Jornal Página 3
Coluna
Cá Pra Nós
Por Fernando Baumann

Boa nova

 Dia nublado, olho e não entendo. Onde está a nuvem, dentro ou fora de mim? Uma vez por ano é assim, lente embaçada com dia certo pra chegar. Vejo a alegria contagiante de muitos, ansiosos por comemorar. Eu me recolho.

Pra mim é diferente. Quando criança gostava de dias de chuva pra poder ficar dentro de casa, perdido em meu mundo de brincadeiras e sonhos. Talvez seja isso que ainda aconteça neste dia, o menino que quer ficar só.

Alguns anos eu sumia, em outros eu ia visitar meus avós em seus lares póstumos. Saudade do que vivemos ou lembrança do que deixamos de viver. Queria silêncio e não ruídos.

Um olhar para dentro, como que buscando minha essência e verdade. Uma data interessante para refletir sobre o que já fiz e o que ainda vou querer fazer.

Um tanto egoísta, mas é o “efeito mola” em ação, quando encolho pra depois expandir, impulsionar.

Depois a nuvem dissipa.

Escrito por Fernando Baumann, 20/09/2019 às 09h42 | fernando@bba-reiki.com.br

A terceirização do cérebro

Tenho pensado sobre as enormes facilidade que temos hoje e o quanto a tecnologia auxiliou a humanidade a dar vários passos à frente. Coisas incríveis aconteceram e encurtaram a distância entre o homem e a máquina. Mas nada sai de graça.

Sou frequentador assíduo de mercados, padarias e pequenos comércios. Ainda não me acostumei a usar cartão para todos os pagamentos, então para pequenos valores acabo utilizando dinheiro, talvez por vergonha pessoal, ter algum valor no bolso para mim é importante. O que me chama a atenção é que invariavelmente quem recebe o valor em espécie faz conta na máquina para dar o troco, independente de ser valor fracionado ou inteiro. Facilidades que a máquina de calcular trouxe. Não precisa pensar.

Viajo bastante, e há não muito tempo atrás para encontrar algum endereço recorria a mapas e informações de taxistas e frentistas de posto de combustível. Eram idas e vindas até localizar. Hoje os sistemas disponíveis me colocam no endereço sem saber como cheguei lá, ou então como faço para sair. De novo não precisa pensar.

Meu telefone atual faz chamadas de um arquivo chamado “contatos”, que guarda todos os dados necessários, não exigindo de minha parte nenhum esforço para decorar números. Se você me perguntar para responder rápido qual o meu número, talvez eu me atrapalhe em dizer. Mais uma vez não precisa pensar.

 Vi recentemente uma reportagem que retrata a dificuldade do jovem americano em guiar veículos manuais, pois a muito o câmbio automático dominou o mercado de lá. Também controle de tração, estabilidade, estacionamento, etc. Facilidades que melhoram a relação homem e máquina, exigindo menos do primeiro.

Acho tudo isso extraordinário, àquilo que poucos desenvolvem para muitos utilizarem. A capacidade criativa do ser humano não tem limites, e a busca pelo conforto, privacidade e segurança trazem a nós facilidades jamais imaginadas.

Mas me parece que o custo será alto, muito alto. A total alienação a máquina está de certa forma ceifando nossa capacidade de raciocinar, nos deixando mais preguiçosos e dependentes.

Pode ser uma bobagem minha, mas fazer contas de cabeça, encontrar lugares sem auxílio tecnológico, decorar números de telefone e dirigir a minha Kombi são excelentes exercícios para manter o cérebro ativo, lúcido.

Talvez a grande onda seja a terceirização do cérebro, e isso é muito perigoso.

Escrito por Fernando Baumann, 29/07/2019 às 15h18 | fernando@bba-reiki.com.br

Fones de ouvido

 A cidade se movimenta apressada. Aliás, a cidade não, mas as pessoas que a habitam. Interessante observar como plateia que aprecia um espetáculo. As nuances, o enredo e a sonoplastia.

As motos impacientes querendo sempre a preferência e o ônibus atrasado pelo trânsito que pára em cima da pista para o embarque de novos passageiros, embaralhando mais ainda o que vem atrás. Bicicletas num zigue-zague frenético disputando espaços escassos e carros enuviados pela fumaça, vidros fechados e motoristas mais ainda. Por fim pedestres aguardando o semáforo abrir para atravessar a larga avenida, muitos na faixa de pedestres, outros não.

Vida corrida, atores enlouquecidos pela lida diária de compromissos e afazeres, sem trégua, vítimas e cúmplices de uma vida moderna cheia de curvas, subidas e descidas. Nada fácil, convém lembrar.

A observar, vidas que vivem em comunidade, próximas mas distantes. O trânsito, local onde tudo acontece e todos se encontram, é o cenário democrático que acolhe ricos e pobres, tímidos e extrovertidos, mansos e ignorantes, os gêneros e mais. 

