Jornal Página 3
Coluna
Cá Pra Nós
Por Fernando Baumann

O dia que não fui

 Estava sentado à beira da estrada recebendo atendimento dos resgatistas da Via Bahia, a pressão muito baixa não me permitia ficar em pé. Uma pequena multidão se aglomerava perto de mim, quando ouvi uma voz distante dizendo: “vais comemorar esse dia como o teu renascimento”. Escutei aquilo e com a força que restava falei: “não tenho como ter renascido se não morri”.  Alguém escutou o que eu disse e retrucou: “libera o homem que ele já está bom!!” Gargalhada geral da plateia, que entendia que o momento era grave para estar filosofando, e que estava acostumada a acidentes naquele local, seguidamente com vítimas fatais.

Cinco dias antes sai de Balneário Camboriú com destino a Santo André, SP, onde teria uma reunião de trabalho no período da tarde. Moto abastecida e bagagem acomodada segui rumo ao meu destino, trecho que percorro com frequência e conheço bem. Minha maior preocupação é quanto a roubos na chegada a São Paulo, por isso faço um caminho mais longo, mas com menos sinaleiras, pelo Rodoanel.

Nos dois dias seguintes percorri os 1,8 mil km entre Santo André e Palmas, TO, passando por Goiânia, GO. Tudo muito divertido e dentro do previsto. Não me preocupo se vai chover ou fazer calor, pois me preparo para todas as possibilidades. É uma alegria muito grande fazer o que se gosta, ainda mais quando dá para conciliar lazer e trabalho. Me sinto inteiro e realizado, e agradeço ao Papai do céu pela oportunidade.

Passei a segunda-feira em atendimento a um cliente em Palmas. No dia seguinte segui rumo a Salvador, BA, distante 1,5 mil km, onde tinha compromisso na quarta-feira a tarde. Rodei mil quilômetros até Seabra, BA, onde pernoitei. Trecho belíssimo, passando pela Chapada Diamantina e pelo sertão baiano, onde o cactos é a planta predominante.

Tinha 500 quilômetros até Salvador, então acordei cedo para chegar ao meu compromisso no horário previsto. Após 280 quilômetros rodados parei em um posto de combustível para abastecer. Isso é sempre um ritual, pois uso em mim um equipamento bastante reforçado e seguro, mas nada prático para retirar. Quando havia me desfeito dos paramentos, escuto meu celular tocando insistentemente. Num primeiro momento não atendi, pois fico muito concentrado na pilotagem da moto e procuro não me desconcentrar, a não ser que seja de algum número conhecido e próximo. Mas acabei cedendo.

A ligação era referente a um problema com cliente, o que me deixou muito preocupado. Subi na moto e segui viagem, e junto com esse problema juntei mais dois que gravitavam a minha volta. Erro grave. Não se pilota uma moto sem estar totalmente focado e concentrado, e sei disso muito bem. Trinta minutos depois, no final de uma reta seguida de uma pequena depressão, no entroncamento das rodovias BR 242 e BR 116, passei direto em uma curva, muito acentuada, numa localidade chamada Paraguaçu, 200 quilômetros antes de Salvador. Pura falta de atenção, na verdade apenas meu corpo estava na moto, o resto estava brigando com os problemas da minha mente.

Havia um desnível de aproximadamente 3 metros entre a pista e o chão, onde decolei e o primeiro impacto foi de prancha, corpo inteiro de frente, mais um giro completo de 180º e rolamento na sequência. Quando meu corpo parou de rolar não conseguia respirar. Tentei levantar e não consegui, então de “cachorrinho” comecei a me movimentar, desesperado pelo oxigênio que faltava, rumo a estrada. Em seguida chegaram pessoas, trabalhadores locais, acostumadas a resgatar acidentados naquela curva infeliz.

 Foram horas, 4 ou 5, pulando dentro da ambulância numa maca de madeira nada confortável. Mesmo amarrado, os solavancos me projetavam para todos os lados. O primeiro hospital, próximo do local do acidente, me recusou o atendimento, informando que não tinha equipamentos adequados para o meu caso. Nem raio X havia. O segundo foi ainda pior, porque após os procedimentos iniciais feitos, o médico responsável correu conosco (eu e os socorristas) de lá, dizendo que invadimos o “seu” hospital, e que não estávamos autorizados a ficar. Após muita insistência os socorristas conseguiram que ao menos me aplicassem algo para aliviar a dor, já bastante intensa nas costelas e peito.

