Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

A CIVILIZAÇÃO CHIMÚ E O SACRIFÍCIO DE CRIANÇAS

A civilização Chimú (norte do Peru) é usualmente conhecida pela construção de Chan Chan, a maior cidade de barro do mundo. Aquele povo possuía engenhosos arquitetos, que desenvolveram um sistema hidráulico notável, capaz de trazer água de longe para abastecer sua capital em pleno deserto. Também possuíam hábeis artesãos e metalúrgicos. Entre os séculos X e XV, foram os senhores do norte, herdeiros dos antigos Mochicas.

Contudo, apesar dos avançados conhecimentos, estavam, assim como os demais povos pré-colombianos, presos a conceitos que hoje são de difícil aceitação moral. Recentemente, na região de Huanchaco, arqueólogos realizaram uma assustadora descoberta! Corpos de 227 crianças foram encontradas, no que é - até o momento - o maior sacrifício humano já descoberto. Elas tinham entre 4 e 12 anos. Segundo o arqueólogo Feren Castillo, as crianças tinham seus rostos voltados ao oceano Pacífico.

A região de Huanchaco é pródiga em revelar grandes depósitos de corpos em sacrifício, tanto de homens quanto de animais. Em 2018, localizaram em Pampa de la Cruz, 56 corpos. Em Huanchaquito - no mesmo ano - 140 crianças e 200 lhamas foram encontradas. No caso do desenterramento das 227 crianças, arqueólogos notaram um fino e preciso corte no externo (osso do peito), realizado provavelmente por profissional com muita habilidade. A faca utilizada para o procedimento também foi localizada nas escavações. Ao que tudo indica, os sacrifícios tinham o objetivo de agradar os deuses e pedir o fim dos desastres naturais causados pelo fenômeno climático conhecido como El Niño. Outros povos desenvolveram seus próprios rituais para aplacar a fúria do El Niño, como por exemplo, a criação de geoglifos no deserto, que faziam parte de pedidos envolvendo a chuva e a fertilidade da natureza.

Contudo, a pergunta que fazemos é: Por que crianças? Sabemos sobre a existência de guerras rituais, forjadas com o único objetivo de capturar guerreiros adversários para os rituais de sacrifício. Isso era prática comum e aceitável entre os povos andinos. Contudo, é difícil imaginar que crianças fizessem parte desse “jogo” ritual de vida e morte. Talvez seu estado de infância fosse, aos olhos dos sacerdotes, um elemento valioso aos deuses. Um elemento de convencimento maior, que sobrepujava o sacrifício de guerreiros adultos capturados.

Por fim, em 1470 dC, a civilização Chimú foi conquistada e assimilada pela expansão Inca, em ofensiva de seu líder Túpac Yupanqui, que destruiu os sistemas de canalização de água, condenando a capital Chan Chan à escassez total. Sua gigantesca cidade sucumbiu, assim como os rituais de sacrifício aos deuses.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 27/09/2019 às 12h04 | daltonmaziero@uol.com.br



Dalton Delfini Maziero

Assina a coluna América Misteriosa

Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.














Fale Conosco - Anuncie no Página 3 - Normas de Uso
© Desenvolvido por Página 3

Endereço: Rua 2448, 360 - Balneário Camboriú - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: jornal@pagina3.com.br

Página 3
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

A CIVILIZAÇÃO CHIMÚ E O SACRIFÍCIO DE CRIANÇAS

A civilização Chimú (norte do Peru) é usualmente conhecida pela construção de Chan Chan, a maior cidade de barro do mundo. Aquele povo possuía engenhosos arquitetos, que desenvolveram um sistema hidráulico notável, capaz de trazer água de longe para abastecer sua capital em pleno deserto. Também possuíam hábeis artesãos e metalúrgicos. Entre os séculos X e XV, foram os senhores do norte, herdeiros dos antigos Mochicas.

Contudo, apesar dos avançados conhecimentos, estavam, assim como os demais povos pré-colombianos, presos a conceitos que hoje são de difícil aceitação moral. Recentemente, na região de Huanchaco, arqueólogos realizaram uma assustadora descoberta! Corpos de 227 crianças foram encontradas, no que é - até o momento - o maior sacrifício humano já descoberto. Elas tinham entre 4 e 12 anos. Segundo o arqueólogo Feren Castillo, as crianças tinham seus rostos voltados ao oceano Pacífico.

A região de Huanchaco é pródiga em revelar grandes depósitos de corpos em sacrifício, tanto de homens quanto de animais. Em 2018, localizaram em Pampa de la Cruz, 56 corpos. Em Huanchaquito - no mesmo ano - 140 crianças e 200 lhamas foram encontradas. No caso do desenterramento das 227 crianças, arqueólogos notaram um fino e preciso corte no externo (osso do peito), realizado provavelmente por profissional com muita habilidade. A faca utilizada para o procedimento também foi localizada nas escavações. Ao que tudo indica, os sacrifícios tinham o objetivo de agradar os deuses e pedir o fim dos desastres naturais causados pelo fenômeno climático conhecido como El Niño. Outros povos desenvolveram seus próprios rituais para aplacar a fúria do El Niño, como por exemplo, a criação de geoglifos no deserto, que faziam parte de pedidos envolvendo a chuva e a fertilidade da natureza.

Contudo, a pergunta que fazemos é: Por que crianças? Sabemos sobre a existência de guerras rituais, forjadas com o único objetivo de capturar guerreiros adversários para os rituais de sacrifício. Isso era prática comum e aceitável entre os povos andinos. Contudo, é difícil imaginar que crianças fizessem parte desse “jogo” ritual de vida e morte. Talvez seu estado de infância fosse, aos olhos dos sacerdotes, um elemento valioso aos deuses. Um elemento de convencimento maior, que sobrepujava o sacrifício de guerreiros adultos capturados.

Por fim, em 1470 dC, a civilização Chimú foi conquistada e assimilada pela expansão Inca, em ofensiva de seu líder Túpac Yupanqui, que destruiu os sistemas de canalização de água, condenando a capital Chan Chan à escassez total. Sua gigantesca cidade sucumbiu, assim como os rituais de sacrifício aos deuses.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 27/09/2019 às 12h04 | daltonmaziero@uol.com.br



Dalton Delfini Maziero

Assina a coluna América Misteriosa

Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.