Tudo parece matéria e pouco humanizado. Ninguém se cumprimenta e gentileza pouco se observa. Algo parece errado e fora do controle. Os humanos que ali estão são mais máquinas quanto as máquinas que os locomovem. Frios e individualizados.

No descarte da perturbação poucos atentam para a criança sentada a beira da calçada, maltrapilha e sem perspectivas, abandonada a própria sorte de abusos e explorações. Triste caminho!

Cada um pensa em si, e ninguém pensa no outro.

Fones de ouvido. Meu som, meu mundo, minha privacidade. Nada mais importa.

Por favor não atrapalhe

Escrito por Fernando Baumann, 16/04/2019 às 23h05 | fernando@bba-reiki.com.br

O dia que não fui

 Estava sentado à beira da estrada recebendo atendimento dos resgatistas da Via Bahia, a pressão muito baixa não me permitia ficar em pé. Uma pequena multidão se aglomerava perto de mim, quando ouvi uma voz distante dizendo: “vais comemorar esse dia como o teu renascimento”. Escutei aquilo e com a força que restava falei: “não tenho como ter renascido se não morri”.  Alguém escutou o que eu disse e retrucou: “libera o homem que ele já está bom!!” Gargalhada geral da plateia, que entendia que o momento era grave para estar filosofando, e que estava acostumada a acidentes naquele local, seguidamente com vítimas fatais.

Cinco dias antes sai de Balneário Camboriú com destino a Santo André, SP, onde teria uma reunião de trabalho no período da tarde. Moto abastecida e bagagem acomodada segui rumo ao meu destino, trecho que percorro com frequência e conheço bem. Minha maior preocupação é quanto a roubos na chegada a São Paulo, por isso faço um caminho mais longo, mas com menos sinaleiras, pelo Rodoanel.

Nos dois dias seguintes percorri os 1,8 mil km entre Santo André e Palmas, TO, passando por Goiânia, GO. Tudo muito divertido e dentro do previsto. Não me preocupo se vai chover ou fazer calor, pois me preparo para todas as possibilidades. É uma alegria muito grande fazer o que se gosta, ainda mais quando dá para conciliar lazer e trabalho. Me sinto inteiro e realizado, e agradeço ao Papai do céu pela oportunidade.

Passei a segunda-feira em atendimento a um cliente em Palmas. No dia seguinte segui rumo a Salvador, BA, distante 1,5 mil km, onde tinha compromisso na quarta-feira a tarde. Rodei mil quilômetros até Seabra, BA, onde pernoitei. Trecho belíssimo, passando pela Chapada Diamantina e pelo sertão baiano, onde o cactos é a planta predominante.

Tinha 500 quilômetros até Salvador, então acordei cedo para chegar ao meu compromisso no horário previsto. Após 280 quilômetros rodados parei em um posto de combustível para abastecer. Isso é sempre um ritual, pois uso em mim um equipamento bastante reforçado e seguro, mas nada prático para retirar. Quando havia me desfeito dos paramentos, escuto meu celular tocando insistentemente. Num primeiro momento não atendi, pois fico muito concentrado na pilotagem da moto e procuro não me desconcentrar, a não ser que seja de algum número conhecido e próximo. Mas acabei cedendo.

A ligação era referente a um problema com cliente, o que me deixou muito preocupado. Subi na moto e segui viagem, e junto com esse problema juntei mais dois que gravitavam a minha volta. Erro grave. Não se pilota uma moto sem estar totalmente focado e concentrado, e sei disso muito bem. Trinta minutos depois, no final de uma reta seguida de uma pequena depressão, no entroncamento das rodovias BR 242 e BR 116, passei direto em uma curva, muito acentuada, numa localidade chamada Paraguaçu, 200 quilômetros antes de Salvador. Pura falta de atenção, na verdade apenas meu corpo estava na moto, o resto estava brigando com os problemas da minha mente.

Havia um desnível de aproximadamente 3 metros entre a pista e o chão, onde decolei e o primeiro impacto foi de prancha, corpo inteiro de frente, mais um giro completo de 180º e rolamento na sequência. Quando meu corpo parou de rolar não conseguia respirar. Tentei levantar e não consegui, então de “cachorrinho” comecei a me movimentar, desesperado pelo oxigênio que faltava, rumo a estrada. Em seguida chegaram pessoas, trabalhadores locais, acostumadas a resgatar acidentados naquela curva infeliz.

 Foram horas, 4 ou 5, pulando dentro da ambulância numa maca de madeira nada confortável. Mesmo amarrado, os solavancos me projetavam para todos os lados. O primeiro hospital, próximo do local do acidente, me recusou o atendimento, informando que não tinha equipamentos adequados para o meu caso. Nem raio X havia. O segundo foi ainda pior, porque após os procedimentos iniciais feitos, o médico responsável correu conosco (eu e os socorristas) de lá, dizendo que invadimos o “seu” hospital, e que não estávamos autorizados a ficar. Após muita insistência os socorristas conseguiram que ao menos me aplicassem algo para aliviar a dor, já bastante intensa nas costelas e peito.