Somente no terceiro hospital, em Feira de Santana e distante 80 km do acidente é que fui recebido. Na enfermaria mais uma odisseia, pois o atendimento demorou para acontecer e eu me contorcia de dor. Quando comecei a berrar alto é que chamei atenção do médico, que me aplicou algum analgésico potente e fez os encaminhamentos necessários.

Após exame de ressonância e a constatação de que não havia fraturas voltei para a enfermaria, medicado para a dor. Me contorci e vomitei a noite inteira, inclusive no pé de uma senhora que cuidava da sua mãe cuja maca estava ao meu lado. Esta senhora muito atenciosa se preocupou comigo e me deu atenção durante toda a noite. Noite difícil.

Pela manhã estava impaciente e com muita azia e estômago inchado, quando duas ou três pessoas entraram na enfermaria e vieram em minha direção. Era a médica e enfermeiras de plantão. Ela olhou minhas mãos e examinou meu estômago e proferiu: “vamos fazer um ultrassom, a cor amarelada de sua pela indica um quadro de hemorragia”. Essa é a melhor médica que temos aqui, disse uma enfermeira assim que a médica saiu. Você está em ótimas mãos.

Quando estava sendo preparado para o exame meus filhos chegaram. Estando em São Paulo para eles foi mais rápido. A Heloisa ficou comigo e o Henrique junto com outras pessoas foi localizar onde a moto estava, até aquele momento uma incógnita para mim.

No exame se confirmou a hemorragia e o encaminhamento foi imediato para a cirurgia, que transcorreu dentro da normalidade e tudo saiu como pretendido. O procedimento identificou lesão e sangramento no fígado, bem como hematomas no estômago. Apesar das limitações físicas que o hospital tinha, a dedicação, atenção e gentileza surpreendentes fizeram toda a diferença.

No dia seguinte conseguimos transferência para o hospital mantido pelo meu plano de saúde, com o sentimento de gratidão àquelas pessoas especiais que fazem da sua profissão a razão para suas vidas. Emocionante presenciar isto.

Aguardava na sala de triagem do novo hospital a liberação para internação. Minha esposa também havia chegado e me acompanhava. Como demorou um pouco ela foi ao banheiro e acabei cochilando. Quando acordo de pronto me deparo com um senhor bastante idoso de pé ao meu lado, chapéu preto, paletó preto e óculos escuro, que fala com voz forte e pausada: “como está meu irmão?” Pensei...ferrou, o anjo da morte veio me buscar!

Nesse instante minha esposa retorna e ele se apresenta como representante de um grupo que participo, e veio saber como eu estava e se precisava de algo. Ufa, que susto!!! Ainda estou vivo....Para completar naquele dia outro veio me visitar e depois de alguma conversa perguntei qual era a atividade profissional dele, então me falou: “ não leve a mal meu irmão, mas tenho uma funerária.” Bah, será o destino?

Histórias que a vida conta, e dá pra achar graça de muitas coisas, mesmo em momentos difíceis.

A primeira noite nesse hospital meu filho ficou comigo, para que a Miriam pudesse se acomodar melhor no hotel e descansar, junto com sua irmã que a acompanhava. Quando acordei de manhã resolvi tomar um banho, algo que a muito não fazia. Ele me acompanhou ao chuveiro, pois ainda estava fraco e preso a um pedestal metálico que continha soros e medicamentos. Chuveiro ligado pego o sabonete na mão e o mesmo cai no chão. Olhamos um para o outro e começamos a rir muito. Eu não podia rir, pois a cirurgia recente e os 32 pontos limitavam a flexão da minha pele. Mas não conseguíamos para. Quem vai se abaixar para pegar o sabonete? Eu não, disse ele. E eu também não. Após difícil negociação, acertamos que eu chutaria o sabonete para fora, longe do box, e que ele pegaria. Mas isso seria apenas uma vez, não teria a segunda. Coisas de pai e filho, dois moleques se divertindo um com o outro.

