Jornal Página 3
Coluna
Cá Pra Nós
Por Fernando Baumann

Estropiados

 Em outro texto falei sobre minhas experiências de caminhada com amigos um tanto sem noção. Sempre digo para a minha mãe que sou o melhor de todos. Ela diz que é difícil acreditar. Deixa pra lá, a questão aqui é conceitual.

Pois bem, numa destas vezes decidimos ir de Curitiba a Morretes  pelo caminho de Itupava. Saímos cedo de Balneário Camboriú e estacionamos nosso carro na Rodoferroviária em Curitiba. Dali pegamos nossas mochilas e seguimos a pé até Quatro Barras, nosso destino àquele dia. Foram aproximadamente 25 km percorridos entre avenidas e ruas da cidade e a rodovia Regis Bittencourt - um trecho bastante monótono – até chegarmos ao hotel em Quatro Barras.

No dia seguinte, já recompostos do primeiro trecho, saímos pela cidade de Quatro Barras rumo a entrada do caminho de Itupava. Como sempre baixei a cabeça e saí em disparada, deixando meus parceiros para traz. O dia estava nublado e muito propenso a chuvas. Próximo ao início da trilha lembrei que não estava sozinho e sentei no canto da rua para esperar os “mal-acabados” dos meus amigos. O tempo passou e nada deles. Já estava me aprontando para retornar quando eles apareceram dando risadas com o tênis do Agilson na mão com a sola descolada. Coisa de amador! Por sorte acharam um comércio aberto e conseguiram comprar outro.

Logo que entramos na trilha as coisas começaram a se complicar. No início maravilha, caminho bem aberto, depois foi fechando cada vez mais, com declives bastante acentuados, onde aproveitávamos, com a presença da chuva, para deslizar morro abaixo. Às vezes não era opção, a gente caia mesmo. E a chuva...bem essa veio com toda a força e persistência, parecia querer provar a nossa determinação.

Eu não havia falado, mas conta a história que o caminho de Itupava foi a primeira ligação entre o litoral e o planalto, subindo (ou escalando) a serra do mar, tendo sido originalmente trilhas indígenas, e depois melhoradas e utilizadas pelos jesuítas e colonizadores para ir a Curitiba, tanto que em alguns trechos ainda conservam a pavimentação de pedras originais.

Num dado momento a trilha cruza pela primeira vez a estrada de ferro que liga Paranaguá a Curitiba. Então propus ao Enir, ao Zé e ao Agilson que seguíssemos pelo caminho da ferrovia que ia ser bem mais divertido. Acho que eles não entenderam bem a “caca” que ia ser e aceitaram. Não deu 500 metros de caminhada daí apareceu uma litorina da Polícia Ferroviária que nos abordou, querendo saber o que nós engraçadinhos estávamos pensando em fazer.  Nos colocaram para cima, deram uma lição de moral aos quatro marmanjos e nos ficharam. Por fim dos deixaram de volta ao caminho, no ponto em que nos desviamos.

Se a primeira parte estava difícil, a segunda então foi punk. Eu e o Agilson despencamos trilha abaixo com uma chuva torrencial nas costas e muito frio. Olhávamos um para o outro e não nos reconhecíamos, de tão feio que estávamos. Então pela segunda vez cruzamos a estrada de ferro num ponto chamado Nossa Sra. do Cadeado. Nos abrigamos em baixo de uma pequena construção para tentar nos aquecer e comemos alguma coisa.

Uma hora depois o Enir chega carregando o Zé, que havia se machucado durante a descida. O Enir bastante solidário e o Zé bastante manhoso.  Eu e o Agilson nos arrependemos e ter deixado os dois para traz - só que não muito.

 Daí para frente a situação melhorou, com caminho menos íngreme, mais aberto e menos chuva. Ao final do dia chegamos a uma belíssima pousada já na estrada de Itupava, a 10 km de Morretes. Estropiados, irreconhecíveis, malcheirosos mas muito felizes.

No dia seguinte foi moleza, a caminhada até Morretes foi tranquila e prazerosa, onde pegamos o trem de volta para Curitiba. Corpo todo dolorido, mas a alma leve e preguiçosa.

 

Escrito por Fernando Baumann, 15/06/2018 às 10h32 | fernando@bba-reiki.com.br

Brasilidade

 Da série “o Brasil que queremos”, promovida por importante canal televisivo, mostra uma preocupação maciça dos brasileiros com a corrupção. De modo geral, de norte a sul, todos abordam este tema.

