Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

ILOPANGO – O VULCÃO QUE ABALOU A CIVILIZAÇÃO MAIA

Durante décadas, geólogos e arqueólogos encontraram evidências de uma catástrofe nas Américas, com repercussões globais. Os primeiros sinais surgiram na Groenlândia e no gelo da Antártica. Ali, vestígios aprisionados no gelo davam mostra de dois eventos ocorridos nos anos de 536 e 540 dC. Os cálculos dos vestígios (sulfato) acumulados indicaram mais de 43 quilômetros cúbicos de rocha lançados na estratosfera, e posteriormente depositados no solo do planeta, sem contar o volume de enxofre espalhado. O volume é tão imenso que faz deste evento, o maior já presenciado pelo homem americano.

Em termos de poder de destruição, essa antiga erupção vulcânica foi a maior dos últimos 7 mil anos, superando em mais de cem vezes, erupções clássicas como o Pinatubo (1991) ou Santa Elena (1980), e até maior que a assustadora explosão do Tambora (1815). Robert Dull – geólogo da Universidade Luterana da Califórnia – afirma que as implicações dessa erupção alcançaram em especial o hemisfério norte, fazendo as temperaturas globais caírem 2º graus.

Na Europa, relatos medievais dão conta que em 536, uma névoa escureceu o céu, ocultando o sol. As plantações foram devastadas. Em seguida, ocorreu um longo período de fome, com proliferação de doenças. Em 541, a Praga de Justiniano coincidiu com o auge do resfriamento global, matando milhões.

Agora, evidência seguras indicam que o epicentro dessa catástrofe ocorreu em Ilopango, um complexo vulcânico situado em El Salvador. A certeza veio do estudo de uma camada geológica conhecida como Terra Branca Jovem, de origem vulcânica, que se estendia inclusive por sedimentos marinhos. Em uma pedreira próxima ao vulcão Ilopango, foram encontradas árvores sedimentadas na camada de Terra Branca Jovem. Essa descoberta confirmou – através do radiocarbono – não apenas a data da explosão do vulcão, mas a certeza de que foram duas explosões com intervalo de quatro anos.

Arqueólogos estimam que cerca de 80 mil pessoas da civilização Maia pereceram imediatamente no evento da explosão. Vilas foram soterradas, as plantações destruídas e a água contaminada. O dia virou noite. Acredita-se que 400 mil maias da América Central foram afetados pelo Ilopango, causando uma migração em massa ao norte, em especial, à Guatemala e México. O vulcão não dizimou os maias, mas deu início ao período chamado Clássico Terminal, com evidente abandono de muitas regiões e aumento em outras; além de guerras deflagadas entre as novas cidades. Essa migração em massa teve consequências permanentes, mas também mostrou o poder de recuperação das antigas civilizações. Exemplo dessa renovação foi a descoberta de Joya de Cerén, uma cidade maia que surgiu em El Salvador, na região da catástrofe, para ser definitivamente soterrada por outra erupção ocorrida em 660 dC.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 31/10/2019 às 09h47 | daltonmaziero@uol.com.br



Dalton Delfini Maziero

Assina a coluna América Misteriosa

Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.














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ILOPANGO – O VULCÃO QUE ABALOU A CIVILIZAÇÃO MAIA

Durante décadas, geólogos e arqueólogos encontraram evidências de uma catástrofe nas Américas, com repercussões globais. Os primeiros sinais surgiram na Groenlândia e no gelo da Antártica. Ali, vestígios aprisionados no gelo davam mostra de dois eventos ocorridos nos anos de 536 e 540 dC. Os cálculos dos vestígios (sulfato) acumulados indicaram mais de 43 quilômetros cúbicos de rocha lançados na estratosfera, e posteriormente depositados no solo do planeta, sem contar o volume de enxofre espalhado. O volume é tão imenso que faz deste evento, o maior já presenciado pelo homem americano.

Em termos de poder de destruição, essa antiga erupção vulcânica foi a maior dos últimos 7 mil anos, superando em mais de cem vezes, erupções clássicas como o Pinatubo (1991) ou Santa Elena (1980), e até maior que a assustadora explosão do Tambora (1815). Robert Dull – geólogo da Universidade Luterana da Califórnia – afirma que as implicações dessa erupção alcançaram em especial o hemisfério norte, fazendo as temperaturas globais caírem 2º graus.

Na Europa, relatos medievais dão conta que em 536, uma névoa escureceu o céu, ocultando o sol. As plantações foram devastadas. Em seguida, ocorreu um longo período de fome, com proliferação de doenças. Em 541, a Praga de Justiniano coincidiu com o auge do resfriamento global, matando milhões.

Agora, evidência seguras indicam que o epicentro dessa catástrofe ocorreu em Ilopango, um complexo vulcânico situado em El Salvador. A certeza veio do estudo de uma camada geológica conhecida como Terra Branca Jovem, de origem vulcânica, que se estendia inclusive por sedimentos marinhos. Em uma pedreira próxima ao vulcão Ilopango, foram encontradas árvores sedimentadas na camada de Terra Branca Jovem. Essa descoberta confirmou – através do radiocarbono – não apenas a data da explosão do vulcão, mas a certeza de que foram duas explosões com intervalo de quatro anos.

Arqueólogos estimam que cerca de 80 mil pessoas da civilização Maia pereceram imediatamente no evento da explosão. Vilas foram soterradas, as plantações destruídas e a água contaminada. O dia virou noite. Acredita-se que 400 mil maias da América Central foram afetados pelo Ilopango, causando uma migração em massa ao norte, em especial, à Guatemala e México. O vulcão não dizimou os maias, mas deu início ao período chamado Clássico Terminal, com evidente abandono de muitas regiões e aumento em outras; além de guerras deflagadas entre as novas cidades. Essa migração em massa teve consequências permanentes, mas também mostrou o poder de recuperação das antigas civilizações. Exemplo dessa renovação foi a descoberta de Joya de Cerén, uma cidade maia que surgiu em El Salvador, na região da catástrofe, para ser definitivamente soterrada por outra erupção ocorrida em 660 dC.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 31/10/2019 às 09h47 | daltonmaziero@uol.com.br



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