Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

CIEZA DE LEÓN – AS CRÔNICAS DO PERU

Crônica histórica é uma narrativa feita por pessoas que, no passado, vivenciaram determinado fato ou acontecimento. Embora esteja associada ao cotidiano das cidades, é também um relato particular, calcado na observação pessoal, de uma região, costumes e vida de culturas do passado. Existem algumas crônicas brilhantes da época da conquista da América, mas talvez nenhuma supere a Crônica del Peru (1553), escrita por um soldado espanhol de profunda sensibilidade e curiosidade. Através dela, podemos recuperar muito do universo incaico, de seus costumes, lendas e mistérios; assim como dos povos que recente estavam sob sua administração, como os collas, lupacas e pacajes.

Cieza de León descreveu todos os lugares por onde passou, mas de modo especial, nos trouxe informações preciosas sobre os antigos povos do Altiplano. Como muitos outros de sua época, o passado de Cieza perdeu-se em parte pela falta deregistros. Era um anônimo, como tantos outros. Sua história começa, para nós, em 1532, quando embarca ao Novo Mundo como ajudante de cavaleiro. Na época, era um adolescente subnutrido de apenas 14 anos de idade. Não se sabe exatamente os motivos que levaram o jovem Cieza a enfrentar a duríssima vida de soldado. Talvez a busca por riquezas ou, quem sabe, o ímpeto de ver, com seus próprios olhos, um Mundo Novo. O fato é que decidiu, em 1540, aos 22 anos, fazer um diário de tudo aquilo que tinha presenciando em terras peruanas. O livro que nos legou é surpreendente por dois motivos: por possuir um apurado senso crítico e por ser muito bem escrito. Isso já era por si, um fato raro na época em que vivia. Ele teve o privilégio de ver e participar dos primeiros anos de conquista da América, e nos legou informações preciosas sobre o passado dos povos pré-colombianos.

Cieza foi um curioso compulsivo, e um escritor irrefreável. Em uma famosa frase, deixa transparecer muito de sua personalidade:"A desoras, quando os outros soldados dormiam, eu cansava-me a mim mesmo, escrevendo. Nem a fadiga, nem a índole fragosa da paisagem, nem as montanhas, nem os rios, nem a fome torturante, nem os sofrimentos, foram suficientes, jamais, para obstruir a execução dos meus dois deveres: ode escrever a minha crônica, e o de seguir, sem resistência, a minha bandeira e o meu capitão".

Após 18 anos na América, o soldado volta à Espanha. Corria então o ano de 1550. Aos 32 anos, vivia miseravelmente nos porões da cidade de Sevilha, pobre e enfermo. Mesmo em condições tão adversas, compôs solitariamentesua crônica. Em determinado momento, escreve como se estivesse fazendo um desabafo pessoal: "As durezas que tiveram de ser suportadas, naqueles países, foram tão terríveis...Oh! Ter ido para lá, haver prejudicado a minha consciência, desperdiçado o meu tempo e perdido os meus dentes!"Morreu pouco tempo depois, abandonado, angustiado e doente, sem ter visto sua crônica impressa.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana.

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 24/03/2020 às 16h09 | daltonmaziero@uol.com.br



Dalton Delfini Maziero

Assina a coluna América Misteriosa

Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.














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Crônica histórica é uma narrativa feita por pessoas que, no passado, vivenciaram determinado fato ou acontecimento. Embora esteja associada ao cotidiano das cidades, é também um relato particular, calcado na observação pessoal, de uma região, costumes e vida de culturas do passado. Existem algumas crônicas brilhantes da época da conquista da América, mas talvez nenhuma supere a Crônica del Peru (1553), escrita por um soldado espanhol de profunda sensibilidade e curiosidade. Através dela, podemos recuperar muito do universo incaico, de seus costumes, lendas e mistérios; assim como dos povos que recente estavam sob sua administração, como os collas, lupacas e pacajes.

Cieza de León descreveu todos os lugares por onde passou, mas de modo especial, nos trouxe informações preciosas sobre os antigos povos do Altiplano. Como muitos outros de sua época, o passado de Cieza perdeu-se em parte pela falta deregistros. Era um anônimo, como tantos outros. Sua história começa, para nós, em 1532, quando embarca ao Novo Mundo como ajudante de cavaleiro. Na época, era um adolescente subnutrido de apenas 14 anos de idade. Não se sabe exatamente os motivos que levaram o jovem Cieza a enfrentar a duríssima vida de soldado. Talvez a busca por riquezas ou, quem sabe, o ímpeto de ver, com seus próprios olhos, um Mundo Novo. O fato é que decidiu, em 1540, aos 22 anos, fazer um diário de tudo aquilo que tinha presenciando em terras peruanas. O livro que nos legou é surpreendente por dois motivos: por possuir um apurado senso crítico e por ser muito bem escrito. Isso já era por si, um fato raro na época em que vivia. Ele teve o privilégio de ver e participar dos primeiros anos de conquista da América, e nos legou informações preciosas sobre o passado dos povos pré-colombianos.

Cieza foi um curioso compulsivo, e um escritor irrefreável. Em uma famosa frase, deixa transparecer muito de sua personalidade:"A desoras, quando os outros soldados dormiam, eu cansava-me a mim mesmo, escrevendo. Nem a fadiga, nem a índole fragosa da paisagem, nem as montanhas, nem os rios, nem a fome torturante, nem os sofrimentos, foram suficientes, jamais, para obstruir a execução dos meus dois deveres: ode escrever a minha crônica, e o de seguir, sem resistência, a minha bandeira e o meu capitão".

Após 18 anos na América, o soldado volta à Espanha. Corria então o ano de 1550. Aos 32 anos, vivia miseravelmente nos porões da cidade de Sevilha, pobre e enfermo. Mesmo em condições tão adversas, compôs solitariamentesua crônica. Em determinado momento, escreve como se estivesse fazendo um desabafo pessoal: "As durezas que tiveram de ser suportadas, naqueles países, foram tão terríveis...Oh! Ter ido para lá, haver prejudicado a minha consciência, desperdiçado o meu tempo e perdido os meus dentes!"Morreu pouco tempo depois, abandonado, angustiado e doente, sem ter visto sua crônica impressa.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana.

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 24/03/2020 às 16h09 | daltonmaziero@uol.com.br



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