Isto mostra o grau de maturidade que estamos vivendo, promovido principalmente  pelas movimentações punitivas a respeito. Jamais se imaginou condenar e fazer cumprir as condenações de medalhões do meio político e empresarial. Já é uma grande quebra de paradigma. Mesmo cometendo possíveis erros, o judiciário tem demonstrado que está no caminho certo, mostrando que o crime não compensa. O jargão “rouba mas faz” já não é unanimidade, e o fato de alguém em algum momento ter feito algo de bom não chancela que se aproprie do que é não é seu, seja direta ou indiretamente.

Mas não é apenas isto. Nós precisamos reconhecer que tirar vantagem e pensar apenas em si faz parte da nossa cultura, e isto é sintoma de uma sociedade doente com tendência a corromper. Segundo Calil Simão, é pressuposto necessário para a instalação da corrupção a ausência de interesse ou compromisso com o bem comum. Vou explicar melhor antes que você possa condenar minha opinião:

1 - O que significa estacionar o carro em vaga de deficiente ou idoso sem ter direito a isso?   

2 - O que significa um veículo sair do posto de gasolina da rua 904 por cima da faixa de segurança sem respeitar a vez de quem está na fila ou do pedestre que está atravessando?

3 - O que significa o funcionário pedir o maldito acordo para sacar o FGTS e receber o seguro desemprego quando quer sair da empresa onde trabalha?

4 – O que significa colar a prova ou pagar para alguém fazer um trabalho escolar?

5 – O que significa um profissional pago para especificar algo receber comissão de quem ele indicou sem o conhecimento do cliente?

6 – O que significa sonegar impostos, mesmo que esta seja a condição para sobreviver como muitos justificam?

7 – O que significa o saque da carga de um caminhão acidentado?

8 – O que significa entregar um falso atestado de saúde?

Minha análise está adequada e os sintomas acima dizem respeito a nós? Você concorda que temos muito a fazer por nós mesmos, e que se não começar por cada um não vai ter jeito? Quero então sugerir, para que este momento difícil mas importante não passe em vão, que cada um julgue a si antes de julgar os outros ou o sistema. Provavelmente muitos de nós já cometemos as faltas mencionadas. Eu me encaixo em algumas.

Então, “bora” fazer um novo país?

 

Escrito por Fernando Baumann, 12/06/2018 às 05h05 | fernando@bba-reiki.com.br

O Sistema TBC

 Vivemos tempos difíceis, de muita incerteza e insegurança. Não lembro em minha existência de algo semelhante. Parece que tudo está perdido. Crise financeira, crise política, crise social, um estado de ebulição constante.

Mas sabe, acredito que este momento está sendo muito rico para abrirmos em definitivo as discussões do que somos e do que queremos ser. A dificuldade nos empurra a sair do estado de letargia que nos encontramos, passivos diria assim, onde sempre esperamos que o outro faça por nós. Acho que as verdades estão sendo expostas.

Os piores momentos na verdade são sempre os melhores. Muito provavelmente hoje não consigamos enxergar, mas daqui a algum tempo, quando olharmos para traz, veremos que avanços importantes ocorreram. O fogo transforma, a exemplo do ferro em aço e do vidro comum em vidro temperado. Então que saibamos aproveitar este fogo que está aí com responsabilidade, civilidade e respeito para nos tornarmos mais fortes.

Uma questão que sempre me perturbou e agora decidi me posicionar é quanto aos legisladores municipais, estaduais e federais. Não concordo e não aceito que após eleitos os mesmos ocupem outra função que não a sua, como exemplo o vereador que vira secretário. Também o caso do executivo que renuncia a sua função para concorrer a outros níveis. Isto é virar as costas para o eleitor, que o elegeu para àquela função, usando-o como degrau para servir aos seus próprios interesses. O eleitor não é mais tão bobinho para não perceber isto, e eu não voto mais em candidatos com este histórico.

Também entendo que estamos em condições de discutir a carga tributária que carregamos. Não os impostos como causa, e sim como efeito(vou sugerir trocar o nome de “imposto” por “benefício”).  Sendo mais claro: o problema não é o quanto pagamos, mas o quanto recebemos. Pagar altas alíquotas de modo geral é aceitável, o que não é aceitável é que pagamos e não recebemos. Não tem estrada, não tem educação, não tem saúde e tudo precisa ser novamente contratado de forma particular por quem pode. Numa conta simples concluo que o custo é dobrado. Vender e não entregar é estelionato, e é isto que o sistema nos impõe, pois o mesmo é incapaz de cumprir suas funções, isto hoje é claro.

