Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

ILHAS ARTIFICIAIS NO AMAZONAS

Crédito: José Capriles, Penn State.

A região da floresta Amazônica, seja no Brasil ou Bolívia, não deixa de nos surpreender. Recentemente, um novo estudo realizado em parceria com universidades do Brasil, América Latina e Europa, detectaram milhares de ilhas artificiais usadas para o que é considerado agora, um dos berços mundiais da domesticação da agricultura e manuseio de plantas.

As plantações datam de 10 mil anos e mudaram definitivamente a geografia local, uma vez que foram identificadas até o momento, 4.700 ilhas artificiais. Segundo José Iriarte (University of Exeter, Reino Unido), esse aglomerado dedicado ao cultivo representa a 5ª região mundial onde ocorreram os primórdios da domesticação de plantas. Outras quatro regiões foram identificadas, sendo duas delas na Europa e duas na América.

As investigações concentraram-se em Llanos de Moxos, no norte da Bolívia. Essa região costuma inundar entre dezembro e março, permanecendo seca no restante do ano. O princípio e lógica do sistema segue aquele, posteriormente usado no mundo pré-colombiano – em especial no altiplano do lago Titicaca – conhecido como Waru-Warus ou Camellones, que multiplicavam a capacidade do solo na produção de alimento. Criando microclimas em terreno hostil, os antigos habitantes conseguiam domesticar e expandir a biodiversidade vegetal, além de controlar o manejo de plantas, cultivando o milho, a abóbora e a mandioca. Tudo isso elevando o terreno de plantio artificialmente, acima da linha d’água. Contudo, com as novas descobertas, é possível que os waru-warus tenham como modelos essas ilhas artificiais da floresta amazônica.

Estruturas semelhantes às encontradas em Llanos de Moxos foram identificadas por toda a floresta, como em Marajó, no Pará e no Alto Solimões. Nesta última região, as plataformas elevadas – de formato piramidal – tinham a mesma função, mas a identificação de material cerâmico corrugado dos séculos XV e XVI os aproxima dos grupos tupis. Em outras elevações, foram identificadas cerâmicas do estilo hachurado zonada, pertencentes a grupos que ali viveram por volta de 1000 aC.

O arqueólogo Márcio Amaral, do Instituto Mamirauá (Amazônas), comenta estar impressionado com o volume de terra movimentada para a construção dessas ilhas artificiais; o que sugere uma capacidade tecnológica e organização social acima do imaginado até o momento. Embora não exista nenhum estudo associativo, fico imaginando se as enormes valas cavadas dos geoglifos amazônicos, não estavam ligadas à criação dessas ilhas, ou seja, terra retirada dos geoglifos, para formação das ilhas. Pelo visto, teremos ainda muitas surpresas vindas da região da floresta.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog “Arqueologia Americana”

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 31/07/2020 às 14h13 | daltonmaziero@uol.com.br



Dalton Delfini Maziero

Assina a coluna América Misteriosa

Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.














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A região da floresta Amazônica, seja no Brasil ou Bolívia, não deixa de nos surpreender. Recentemente, um novo estudo realizado em parceria com universidades do Brasil, América Latina e Europa, detectaram milhares de ilhas artificiais usadas para o que é considerado agora, um dos berços mundiais da domesticação da agricultura e manuseio de plantas.

As plantações datam de 10 mil anos e mudaram definitivamente a geografia local, uma vez que foram identificadas até o momento, 4.700 ilhas artificiais. Segundo José Iriarte (University of Exeter, Reino Unido), esse aglomerado dedicado ao cultivo representa a 5ª região mundial onde ocorreram os primórdios da domesticação de plantas. Outras quatro regiões foram identificadas, sendo duas delas na Europa e duas na América.

As investigações concentraram-se em Llanos de Moxos, no norte da Bolívia. Essa região costuma inundar entre dezembro e março, permanecendo seca no restante do ano. O princípio e lógica do sistema segue aquele, posteriormente usado no mundo pré-colombiano – em especial no altiplano do lago Titicaca – conhecido como Waru-Warus ou Camellones, que multiplicavam a capacidade do solo na produção de alimento. Criando microclimas em terreno hostil, os antigos habitantes conseguiam domesticar e expandir a biodiversidade vegetal, além de controlar o manejo de plantas, cultivando o milho, a abóbora e a mandioca. Tudo isso elevando o terreno de plantio artificialmente, acima da linha d’água. Contudo, com as novas descobertas, é possível que os waru-warus tenham como modelos essas ilhas artificiais da floresta amazônica.

Estruturas semelhantes às encontradas em Llanos de Moxos foram identificadas por toda a floresta, como em Marajó, no Pará e no Alto Solimões. Nesta última região, as plataformas elevadas – de formato piramidal – tinham a mesma função, mas a identificação de material cerâmico corrugado dos séculos XV e XVI os aproxima dos grupos tupis. Em outras elevações, foram identificadas cerâmicas do estilo hachurado zonada, pertencentes a grupos que ali viveram por volta de 1000 aC.

O arqueólogo Márcio Amaral, do Instituto Mamirauá (Amazônas), comenta estar impressionado com o volume de terra movimentada para a construção dessas ilhas artificiais; o que sugere uma capacidade tecnológica e organização social acima do imaginado até o momento. Embora não exista nenhum estudo associativo, fico imaginando se as enormes valas cavadas dos geoglifos amazônicos, não estavam ligadas à criação dessas ilhas, ou seja, terra retirada dos geoglifos, para formação das ilhas. Pelo visto, teremos ainda muitas surpresas vindas da região da floresta.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog “Arqueologia Americana”

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 31/07/2020 às 14h13 | daltonmaziero@uol.com.br



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