Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

PARACAS – A TATUAGEM COMO STATUS SOCIAL

A Península de Paracas – litoral sul do Peru – é um local que ainda guarda aspectos geográficos que nos remetem a um período de ancestralidade. Essa paisagem árida e selvagem nem sempre foi assim, mas nos últimos 10 mil anos, moldou os costumes e forma de viver de um dos povos mais fascinantes da América do Sul: os Paracas! Um de seus aspectos mais curiosos, diz respeito às tatuagens corporais. Em 1927, o arqueólogo Julio C. Tello escavou na região o que parecia ser um grande cemitério. O local foi chamado de Warikayan (500 aC-100 dC), e classificado por Tello pertencente ao período Paracas Necrópolis (500 aC-200dC). Existe ainda uma discussão nos meios acadêmicos se os vestígios encontrados em Warikayan pertencem mesmo aos Paracas, ou se fazem parte de outra tradição conhecida como Topara. Mas, fato é que ali foram descobertos 429 fardos funerários do período, em excelente estado de conservação.

Do total de fardos descobertos em Warikayan, 100 deles foram abertos para estudos. E deste, constatou-se que 43% das múmias apresentavam tatuagens. Um estudo paleopatológico da epiderme revelou que as mais tatuadas eram as mulheres (65%), e que a idade média girava entre 35 e 49 anos. As múmias apresentavam também diversos símbolos de mandatários, portando adornos pessoais em diadema, narigueiras, braceletes, orelheiras, colares de conchas marinhas, penachos, perucas, abanadores de penas e varas de madeira.

A maior parte das tatuagens (37%), concentra-se nas mãos: palma, dorso e dedos. Contudo, algumas múmias apresentavam desenhos que cobriam quase 50% do corpo! Pesquisadores acreditam que essa prática está associada ao status social do indivíduo, pois as tintas e desenhos utilizados são os mesmos de cerâmica cerimonial e dos famosos mantos (têxteis), usados apenas por uma casta mais importante.

Sobre as tintas – aplicadas com uso de agulhas de espinhos e ossos – a maior incidência ocorre nas cores negro e azul. O negro é oriundo de fuligem residual de pedras queimadas e do carvão. Já o azul é proveniente de uma alteração residual do negro na pele. Um efeito óptico que ocorre com a perda de luz na pigmentação, gerando tons azulados na pele. Além destes, utilizavam também tinta orgânica, oriundas de material vegetal queimado. Quanto aos desenhos, podemos dividi-los nas seguintes categorias: Zoomorfos (aves, felinos, peixes), Geométricos (pontos, linhas, círculos), Figuras míticas e sobrenaturais (ser “oculado” e orca assassina) e símbolos sociais (greca escalonada). A greca escalonada é um símbolo de poder social, usado praticamente em toda América. A sofisticação do processo de tatuagem nos antigos Paracas parece, portanto, oriunda de uma sociedade hierarquizada, onde o poder espiritual e a liderança política confirmavam-se através da ornamentação da pele.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite nossa página “Arqueologia Americana” no Facebook (clique aqui)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 02/03/2020 às 11h52 | daltonmaziero@uol.com.br



Dalton Delfini Maziero

Assina a coluna América Misteriosa

Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.














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PARACAS – A TATUAGEM COMO STATUS SOCIAL

A Península de Paracas – litoral sul do Peru – é um local que ainda guarda aspectos geográficos que nos remetem a um período de ancestralidade. Essa paisagem árida e selvagem nem sempre foi assim, mas nos últimos 10 mil anos, moldou os costumes e forma de viver de um dos povos mais fascinantes da América do Sul: os Paracas! Um de seus aspectos mais curiosos, diz respeito às tatuagens corporais. Em 1927, o arqueólogo Julio C. Tello escavou na região o que parecia ser um grande cemitério. O local foi chamado de Warikayan (500 aC-100 dC), e classificado por Tello pertencente ao período Paracas Necrópolis (500 aC-200dC). Existe ainda uma discussão nos meios acadêmicos se os vestígios encontrados em Warikayan pertencem mesmo aos Paracas, ou se fazem parte de outra tradição conhecida como Topara. Mas, fato é que ali foram descobertos 429 fardos funerários do período, em excelente estado de conservação.

Do total de fardos descobertos em Warikayan, 100 deles foram abertos para estudos. E deste, constatou-se que 43% das múmias apresentavam tatuagens. Um estudo paleopatológico da epiderme revelou que as mais tatuadas eram as mulheres (65%), e que a idade média girava entre 35 e 49 anos. As múmias apresentavam também diversos símbolos de mandatários, portando adornos pessoais em diadema, narigueiras, braceletes, orelheiras, colares de conchas marinhas, penachos, perucas, abanadores de penas e varas de madeira.

A maior parte das tatuagens (37%), concentra-se nas mãos: palma, dorso e dedos. Contudo, algumas múmias apresentavam desenhos que cobriam quase 50% do corpo! Pesquisadores acreditam que essa prática está associada ao status social do indivíduo, pois as tintas e desenhos utilizados são os mesmos de cerâmica cerimonial e dos famosos mantos (têxteis), usados apenas por uma casta mais importante.

Sobre as tintas – aplicadas com uso de agulhas de espinhos e ossos – a maior incidência ocorre nas cores negro e azul. O negro é oriundo de fuligem residual de pedras queimadas e do carvão. Já o azul é proveniente de uma alteração residual do negro na pele. Um efeito óptico que ocorre com a perda de luz na pigmentação, gerando tons azulados na pele. Além destes, utilizavam também tinta orgânica, oriundas de material vegetal queimado. Quanto aos desenhos, podemos dividi-los nas seguintes categorias: Zoomorfos (aves, felinos, peixes), Geométricos (pontos, linhas, círculos), Figuras míticas e sobrenaturais (ser “oculado” e orca assassina) e símbolos sociais (greca escalonada). A greca escalonada é um símbolo de poder social, usado praticamente em toda América. A sofisticação do processo de tatuagem nos antigos Paracas parece, portanto, oriunda de uma sociedade hierarquizada, onde o poder espiritual e a liderança política confirmavam-se através da ornamentação da pele.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite nossa página “Arqueologia Americana” no Facebook (clique aqui)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 02/03/2020 às 11h52 | daltonmaziero@uol.com.br



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