Jornal Página 3
Coluna
Cá Pra Nós
Por Fernando Baumann

Eu, o menino

 Não lembro bem, mas eu devia ter uns 10 anos de idade. Estudava no Colégio João Goulart com a Dona Diva. Ela tinha um fusca branco que eu adorava, placa BB 0045 se não me engano. Era o máximo!

Aos sábados tínhamos nosso momento cívico, com o canto do hino em posição de sentido em respeito ao pavilhão nacional, sempre vigiados pela Dona Orieta. Ai de algum “abobado” fazer algo errado. Sempre tinha um, é claro, mas era firmemente repreendido.

Adorava esse dia simplesmente por que era diferente.

Meus pais sempre lutaram com dificuldades para manter os quatro filhos menores. Não nos faltava nada de essencial, mas luxos não nos eram permitidos. Lembro da conga que eu usava sonhando em ter um kichute, o “the best power” do momento. Com certeza meu futebol ia melhorar(bobagem, eu era muito ruim mesmo).

Vinha de bicicleta pelas trilhas que ligavam minha casa ao colégio. Colocava um gorro na cabeça pensando que era um capacete com balaclava e pedalava me sentindo o piloto do momento. Era muito divertido mas de vez em quando dava errado. Lembro de uma vez que vinha junto com o Nabor e tentei ultrapassar ele pelo mato, só que tinha um tronco, daí foi um “pacote” fenomenal. Até hoje ele me zoa por conta disso.

Mas o mais bacana de tudo era que no sábado meus pais me davam dinheiro para comprar o lanche na escola. Que delícia! O dinheiro era contado para comprar a laranjinha na cantina e a bananinha de um senhor que vinha vender no portão.

Primeiro eu ia comprar a bananinha. Era uma “muvuca” àquelas crianças com os braços estendidos através da grade do portão com o dinheiro na mão. Eu igual desesperado e boca salivando louco pela iguaria. Então num destes sábados  de braço estendido, um outro moleque pelo lado de fora do portão arrancou o dinheiro que tinha na minha mão e saiu correndo. Fiquei paralisado, decepcionado e muito triste. Chorei muito àquele dia.

Meu desejo de todo sábado indo embora correndo feito louco por conta de um moleque safado.

Hoje sempre que vou a uma padaria procuro pela bananinha e compro. Não é mais como no passado, mas como com satisfação. Talvez àquele menino entristecido que perdeu o seu dinheiro ainda chore dentro de mim, envolvido nas doces lembranças de um passado um pouco distante.

 

 

Escrito por Fernando Baumann, 05/06/2018 às 13h34 | fernando@bba-reiki.com.br



Fernando Baumann

Assina a coluna Cá Pra Nós

Economista, empresário e militante das causas coletivas, acredita no associativismo e cooperativismo como ferramentas para a construção de uma sociedade mais justa. Busca incessantemente evoluir como ser humano e social.














Fale Conosco - Anuncie no Página 3 - Normas de Uso
© Desenvolvido por Página 3

Endereço: Rua 2448, 360 - Balneário Camboriú - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: jornal@pagina3.com.br

Página 3
Cá Pra Nós
Por Fernando Baumann

Eu, o menino

 Não lembro bem, mas eu devia ter uns 10 anos de idade. Estudava no Colégio João Goulart com a Dona Diva. Ela tinha um fusca branco que eu adorava, placa BB 0045 se não me engano. Era o máximo!

Aos sábados tínhamos nosso momento cívico, com o canto do hino em posição de sentido em respeito ao pavilhão nacional, sempre vigiados pela Dona Orieta. Ai de algum “abobado” fazer algo errado. Sempre tinha um, é claro, mas era firmemente repreendido.

Adorava esse dia simplesmente por que era diferente.

Meus pais sempre lutaram com dificuldades para manter os quatro filhos menores. Não nos faltava nada de essencial, mas luxos não nos eram permitidos. Lembro da conga que eu usava sonhando em ter um kichute, o “the best power” do momento. Com certeza meu futebol ia melhorar(bobagem, eu era muito ruim mesmo).

Vinha de bicicleta pelas trilhas que ligavam minha casa ao colégio. Colocava um gorro na cabeça pensando que era um capacete com balaclava e pedalava me sentindo o piloto do momento. Era muito divertido mas de vez em quando dava errado. Lembro de uma vez que vinha junto com o Nabor e tentei ultrapassar ele pelo mato, só que tinha um tronco, daí foi um “pacote” fenomenal. Até hoje ele me zoa por conta disso.

Mas o mais bacana de tudo era que no sábado meus pais me davam dinheiro para comprar o lanche na escola. Que delícia! O dinheiro era contado para comprar a laranjinha na cantina e a bananinha de um senhor que vinha vender no portão.

Primeiro eu ia comprar a bananinha. Era uma “muvuca” àquelas crianças com os braços estendidos através da grade do portão com o dinheiro na mão. Eu igual desesperado e boca salivando louco pela iguaria. Então num destes sábados  de braço estendido, um outro moleque pelo lado de fora do portão arrancou o dinheiro que tinha na minha mão e saiu correndo. Fiquei paralisado, decepcionado e muito triste. Chorei muito àquele dia.

Meu desejo de todo sábado indo embora correndo feito louco por conta de um moleque safado.

Hoje sempre que vou a uma padaria procuro pela bananinha e compro. Não é mais como no passado, mas como com satisfação. Talvez àquele menino entristecido que perdeu o seu dinheiro ainda chore dentro de mim, envolvido nas doces lembranças de um passado um pouco distante.

 

 

Escrito por Fernando Baumann, 05/06/2018 às 13h34 | fernando@bba-reiki.com.br



Fernando Baumann

Assina a coluna Cá Pra Nós

Economista, empresário e militante das causas coletivas, acredita no associativismo e cooperativismo como ferramentas para a construção de uma sociedade mais justa. Busca incessantemente evoluir como ser humano e social.