Somente no terceiro hospital, em Feira de Santana e distante 80 km do acidente é que fui recebido. Na enfermaria mais uma odisseia, pois o atendimento demorou para acontecer e eu me contorcia de dor. Quando comecei a berrar alto é que chamei atenção do médico, que me aplicou algum analgésico potente e fez os encaminhamentos necessários.

Após exame de ressonância e a constatação de que não havia fraturas voltei para a enfermaria, medicado para a dor. Me contorci e vomitei a noite inteira, inclusive no pé de uma senhora que cuidava da sua mãe cuja maca estava ao meu lado. Esta senhora muito atenciosa se preocupou comigo e me deu atenção durante toda a noite. Noite difícil.

Pela manhã estava impaciente e com muita azia e estômago inchado, quando duas ou três pessoas entraram na enfermaria e vieram em minha direção. Era a médica e enfermeiras de plantão. Ela olhou minhas mãos e examinou meu estômago e proferiu: “vamos fazer um ultrassom, a cor amarelada de sua pela indica um quadro de hemorragia”. Essa é a melhor médica que temos aqui, disse uma enfermeira assim que a médica saiu. Você está em ótimas mãos.

Quando estava sendo preparado para o exame meus filhos chegaram. Estando em São Paulo para eles foi mais rápido. A Heloisa ficou comigo e o Henrique junto com outras pessoas foi localizar onde a moto estava, até aquele momento uma incógnita para mim.

No exame se confirmou a hemorragia e o encaminhamento foi imediato para a cirurgia, que transcorreu dentro da normalidade e tudo saiu como pretendido. O procedimento identificou lesão e sangramento no fígado, bem como hematomas no estômago. Apesar das limitações físicas que o hospital tinha, a dedicação, atenção e gentileza surpreendentes fizeram toda a diferença.

No dia seguinte conseguimos transferência para o hospital mantido pelo meu plano de saúde, com o sentimento de gratidão àquelas pessoas especiais que fazem da sua profissão a razão para suas vidas. Emocionante presenciar isto.

Aguardava na sala de triagem do novo hospital a liberação para internação. Minha esposa também havia chegado e me acompanhava. Como demorou um pouco ela foi ao banheiro e acabei cochilando. Quando acordo de pronto me deparo com um senhor bastante idoso de pé ao meu lado, chapéu preto, paletó preto e óculos escuro, que fala com voz forte e pausada: “como está meu irmão?” Pensei...ferrou, o anjo da morte veio me buscar!

Nesse instante minha esposa retorna e ele se apresenta como representante de um grupo que participo, e veio saber como eu estava e se precisava de algo. Ufa, que susto!!! Ainda estou vivo....Para completar naquele dia outro veio me visitar e depois de alguma conversa perguntei qual era a atividade profissional dele, então me falou: “ não leve a mal meu irmão, mas tenho uma funerária.” Bah, será o destino?

Histórias que a vida conta, e dá pra achar graça de muitas coisas, mesmo em momentos difíceis.

A primeira noite nesse hospital meu filho ficou comigo, para que a Miriam pudesse se acomodar melhor no hotel e descansar, junto com sua irmã que a acompanhava. Quando acordei de manhã resolvi tomar um banho, algo que a muito não fazia. Ele me acompanhou ao chuveiro, pois ainda estava fraco e preso a um pedestal metálico que continha soros e medicamentos. Chuveiro ligado pego o sabonete na mão e o mesmo cai no chão. Olhamos um para o outro e começamos a rir muito. Eu não podia rir, pois a cirurgia recente e os 32 pontos limitavam a flexão da minha pele. Mas não conseguíamos para. Quem vai se abaixar para pegar o sabonete? Eu não, disse ele. E eu também não. Após difícil negociação, acertamos que eu chutaria o sabonete para fora, longe do box, e que ele pegaria. Mas isso seria apenas uma vez, não teria a segunda. Coisas de pai e filho, dois moleques se divertindo um com o outro.

Nas visitas do médico constatou-se minha rápida recuperação, graças a atividade física frequente e alimentação adequada que tenho. Também cabe aqui fazer referência ao equipamento que usava, macacão, luvas, botas e capacetes, que me protegeram, sem os quais certamente não estaria aqui escrevendo. A primeira recomendação do médico era que eu devia caminhar, o máximo possível, para auxiliar minha melhor recuperação.

Aproveitei os corredores do hospital para seguir a recomendação médica. Eu e o pedestal metálico. Então meus filhos começaram a me provocar para que eu treinasse a fazer curvas, já que havia me acidentado numa. Brincadeira vai, brincadeira vem e numa dessas curvas tropecei no pé do pedestal, quase caindo. A gozação foi geral, então um deles fala: “pô pai, não tem jeito mesmo, tu não aprende a fazer curva”. Esse foi o assunto do resto do dia.