Por fim, a divisão do bolo. Não podemos mais concordar que o maior percentual caiba ao governo federal. A pirâmide precisa ser invertida, e o município tem que ficar com a maior fatia, que é onde efetivamente as coisas acontecem e nós conseguimos ver e controlar. O governo federal, este ogro, repleto de privilégios e luxos não precisa ter o tamanho que tem. Apartamentos funcionais, veículos de luxo com motoristas, ascensoristas, assessores, passagens aéreas, aviões, auxílios, aposentadorias e privilégios de toda ordem(cabelo, terno e o escambau)não cabem mais. Eu não aceito mais pagar esta conta.

É o que tenho para hoje.

(sistema TBC – Tirar a Bunda da Cadeira)

 

Escrito por Fernando Baumann, 08/06/2018 às 12h50 | fernando@bba-reiki.com.br

Eu, o menino

 Não lembro bem, mas eu devia ter uns 10 anos de idade. Estudava no Colégio João Goulart com a Dona Diva. Ela tinha um fusca branco que eu adorava, placa BB 0045 se não me engano. Era o máximo!

Aos sábados tínhamos nosso momento cívico, com o canto do hino em posição de sentido em respeito ao pavilhão nacional, sempre vigiados pela Dona Orieta. Ai de algum “abobado” fazer algo errado. Sempre tinha um, é claro, mas era firmemente repreendido.

Adorava esse dia simplesmente por que era diferente.

Meus pais sempre lutaram com dificuldades para manter os quatro filhos menores. Não nos faltava nada de essencial, mas luxos não nos eram permitidos. Lembro da conga que eu usava sonhando em ter um kichute, o “the best power” do momento. Com certeza meu futebol ia melhorar(bobagem, eu era muito ruim mesmo).

Vinha de bicicleta pelas trilhas que ligavam minha casa ao colégio. Colocava um gorro na cabeça pensando que era um capacete com balaclava e pedalava me sentindo o piloto do momento. Era muito divertido mas de vez em quando dava errado. Lembro de uma vez que vinha junto com o Nabor e tentei ultrapassar ele pelo mato, só que tinha um tronco, daí foi um “pacote” fenomenal. Até hoje ele me zoa por conta disso.

Mas o mais bacana de tudo era que no sábado meus pais me davam dinheiro para comprar o lanche na escola. Que delícia! O dinheiro era contado para comprar a laranjinha na cantina e a bananinha de um senhor que vinha vender no portão.

Primeiro eu ia comprar a bananinha. Era uma “muvuca” àquelas crianças com os braços estendidos através da grade do portão com o dinheiro na mão. Eu igual desesperado e boca salivando louco pela iguaria. Então num destes sábados  de braço estendido, um outro moleque pelo lado de fora do portão arrancou o dinheiro que tinha na minha mão e saiu correndo. Fiquei paralisado, decepcionado e muito triste. Chorei muito àquele dia.

Meu desejo de todo sábado indo embora correndo feito louco por conta de um moleque safado.

Hoje sempre que vou a uma padaria procuro pela bananinha e compro. Não é mais como no passado, mas como com satisfação. Talvez àquele menino entristecido que perdeu o seu dinheiro ainda chore dentro de mim, envolvido nas doces lembranças de um passado um pouco distante.

 

 

Escrito por Fernando Baumann, 05/06/2018 às 13h34 | fernando@bba-reiki.com.br

A Palavra

 A palavra é uma arma, dependendo de como é usada pode selar a paz ou incitar a guerra. De alcance letal, depois que proferida não retorna mais. Impossível trazer de volta. Ela tem o poder de levantar muros ou construir pontes.

Constituída com padrão, colabora na formatação do nosso modelo mental. Sou o que penso, expresso o que penso. Sendo verdade ou não, a minha manifestação diz muito do que sou. A palavra também carrega um fator de potência, que é a minha intenção com ela. A atribuição que dou aumenta ou diminui sua energia de impacto. Posso dizer algo amoroso de forma fria, ou algo ríspido com amorosidade.

Também tem a variação do significado de uma mesma palavra. Por exemplo, a palavra “trabalho” para uns pode significar fardo ou penitência, para outros pode ser oportunidade e crescimento. É a forma e o estado de espírito de cada um, e isto gera muita confusão comportamental.

Outro exemplo agora com o equívoco do uso diz respeito a palavra “amor”. Usamos para demonstrar desejo e sentimento, inclusive para expressar o clímax da intimidade entre duas pessoas – “fizemos amor”. Ora, fizemos sexo, não amor. Para mim o puro significado da palavra  é respeito e tolerância. Então amo meus pais, irmãos, esposa, filhos e amigos. Também posso amar meus desconhecidos nos encontros diários, num gesto, num aceno, numa gentileza. Amor é sentimento de igualdade, assim como orgulho é de superioridade.

