Jornal Página 3
Coluna
Crônica Semanal
Por João José Leal

As Águas do Ródano

No começo deste mês, o Itajaí-Açu inundou e muito estrago em diversas cidades do Vale. As imagens das ruas e casas invadidas pelas águas carregadas de lama, embalagens plásticas e outros entulhos me fizeram lembrar do rio Ródano, que os franceses chamam de Rhone. Poucos dias antes, tinha eu visitado o grande curso d’água que nasce nos Alpes suíços, numa longa viagem de barco, mais de 500 km ida e volta.

Durante o trajeto, surpreendeu-me a limpeza das águas do maior rio francês, sem qualquer sinal de poluição, livre das degradantes embalagens plásticas e de qualquer outro entulho. Quando o barco ancorava, em pleno centro das cidades visitadas, as águas corriam límpidas, transparentes, a ponto de exibir cardumes de pequenos peixes em movimento contínuo, numa dança coletiva de rápidos rodopios, de mergulhos e de volta à superfície.

O Ródano, dizem orgulhosos os franceses, “está domado”, controlado por um canal extravasor que acompanha seu curso até o mar. E, principalmente, pelas 19 barragens, que produzem energia para um terço do país e ajudam no controle das cheias e da correnteza. Suas eclusas permitem a navegação em todo curso do rio. É impressionante ver o barco de mais de 100 metros entrar naquele enorme caixão de concreto para ser emparedado e levantado ou baixado a mais de 20 metros. Então, abre-se comporta para o nivelamento do espelho d’água e a navegação continua.

Surpreendeu-me, também, o número de pontes cruzando o rio, um dia já atravessado pelo cartaginês Aníbal e suas tropas, em seu malogrado plano de invadir e destruir Roma. São muitas e de engenharias as mais diversas. Algumas estaiadas, suspensas por finos cabos de aço, que lhe dão uma silhueta cheia de leveza e elegância. Outras são antigas, quase um milênio de história, como é o caso da ponte de Avignon, hoje, pela metade, mas ainda de pé. Porisso, famosa e cantada em todo o mundo.

Aqui, temos o nosso indomado Itajaí-Açu, ainda poluído e de águas turvas. Tem as suas barragens, mas nenhuma eclusa nem canal extravasor. Diferentemente, do Ródano e de outros grandes rios europeus, onde as águas foram domadas, estão limpas e são navegáveis, o Itajaí-Açu ainda tem suas água poluídas. Os barcos se foram se foram e, no seu leito, a navegação é coisa de um passado distante e saudoso.  

Porisso, de vez em quando, transborda do leito e vem cobrar seu tributo, pago com a tristeza e o sofrimento dos ribeirinhos flagelados.

Escrito por João José Leal, 21/06/2017 às 15h45 | jjoseleal@gmail.com

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João José Leal

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Graduado pela Faculdade de Direito da UFSC, Mestre em Ciências Criminológicas pela Universidade de Bruxelas, Livre-Docente-Doutor pela Universidade Gama Filho - Rio de Janeiro. Promotor de Justiça aposentado e Ex-Procurador Geral de Justiça de Santa Catarina. Ex-Professor de Direito Penal, de Criminologia e Diretor de Ciências Judiciais da FURB - Blumenau. Ex-Professor de Política Criminal e Controle Social do Programa de Mestrado em Ciência Jurídica da UNIVALI.
















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