Jornal Página 3
Coluna
Crônica Semanal
Por João José Leal

Michel Temer continua presidente

Num país sério, onde a política é pautada por princípios éticos, a honestidade como virtude fundamental para o exercício de qualquer função pública, há muito tempo, Michel Temer estaria afastado da presidência da República.

Aliás, nem teria lá chegado, nas condições em que assumiu.

Infelizmente, para a maioria dos nossos parlamentares sem compromisso com princípios nem com virtudes, o que vale é a permanência na vitrina dourada, não importa se conspurcada, do poder.

Mesmo que, para isso, esses vendilhões do templo, tenham que fincar os pés no lodaçal dos corredores e gabinetes planaltinos, vender a alma e o pensamento.

E, assim, Michel Termer escapou da segunda denúncia, juntamente com seus ministros mais próximos, acusados de obstrução de justiça e de integrarem uma organização criminosa.

Quase 600 milhões de reais teriam sido apropriados de diversos órgãos públicos pelo “Quadrilhão do PMDB”, da Câmara dos Deputados.

E, o chefe, não seria ninguém menos que atual presidente da República.

A gravíssima denúncia vai continur como uma espada sobre a cabeça de quem está no comando da nação brasileira. Em qualquer outro país democrático, o afastamento da presidência seria inevitável.

O mal é que a insólita acusação foi sendo digerida por boa parte da opinião pública, agora, habituada a ver políticos na prisão, no banco dos réus e nas páginas policiais. Com know how adquirido no processo da denúncia anterior, Michel Temer soube manipular a “vontade livre” de deputados que votaram “de acordo com suas consciências”.

Na verdade, soube trabalhar nos porões da Câmara baixa para garantir o apoio de aliados, sempre dispostos a negociar seus votos nas questões políticas mais importantes, desde que tratados a pão-de-ló, pago com dinheiro público. Cargos foram distribuídos, verbas empenhadas, reformas prometidas como indispensáveis, esquecidas.

Na quarta-feira, durante a votação da grave denúncia, o plenário da Câmara dos Deputados foi transformado, mais uma vez, num palco do teatro do absurdo, da demagogia explícita e despudorada. A nação brasileira, indignada e enojada, assistiu a cenas ridículas e vergonhosas de uma tragicomédia encenada por nossos deputados federais. O texto do melodrama da desfaçatez e do fisiologismo antiético, escrito com as tintas do aliciamento e do dinheiro ilícito, todos já conheciam o final.

Mas, nossos deputados, exímios profissionais na arte de fingir e dissimular, fizeram questão de encenar, com apaixonante eloquência, mais uma ridícula pantomima sob os holofotes da mídia, no desacreditado palco da demagogia parlamentar. E, assim, Michel Temer continua presidente.
 

Escrito por João José Leal, 26/10/2017 às 13h07 | jjoseleal@gmail.com

publicidade





publicidade



João José Leal

Assina a coluna Crônica Semanal

Graduado pela Faculdade de Direito da UFSC, Mestre em Ciências Criminológicas pela Universidade de Bruxelas, Livre-Docente-Doutor pela Universidade Gama Filho - Rio de Janeiro. Promotor de Justiça aposentado e Ex-Procurador Geral de Justiça de Santa Catarina. Ex-Professor de Direito Penal, de Criminologia e Diretor de Ciências Judiciais da FURB - Blumenau. Ex-Professor de Política Criminal e Controle Social do Programa de Mestrado em Ciência Jurídica da UNIVALI.
















Fale Conosco - Anuncie no Página 3 - Normas de Uso
© Desenvolvido por Página 3

Endereço: Rua 2448, 360 - Balneário Camboriú - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: jornal@pagina3.com.br