E o caso do jogador que ao sair de campo é interpelado pelo repórter que lhe pergunta como foi a disputa, então ele diz: “ graças a Deus saímos vitoriosos...”? – daí eu penso, será que Deus foi contra quem perdeu? É claro que não, é apenas força de expressão. Mas se a palavra tem poder, então quais as consequências? Pois é, aí também depende da intenção, mas posso acreditar que não são boas. O Criador sempre é invocado aleatoriamente, e isso deve cansar muito.

Sabe, escrever os textos para mim é um exercício delicioso, mas preciso me policiar o tempo todo, por que dá vontade de colocar muita bobagem. Às vezes eu me passo e escapa algumas coisas, mas preciso respeitar o leitor, então cuido para expressar minhas opiniões de forma menos agressiva possível. Claro sem perder a minha verdade. Não escrevo o que os outros querem ler, mas preciso sempre cuidar da forma como expresso minhas ideias e opiniões. Eu preciso me importar com outro para não ser mal compreendido. E também cometo erros ortográficos ou conceituais.

Acredito que a palavra falada é a mais usual. O gesto é universal mas não tem eloquência e a escrita tem as limitações óbvias do tempo que toma. Então se observarmos a natureza ela própria nos dá mostras da importância de se cuidar com o que falamos. Veja a configuração dos seres vivos, os humanos em especial: Tem dois ouvidos, dois olhos, duas fossas nasais e uma boca. Então quer dizer que tenho que ouvir, ver e cheirar duas vezes mais que falar. Será possível?

Então, achar que dizer, escrever ou gestualizar o que pensa é uma virtude cuidado, sem avaliar as consequências pode funcionar como um bumerangue que vai e volta. E como volta!

Escrito por Fernando Baumann, 01/06/2018 às 18h03 | fernando@bba-reiki.com.br

A Corujinha Azul

 Ela entrou em minha vida a exatos quarenta anos. Lembro do dia que fui a Florianópolis com meu pai para buscá-la. Tinha uma cor azul muito bonita e quando nos olhamos a identificação foi imediata. Foi amor à primeira vista.

Como estava meio caidinha, passamos dificuldades para trazê-la até Balneário Camboriú. Precisamos de muito cuidado. Chegando em casa a primeira ação foi um belo banho e higienização completa, depois uma avaliação de seus problemas com profissionais especializados e os devidos tratamentos.

Assim que restabelecida, ela começou a cumprir seus afazeres diários, razão pela qual foi adquirida. Foram anos de trabalho duro e dedicado. Todo dia acordando cedo e indo até final da tarde sem reclamar, exceto finais de semana, quando tinha dia livre para descanso.

Claro, até eu me tornar adulto, por que daí em diante ela passou a ser a minha companheira de balada. Meu pai ainda era o proprietário oficial, mas de certa forma eu já ia me apoderando dela. Pelo menos nos finais de semana.

As garotas da época nos estranhavam muito, até nos olhavam com certo desprezo. Como éramos rejeitados! Imagina,  para completar eu ainda usava chinelão.

Meus amigos a acolheram com carinho, até tiravam uma casquinha de vez em quando. Lembro de uma vez que deixei o Eduardo ficar um pouquinho com ela. Ele não tinha muito jeito, então quase que liquida ela numa manobra desastrada. Que susto! E o Jorge então, abraçou um poste com ela. Ainda bem que foi de raspão. Imagina que tristeza seria.

Houve outros casos também. Um com meu pai e outro com meu irmão, mas em nenhum deles ela se machucou com gravidade.

E assim passaram os anos, e a aproximadamente seis ela é minha em definitivo. Velha companheira de guerra, hoje já aposentada, mesmo assim está sempre pronta para novas aventuras, nem parece ter a idade que tem. É uma jovem, uma jovem senhora, faceira e sapeca ainda.

Para mim ela é única e não me desfaço por nada. Tenho um canto especial  em minha garagem e sempre a cubro com um cobertor. Acho que fomos feitos um para o outro e preciso retribuir todos os belos momentos vividos ao longo destes anos todos.

Recebo muitas propostas de compra, mas eu não seria capaz. De certa forma até me ofendo.

Ah, quase ia me esquecendo, a Corujinha Azul é uma Kombi com carroceria, ano 1975, daquelas com vidro dianteiro repartido. Aqui os modelos até este ano são conhecidos assim.

Uma belezura só! Eu, ela e o chinelão. Imagina a cena.

 

Escrito por Fernando Baumann, 29/05/2018 às 10h22 | fernando@bba-reiki.com.br



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Fernando Baumann

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Economista, empresário e militante das causas coletivas, acredita no associativismo e cooperativismo como ferramentas para a construção de uma sociedade mais justa. Busca incessantemente evoluir como ser humano e social.