Nas visitas do médico constatou-se minha rápida recuperação, graças a atividade física frequente e alimentação adequada que tenho. Também cabe aqui fazer referência ao equipamento que usava, macacão, luvas, botas e capacetes, que me protegeram, sem os quais certamente não estaria aqui escrevendo. A primeira recomendação do médico era que eu devia caminhar, o máximo possível, para auxiliar minha melhor recuperação.

Aproveitei os corredores do hospital para seguir a recomendação médica. Eu e o pedestal metálico. Então meus filhos começaram a me provocar para que eu treinasse a fazer curvas, já que havia me acidentado numa. Brincadeira vai, brincadeira vem e numa dessas curvas tropecei no pé do pedestal, quase caindo. A gozação foi geral, então um deles fala: “pô pai, não tem jeito mesmo, tu não aprende a fazer curva”. Esse foi o assunto do resto do dia.

Após cinco dias internado e mais dez no hotel fazendo acompanhamento médico fui liberado para retornar para casa. Na bagagem o reconhecimento ao povo baiano pelo seu zelo e atenção ao próximo, amáveis e espiritualizados. Também o agradecimento pela oportunidade que tive de continuar próximo dos meus, e por entender que tudo passa e que nada é suficientemente grave que mereça toda a nossa atenção. No momento do impacto, dada a violência, tive a sensação de que não sobreviveria. Mas estava calmo e sereno, e a única preocupação que tinha era comigo mesmo, o resto nada importava. Pareceu que uma chave desligou, mantendo apenas o corpo em marcha lenta, respirando na intensidade mínima necessária para sobreviver.

Ah, não falei, a moto chegou em casa antes de mim, com poucos danos, apenas cosméticos. Pura sorte. Já foi para o conserto e quando retornar continuaremos consumindo quilômetros de estradas por ai a fora. Vender? De jeito nenhum, ela não teve nenhuma culpa pelo que aconteceu.

Escrito por Fernando Baumann, 07/04/2019 às 15h20 | fernando@bba-reiki.com.br



Fernando Baumann

Assina a coluna Cá Pra Nós

Economista, empresário e militante das causas coletivas, acredita no associativismo e cooperativismo como ferramentas para a construção de uma sociedade mais justa. Busca incessantemente evoluir como ser humano e social.














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O dia que não fui

 Estava sentado à beira da estrada recebendo atendimento dos resgatistas da Via Bahia, a pressão muito baixa não me permitia ficar em pé. Uma pequena multidão se aglomerava perto de mim, quando ouvi uma voz distante dizendo: “vais comemorar esse dia como o teu renascimento”. Escutei aquilo e com a força que restava falei: “não tenho como ter renascido se não morri”.  Alguém escutou o que eu disse e retrucou: “libera o homem que ele já está bom!!” Gargalhada geral da plateia, que entendia que o momento era grave para estar filosofando, e que estava acostumada a acidentes naquele local, seguidamente com vítimas fatais.

Cinco dias antes sai de Balneário Camboriú com destino a Santo André, SP, onde teria uma reunião de trabalho no período da tarde. Moto abastecida e bagagem acomodada segui rumo ao meu destino, trecho que percorro com frequência e conheço bem. Minha maior preocupação é quanto a roubos na chegada a São Paulo, por isso faço um caminho mais longo, mas com menos sinaleiras, pelo Rodoanel.

Nos dois dias seguintes percorri os 1,8 mil km entre Santo André e Palmas, TO, passando por Goiânia, GO. Tudo muito divertido e dentro do previsto. Não me preocupo se vai chover ou fazer calor, pois me preparo para todas as possibilidades. É uma alegria muito grande fazer o que se gosta, ainda mais quando dá para conciliar lazer e trabalho. Me sinto inteiro e realizado, e agradeço ao Papai do céu pela oportunidade.

Passei a segunda-feira em atendimento a um cliente em Palmas. No dia seguinte segui rumo a Salvador, BA, distante 1,5 mil km, onde tinha compromisso na quarta-feira a tarde. Rodei mil quilômetros até Seabra, BA, onde pernoitei. Trecho belíssimo, passando pela Chapada Diamantina e pelo sertão baiano, onde o cactos é a planta predominante.

