Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

TULOR – VIDA EM MEIO AO DESERTO

Estive no deserto do Atacama em 1990. Naquela época – quase 30 anos atrás – o povoado de San Pedro de Atacama era sinônimo de aventura. Água e luz elétrica eram luxos que duravam apenas algumas horas do dia. Não haviam ruas pavimentadas nem hotéis estabelecidos. Era tudo muito rústico, e por isso, tudo muito original. Caminhar pela noite nos arredores do povoado sem luz, era um convite a presenciar a Via Láctea em todo seu esplendor.

Não é preciso ser muito observador para notar que aquela região é antiquíssima! Vestígios de antigos povos podem ser vistos ainda hoje, no Museu Gustav Le Paige, ou nas ruinas arqueológicas de Pukara e Tulor. Não sem motivo, foi naquele oásis que surgiram alguns dos mais antigos assentamentos da região.

Desde San Pedro de Atacama é possível chegar a estes sítios a pé, com um pouco de boa disposição. A Aldeia de Tulor dista cerca de 7 Km do centro da cidade, por um caminho árido, onde podemos observar um cenário que não teve grandes alterações nos últimos milhares de anos. Os primeiros vestígios de Tulor vieram a luz em 1956, pelas mãos do jesuíta arqueólogo belga Gustavo Le Paige de Walque (1903-1980), e depois, já na década de 1980 pela arqueóloga Ana María Barón. Os objetos encontrados nesses quase 30 anos de pesquisa mostram uma aldeia sedentária, ativa cerca de 700 anos aC.

É notável a arquitetura empregada em Tulor, composta de uma série de estruturas circulares interligadas. Elas serviam não apenas como residências, mas também como depósitos, espaços sagrados ou de reuniões. Foram construídas de modo semi-subterrâneo, com o centro interno do espaço rebaixado em relação ao solo. Esse tipo de arquitetura foi comum em antigos povos, e lembra muito uma “colmeia de abelhas”. Podemos encontrar semelhanças em Wankarani (Bolívia) e Potrero Grande (Argentina), lugares com o mesmo alcance cultural em épocas remotas.

Foram encontrados em Tulor, sementes, vasilhas, têxteis, couro, penas de aves tropicais e conchas, além de produtos que levam a crer que ela fazia parte de uma rede de mobilidade sagrada-comercial que ocorria há centenas de anos no norte do Chile. Esses caminhos eram ocupados por caravanas de lhamas, que traziam produtos de terras distantes e que usavam o oásis de Atacama como ponto de parada e recuperação. A datação de cerâmicas aponta que sua ocupação se estendeu, pelo menos, até o século V dC.

Tulor também representa uma experiência importante na conservação do patrimônio histórico chileno. Após figurar como um dos 100 sítios arqueológicos mais ameaçados do planeta, sua administração em 2002 ficou aos cuidados da Comunidade Indígena de Coyo, ganhadora do Prêmio de Conservação de Monumentos Nacionais pelo seu trabalho.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: ARQUEOLOGIA AMERICANA (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 31/01/2019 às 11h16 | daltonmaziero@uol.com.br



Dalton Delfini Maziero

Assina a coluna América Misteriosa

Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.














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TULOR – VIDA EM MEIO AO DESERTO

Estive no deserto do Atacama em 1990. Naquela época – quase 30 anos atrás – o povoado de San Pedro de Atacama era sinônimo de aventura. Água e luz elétrica eram luxos que duravam apenas algumas horas do dia. Não haviam ruas pavimentadas nem hotéis estabelecidos. Era tudo muito rústico, e por isso, tudo muito original. Caminhar pela noite nos arredores do povoado sem luz, era um convite a presenciar a Via Láctea em todo seu esplendor.

Não é preciso ser muito observador para notar que aquela região é antiquíssima! Vestígios de antigos povos podem ser vistos ainda hoje, no Museu Gustav Le Paige, ou nas ruinas arqueológicas de Pukara e Tulor. Não sem motivo, foi naquele oásis que surgiram alguns dos mais antigos assentamentos da região.

Desde San Pedro de Atacama é possível chegar a estes sítios a pé, com um pouco de boa disposição. A Aldeia de Tulor dista cerca de 7 Km do centro da cidade, por um caminho árido, onde podemos observar um cenário que não teve grandes alterações nos últimos milhares de anos. Os primeiros vestígios de Tulor vieram a luz em 1956, pelas mãos do jesuíta arqueólogo belga Gustavo Le Paige de Walque (1903-1980), e depois, já na década de 1980 pela arqueóloga Ana María Barón. Os objetos encontrados nesses quase 30 anos de pesquisa mostram uma aldeia sedentária, ativa cerca de 700 anos aC.

É notável a arquitetura empregada em Tulor, composta de uma série de estruturas circulares interligadas. Elas serviam não apenas como residências, mas também como depósitos, espaços sagrados ou de reuniões. Foram construídas de modo semi-subterrâneo, com o centro interno do espaço rebaixado em relação ao solo. Esse tipo de arquitetura foi comum em antigos povos, e lembra muito uma “colmeia de abelhas”. Podemos encontrar semelhanças em Wankarani (Bolívia) e Potrero Grande (Argentina), lugares com o mesmo alcance cultural em épocas remotas.

Foram encontrados em Tulor, sementes, vasilhas, têxteis, couro, penas de aves tropicais e conchas, além de produtos que levam a crer que ela fazia parte de uma rede de mobilidade sagrada-comercial que ocorria há centenas de anos no norte do Chile. Esses caminhos eram ocupados por caravanas de lhamas, que traziam produtos de terras distantes e que usavam o oásis de Atacama como ponto de parada e recuperação. A datação de cerâmicas aponta que sua ocupação se estendeu, pelo menos, até o século V dC.

Tulor também representa uma experiência importante na conservação do patrimônio histórico chileno. Após figurar como um dos 100 sítios arqueológicos mais ameaçados do planeta, sua administração em 2002 ficou aos cuidados da Comunidade Indígena de Coyo, ganhadora do Prêmio de Conservação de Monumentos Nacionais pelo seu trabalho.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: ARQUEOLOGIA AMERICANA (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 31/01/2019 às 11h16 | daltonmaziero@uol.com.br



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