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Por Fernando Baumann

Estropiados

 Em outro texto falei sobre minhas experiências de caminhada com amigos um tanto sem noção. Sempre digo para a minha mãe que sou o melhor de todos. Ela diz que é difícil acreditar. Deixa pra lá, a questão aqui é conceitual.

Pois bem, numa destas vezes decidimos ir de Curitiba a Morretes  pelo caminho de Itupava. Saímos cedo de Balneário Camboriú e estacionamos nosso carro na Rodoferroviária em Curitiba. Dali pegamos nossas mochilas e seguimos a pé até Quatro Barras, nosso destino àquele dia. Foram aproximadamente 25 km percorridos entre avenidas e ruas da cidade e a rodovia Regis Bittencourt - um trecho bastante monótono – até chegarmos ao hotel em Quatro Barras.

No dia seguinte, já recompostos do primeiro trecho, saímos pela cidade de Quatro Barras rumo a entrada do caminho de Itupava. Como sempre baixei a cabeça e saí em disparada, deixando meus parceiros para traz. O dia estava nublado e muito propenso a chuvas. Próximo ao início da trilha lembrei que não estava sozinho e sentei no canto da rua para esperar os “mal-acabados” dos meus amigos. O tempo passou e nada deles. Já estava me aprontando para retornar quando eles apareceram dando risadas com o tênis do Agilson na mão com a sola descolada. Coisa de amador! Por sorte acharam um comércio aberto e conseguiram comprar outro.

Logo que entramos na trilha as coisas começaram a se complicar. No início maravilha, caminho bem aberto, depois foi fechando cada vez mais, com declives bastante acentuados, onde aproveitávamos, com a presença da chuva, para deslizar morro abaixo. Às vezes não era opção, a gente caia mesmo. E a chuva...bem essa veio com toda a força e persistência, parecia querer provar a nossa determinação.

Eu não havia falado, mas conta a história que o caminho de Itupava foi a primeira ligação entre o litoral e o planalto, subindo (ou escalando) a serra do mar, tendo sido originalmente trilhas indígenas, e depois melhoradas e utilizadas pelos jesuítas e colonizadores para ir a Curitiba, tanto que em alguns trechos ainda conservam a pavimentação de pedras originais.

Num dado momento a trilha cruza pela primeira vez a estrada de ferro que liga Paranaguá a Curitiba. Então propus ao Enir, ao Zé e ao Agilson que seguíssemos pelo caminho da ferrovia que ia ser bem mais divertido. Acho que eles não entenderam bem a “caca” que ia ser e aceitaram. Não deu 500 metros de caminhada daí apareceu uma litorina da Polícia Ferroviária que nos abordou, querendo saber o que nós engraçadinhos estávamos pensando em fazer.  Nos colocaram para cima, deram uma lição de moral aos quatro marmanjos e nos ficharam. Por fim dos deixaram de volta ao caminho, no ponto em que nos desviamos.

Se a primeira parte estava difícil, a segunda então foi punk. Eu e o Agilson despencamos trilha abaixo com uma chuva torrencial nas costas e muito frio. Olhávamos um para o outro e não nos reconhecíamos, de tão feio que estávamos. Então pela segunda vez cruzamos a estrada de ferro num ponto chamado Nossa Sra. do Cadeado. Nos abrigamos em baixo de uma pequena construção para tentar nos aquecer e comemos alguma coisa.

Uma hora depois o Enir chega carregando o Zé, que havia se machucado durante a descida. O Enir bastante solidário e o Zé bastante manhoso.  Eu e o Agilson nos arrependemos e ter deixado os dois para traz - só que não muito.

 Daí para frente a situação melhorou, com caminho menos íngreme, mais aberto e menos chuva. Ao final do dia chegamos a uma belíssima pousada já na estrada de Itupava, a 10 km de Morretes. Estropiados, irreconhecíveis, malcheirosos mas muito felizes.

No dia seguinte foi moleza, a caminhada até Morretes foi tranquila e prazerosa, onde pegamos o trem de volta para Curitiba. Corpo todo dolorido, mas a alma leve e preguiçosa.

 

Escrito por Fernando Baumann, 15/06/2018 às 10h32 | fernando@bba-reiki.com.br

Brasilidade

 Da série “o Brasil que queremos”, promovida por importante canal televisivo, mostra uma preocupação maciça dos brasileiros com a corrupção. De modo geral, de norte a sul, todos abordam este tema.