Tinha 500 quilômetros até Salvador, então acordei cedo para chegar ao meu compromisso no horário previsto. Após 280 quilômetros rodados parei em um posto de combustível para abastecer. Isso é sempre um ritual, pois uso em mim um equipamento bastante reforçado e seguro, mas nada prático para retirar. Quando havia me desfeito dos paramentos, escuto meu celular tocando insistentemente. Num primeiro momento não atendi, pois fico muito concentrado na pilotagem da moto e procuro não me desconcentrar, a não ser que seja de algum número conhecido e próximo. Mas acabei cedendo.

A ligação era referente a um problema com cliente, o que me deixou muito preocupado. Subi na moto e segui viagem, e junto com esse problema juntei mais dois que gravitavam a minha volta. Erro grave. Não se pilota uma moto sem estar totalmente focado e concentrado, e sei disso muito bem. Trinta minutos depois, no final de uma reta seguida de uma pequena depressão, no entroncamento das rodovias BR 242 e BR 116, passei direto em uma curva, muito acentuada, numa localidade chamada Paraguaçu, 200 quilômetros antes de Salvador. Pura falta de atenção, na verdade apenas meu corpo estava na moto, o resto estava brigando com os problemas da minha mente.

Havia um desnível de aproximadamente 3 metros entre a pista e o chão, onde decolei e o primeiro impacto foi de prancha, corpo inteiro de frente, mais um giro completo de 180º e rolamento na sequência. Quando meu corpo parou de rolar não conseguia respirar. Tentei levantar e não consegui, então de “cachorrinho” comecei a me movimentar, desesperado pelo oxigênio que faltava, rumo a estrada. Em seguida chegaram pessoas, trabalhadores locais, acostumadas a resgatar acidentados naquela curva infeliz.

 Foram horas, 4 ou 5, pulando dentro da ambulância numa maca de madeira nada confortável. Mesmo amarrado, os solavancos me projetavam para todos os lados. O primeiro hospital, próximo do local do acidente, me recusou o atendimento, informando que não tinha equipamentos adequados para o meu caso. Nem raio X havia. O segundo foi ainda pior, porque após os procedimentos iniciais feitos, o médico responsável correu conosco (eu e os socorristas) de lá, dizendo que invadimos o “seu” hospital, e que não estávamos autorizados a ficar. Após muita insistência os socorristas conseguiram que ao menos me aplicassem algo para aliviar a dor, já bastante intensa nas costelas e peito.

Somente no terceiro hospital, em Feira de Santana e distante 80 km do acidente é que fui recebido. Na enfermaria mais uma odisseia, pois o atendimento demorou para acontecer e eu me contorcia de dor. Quando comecei a berrar alto é que chamei atenção do médico, que me aplicou algum analgésico potente e fez os encaminhamentos necessários.

Após exame de ressonância e a constatação de que não havia fraturas voltei para a enfermaria, medicado para a dor. Me contorci e vomitei a noite inteira, inclusive no pé de uma senhora que cuidava da sua mãe cuja maca estava ao meu lado. Esta senhora muito atenciosa se preocupou comigo e me deu atenção durante toda a noite. Noite difícil.

Pela manhã estava impaciente e com muita azia e estômago inchado, quando duas ou três pessoas entraram na enfermaria e vieram em minha direção. Era a médica e enfermeiras de plantão. Ela olhou minhas mãos e examinou meu estômago e proferiu: “vamos fazer um ultrassom, a cor amarelada de sua pela indica um quadro de hemorragia”. Essa é a melhor médica que temos aqui, disse uma enfermeira assim que a médica saiu. Você está em ótimas mãos.

Quando estava sendo preparado para o exame meus filhos chegaram. Estando em São Paulo para eles foi mais rápido. A Heloisa ficou comigo e o Henrique junto com outras pessoas foi localizar onde a moto estava, até aquele momento uma incógnita para mim.

No exame se confirmou a hemorragia e o encaminhamento foi imediato para a cirurgia, que transcorreu dentro da normalidade e tudo saiu como pretendido. O procedimento identificou lesão e sangramento no fígado, bem como hematomas no estômago. Apesar das limitações físicas que o hospital tinha, a dedicação, atenção e gentileza surpreendentes fizeram toda a diferença.

No dia seguinte conseguimos transferência para o hospital mantido pelo meu plano de saúde, com o sentimento de gratidão àquelas pessoas especiais que fazem da sua profissão a razão para suas vidas. Emocionante presenciar isto.

