Jornal Página 3
Coluna
Crônica Semanal
Por João José Leal

Internet e Dependência do Celular

Recebi uma mensagem pelo Whatsapp, que retrata bem o grau de dependência das pessoas ao telefone celular, esse pequeno e mágico tablete da comunicação virtual. Trata-se de um desenho animado. De forma sarcástica, mostra muito bem essa escravidão do século 21, sem grilhões de ferro, sem senzala e sem chibata. Uma escravidão que respeita as leis da democracia, da liberdade e da igualdade, mas exerce um irresistível domínio sobre todas as pessoas, Como tudo agora é virtual, não queremos ver a realidade dessa nossa submissão à internet e ao telefone celular.

O vídeo, sem uma palavra sequer, apenas o som de uma música, retrata magistralmente a solidão, o encasulamento das pessoas que, hoje, não podem se imaginar longe de um celular. Começa com uma multidão, gente curvada, possivelmente, pela dependência ao telefone, cada um por si, olho colado na telinha, todos caminhando sem enxergar o buraco, o abismo em que vão despencar. No vagão lotado do metrô, todos em pé e celular na mão, que curtir a viagem é preciso.

Mais adiante, um círculo de celulo-cinegrafistas filmando um grupo espancando violentamente alguém, socorro à vítima não importa. Em seguida, mesa repleta de gente silenciosa, almoçando sem saber o quê, devorando imagens virtuais, que conhecer é preciso. Mais adiante, o simbolismo da nova escravidão, todos aprisionados em celas, sinistro quadro emoldurado por aparelhos celulares.

A animação continua para mostrar um restaurante, mesas ocupadas, pratos servidos, clientes calados, colados na tela que os transporta para um lugar em que não estão sentados. Depois, a cena patética da bailarina dançando para centenas de celulares, nas mãos de gente que crte a imagem virtual e já não sabe contemplar a arte real.

O filme da vida virtual estereotipada prossegue para focar e ironizar o culto à atual concepção da beleza feminina, siliconizada e plastificada e para revelar um Romeu e uma Julieta, ontem símbolo do amor eterno, hoje, nestes tempos cibernéticos, aparecendo no romântico balcão de celular na mão, um de costas para o outro, que amar já não é mais preciso. Finalmente, a cena mais patética e triste, a moça pronta para se jogar do alto de um edifício e mais uma multidão, celular na mão, olho na tela, gente preocupada apenas em captar a imagem sensacional da queda e da desgraça humana.

A animação de Steve Cutts é uma severa e bem elaborada crítica à nossa dependência dessa teia eletrônica, midiática, que é a internet e ao telefone celular, esse aparelho esperto o suficiente para nos enredar e nos deixar escravos do mundo virtual. Infelizmente, as conquistas humanas são marcadas por uma estranha dialética. Apresentam um lado bom, positivo e outro ruim, negativo. Este precisa ser evitado, mas não é fácil.
 

Escrito por João José Leal, 09/08/2017 às 11h03 | jjoseleal@gmail.com

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João José Leal

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Graduado pela Faculdade de Direito da UFSC, Mestre em Ciências Criminológicas pela Universidade de Bruxelas, Livre-Docente-Doutor pela Universidade Gama Filho - Rio de Janeiro. Promotor de Justiça aposentado e Ex-Procurador Geral de Justiça de Santa Catarina. Ex-Professor de Direito Penal, de Criminologia e Diretor de Ciências Judiciais da FURB - Blumenau. Ex-Professor de Política Criminal e Controle Social do Programa de Mestrado em Ciência Jurídica da UNIVALI.
















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