Isto mostra o grau de maturidade que estamos vivendo, promovido principalmente  pelas movimentações punitivas a respeito. Jamais se imaginou condenar e fazer cumprir as condenações de medalhões do meio político e empresarial. Já é uma grande quebra de paradigma. Mesmo cometendo possíveis erros, o judiciário tem demonstrado que está no caminho certo, mostrando que o crime não compensa. O jargão “rouba mas faz” já não é unanimidade, e o fato de alguém em algum momento ter feito algo de bom não chancela que se aproprie do que é não é seu, seja direta ou indiretamente.

Mas não é apenas isto. Nós precisamos reconhecer que tirar vantagem e pensar apenas em si faz parte da nossa cultura, e isto é sintoma de uma sociedade doente com tendência a corromper. Segundo Calil Simão, é pressuposto necessário para a instalação da corrupção a ausência de interesse ou compromisso com o bem comum. Vou explicar melhor antes que você possa condenar minha opinião:

1 - O que significa estacionar o carro em vaga de deficiente ou idoso sem ter direito a isso?   

2 - O que significa um veículo sair do posto de gasolina da rua 904 por cima da faixa de segurança sem respeitar a vez de quem está na fila ou do pedestre que está atravessando?

3 - O que significa o funcionário pedir o maldito acordo para sacar o FGTS e receber o seguro desemprego quando quer sair da empresa onde trabalha?

4 – O que significa colar a prova ou pagar para alguém fazer um trabalho escolar?

5 – O que significa um profissional pago para especificar algo receber comissão de quem ele indicou sem o conhecimento do cliente?

6 – O que significa sonegar impostos, mesmo que esta seja a condição para sobreviver como muitos justificam?

7 – O que significa o saque da carga de um caminhão acidentado?

8 – O que significa entregar um falso atestado de saúde?

Minha análise está adequada e os sintomas acima dizem respeito a nós? Você concorda que temos muito a fazer por nós mesmos, e que se não começar por cada um não vai ter jeito? Quero então sugerir, para que este momento difícil mas importante não passe em vão, que cada um julgue a si antes de julgar os outros ou o sistema. Provavelmente muitos de nós já cometemos as faltas mencionadas. Eu me encaixo em algumas.

Então, “bora” fazer um novo país?

 

Escrito por Fernando Baumann, 12/06/2018 às 05h05 | fernando@bba-reiki.com.br

O Sistema TBC

 Vivemos tempos difíceis, de muita incerteza e insegurança. Não lembro em minha existência de algo semelhante. Parece que tudo está perdido. Crise financeira, crise política, crise social, um estado de ebulição constante.

Mas sabe, acredito que este momento está sendo muito rico para abrirmos em definitivo as discussões do que somos e do que queremos ser. A dificuldade nos empurra a sair do estado de letargia que nos encontramos, passivos diria assim, onde sempre esperamos que o outro faça por nós. Acho que as verdades estão sendo expostas.

Os piores momentos na verdade são sempre os melhores. Muito provavelmente hoje não consigamos enxergar, mas daqui a algum tempo, quando olharmos para traz, veremos que avanços importantes ocorreram. O fogo transforma, a exemplo do ferro em aço e do vidro comum em vidro temperado. Então que saibamos aproveitar este fogo que está aí com responsabilidade, civilidade e respeito para nos tornarmos mais fortes.

Uma questão que sempre me perturbou e agora decidi me posicionar é quanto aos legisladores municipais, estaduais e federais. Não concordo e não aceito que após eleitos os mesmos ocupem outra função que não a sua, como exemplo o vereador que vira secretário. Também o caso do executivo que renuncia a sua função para concorrer a outros níveis. Isto é virar as costas para o eleitor, que o elegeu para àquela função, usando-o como degrau para servir aos seus próprios interesses. O eleitor não é mais tão bobinho para não perceber isto, e eu não voto mais em candidatos com este histórico.

Também entendo que estamos em condições de discutir a carga tributária que carregamos. Não os impostos como causa, e sim como efeito(vou sugerir trocar o nome de “imposto” por “benefício”).  Sendo mais claro: o problema não é o quanto pagamos, mas o quanto recebemos. Pagar altas alíquotas de modo geral é aceitável, o que não é aceitável é que pagamos e não recebemos. Não tem estrada, não tem educação, não tem saúde e tudo precisa ser novamente contratado de forma particular por quem pode. Numa conta simples concluo que o custo é dobrado. Vender e não entregar é estelionato, e é isto que o sistema nos impõe, pois o mesmo é incapaz de cumprir suas funções, isto hoje é claro.

