de 1970, a visão norte americana indicava que ela ocorrera pela migração via Estreito de Bering, cerca de 13 mil anos atrás. Ao final da última Era Glacial (100 a 12 mil anos), o grupo que avançou formou a chamada cultura Clóvis, tornando-se caçadores-coletores nas estepes dos EUA.

Contudo, descobertas arqueológicas na América do Sul indicavam que grupos humanos se estabeleceram aqui a mais de 14 mil anos atrás, como é o caso de Monte Verde, no Chile. Ou seja, a datação da transposição do Estreito de Bering estava incorreta, e os arqueólogos norte americanos acabaram aceitando que a América do Sul possuía datações mais antigas que a da cultura Clovis.

Agora em 2018, ocorreu um novo paradigma, que só foi possível graças aos estudos da biologia molecular e do DNA fóssil. Segundo esses novos estudos, grupos humanos cruzaram o Estreito de Bering cerca de 17 mil anos atrás, em uma corrente migratória com DNA cuja afinidade se aproxima do norte da China e Sibéria; e não da África e Australásia, como se pensava antes. Essa onda migratória invadiu a América do Sul em três épocas distintas: 15 mil, 9 mil e 4,5 mil anos atrás, sendo esta última estabelecida pontualmente no Andes Centrais.

A pesquisa utilizou, entre outros, esqueletos encontrados na Lagoa Santa (Brasil), que revelaram ligações genéticas com o grupo Clovis (EUA). Portanto, ao contrário do que se pensava, o grupo brasileiro - incluindo Luzia (12.500 anos) - não possuía nenhuma proveniência africana ou aborígene. O famoso busto de Luzia - destruído no incêndio - foi concebido pelo britânico Richard Neave, na década de 1990, baseado nas feições africanas e aborígenes australianas.

Outra lição aprendida com a pesquisa de DNA, mostra que a formação morfológica craniana não são fontes confiáveis para recriações genéticas. Com essas novas informações em mãos, a especialista em reconstrução forense Caroline Wilkinson trabalha na reconstrução de outros fósseis provenientes de Lagoa Santa, na esperança de, desta vez, conseguir alcançar um resultado mais confiável do que o antigo busto de Luzia. Infelizmente, mais de 100 indivíduos - representados por fósseis - ainda não estudados, perderam-se com o terrível incêndio do Museu Nacional, limitando assim, pesquisas mais avançadas.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 06/12/2018 às 16h26 | daltonmaziero@uol.com.br



Dalton Delfini Maziero

Assina a coluna América Misteriosa

Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.














Fale Conosco - Anuncie no Página 3 - Normas de Uso
© Desenvolvido por Página 3

Endereço: Rua 2448, 360 - Balneário Camboriú - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: jornal@pagina3.com.br

Página 3
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

UM NOVO ROSTO PARA LUZIA?

Na noite de 02 de setembro de 2018, assistimos estarrecidos o incêndio de grandes proporções que destruiu quase a totalidade de um dos maiores acervos históricos do Brasil e do mundo, no Museu Nacional do Rio de Janeiro. Independente dos culpados por esse descaso, fato é que lá se perdeu a ossada de “Luzia”, peça fundamental para o entendimento da ocupação da América.

Nos anos de 1990, ocorreu uma quebra de paradigma relacionado a essa ocupação. Até os anos de 1970, a visão norte americana indicava que ela ocorrera pela migração via Estreito de Bering, cerca de 13 mil anos atrás. Ao final da última Era Glacial (100 a 12 mil anos), o grupo que avançou formou a chamada cultura Clóvis, tornando-se caçadores-coletores nas estepes dos EUA.

Contudo, descobertas arqueológicas na América do Sul indicavam que grupos humanos se estabeleceram aqui a mais de 14 mil anos atrás, como é o caso de Monte Verde, no Chile. Ou seja, a datação da transposição do Estreito de Bering estava incorreta, e os arqueólogos norte americanos acabaram aceitando que a América do Sul possuía datações mais antigas que a da cultura Clovis.

Agora em 2018, ocorreu um novo paradigma, que só foi possível graças aos estudos da biologia molecular e do DNA fóssil. Segundo esses novos estudos, grupos humanos cruzaram o Estreito de Bering cerca de 17 mil anos atrás, em uma corrente migratória com DNA cuja afinidade se aproxima do norte da China e Sibéria; e não da África e Australásia, como se pensava antes. Essa onda migratória invadiu a América do Sul em três épocas distintas: 15 mil, 9 mil e 4,5 mil anos atrás, sendo esta última estabelecida pontualmente no Andes Centrais.

A pesquisa utilizou, entre outros, esqueletos encontrados na Lagoa Santa (Brasil), que revelaram ligações genéticas com o grupo Clovis (EUA). Portanto, ao contrário do que se pensava, o grupo brasileiro - incluindo Luzia (12.500 anos) - não possuía nenhuma proveniência africana ou aborígene. O famoso busto de Luzia - destruído no incêndio - foi concebido pelo britânico Richard Neave, na década de 1990, baseado nas feições africanas e aborígenes australianas.

Outra lição aprendida com a pesquisa de DNA, mostra que a formação morfológica craniana não são fontes confiáveis para recriações genéticas. Com essas novas informações em mãos, a especialista em reconstrução forense Caroline Wilkinson trabalha na reconstrução de outros fósseis provenientes de Lagoa Santa, na esperança de, desta vez, conseguir alcançar um resultado mais confiável do que o antigo busto de Luzia. Infelizmente, mais de 100 indivíduos - representados por fósseis - ainda não estudados, perderam-se com o terrível incêndio do Museu Nacional, limitando assim, pesquisas mais avançadas.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 06/12/2018 às 16h26 | daltonmaziero@uol.com.br



Dalton Delfini Maziero

Assina a coluna América Misteriosa

Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.