Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

AS MÚMIAS DE QILAKITSOQ

A Groelândia é um território quase esquecido da América do norte. Pouco ou nada se fala sobre o que acontece por lá, muito menos sobre descobertas arqueológicas naquele território tão inóspito. Contudo, em 1972, uma dupla de caçadores (Hans e Jokum Gronvold) localizou duas sepulturas congeladas do povo Inuit, no assentamento de Qilakitsoq (Península de Nuussuaq), contendo oito múmias incrivelmente bem preservadas. São seis mulheres, uma criança de dois anos e um bebê de apenas seis meses de vida. Na época da descoberta, após comunicado à polícia local, acreditou-se tratar de um assassinato recente.

As múmias foram localizadas em uma reentrância de um rochedo, recobertas com pele de rena e de foca. Pelo fato de a encosta rochosa estar voltada ao norte, a tumba recebeu ar seco e baixíssimas temperaturas, ajudando na preservação das múmias. Os corpos foram encontrados empilhados uns sobre os outros, separadas por apenas 1 metro. Entre eles, havia diversas camadas de peles de animais. Contou-se 78 peças de roupas. Com os artefatos identificados na tumba, datou-se o conjunto em 1475 dC. Também se identificou cinco mulheres com tatuagem no rosto. A tatuagem era prática comum entre os povos das Américas e uma forma de identificar um grupo social.

Os corpos estavam preparados para a caça, com roupas quentes, sacolas, anzóis e arpões. Contudo, nesse caso específico, a jornada era pós-morte. Os Inuites acreditavam que os mortos deveriam se preparar para a sobrevivência no além. Ao contrário do que muitos possam pensar, os corpos não foram tratados como ocorre nas múmias chinchorro ou egípcias. Elas simplesmente foram preservadas com suas roupas, pelo frio da região. Pesquisadores acreditam que o bebê de seis meses (um menino) foi enterrado vivo junto à mãe. Devido à questão de sobrevivência, um bebê órfão significava dificuldade de sustento alheio. A solução – uma decisão difícil – era colocá-la junto à mãe, para que esta levasse seu filho no pós-morte. Sendo assim, naquela época não era uma ocorrência incomum levar uma criança à morte de forma lenta, pela fome. Algo semelhante ocorreu com a criança de dois anos. Existem indícios que ele sofria de Síndrome de Dawn.

Para as seis mulheres, investigações detectaram uma situação de saúde precária. Elas possuíam diversos tumores, prisão de ventre, surdes, cegueira e pedras nos rins. A análise do DNA, contudo, mostrou uma conexão familiar. São três irmãs com idade aproximada de 50 anos; e três filhas, entre 18 e 30 anos. As duas crianças eram as netas das irmãs. Apesar de tudo, os cientistas não conseguiram determinar se morreram todos ao mesmo tempo ou não. As múmias de Qilakitsoq lançaram uma nova luz de conhecimento sobre a sociedade e vida cotidiana dos inuit no século XV, de seu modo de sobrevivência e suas crenças na morte. Contudo, ainda existem mais perguntas do que respostas nessa fascinante descoberta.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite: Arqueologia Americana no Facebook 

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 02/01/2020 às 17h15 | daltonmaziero@uol.com.br



Dalton Delfini Maziero

Assina a coluna América Misteriosa

Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.














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AS MÚMIAS DE QILAKITSOQ

A Groelândia é um território quase esquecido da América do norte. Pouco ou nada se fala sobre o que acontece por lá, muito menos sobre descobertas arqueológicas naquele território tão inóspito. Contudo, em 1972, uma dupla de caçadores (Hans e Jokum Gronvold) localizou duas sepulturas congeladas do povo Inuit, no assentamento de Qilakitsoq (Península de Nuussuaq), contendo oito múmias incrivelmente bem preservadas. São seis mulheres, uma criança de dois anos e um bebê de apenas seis meses de vida. Na época da descoberta, após comunicado à polícia local, acreditou-se tratar de um assassinato recente.

As múmias foram localizadas em uma reentrância de um rochedo, recobertas com pele de rena e de foca. Pelo fato de a encosta rochosa estar voltada ao norte, a tumba recebeu ar seco e baixíssimas temperaturas, ajudando na preservação das múmias. Os corpos foram encontrados empilhados uns sobre os outros, separadas por apenas 1 metro. Entre eles, havia diversas camadas de peles de animais. Contou-se 78 peças de roupas. Com os artefatos identificados na tumba, datou-se o conjunto em 1475 dC. Também se identificou cinco mulheres com tatuagem no rosto. A tatuagem era prática comum entre os povos das Américas e uma forma de identificar um grupo social.

Os corpos estavam preparados para a caça, com roupas quentes, sacolas, anzóis e arpões. Contudo, nesse caso específico, a jornada era pós-morte. Os Inuites acreditavam que os mortos deveriam se preparar para a sobrevivência no além. Ao contrário do que muitos possam pensar, os corpos não foram tratados como ocorre nas múmias chinchorro ou egípcias. Elas simplesmente foram preservadas com suas roupas, pelo frio da região. Pesquisadores acreditam que o bebê de seis meses (um menino) foi enterrado vivo junto à mãe. Devido à questão de sobrevivência, um bebê órfão significava dificuldade de sustento alheio. A solução – uma decisão difícil – era colocá-la junto à mãe, para que esta levasse seu filho no pós-morte. Sendo assim, naquela época não era uma ocorrência incomum levar uma criança à morte de forma lenta, pela fome. Algo semelhante ocorreu com a criança de dois anos. Existem indícios que ele sofria de Síndrome de Dawn.

Para as seis mulheres, investigações detectaram uma situação de saúde precária. Elas possuíam diversos tumores, prisão de ventre, surdes, cegueira e pedras nos rins. A análise do DNA, contudo, mostrou uma conexão familiar. São três irmãs com idade aproximada de 50 anos; e três filhas, entre 18 e 30 anos. As duas crianças eram as netas das irmãs. Apesar de tudo, os cientistas não conseguiram determinar se morreram todos ao mesmo tempo ou não. As múmias de Qilakitsoq lançaram uma nova luz de conhecimento sobre a sociedade e vida cotidiana dos inuit no século XV, de seu modo de sobrevivência e suas crenças na morte. Contudo, ainda existem mais perguntas do que respostas nessa fascinante descoberta.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite: Arqueologia Americana no Facebook 

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 02/01/2020 às 17h15 | daltonmaziero@uol.com.br



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