Por fim, a divisão do bolo. Não podemos mais concordar que o maior percentual caiba ao governo federal. A pirâmide precisa ser invertida, e o município tem que ficar com a maior fatia, que é onde efetivamente as coisas acontecem e nós conseguimos ver e controlar. O governo federal, este ogro, repleto de privilégios e luxos não precisa ter o tamanho que tem. Apartamentos funcionais, veículos de luxo com motoristas, ascensoristas, assessores, passagens aéreas, aviões, auxílios, aposentadorias e privilégios de toda ordem(cabelo, terno e o escambau)não cabem mais. Eu não aceito mais pagar esta conta.

É o que tenho para hoje.

(sistema TBC – Tirar a Bunda da Cadeira)

 

Escrito por Fernando Baumann, 08/06/2018 às 12h50 | fernando@bba-reiki.com.br

Eu, o menino

 Não lembro bem, mas eu devia ter uns 10 anos de idade. Estudava no Colégio João Goulart com a Dona Diva. Ela tinha um fusca branco que eu adorava, placa BB 0045 se não me engano. Era o máximo!

Aos sábados tínhamos nosso momento cívico, com o canto do hino em posição de sentido em respeito ao pavilhão nacional, sempre vigiados pela Dona Orieta. Ai de algum “abobado” fazer algo errado. Sempre tinha um, é claro, mas era firmemente repreendido.

Adorava esse dia simplesmente por que era diferente.

Meus pais sempre lutaram com dificuldades para manter os quatro filhos menores. Não nos faltava nada de essencial, mas luxos não nos eram permitidos. Lembro da conga que eu usava sonhando em ter um kichute, o “the best power” do momento. Com certeza meu futebol ia melhorar(bobagem, eu era muito ruim mesmo).

Vinha de bicicleta pelas trilhas que ligavam minha casa ao colégio. Colocava um gorro na cabeça pensando que era um capacete com balaclava e pedalava me sentindo o piloto do momento. Era muito divertido mas de vez em quando dava errado. Lembro de uma vez que vinha junto com o Nabor e tentei ultrapassar ele pelo mato, só que tinha um tronco, daí foi um “pacote” fenomenal. Até hoje ele me zoa por conta disso.

Mas o mais bacana de tudo era que no sábado meus pais me davam dinheiro para comprar o lanche na escola. Que delícia! O dinheiro era contado para comprar a laranjinha na cantina e a bananinha de um senhor que vinha vender no portão.

Primeiro eu ia comprar a bananinha. Era uma “muvuca” àquelas crianças com os braços estendidos através da grade do portão com o dinheiro na mão. Eu igual desesperado e boca salivando louco pela iguaria. Então num destes sábados  de braço estendido, um outro moleque pelo lado de fora do portão arrancou o dinheiro que tinha na minha mão e saiu correndo. Fiquei paralisado, decepcionado e muito triste. Chorei muito àquele dia.

Meu desejo de todo sábado indo embora correndo feito louco por conta de um moleque safado.

Hoje sempre que vou a uma padaria procuro pela bananinha e compro. Não é mais como no passado, mas como com satisfação. Talvez àquele menino entristecido que perdeu o seu dinheiro ainda chore dentro de mim, envolvido nas doces lembranças de um passado um pouco distante.

 

 

Escrito por Fernando Baumann, 05/06/2018 às 13h34 | fernando@bba-reiki.com.br

A Palavra

 A palavra é uma arma, dependendo de como é usada pode selar a paz ou incitar a guerra. De alcance letal, depois que proferida não retorna mais. Impossível trazer de volta. Ela tem o poder de levantar muros ou construir pontes.

Constituída com padrão, colabora na formatação do nosso modelo mental. Sou o que penso, expresso o que penso. Sendo verdade ou não, a minha manifestação diz muito do que sou. A palavra também carrega um fator de potência, que é a minha intenção com ela. A atribuição que dou aumenta ou diminui sua energia de impacto. Posso dizer algo amoroso de forma fria, ou algo ríspido com amorosidade.

Também tem a variação do significado de uma mesma palavra. Por exemplo, a palavra “trabalho” para uns pode significar fardo ou penitência, para outros pode ser oportunidade e crescimento. É a forma e o estado de espírito de cada um, e isto gera muita confusão comportamental.

Outro exemplo agora com o equívoco do uso diz respeito a palavra “amor”. Usamos para demonstrar desejo e sentimento, inclusive para expressar o clímax da intimidade entre duas pessoas – “fizemos amor”. Ora, fizemos sexo, não amor. Para mim o puro significado da palavra  é respeito e tolerância. Então amo meus pais, irmãos, esposa, filhos e amigos. Também posso amar meus desconhecidos nos encontros diários, num gesto, num aceno, numa gentileza. Amor é sentimento de igualdade, assim como orgulho é de superioridade.