Após cinco dias internado e mais dez no hotel fazendo acompanhamento médico fui liberado para retornar para casa. Na bagagem o reconhecimento ao povo baiano pelo seu zelo e atenção ao próximo, amáveis e espiritualizados. Também o agradecimento pela oportunidade que tive de continuar próximo dos meus, e por entender que tudo passa e que nada é suficientemente grave que mereça toda a nossa atenção. No momento do impacto, dada a violência, tive a sensação de que não sobreviveria. Mas estava calmo e sereno, e a única preocupação que tinha era comigo mesmo, o resto nada importava. Pareceu que uma chave desligou, mantendo apenas o corpo em marcha lenta, respirando na intensidade mínima necessária para sobreviver.

Ah, não falei, a moto chegou em casa antes de mim, com poucos danos, apenas cosméticos. Pura sorte. Já foi para o conserto e quando retornar continuaremos consumindo quilômetros de estradas por ai a fora. Vender? De jeito nenhum, ela não teve nenhuma culpa pelo que aconteceu.

Escrito por Fernando Baumann, 07/04/2019 às 15h20 | fernando@bba-reiki.com.br

Sobre verdades

 Nossa cidade é destaque em aparências. Talvez pela praia ou pelo clima, ou então pelo multiculturalismo, e também pela vida noturna. Possivelmente tudo isso junto e mais algumas coisas que não consigo alcançar.

O culto ao corpo encontra aqui forte adesão, junto com veículos espetaculares e apartamentos deslumbrantes. Balneário é lugar para aparecer e causar. Conheci algumas pessoas que em sua cidade de origem levavam vida simples e regrada, e que aqui se soltavam. Algo errado com isso? Acho que não, a “vibe” aqui é outra. E também os carnês na gaveta não importam, isso ninguém vê.

Quando comecei a usar bicicleta em meus deslocamentos diários, muito antes de virar moda e ter ciclovias, houve alguns conhecidos que me ligaram perguntando se eu estava precisando de ajuda, como se o veículo falasse da minha situação financeira. Eu ria e agradecia, dizendo que tinha muito pouco, mas o suficiente para viver com dignidade.

Teve inclusive uma passagem muito engraçada. Numa transmissão de presidência de uma importante entidade que já dirigi, realizada num hotel bem bacana aqui de Balneário, fui de bicicleta pela facilidade do estacionamento, já que o evento era em área central da cidade. Chegando lá de terno e gravata pretos o manobrista olhou para mim e num movimento rápido bateu dois dedos em cima do relógio de pulso e disse: “você está atrasado, os garçons já estão servindo os convidados”, e me encaminhou pela porta de serviços para um rápido acesso ao local de trabalho. Não falei nada e entrei no clima, me divertindo com a situação. Pena que no final da noite fiquei sem as gorjetas!

Não quero aqui impor meu olhar sobre o tema, pois cada um o faz conforme a sua medida. Ter ou ser. Ser ou ter. Cada um decide o seu caminho.

Essa é apenas a minha percepção de um mundo cada vez mais visual que valoriza posses antes de virtudes.

Escrito por Fernando Baumann, 16/11/2018 às 17h45 | fernando@bba-reiki.com.br

Pensando em ser

Era uma vez três sócios que tinham negócios diversos espalhados por várias regiões do país. Por necessidade de deslocamento rápido viajavam com frequência em aeronave própria.

Até que um dia, no interior do Mato Grosso sobrevoando uma de suas fazendas, o avião tem uma pane, perde altitude e cai no pasto limpo, deslizando “de barriga” por breve distância, parando em cima de uma cerca de arame farpado e pilastras de concreto.

Exceto um passageiro, todos os outros quatro e o piloto incluso perderam a vida no acidente. O sobrevivente teve apenas leve escoriação no lado esquerdo da cabeça, com perda de parte da orelha e couro cabeludo, provocado por uma das pilastras da cerca de arame farpado. A questão de 5 milímetros a mais seria o suficiente para acertar a fonte e provavelmente lhe ceifar a vida, como os demais.

Cinco milímetros, a fração de um metro, menos que a espessura de uma caneta salvou àquele homem. A vida na borda de uma pilastra de concreto, sensível, tênue e breve. Detalhes tão pequenos que decidiram o seu destino.

O sobrevivente jamais foi o mesmo. A dor da perda de pessoas tão próximas lhe custou muito sofrimento.

Entretanto, este evento lhe mostrou o quão frágil era, o tanto de tempo que desperdiçava com coisas inúteis, achando que tudo estava sob o seu controle e que sua verdade era absoluta.

Uma tragédia revestida de oportunidade para corrigir o rumo de sua vida, o ocaso do astro eu. Assim, em primeira pessoa.

Escrito por Fernando Baumann, 09/11/2018 às 17h51 | fernando@bba-reiki.com.br



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Fernando Baumann

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Economista, empresário e militante das causas coletivas, acredita no associativismo e cooperativismo como ferramentas para a construção de uma sociedade mais justa. Busca incessantemente evoluir como ser humano e social.


