Jornal Página 3
Coluna
Crônica Semanal
Por João José Leal

A Morte de Fidel Castro

Nos meus tempos de Universidade, havia um sentimento generalizado de admiração e simpatia por Fidel Castro, Che Guevara e pelos jovens soldados cubanos da liberdade e da fraternidade, farda verde-oliva, bonés e boinas na cabeça, quase todos barbudos, cabelos despenteados, muitos fumando charuto a propagandear o vício do tabagismo, num tempo de juventude rebelde. Haviam descido da Sierra Maestra, fuzis nas mãos, para libertar o povo cubano da ditadura de Fulgêncio Batista. Chegaram ao poder, em 1959, com a promessa solene de estabelecer um governo democrático, de independência e de liberdade para o seu povo. Quem poderia ser contra?

Anos antes, Fidel teria pronunciado na prisão a célebre frase, “A História vai me julgar e me absolverá”. Para a militância dos que ainda teimam em se rotular de esquerda, a veneração continua forte. Adeptos do culto à personalidade, enxergam a realidade pelo filtro dialético da ideologia marxista-leninista, baseada idéia de que os fins justificam os meios, de que tudo é válido e bom quando feito em nome do Estado, do Partido e do governo revolucionário. Para eles, o regime castrista transformou Cuba num paraíso, num exemplo de modelo educacional e saúde para o povo. E assim, absolverão o líder da Revolução de 26 Julho para colocá-lo, no panteão da história, como uma das grandes lideranças da política latinoamericana.

Esquecem ou não enxergam a realidade existente para além da propaganda oficial e da crença ideológica. Ignoram que Fidel derrubou uma ditadura para se tornar, ele próprio, um ditador por quase 60 anos e instaurar um regime de opressão responsável por milhares de condenações em tribunais de exceção, por execuções sumárias e prisões políticas dos considerados “inimigos do Estado”, muitos deles ex-companheiros da luta guerrilheira. No plano econômico, o regime castrista tem sido um fracasso, que tem sobrevivido graças à ajuda da antiga União Soviética, do camarada Hugo Chaves e do turismo europeu.

Com sua morte, Fidel Castro sai da cena política sem cumprir suas promessas revolucionárias de democracia, de liberdade e de bem estar para seu povo. Economicamente, Cuba está mais pobre. Agora, ironia dos tempos, o processo de recuperação econômica parece depender do comércio com o imperialismo norteamericano, tão execrado pelo comandante supremo. Desfile de modas da Chanel e show dos Rolling Stones, coisas da burguesia capitalista e decadente, já aconteceram na envelhecida Havana.

O veredicto da História, dificilmente, conhece a unanimidade. Assim, muitos cubanos chorarão a perda do seu líder. No entanto, muitos outros continuarão chorando, sim, a memória dos milhares de cubanos, executados sumariamente pelo regime comandado por Fidel Castro, enorme preço pago em vidas e liberdade para tudo recomeçar com 60 anos de atraso. 

Escrito por João José Leal, 29/11/2016 às 12h56 | jjoseleal@gmail.com

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João José Leal

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Graduado pela Faculdade de Direito da UFSC, Mestre em Ciências Criminológicas pela Universidade de Bruxelas, Livre-Docente-Doutor pela Universidade Gama Filho - Rio de Janeiro. Promotor de Justiça aposentado e Ex-Procurador Geral de Justiça de Santa Catarina. Ex-Professor de Direito Penal, de Criminologia e Diretor de Ciências Judiciais da FURB - Blumenau. Ex-Professor de Política Criminal e Controle Social do Programa de Mestrado em Ciência Jurídica da UNIVALI.
















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