E o caso do jogador que ao sair de campo é interpelado pelo repórter que lhe pergunta como foi a disputa, então ele diz: “ graças a Deus saímos vitoriosos...”? – daí eu penso, será que Deus foi contra quem perdeu? É claro que não, é apenas força de expressão. Mas se a palavra tem poder, então quais as consequências? Pois é, aí também depende da intenção, mas posso acreditar que não são boas. O Criador sempre é invocado aleatoriamente, e isso deve cansar muito.

Sabe, escrever os textos para mim é um exercício delicioso, mas preciso me policiar o tempo todo, por que dá vontade de colocar muita bobagem. Às vezes eu me passo e escapa algumas coisas, mas preciso respeitar o leitor, então cuido para expressar minhas opiniões de forma menos agressiva possível. Claro sem perder a minha verdade. Não escrevo o que os outros querem ler, mas preciso sempre cuidar da forma como expresso minhas ideias e opiniões. Eu preciso me importar com outro para não ser mal compreendido. E também cometo erros ortográficos ou conceituais.

Acredito que a palavra falada é a mais usual. O gesto é universal mas não tem eloquência e a escrita tem as limitações óbvias do tempo que toma. Então se observarmos a natureza ela própria nos dá mostras da importância de se cuidar com o que falamos. Veja a configuração dos seres vivos, os humanos em especial: Tem dois ouvidos, dois olhos, duas fossas nasais e uma boca. Então quer dizer que tenho que ouvir, ver e cheirar duas vezes mais que falar. Será possível?

Então, achar que dizer, escrever ou gestualizar o que pensa é uma virtude cuidado, sem avaliar as consequências pode funcionar como um bumerangue que vai e volta. E como volta!

Escrito por Fernando Baumann, 01/06/2018 às 18h03 | fernando@bba-reiki.com.br

A Corujinha Azul

 Ela entrou em minha vida a exatos quarenta anos. Lembro do dia que fui a Florianópolis com meu pai para buscá-la. Tinha uma cor azul muito bonita e quando nos olhamos a identificação foi imediata. Foi amor à primeira vista.

Como estava meio caidinha, passamos dificuldades para trazê-la até Balneário Camboriú. Precisamos de muito cuidado. Chegando em casa a primeira ação foi um belo banho e higienização completa, depois uma avaliação de seus problemas com profissionais especializados e os devidos tratamentos.

Assim que restabelecida, ela começou a cumprir seus afazeres diários, razão pela qual foi adquirida. Foram anos de trabalho duro e dedicado. Todo dia acordando cedo e indo até final da tarde sem reclamar, exceto finais de semana, quando tinha dia livre para descanso.

Claro, até eu me tornar adulto, por que daí em diante ela passou a ser a minha companheira de balada. Meu pai ainda era o proprietário oficial, mas de certa forma eu já ia me apoderando dela. Pelo menos nos finais de semana.

As garotas da época nos estranhavam muito, até nos olhavam com certo desprezo. Como éramos rejeitados! Imagina,  para completar eu ainda usava chinelão.

Meus amigos a acolheram com carinho, até tiravam uma casquinha de vez em quando. Lembro de uma vez que deixei o Eduardo ficar um pouquinho com ela. Ele não tinha muito jeito, então quase que liquida ela numa manobra desastrada. Que susto! E o Jorge então, abraçou um poste com ela. Ainda bem que foi de raspão. Imagina que tristeza seria.

Houve outros casos também. Um com meu pai e outro com meu irmão, mas em nenhum deles ela se machucou com gravidade.

E assim passaram os anos, e a aproximadamente seis ela é minha em definitivo. Velha companheira de guerra, hoje já aposentada, mesmo assim está sempre pronta para novas aventuras, nem parece ter a idade que tem. É uma jovem, uma jovem senhora, faceira e sapeca ainda.

Para mim ela é única e não me desfaço por nada. Tenho um canto especial  em minha garagem e sempre a cubro com um cobertor. Acho que fomos feitos um para o outro e preciso retribuir todos os belos momentos vividos ao longo destes anos todos.

Recebo muitas propostas de compra, mas eu não seria capaz. De certa forma até me ofendo.

Ah, quase ia me esquecendo, a Corujinha Azul é uma Kombi com carroceria, ano 1975, daquelas com vidro dianteiro repartido. Aqui os modelos até este ano são conhecidos assim.

Uma belezura só! Eu, ela e o chinelão. Imagina a cena.

 

Escrito por Fernando Baumann, 29/05/2018 às 10h22 | fernando@bba-reiki.com.br



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Fernando Baumann

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Economista, empresário e militante das causas coletivas, acredita no associativismo e cooperativismo como ferramentas para a construção de uma sociedade mais justa. Busca incessantemente evoluir como ser humano e social.


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