Jornal Página 3
Coluna
Cá Pra Nós
Por Fernando Baumann

A terceirização do cérebro

Tenho pensado sobre as enormes facilidade que temos hoje e o quanto a tecnologia auxiliou a humanidade a dar vários passos à frente. Coisas incríveis aconteceram e encurtaram a distância entre o homem e a máquina. Mas nada sai de graça.

Sou frequentador assíduo de mercados, padarias e pequenos comércios. Ainda não me acostumei a usar cartão para todos os pagamentos, então para pequenos valores acabo utilizando dinheiro, talvez por vergonha pessoal, ter algum valor no bolso para mim é importante. O que me chama a atenção é que invariavelmente quem recebe o valor em espécie faz conta na máquina para dar o troco, independente de ser valor fracionado ou inteiro. Facilidades que a máquina de calcular trouxe. Não precisa pensar.

Viajo bastante, e há não muito tempo atrás para encontrar algum endereço recorria a mapas e informações de taxistas e frentistas de posto de combustível. Eram idas e vindas até localizar. Hoje os sistemas disponíveis me colocam no endereço sem saber como cheguei lá, ou então como faço para sair. De novo não precisa pensar.

Meu telefone atual faz chamadas de um arquivo chamado “contatos”, que guarda todos os dados necessários, não exigindo de minha parte nenhum esforço para decorar números. Se você me perguntar para responder rápido qual o meu número, talvez eu me atrapalhe em dizer. Mais uma vez não precisa pensar.

 Vi recentemente uma reportagem que retrata a dificuldade do jovem americano em guiar veículos manuais, pois a muito o câmbio automático dominou o mercado de lá. Também controle de tração, estabilidade, estacionamento, etc. Facilidades que melhoram a relação homem e máquina, exigindo menos do primeiro.

Acho tudo isso extraordinário, àquilo que poucos desenvolvem para muitos utilizarem. A capacidade criativa do ser humano não tem limites, e a busca pelo conforto, privacidade e segurança trazem a nós facilidades jamais imaginadas.

Mas me parece que o custo será alto, muito alto. A total alienação a máquina está de certa forma ceifando nossa capacidade de raciocinar, nos deixando mais preguiçosos e dependentes.

Pode ser uma bobagem minha, mas fazer contas de cabeça, encontrar lugares sem auxílio tecnológico, decorar números de telefone e dirigir a minha Kombi são excelentes exercícios para manter o cérebro ativo, lúcido.

Talvez a grande onda seja a terceirização do cérebro, e isso é muito perigoso.

Escrito por Fernando Baumann, 29/07/2019 às 15h18 | fernando@bba-reiki.com.br



Fernando Baumann

Assina a coluna Cá Pra Nós

Economista, empresário e militante das causas coletivas, acredita no associativismo e cooperativismo como ferramentas para a construção de uma sociedade mais justa. Busca incessantemente evoluir como ser humano e social.














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A terceirização do cérebro

Tenho pensado sobre as enormes facilidade que temos hoje e o quanto a tecnologia auxiliou a humanidade a dar vários passos à frente. Coisas incríveis aconteceram e encurtaram a distância entre o homem e a máquina. Mas nada sai de graça.

Sou frequentador assíduo de mercados, padarias e pequenos comércios. Ainda não me acostumei a usar cartão para todos os pagamentos, então para pequenos valores acabo utilizando dinheiro, talvez por vergonha pessoal, ter algum valor no bolso para mim é importante. O que me chama a atenção é que invariavelmente quem recebe o valor em espécie faz conta na máquina para dar o troco, independente de ser valor fracionado ou inteiro. Facilidades que a máquina de calcular trouxe. Não precisa pensar.

Viajo bastante, e há não muito tempo atrás para encontrar algum endereço recorria a mapas e informações de taxistas e frentistas de posto de combustível. Eram idas e vindas até localizar. Hoje os sistemas disponíveis me colocam no endereço sem saber como cheguei lá, ou então como faço para sair. De novo não precisa pensar.

Meu telefone atual faz chamadas de um arquivo chamado “contatos”, que guarda todos os dados necessários, não exigindo de minha parte nenhum esforço para decorar números. Se você me perguntar para responder rápido qual o meu número, talvez eu me atrapalhe em dizer. Mais uma vez não precisa pensar.

 Vi recentemente uma reportagem que retrata a dificuldade do jovem americano em guiar veículos manuais, pois a muito o câmbio automático dominou o mercado de lá. Também controle de tração, estabilidade, estacionamento, etc. Facilidades que melhoram a relação homem e máquina, exigindo menos do primeiro.

Acho tudo isso extraordinário, àquilo que poucos desenvolvem para muitos utilizarem. A capacidade criativa do ser humano não tem limites, e a busca pelo conforto, privacidade e segurança trazem a nós facilidades jamais imaginadas.

Mas me parece que o custo será alto, muito alto. A total alienação a máquina está de certa forma ceifando nossa capacidade de raciocinar, nos deixando mais preguiçosos e dependentes.

Pode ser uma bobagem minha, mas fazer contas de cabeça, encontrar lugares sem auxílio tecnológico, decorar números de telefone e dirigir a minha Kombi são excelentes exercícios para manter o cérebro ativo, lúcido.

Talvez a grande onda seja a terceirização do cérebro, e isso é muito perigoso.

Escrito por Fernando Baumann, 29/07/2019 às 15h18 | fernando@bba-reiki.com.br



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