Jornal Página 3
Coluna
Cá Pra Nós
Por Fernando Baumann

A Cadela Angelina

  

Tenho uns amigos esquisitos, daqueles que inventam caminhar longas jornadas. Zé, Agilson e Enir. São pais de família, avós até, e também muito ocupados. Se você olhar eles na rua vai até achar que são normais. Profissionais bem sucedidos em suas áreas, ficam procurando coisas pra se incomodar. E eu acabei entrando nessa de graça iludido por um deles.  Só que não.

Bom, concluímos que caminhar aqui entre Balneário, Itajaí, Camboriú e Brusque já não tinha mais graça, então resolvemos ser mais ousados, e surgiu a ideia de ir até Angelina. Plano traçado tínhamos um impedimento com o Enir, que podia ir somente até Tijucas.

Chegado o dia combinei encontrar o Agilson às 6:00h na esquina da rua 1500 com Quarta avenida. Como estava chovendo, usei uma capa vermelha antiga que não sei de onde veio, muito feia por sinal. O Agilson também usava uma capa estranha. Então um carro passou por nós e um cara colocou a cabeça pra fora do vidro e gritou: “bichooooonas”!!  Olhamos assustado um para o outro e começamos a rir. Começou bem, pensei.

Seguindo adiante encontramos Zé e Enir e caminhamos até o destino final daquele dia, em Tijucas. Os pés arrebentados de bolha e uma dor danada nas costas me faziam xingar o tempo todo o cara que teve àquela ideia idiota. De lá o Enir voltou para casa e nós fomos procurar um hotel pra dormir.

No dia seguinte, um pouco restabelecidos, seguimos caminho até Major Gercino, nossa próxima pernoite. O dia estava muito quente e fomos fritados pela radiação solar que vinha de cima e pelo calor que subia do asfalto. Um inferno! O Zé com as pernas curtinhas demorava muito tempo entre um passo e outro, quase o dobro dos demais, atrasando a viagem. Chegamos quase meia noite, isso sem antes ele tentar catequisar um ciclista embriagado que teimava em nos acompanhar.

Começamos nosso terceiro dia rumo ao destino final, Angelina. Caminho difícil mas agradável, seguia por estradinhas de chão batido e pequenos sítios, além da serrinha que dividia o ponto de partida do ponto de chegada. Nesta serrinha entre uma curva e outra o Agilson escutou o grunhido de um animal vindo de um mato ralo e foi olhar o que era. Para nossa surpresa era uma filhote de cão provavelmente abandonada ali a própria sorte por alguém sem coração. Decidido ele a acomodou no seu chapéu e disse: vou levar junto! Que cara louco. Ela estava molhada e fedida, quem sabe doente ou coisa pior. Mas ele não desistiu.

Deu muito trabalho levar a tal cadelinha. Além de pesada ela estava muito assustada. Às vezes revezávamos na função. Minha esposa veio  nos buscar em Angelina, e eu pensava se ela ia concordar em colocar àquele animal mal cheiroso dentro do seu carro. Mas como ela mesmo disse depois,  não sabia o que era do cachorro ou o que era nosso.

Essa história aconteceu a mais ou menos seis anos a traz, e hoje a cadelinha corre faceira na casa dos pais do Agilson, muito saudável e querida, e como não podia deixar de ser,  foi batizada com o nome do nosso destino: Angelina.

Escrito por Fernando Baumann, 16/03/2018 às 15h07 | fernando@bba-reiki.com.br



Fernando Baumann

Assina a coluna Cá Pra Nós

Economista, empresário e militante das causas coletivas, acredita no associativismo e cooperativismo como ferramentas para a construção de uma sociedade mais justa. Busca incessantemente evoluir como ser humano e social.














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A Cadela Angelina

  

Tenho uns amigos esquisitos, daqueles que inventam caminhar longas jornadas. Zé, Agilson e Enir. São pais de família, avós até, e também muito ocupados. Se você olhar eles na rua vai até achar que são normais. Profissionais bem sucedidos em suas áreas, ficam procurando coisas pra se incomodar. E eu acabei entrando nessa de graça iludido por um deles.  Só que não.

Bom, concluímos que caminhar aqui entre Balneário, Itajaí, Camboriú e Brusque já não tinha mais graça, então resolvemos ser mais ousados, e surgiu a ideia de ir até Angelina. Plano traçado tínhamos um impedimento com o Enir, que podia ir somente até Tijucas.

Chegado o dia combinei encontrar o Agilson às 6:00h na esquina da rua 1500 com Quarta avenida. Como estava chovendo, usei uma capa vermelha antiga que não sei de onde veio, muito feia por sinal. O Agilson também usava uma capa estranha. Então um carro passou por nós e um cara colocou a cabeça pra fora do vidro e gritou: “bichooooonas”!!  Olhamos assustado um para o outro e começamos a rir. Começou bem, pensei.

Seguindo adiante encontramos Zé e Enir e caminhamos até o destino final daquele dia, em Tijucas. Os pés arrebentados de bolha e uma dor danada nas costas me faziam xingar o tempo todo o cara que teve àquela ideia idiota. De lá o Enir voltou para casa e nós fomos procurar um hotel pra dormir.

No dia seguinte, um pouco restabelecidos, seguimos caminho até Major Gercino, nossa próxima pernoite. O dia estava muito quente e fomos fritados pela radiação solar que vinha de cima e pelo calor que subia do asfalto. Um inferno! O Zé com as pernas curtinhas demorava muito tempo entre um passo e outro, quase o dobro dos demais, atrasando a viagem. Chegamos quase meia noite, isso sem antes ele tentar catequisar um ciclista embriagado que teimava em nos acompanhar.

Começamos nosso terceiro dia rumo ao destino final, Angelina. Caminho difícil mas agradável, seguia por estradinhas de chão batido e pequenos sítios, além da serrinha que dividia o ponto de partida do ponto de chegada. Nesta serrinha entre uma curva e outra o Agilson escutou o grunhido de um animal vindo de um mato ralo e foi olhar o que era. Para nossa surpresa era uma filhote de cão provavelmente abandonada ali a própria sorte por alguém sem coração. Decidido ele a acomodou no seu chapéu e disse: vou levar junto! Que cara louco. Ela estava molhada e fedida, quem sabe doente ou coisa pior. Mas ele não desistiu.

Deu muito trabalho levar a tal cadelinha. Além de pesada ela estava muito assustada. Às vezes revezávamos na função. Minha esposa veio  nos buscar em Angelina, e eu pensava se ela ia concordar em colocar àquele animal mal cheiroso dentro do seu carro. Mas como ela mesmo disse depois,  não sabia o que era do cachorro ou o que era nosso.

Essa história aconteceu a mais ou menos seis anos a traz, e hoje a cadelinha corre faceira na casa dos pais do Agilson, muito saudável e querida, e como não podia deixar de ser,  foi batizada com o nome do nosso destino: Angelina.

Escrito por Fernando Baumann, 16/03/2018 às 15h07 | fernando@bba-reiki.com.br



Fernando Baumann

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