Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

USME – UMA NECRÓPOLE PRÉ-COLOMBIANA

Em 2007, uma fantástica descoberta arqueológica ocorreu na fazenda El Carmen (Usme), Colômbia. Uma cápsula do tempo, uma necrópole, que se soube depois, abrigava mais de 3 mil corpos dos povosmuisca e herrera. Ao todo, o terreno ocupa uma área de 30 hectares, convertendo-se na primeira área de conservação arqueológica de Bogotá. A descoberta só foi possível graças à um projeto social da empresa Metrovivienda, que projetava ali, mais de 3.500 residências do que seria um novo bairro popular. Quando uma retroescavadeira arrancou da terra, uma dúzia de corpos, deu-se conta da descoberta.

Ernesto Montenegro (ICANH – Instituto Colombiano de Antropologia e História) acredita que a descoberta jogará luz sobre o cotidiano e o modo de vida dos herreras e muiscas entre 800 e 1600 dC. Em sua opinião, “o que impressiona é que durante tantos séculos, havia sido esse local o escolhido por diversas culturas para enterrar seus mortos”. Para Virgílio Becerra (Universidade de Sorbona), o caráter sagrado do lugar está intimamente relacionado à presença da água, que brota em abundânciados rios Funcha, Requilina e Água Dulce. Segundo a mitologia muisca, a água era como o leite, que brotava dos seios da deusa Bachué, para alimentar os povos da terra.

Um dado interessante revelado, foi o da relação entre os últimos muiscas e os primeiros colonos da região. Isso foi comprovado nas escavações, com a descoberta de colares com contas de vidro italiano e em ossadas que apresentavam ferimentos de armas de fogo. Além disso, foram desenterradas 35 vasilhas completas, 300 mil fragmentos de cerâmica, peças em cobre, sementes, colares e ossos de animais. A estimativa é que nem 1% do potencial do sítio foi explorado ainda.

Segundo o Drº Ernesto Montenegro (ICANH), “Outro aspecto muito importante é que, historicamente, se falava dos Herreras e dos Muiscas como períodos diferentes da história. Todavia, nesta necrópole encontramos restos de pessoas do período Herrera (600 a 1000 dC) e Muisca (1200 a 1600 dC) sem que houvesse cortes temporais. É a primeira vez que se realiza uma descoberta que testemunhe essa continuidade”. Outro dado interessante foi a descoberta de fauna amazônica nos enterramentos. Isso prova que existia uma relação muito viva entre as duas regiões.

Embora a Necrópole de Usme não se enquadre na categoria de sítio monumental, como San Agustín ou Ciudad Perdida, é sem dúvida de vital importância para a reconstrução da história dos povos pré-colombianos. Segundo Clarisa Ruiz – Secretaria de Cultura de Bogotá – o objetivo é criar um projeto de um Parque Arqueológico, de interesse cultural, com museu e trilhas.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite nossa página “Arqueologia Americana” no Facebook.

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 04/05/2020 às 16h14 | daltonmaziero@uol.com.br



Dalton Delfini Maziero

Assina a coluna América Misteriosa

Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.














Fale Conosco - Anuncie no Página 3 - Normas de Uso
© Desenvolvido por Página 3

Endereço: Rua 2448, 360 - Balneário Camboriú - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: [email protected]

Página 3
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

USME – UMA NECRÓPOLE PRÉ-COLOMBIANA

Em 2007, uma fantástica descoberta arqueológica ocorreu na fazenda El Carmen (Usme), Colômbia. Uma cápsula do tempo, uma necrópole, que se soube depois, abrigava mais de 3 mil corpos dos povosmuisca e herrera. Ao todo, o terreno ocupa uma área de 30 hectares, convertendo-se na primeira área de conservação arqueológica de Bogotá. A descoberta só foi possível graças à um projeto social da empresa Metrovivienda, que projetava ali, mais de 3.500 residências do que seria um novo bairro popular. Quando uma retroescavadeira arrancou da terra, uma dúzia de corpos, deu-se conta da descoberta.

Ernesto Montenegro (ICANH – Instituto Colombiano de Antropologia e História) acredita que a descoberta jogará luz sobre o cotidiano e o modo de vida dos herreras e muiscas entre 800 e 1600 dC. Em sua opinião, “o que impressiona é que durante tantos séculos, havia sido esse local o escolhido por diversas culturas para enterrar seus mortos”. Para Virgílio Becerra (Universidade de Sorbona), o caráter sagrado do lugar está intimamente relacionado à presença da água, que brota em abundânciados rios Funcha, Requilina e Água Dulce. Segundo a mitologia muisca, a água era como o leite, que brotava dos seios da deusa Bachué, para alimentar os povos da terra.

Um dado interessante revelado, foi o da relação entre os últimos muiscas e os primeiros colonos da região. Isso foi comprovado nas escavações, com a descoberta de colares com contas de vidro italiano e em ossadas que apresentavam ferimentos de armas de fogo. Além disso, foram desenterradas 35 vasilhas completas, 300 mil fragmentos de cerâmica, peças em cobre, sementes, colares e ossos de animais. A estimativa é que nem 1% do potencial do sítio foi explorado ainda.

Segundo o Drº Ernesto Montenegro (ICANH), “Outro aspecto muito importante é que, historicamente, se falava dos Herreras e dos Muiscas como períodos diferentes da história. Todavia, nesta necrópole encontramos restos de pessoas do período Herrera (600 a 1000 dC) e Muisca (1200 a 1600 dC) sem que houvesse cortes temporais. É a primeira vez que se realiza uma descoberta que testemunhe essa continuidade”. Outro dado interessante foi a descoberta de fauna amazônica nos enterramentos. Isso prova que existia uma relação muito viva entre as duas regiões.

Embora a Necrópole de Usme não se enquadre na categoria de sítio monumental, como San Agustín ou Ciudad Perdida, é sem dúvida de vital importância para a reconstrução da história dos povos pré-colombianos. Segundo Clarisa Ruiz – Secretaria de Cultura de Bogotá – o objetivo é criar um projeto de um Parque Arqueológico, de interesse cultural, com museu e trilhas.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite nossa página “Arqueologia Americana” no Facebook.

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 04/05/2020 às 16h14 | daltonmaziero@uol.com.br



Dalton Delfini Maziero

Assina a coluna América Misteriosa

Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.