Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

O MITO DE CRIAÇÃO MUISCA

Se algum dia viajar por terras colombianas, certamente irá escutar a respeito dos Muíscas (ou chibchas), povo que migrou da América Central, estabelecendo-se nos planaltos da Colômbia, onde formou uma grande confederação político-administrativa. Uma das mais interessantes características desse povo, foi seu conceito mitológico da criação do mundo. Embora tenham habitado os atuais estados de Cundinamarca e Boyacá, foi nesse último – mais especificamente nos arredores de Villa de Leyva – que encontramos vestígios arqueológicos de sua presença e alguns territórios sagrados, como a Laguna de Iguaque. Nesta laguna ocorre o mito de Bachué, deusa e mãe dos Muíscas!

A laguna sagrada - situada a 3.800 metros de altitude - é fria, mas cercada de flores e vegetação rasteira. Segundo os Muíscas, em tempos imemoriais, suas águas começaram a borbulhar, e dela ergueu-se nua Bachué - também conhecida como Furachonga -, uma linda mulher esbelta e de longos cabelos. Trazia em seus braços uma criança, seu filho, de três anos. Caminhou assim sobre as águas da laguna, até atingir sua orla.

Bachué desceu da serra para terras mais baixas, onde construiu uma cabana e criou seu filho. Eram épocas de terras selvagens, ainda sem seres humanos ou outros animais. Quando a criança cresceu, iniciou sua missão de povoar a terra. Contraíram matrimônio, e Bachué de tão fértil, a cada parto gerava de quatro a seis filhos. Viajaram assim por várias regiões, povoando com seus filhos cada território. E os ensinou a cozinhar, tecer, cultivar a terra, construir casas, fazer potes de barro e trabalhar o metal.

Povoada a terra, Bachué e seu marido retornaram a laguna Iguaque. Lá, diante de vários de seus filhos, aconselhou-os a seguirem seus ensinamentos, suas leis, a pregarem a paz, os preceitos das leis e, principalmente, honrar seus deuses. Dito isso, mergulharam na laguna e desapareceram. Tempos depois, ressurgiram em forma de serpente, percorrendo a terra e anunciando que sempre estariam presentes na vida dos homens. A laguna Iguaque converteu-se em um lugar sagrado e ali iniciaram celebrações em homenagem a Bachué. Isso determinou o matriarcado no povo Muísca, onde a mulher exercia papel fundamental na transmissão dos costumes, tradições e valores culturais.

O mito criador de Bachué não é o único existente na Colômbia, mas evidencia uma forte tradição relacionada à fertilidade. Não sem motivo, relativamente perto da laguna Iguaque, fica o sítio arqueológico de “El Infiernito” - já descrito nestas crônicas - onde podemos encontrar um observatório celeste formado por enormes falos de pedra! O mito Muísca revela enfim, uma ordem social diferente da que conhecemos, onde a natureza e a fertilidade andavam parelhas, coligadas a imagem da mulher.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 19/12/2018 às 11h56 | daltonmaziero@uol.com.br



Dalton Delfini Maziero

Assina a coluna América Misteriosa

Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.














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O MITO DE CRIAÇÃO MUISCA

Se algum dia viajar por terras colombianas, certamente irá escutar a respeito dos Muíscas (ou chibchas), povo que migrou da América Central, estabelecendo-se nos planaltos da Colômbia, onde formou uma grande confederação político-administrativa. Uma das mais interessantes características desse povo, foi seu conceito mitológico da criação do mundo. Embora tenham habitado os atuais estados de Cundinamarca e Boyacá, foi nesse último – mais especificamente nos arredores de Villa de Leyva – que encontramos vestígios arqueológicos de sua presença e alguns territórios sagrados, como a Laguna de Iguaque. Nesta laguna ocorre o mito de Bachué, deusa e mãe dos Muíscas!

A laguna sagrada - situada a 3.800 metros de altitude - é fria, mas cercada de flores e vegetação rasteira. Segundo os Muíscas, em tempos imemoriais, suas águas começaram a borbulhar, e dela ergueu-se nua Bachué - também conhecida como Furachonga -, uma linda mulher esbelta e de longos cabelos. Trazia em seus braços uma criança, seu filho, de três anos. Caminhou assim sobre as águas da laguna, até atingir sua orla.

Bachué desceu da serra para terras mais baixas, onde construiu uma cabana e criou seu filho. Eram épocas de terras selvagens, ainda sem seres humanos ou outros animais. Quando a criança cresceu, iniciou sua missão de povoar a terra. Contraíram matrimônio, e Bachué de tão fértil, a cada parto gerava de quatro a seis filhos. Viajaram assim por várias regiões, povoando com seus filhos cada território. E os ensinou a cozinhar, tecer, cultivar a terra, construir casas, fazer potes de barro e trabalhar o metal.

Povoada a terra, Bachué e seu marido retornaram a laguna Iguaque. Lá, diante de vários de seus filhos, aconselhou-os a seguirem seus ensinamentos, suas leis, a pregarem a paz, os preceitos das leis e, principalmente, honrar seus deuses. Dito isso, mergulharam na laguna e desapareceram. Tempos depois, ressurgiram em forma de serpente, percorrendo a terra e anunciando que sempre estariam presentes na vida dos homens. A laguna Iguaque converteu-se em um lugar sagrado e ali iniciaram celebrações em homenagem a Bachué. Isso determinou o matriarcado no povo Muísca, onde a mulher exercia papel fundamental na transmissão dos costumes, tradições e valores culturais.

O mito criador de Bachué não é o único existente na Colômbia, mas evidencia uma forte tradição relacionada à fertilidade. Não sem motivo, relativamente perto da laguna Iguaque, fica o sítio arqueológico de “El Infiernito” - já descrito nestas crônicas - onde podemos encontrar um observatório celeste formado por enormes falos de pedra! O mito Muísca revela enfim, uma ordem social diferente da que conhecemos, onde a natureza e a fertilidade andavam parelhas, coligadas a imagem da mulher.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 19/12/2018 às 11h56 | daltonmaziero@uol.com.br



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