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Por Fernando Baumann

Boa nova

 Dia nublado, olho e não entendo. Onde está a nuvem, dentro ou fora de mim? Uma vez por ano é assim, lente embaçada com dia certo pra chegar. Vejo a alegria contagiante de muitos, ansiosos por comemorar. Eu me recolho.

Pra mim é diferente. Quando criança gostava de dias de chuva pra poder ficar dentro de casa, perdido em meu mundo de brincadeiras e sonhos. Talvez seja isso que ainda aconteça neste dia, o menino que quer ficar só.

Alguns anos eu sumia, em outros eu ia visitar meus avós em seus lares póstumos. Saudade do que vivemos ou lembrança do que deixamos de viver. Queria silêncio e não ruídos.

Um olhar para dentro, como que buscando minha essência e verdade. Uma data interessante para refletir sobre o que já fiz e o que ainda vou querer fazer.

Um tanto egoísta, mas é o “efeito mola” em ação, quando encolho pra depois expandir, impulsionar.

Depois a nuvem dissipa.

Escrito por Fernando Baumann, 20/09/2019 às 09h42 | fernando@bba-reiki.com.br

A terceirização do cérebro

Tenho pensado sobre as enormes facilidade que temos hoje e o quanto a tecnologia auxiliou a humanidade a dar vários passos à frente. Coisas incríveis aconteceram e encurtaram a distância entre o homem e a máquina. Mas nada sai de graça.

Sou frequentador assíduo de mercados, padarias e pequenos comércios. Ainda não me acostumei a usar cartão para todos os pagamentos, então para pequenos valores acabo utilizando dinheiro, talvez por vergonha pessoal, ter algum valor no bolso para mim é importante. O que me chama a atenção é que invariavelmente quem recebe o valor em espécie faz conta na máquina para dar o troco, independente de ser valor fracionado ou inteiro. Facilidades que a máquina de calcular trouxe. Não precisa pensar.

Viajo bastante, e há não muito tempo atrás para encontrar algum endereço recorria a mapas e informações de taxistas e frentistas de posto de combustível. Eram idas e vindas até localizar. Hoje os sistemas disponíveis me colocam no endereço sem saber como cheguei lá, ou então como faço para sair. De novo não precisa pensar.

Meu telefone atual faz chamadas de um arquivo chamado “contatos”, que guarda todos os dados necessários, não exigindo de minha parte nenhum esforço para decorar números. Se você me perguntar para responder rápido qual o meu número, talvez eu me atrapalhe em dizer. Mais uma vez não precisa pensar.

 Vi recentemente uma reportagem que retrata a dificuldade do jovem americano em guiar veículos manuais, pois a muito o câmbio automático dominou o mercado de lá. Também controle de tração, estabilidade, estacionamento, etc. Facilidades que melhoram a relação homem e máquina, exigindo menos do primeiro.

Acho tudo isso extraordinário, àquilo que poucos desenvolvem para muitos utilizarem. A capacidade criativa do ser humano não tem limites, e a busca pelo conforto, privacidade e segurança trazem a nós facilidades jamais imaginadas.

Mas me parece que o custo será alto, muito alto. A total alienação a máquina está de certa forma ceifando nossa capacidade de raciocinar, nos deixando mais preguiçosos e dependentes.

Pode ser uma bobagem minha, mas fazer contas de cabeça, encontrar lugares sem auxílio tecnológico, decorar números de telefone e dirigir a minha Kombi são excelentes exercícios para manter o cérebro ativo, lúcido.

Talvez a grande onda seja a terceirização do cérebro, e isso é muito perigoso.

Escrito por Fernando Baumann, 29/07/2019 às 15h18 | fernando@bba-reiki.com.br

Fones de ouvido

 A cidade se movimenta apressada. Aliás, a cidade não, mas as pessoas que a habitam. Interessante observar como plateia que aprecia um espetáculo. As nuances, o enredo e a sonoplastia.

As motos impacientes querendo sempre a preferência e o ônibus atrasado pelo trânsito que pára em cima da pista para o embarque de novos passageiros, embaralhando mais ainda o que vem atrás. Bicicletas num zigue-zague frenético disputando espaços escassos e carros enuviados pela fumaça, vidros fechados e motoristas mais ainda. Por fim pedestres aguardando o semáforo abrir para atravessar a larga avenida, muitos na faixa de pedestres, outros não.

Vida corrida, atores enlouquecidos pela lida diária de compromissos e afazeres, sem trégua, vítimas e cúmplices de uma vida moderna cheia de curvas, subidas e descidas. Nada fácil, convém lembrar.

A observar, vidas que vivem em comunidade, próximas mas distantes. O trânsito, local onde tudo acontece e todos se encontram, é o cenário democrático que acolhe ricos e pobres, tímidos e extrovertidos, mansos e ignorantes, os gêneros e mais. 