Aguardava na sala de triagem do novo hospital a liberação para internação. Minha esposa também havia chegado e me acompanhava. Como demorou um pouco ela foi ao banheiro e acabei cochilando. Quando acordo de pronto me deparo com um senhor bastante idoso de pé ao meu lado, chapéu preto, paletó preto e óculos escuro, que fala com voz forte e pausada: “como está meu irmão?” Pensei...ferrou, o anjo da morte veio me buscar!

Nesse instante minha esposa retorna e ele se apresenta como representante de um grupo que participo, e veio saber como eu estava e se precisava de algo. Ufa, que susto!!! Ainda estou vivo....Para completar naquele dia outro veio me visitar e depois de alguma conversa perguntei qual era a atividade profissional dele, então me falou: “ não leve a mal meu irmão, mas tenho uma funerária.” Bah, será o destino?

Histórias que a vida conta, e dá pra achar graça de muitas coisas, mesmo em momentos difíceis.

A primeira noite nesse hospital meu filho ficou comigo, para que a Miriam pudesse se acomodar melhor no hotel e descansar, junto com sua irmã que a acompanhava. Quando acordei de manhã resolvi tomar um banho, algo que a muito não fazia. Ele me acompanhou ao chuveiro, pois ainda estava fraco e preso a um pedestal metálico que continha soros e medicamentos. Chuveiro ligado pego o sabonete na mão e o mesmo cai no chão. Olhamos um para o outro e começamos a rir muito. Eu não podia rir, pois a cirurgia recente e os 32 pontos limitavam a flexão da minha pele. Mas não conseguíamos para. Quem vai se abaixar para pegar o sabonete? Eu não, disse ele. E eu também não. Após difícil negociação, acertamos que eu chutaria o sabonete para fora, longe do box, e que ele pegaria. Mas isso seria apenas uma vez, não teria a segunda. Coisas de pai e filho, dois moleques se divertindo um com o outro.

Nas visitas do médico constatou-se minha rápida recuperação, graças a atividade física frequente e alimentação adequada que tenho. Também cabe aqui fazer referência ao equipamento que usava, macacão, luvas, botas e capacetes, que me protegeram, sem os quais certamente não estaria aqui escrevendo. A primeira recomendação do médico era que eu devia caminhar, o máximo possível, para auxiliar minha melhor recuperação.

Aproveitei os corredores do hospital para seguir a recomendação médica. Eu e o pedestal metálico. Então meus filhos começaram a me provocar para que eu treinasse a fazer curvas, já que havia me acidentado numa. Brincadeira vai, brincadeira vem e numa dessas curvas tropecei no pé do pedestal, quase caindo. A gozação foi geral, então um deles fala: “pô pai, não tem jeito mesmo, tu não aprende a fazer curva”. Esse foi o assunto do resto do dia.

Após cinco dias internado e mais dez no hotel fazendo acompanhamento médico fui liberado para retornar para casa. Na bagagem o reconhecimento ao povo baiano pelo seu zelo e atenção ao próximo, amáveis e espiritualizados. Também o agradecimento pela oportunidade que tive de continuar próximo dos meus, e por entender que tudo passa e que nada é suficientemente grave que mereça toda a nossa atenção. No momento do impacto, dada a violência, tive a sensação de que não sobreviveria. Mas estava calmo e sereno, e a única preocupação que tinha era comigo mesmo, o resto nada importava. Pareceu que uma chave desligou, mantendo apenas o corpo em marcha lenta, respirando na intensidade mínima necessária para sobreviver.

Ah, não falei, a moto chegou em casa antes de mim, com poucos danos, apenas cosméticos. Pura sorte. Já foi para o conserto e quando retornar continuaremos consumindo quilômetros de estradas por ai a fora. Vender? De jeito nenhum, ela não teve nenhuma culpa pelo que aconteceu.

Escrito por Fernando Baumann, 07/04/2019 às 15h20 | fernando@bba-reiki.com.br



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Economista, empresário e militante das causas coletivas, acredita no associativismo e cooperativismo como ferramentas para a construção de uma sociedade mais justa. Busca incessantemente evoluir como ser humano e social.