Jornal Página 3
Coluna
Crônica Semanal
Por João José Leal

Brasil, País em Guerra

A atual onda de violência, que tomou conta das favelas do Rio de Janeiro, assusta cariocas e brasileiros. E não é para menos. O perverso poder paralelo das quadrilhas que controlam do tráfico de drogas, sustentadas pelo dinheiro de gente das classes média e alta, dominam os morros e disseminam a morte em meio a uma comunidade aterrorizada. A polícia se mostra incapaz de exercer a função estatal de controle e de repressão ao crime, a fim de impor a lei e manter a ordem. A intervenção das forças armadas mostra bem que o Rio de Janeiro vive uma verdadeira guerra urbana.

Os ataques praticados pelo crime organizado contra ônibus e prédios, em algumas cidades catarinenses, também deixaram nossa população assustada. Guerras de quadrilhas têm causado uma série de assassinatos e execuções sumárias, aumentando ainda mais dimensão da violência e do pânico coletivo. As autoridades de segurança classificam essas ações criminosas como atos de terrorismo. Isso mostra a gravidade dessa maré de delinquencial, que pode ser comparada a uma guerra urbana.

Engana-se, porém, quem pensa que o Rio seja a capital da violência e que nosso Estado seja a terra dos ataques terroristas e assassinatos sem trégua. A verdade é que o país, como um todo, está doente, indefeso, tomado pela violência homicida, causadora de morte em números que superam países mergulhados em guerra civil. Basta assinalar a absurda cifra de 60 mil assassinatos por ano. É tanta morte que nem os mais estudiosos conseguem explicar. Tanto assassinato que estamos entre os países com maior índice de violência em todo o mundo.

Agora, a foice da morte se espalha de norte a sul, viaja por terras antes desconhecidas e tranqüilas e já não se concentra apenas nos grandes aglomerados urbanos. A sinistra tragédia nacional de sangue e violência apresenta-se, agora, de forma mais tenebrosa, no palco da morte de cidades interioranas do norte e nordeste. No Ceará, Estado até pouco tempo fora das estatísticas criminais, ocorre uma morte violenta a cada hora, média macabra de 20 assassinatos diários.

Nesse novo perfil criminográfico brasileiro, Altamira, PA, aparece como a cidade mais violenta do país, com uma taxa de 107 homicídios por 100 mil habitantes. Depois, aparecem cidades pouco conhecidas e, agora, pouco tranqüilas: Lauro de Freitas, BA, (97,7); Nossa Senhora do Socorro, SE, (96,4); São José de Ribamar, MA (96,4); e Simões Filho, BA (92,3). São números estarrecedores. Talvez, não nos assustem tanto porque acontecem longe da mídia nacional e do nosso quintal.

É muito triste. A pátria é uma só e estamos vivendo em meio a uma terrível guerra fratricida, com brasileiros ceifando a vida dos próprios irmãos. 

Escrito por João José Leal, 02/10/2017 às 11h39 | jjoseleal@gmail.com

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João José Leal

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Graduado pela Faculdade de Direito da UFSC, Mestre em Ciências Criminológicas pela Universidade de Bruxelas, Livre-Docente-Doutor pela Universidade Gama Filho - Rio de Janeiro. Promotor de Justiça aposentado e Ex-Procurador Geral de Justiça de Santa Catarina. Ex-Professor de Direito Penal, de Criminologia e Diretor de Ciências Judiciais da FURB - Blumenau. Ex-Professor de Política Criminal e Controle Social do Programa de Mestrado em Ciência Jurídica da UNIVALI.
















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