Tudo parece matéria e pouco humanizado. Ninguém se cumprimenta e gentileza pouco se observa. Algo parece errado e fora do controle. Os humanos que ali estão são mais máquinas quanto as máquinas que os locomovem. Frios e individualizados.

No descarte da perturbação poucos atentam para a criança sentada a beira da calçada, maltrapilha e sem perspectivas, abandonada a própria sorte de abusos e explorações. Triste caminho!

Cada um pensa em si, e ninguém pensa no outro.

Fones de ouvido. Meu som, meu mundo, minha privacidade. Nada mais importa.

Por favor não atrapalhe

Escrito por Fernando Baumann, 16/04/2019 às 23h05 | fernando@bba-reiki.com.br

O dia que não fui

 Estava sentado à beira da estrada recebendo atendimento dos resgatistas da Via Bahia, a pressão muito baixa não me permitia ficar em pé. Uma pequena multidão se aglomerava perto de mim, quando ouvi uma voz distante dizendo: “vais comemorar esse dia como o teu renascimento”. Escutei aquilo e com a força que restava falei: “não tenho como ter renascido se não morri”.  Alguém escutou o que eu disse e retrucou: “libera o homem que ele já está bom!!” Gargalhada geral da plateia, que entendia que o momento era grave para estar filosofando, e que estava acostumada a acidentes naquele local, seguidamente com vítimas fatais.

Cinco dias antes sai de Balneário Camboriú com destino a Santo André, SP, onde teria uma reunião de trabalho no período da tarde. Moto abastecida e bagagem acomodada segui rumo ao meu destino, trecho que percorro com frequência e conheço bem. Minha maior preocupação é quanto a roubos na chegada a São Paulo, por isso faço um caminho mais longo, mas com menos sinaleiras, pelo Rodoanel.

Nos dois dias seguintes percorri os 1,8 mil km entre Santo André e Palmas, TO, passando por Goiânia, GO. Tudo muito divertido e dentro do previsto. Não me preocupo se vai chover ou fazer calor, pois me preparo para todas as possibilidades. É uma alegria muito grande fazer o que se gosta, ainda mais quando dá para conciliar lazer e trabalho. Me sinto inteiro e realizado, e agradeço ao Papai do céu pela oportunidade.

Passei a segunda-feira em atendimento a um cliente em Palmas. No dia seguinte segui rumo a Salvador, BA, distante 1,5 mil km, onde tinha compromisso na quarta-feira a tarde. Rodei mil quilômetros até Seabra, BA, onde pernoitei. Trecho belíssimo, passando pela Chapada Diamantina e pelo sertão baiano, onde o cactos é a planta predominante.

Tinha 500 quilômetros até Salvador, então acordei cedo para chegar ao meu compromisso no horário previsto. Após 280 quilômetros rodados parei em um posto de combustível para abastecer. Isso é sempre um ritual, pois uso em mim um equipamento bastante reforçado e seguro, mas nada prático para retirar. Quando havia me desfeito dos paramentos, escuto meu celular tocando insistentemente. Num primeiro momento não atendi, pois fico muito concentrado na pilotagem da moto e procuro não me desconcentrar, a não ser que seja de algum número conhecido e próximo. Mas acabei cedendo.

A ligação era referente a um problema com cliente, o que me deixou muito preocupado. Subi na moto e segui viagem, e junto com esse problema juntei mais dois que gravitavam a minha volta. Erro grave. Não se pilota uma moto sem estar totalmente focado e concentrado, e sei disso muito bem. Trinta minutos depois, no final de uma reta seguida de uma pequena depressão, no entroncamento das rodovias BR 242 e BR 116, passei direto em uma curva, muito acentuada, numa localidade chamada Paraguaçu, 200 quilômetros antes de Salvador. Pura falta de atenção, na verdade apenas meu corpo estava na moto, o resto estava brigando com os problemas da minha mente.

Havia um desnível de aproximadamente 3 metros entre a pista e o chão, onde decolei e o primeiro impacto foi de prancha, corpo inteiro de frente, mais um giro completo de 180º e rolamento na sequência. Quando meu corpo parou de rolar não conseguia respirar. Tentei levantar e não consegui, então de “cachorrinho” comecei a me movimentar, desesperado pelo oxigênio que faltava, rumo a estrada. Em seguida chegaram pessoas, trabalhadores locais, acostumadas a resgatar acidentados naquela curva infeliz.

 Foram horas, 4 ou 5, pulando dentro da ambulância numa maca de madeira nada confortável. Mesmo amarrado, os solavancos me projetavam para todos os lados. O primeiro hospital, próximo do local do acidente, me recusou o atendimento, informando que não tinha equipamentos adequados para o meu caso. Nem raio X havia. O segundo foi ainda pior, porque após os procedimentos iniciais feitos, o médico responsável correu conosco (eu e os socorristas) de lá, dizendo que invadimos o “seu” hospital, e que não estávamos autorizados a ficar. Após muita insistência os socorristas conseguiram que ao menos me aplicassem algo para aliviar a dor, já bastante intensa nas costelas e peito.

