Jornal Página 3
Coluna
Cá Pra Nós
Por Fernando Baumann

O Dia Em Que o Tempo Parou

  

Meus filhos eram pequenos e a época morávamos numa casa. A maior com 10 anos e o menor com cinco, formávamos os quatro uma família normal e feliz. Nossa rotina seguia regrada pela rigidez da educação que eu e minha esposa recebemos de nossos pais.

Era domingo e acordamos mais tarde. Por volta das 9:00h fui a padaria comprar pão e meu filho menor me acompanhou. Tudo como de costume e regra. Quando chegamos em casa, ao abrir o portão da garagem duas pessoas saíram de traz do muro lateral divisa de um terreno baldio. De arma em punho nos fizeram reféns. Com alta dose de adrenalina no corpo e àquele formigamento na língua pensei: será verdade? É mesmo comigo ou estou sonhando?

Sem tempo para raciocinar procurei manter a calma, retirei as mãos do volante e me coloquei em posição de rendido. Então mandaram entrar e fechar o portão. Meu filho perguntava: “pai, quem são esses homens? O que eles querem?” Não tive o que dizer, apenas pedi que confiasse em mim.

Com os dois dentro de casa minha filha e esposa também foram rendidas. Que sensação de impotência! Na sequência levaram nós quatro para a suíte e lá começaram a perguntar sobre cofre e valores guardados. Falei que nada tínhamos, o que era verdade. Desmontaram nosso quarto em busca do que procuravam, e como mencionado, nada acharam. Enquanto o fato se desenrolava um deles andava comigo com arma apontada para minha cabeça, e meus filhos e esposa ficaram sentados no chão. O menor mais quieto colocou a cabeça entre as pernas e as mãos na cabeça e assim ficou, porém a mais velha por entender melhor a situação não conseguia se conter, chorando e falando em voz alta, o que irritou muito os elementos.

Quando os dois primeiros concluíram que nada tínhamos ligaram para um terceiro elemento que em minutos chegou a minha casa. Quem já estava dentro foi lá e abriu o portão para ele entrar.

Me levaram então para a cozinha e fizeram sentar em uma cadeira. Com arma em punho o visitante mais novo encostou o cano na minha testa e disse: “seu f...p..., se você não disser aonde está o dinheiro eu vou estourar os teus miolos e sequestrar teus filhos!”  Não sei exatamente como o fato se desenrolou, porque tudo ainda parecia um sonho, mas eu consegui manter a calma e a tranquilidade e não me desesperar com as ameaças. De certa forma consegui negociar com o cidadão e provar para ele que bateram na casa errada, que seu plano foi equivocado. Nós não nos encaixávamos na vítima que eles procuravam. Talvez àquele fosse meu dia de sorte.

Os três se juntaram em reunião para decidir nosso destino. Minutos que valeram uma eternidade. Então subiram ao quarto e trouxeram minha esposa e filhos e nos trancaram na dispensa, com ordens expressas para não nos manifestarmos durante a próxima hora.

Assim que escutamos o portão fechar nos abraçamos os quatro e começamos a chorar. Naquele momento eu desmoronei e toda a minha fortaleza ruiu. Como eu pude colocar a minha família em tão elevado grau de risco? É claro que foi uma emboscada, pois eles conheciam muito bem a nossa rotina e pouco poderia ter sido feito para evitar.

A lição que ficou deste evento foi a preocupação em preservar a família, único bem importante naquele momento. E os bens materiais? Pois bem, danem-se os bens materiais!

Escrito por Fernando Baumann, 27/04/2018 às 18h31 | fernando@bba-reiki.com.br



Fernando Baumann

Assina a coluna Cá Pra Nós

Economista, empresário e militante das causas coletivas, acredita no associativismo e cooperativismo como ferramentas para a construção de uma sociedade mais justa. Busca incessantemente evoluir como ser humano e social.














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Meus filhos eram pequenos e a época morávamos numa casa. A maior com 10 anos e o menor com cinco, formávamos os quatro uma família normal e feliz. Nossa rotina seguia regrada pela rigidez da educação que eu e minha esposa recebemos de nossos pais.

Era domingo e acordamos mais tarde. Por volta das 9:00h fui a padaria comprar pão e meu filho menor me acompanhou. Tudo como de costume e regra. Quando chegamos em casa, ao abrir o portão da garagem duas pessoas saíram de traz do muro lateral divisa de um terreno baldio. De arma em punho nos fizeram reféns. Com alta dose de adrenalina no corpo e àquele formigamento na língua pensei: será verdade? É mesmo comigo ou estou sonhando?

Sem tempo para raciocinar procurei manter a calma, retirei as mãos do volante e me coloquei em posição de rendido. Então mandaram entrar e fechar o portão. Meu filho perguntava: “pai, quem são esses homens? O que eles querem?” Não tive o que dizer, apenas pedi que confiasse em mim.

Com os dois dentro de casa minha filha e esposa também foram rendidas. Que sensação de impotência! Na sequência levaram nós quatro para a suíte e lá começaram a perguntar sobre cofre e valores guardados. Falei que nada tínhamos, o que era verdade. Desmontaram nosso quarto em busca do que procuravam, e como mencionado, nada acharam. Enquanto o fato se desenrolava um deles andava comigo com arma apontada para minha cabeça, e meus filhos e esposa ficaram sentados no chão. O menor mais quieto colocou a cabeça entre as pernas e as mãos na cabeça e assim ficou, porém a mais velha por entender melhor a situação não conseguia se conter, chorando e falando em voz alta, o que irritou muito os elementos.

Quando os dois primeiros concluíram que nada tínhamos ligaram para um terceiro elemento que em minutos chegou a minha casa. Quem já estava dentro foi lá e abriu o portão para ele entrar.

Me levaram então para a cozinha e fizeram sentar em uma cadeira. Com arma em punho o visitante mais novo encostou o cano na minha testa e disse: “seu f...p..., se você não disser aonde está o dinheiro eu vou estourar os teus miolos e sequestrar teus filhos!”  Não sei exatamente como o fato se desenrolou, porque tudo ainda parecia um sonho, mas eu consegui manter a calma e a tranquilidade e não me desesperar com as ameaças. De certa forma consegui negociar com o cidadão e provar para ele que bateram na casa errada, que seu plano foi equivocado. Nós não nos encaixávamos na vítima que eles procuravam. Talvez àquele fosse meu dia de sorte.

Os três se juntaram em reunião para decidir nosso destino. Minutos que valeram uma eternidade. Então subiram ao quarto e trouxeram minha esposa e filhos e nos trancaram na dispensa, com ordens expressas para não nos manifestarmos durante a próxima hora.

Assim que escutamos o portão fechar nos abraçamos os quatro e começamos a chorar. Naquele momento eu desmoronei e toda a minha fortaleza ruiu. Como eu pude colocar a minha família em tão elevado grau de risco? É claro que foi uma emboscada, pois eles conheciam muito bem a nossa rotina e pouco poderia ter sido feito para evitar.

A lição que ficou deste evento foi a preocupação em preservar a família, único bem importante naquele momento. E os bens materiais? Pois bem, danem-se os bens materiais!

Escrito por Fernando Baumann, 27/04/2018 às 18h31 | fernando@bba-reiki.com.br



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Economista, empresário e militante das causas coletivas, acredita no associativismo e cooperativismo como ferramentas para a construção de uma sociedade mais justa. Busca incessantemente evoluir como ser humano e social.