Somente no terceiro hospital, em Feira de Santana e distante 80 km do acidente é que fui recebido. Na enfermaria mais uma odisseia, pois o atendimento demorou para acontecer e eu me contorcia de dor. Quando comecei a berrar alto é que chamei atenção do médico, que me aplicou algum analgésico potente e fez os encaminhamentos necessários.

Após exame de ressonância e a constatação de que não havia fraturas voltei para a enfermaria, medicado para a dor. Me contorci e vomitei a noite inteira, inclusive no pé de uma senhora que cuidava da sua mãe cuja maca estava ao meu lado. Esta senhora muito atenciosa se preocupou comigo e me deu atenção durante toda a noite. Noite difícil.

Pela manhã estava impaciente e com muita azia e estômago inchado, quando duas ou três pessoas entraram na enfermaria e vieram em minha direção. Era a médica e enfermeiras de plantão. Ela olhou minhas mãos e examinou meu estômago e proferiu: “vamos fazer um ultrassom, a cor amarelada de sua pela indica um quadro de hemorragia”. Essa é a melhor médica que temos aqui, disse uma enfermeira assim que a médica saiu. Você está em ótimas mãos.

Quando estava sendo preparado para o exame meus filhos chegaram. Estando em São Paulo para eles foi mais rápido. A Heloisa ficou comigo e o Henrique junto com outras pessoas foi localizar onde a moto estava, até aquele momento uma incógnita para mim.

No exame se confirmou a hemorragia e o encaminhamento foi imediato para a cirurgia, que transcorreu dentro da normalidade e tudo saiu como pretendido. O procedimento identificou lesão e sangramento no fígado, bem como hematomas no estômago. Apesar das limitações físicas que o hospital tinha, a dedicação, atenção e gentileza surpreendentes fizeram toda a diferença.

No dia seguinte conseguimos transferência para o hospital mantido pelo meu plano de saúde, com o sentimento de gratidão àquelas pessoas especiais que fazem da sua profissão a razão para suas vidas. Emocionante presenciar isto.

Aguardava na sala de triagem do novo hospital a liberação para internação. Minha esposa também havia chegado e me acompanhava. Como demorou um pouco ela foi ao banheiro e acabei cochilando. Quando acordo de pronto me deparo com um senhor bastante idoso de pé ao meu lado, chapéu preto, paletó preto e óculos escuro, que fala com voz forte e pausada: “como está meu irmão?” Pensei...ferrou, o anjo da morte veio me buscar!

Nesse instante minha esposa retorna e ele se apresenta como representante de um grupo que participo, e veio saber como eu estava e se precisava de algo. Ufa, que susto!!! Ainda estou vivo....Para completar naquele dia outro veio me visitar e depois de alguma conversa perguntei qual era a atividade profissional dele, então me falou: “ não leve a mal meu irmão, mas tenho uma funerária.” Bah, será o destino?

Histórias que a vida conta, e dá pra achar graça de muitas coisas, mesmo em momentos difíceis.

A primeira noite nesse hospital meu filho ficou comigo, para que a Miriam pudesse se acomodar melhor no hotel e descansar, junto com sua irmã que a acompanhava. Quando acordei de manhã resolvi tomar um banho, algo que a muito não fazia. Ele me acompanhou ao chuveiro, pois ainda estava fraco e preso a um pedestal metálico que continha soros e medicamentos. Chuveiro ligado pego o sabonete na mão e o mesmo cai no chão. Olhamos um para o outro e começamos a rir muito. Eu não podia rir, pois a cirurgia recente e os 32 pontos limitavam a flexão da minha pele. Mas não conseguíamos para. Quem vai se abaixar para pegar o sabonete? Eu não, disse ele. E eu também não. Após difícil negociação, acertamos que eu chutaria o sabonete para fora, longe do box, e que ele pegaria. Mas isso seria apenas uma vez, não teria a segunda. Coisas de pai e filho, dois moleques se divertindo um com o outro.

Nas visitas do médico constatou-se minha rápida recuperação, graças a atividade física frequente e alimentação adequada que tenho. Também cabe aqui fazer referência ao equipamento que usava, macacão, luvas, botas e capacetes, que me protegeram, sem os quais certamente não estaria aqui escrevendo. A primeira recomendação do médico era que eu devia caminhar, o máximo possível, para auxiliar minha melhor recuperação.

Aproveitei os corredores do hospital para seguir a recomendação médica. Eu e o pedestal metálico. Então meus filhos começaram a me provocar para que eu treinasse a fazer curvas, já que havia me acidentado numa. Brincadeira vai, brincadeira vem e numa dessas curvas tropecei no pé do pedestal, quase caindo. A gozação foi geral, então um deles fala: “pô pai, não tem jeito mesmo, tu não aprende a fazer curva”. Esse foi o assunto do resto do dia.

Após cinco dias internado e mais dez no hotel fazendo acompanhamento médico fui liberado para retornar para casa. Na bagagem o reconhecimento ao povo baiano pelo seu zelo e atenção ao próximo, amáveis e espiritualizados. Também o agradecimento pela oportunidade que tive de continuar próximo dos meus, e por entender que tudo passa e que nada é suficientemente grave que mereça toda a nossa atenção. No momento do impacto, dada a violência, tive a sensação de que não sobreviveria. Mas estava calmo e sereno, e a única preocupação que tinha era comigo mesmo, o resto nada importava. Pareceu que uma chave desligou, mantendo apenas o corpo em marcha lenta, respirando na intensidade mínima necessária para sobreviver.

Ah, não falei, a moto chegou em casa antes de mim, com poucos danos, apenas cosméticos. Pura sorte. Já foi para o conserto e quando retornar continuaremos consumindo quilômetros de estradas por ai a fora. Vender? De jeito nenhum, ela não teve nenhuma culpa pelo que aconteceu.

Escrito por Fernando Baumann, 07/04/2019 às 15h20 | fernando@bba-reiki.com.br

Sobre verdades

 Nossa cidade é destaque em aparências. Talvez pela praia ou pelo clima, ou então pelo multiculturalismo, e também pela vida noturna. Possivelmente tudo isso junto e mais algumas coisas que não consigo alcançar.

O culto ao corpo encontra aqui forte adesão, junto com veículos espetaculares e apartamentos deslumbrantes. Balneário é lugar para aparecer e causar. Conheci algumas pessoas que em sua cidade de origem levavam vida simples e regrada, e que aqui se soltavam. Algo errado com isso? Acho que não, a “vibe” aqui é outra. E também os carnês na gaveta não importam, isso ninguém vê.

Quando comecei a usar bicicleta em meus deslocamentos diários, muito antes de virar moda e ter ciclovias, houve alguns conhecidos que me ligaram perguntando se eu estava precisando de ajuda, como se o veículo falasse da minha situação financeira. Eu ria e agradecia, dizendo que tinha muito pouco, mas o suficiente para viver com dignidade.

Teve inclusive uma passagem muito engraçada. Numa transmissão de presidência de uma importante entidade que já dirigi, realizada num hotel bem bacana aqui de Balneário, fui de bicicleta pela facilidade do estacionamento, já que o evento era em área central da cidade. Chegando lá de terno e gravata pretos o manobrista olhou para mim e num movimento rápido bateu dois dedos em cima do relógio de pulso e disse: “você está atrasado, os garçons já estão servindo os convidados”, e me encaminhou pela porta de serviços para um rápido acesso ao local de trabalho. Não falei nada e entrei no clima, me divertindo com a situação. Pena que no final da noite fiquei sem as gorjetas!

Não quero aqui impor meu olhar sobre o tema, pois cada um o faz conforme a sua medida. Ter ou ser. Ser ou ter. Cada um decide o seu caminho.

Essa é apenas a minha percepção de um mundo cada vez mais visual que valoriza posses antes de virtudes.

Escrito por Fernando Baumann, 16/11/2018 às 17h45 | fernando@bba-reiki.com.br

Pensando em ser

Era uma vez três sócios que tinham negócios diversos espalhados por várias regiões do país. Por necessidade de deslocamento rápido viajavam com frequência em aeronave própria.

Até que um dia, no interior do Mato Grosso sobrevoando uma de suas fazendas, o avião tem uma pane, perde altitude e cai no pasto limpo, deslizando “de barriga” por breve distância, parando em cima de uma cerca de arame farpado e pilastras de concreto.

Exceto um passageiro, todos os outros quatro e o piloto incluso perderam a vida no acidente. O sobrevivente teve apenas leve escoriação no lado esquerdo da cabeça, com perda de parte da orelha e couro cabeludo, provocado por uma das pilastras da cerca de arame farpado. A questão de 5 milímetros a mais seria o suficiente para acertar a fonte e provavelmente lhe ceifar a vida, como os demais.

Cinco milímetros, a fração de um metro, menos que a espessura de uma caneta salvou àquele homem. A vida na borda de uma pilastra de concreto, sensível, tênue e breve. Detalhes tão pequenos que decidiram o seu destino.

O sobrevivente jamais foi o mesmo. A dor da perda de pessoas tão próximas lhe custou muito sofrimento.

Entretanto, este evento lhe mostrou o quão frágil era, o tanto de tempo que desperdiçava com coisas inúteis, achando que tudo estava sob o seu controle e que sua verdade era absoluta.

Uma tragédia revestida de oportunidade para corrigir o rumo de sua vida, o ocaso do astro eu. Assim, em primeira pessoa.

Escrito por Fernando Baumann, 09/11/2018 às 17h51 | fernando@bba-reiki.com.br



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Fernando Baumann

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Economista, empresário e militante das causas coletivas, acredita no associativismo e cooperativismo como ferramentas para a construção de uma sociedade mais justa. Busca incessantemente evoluir como ser humano e social.


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