Jornal Página 3
Coluna
Crônica Semanal
Por João José Leal

Finados e o Culto aos Mortos

Ontem, Dia de Finados, data que os vivos resolveram dedicar à memória dos seus mortos, tradição cristã de mais de mil anos, repeti uma rotina dos últimos anos. No período da manhã, crisântemos brancos nas mãos, visitei o cemitério de Tijucas. Foi uma caminhada silenciosa pela alameda do descanso eterno, vereda da saudade que corta o campo santo de norte a sul.

Na caminhada, fui lendo o nome das famílias nas sepulturas silenciosas e das pessoas ali enterradas. Os Azevedos, vizinhos da minha casa, na rua Nova; os Laus, comerciantes, alguns escritores famosos, um deles desembargador e meu grande amigo; os Carvalhos, que tiveram conhecido Café, sorveteria e, até, prefeito da cidade; os Santanas, donos de fábrica de farinha de nozes, onde brinquei sobre montes do farelo branco, antes que se transformassem em precioso óleo de máquina; os Britos, marceneiros, um advogado, outro escrivão e técnico do Tiradentes e, ainda, da minha professora mais querida; os Ternes, da cerâmica, do conhecido sapateiro da cidade e pai de um de meus amigo de infância; os Chaves, da famosa bala e do musse de banana, um deles expedicionário da FEB, depois prefeito da cidade.

Passei, também, em frente do jazigo, da família Manoel Cruz arrojado comerciante português, que construiu o primeiro cine-teatro da região. Mais à frente, vi o imponente sepulcro, verdadeiro mausoléu, dos Bayers. No passado, adversários, até inimigos, disputaram o poder econômico e político da cidade, com seus rivais, os Gallottis. Hoje, os mortos destas duas tradicionais famílias descansam em paz, lado a lado, confirmando o velho ditado popular “a morte a todos iguala”.

Ao final da caminhada da saudade, cumprindo a tradição do culto aos mortos, depositei as flores na sepultura de meus avós paternos. Não cheguei a conhecer minha avó paterna. De meu avô, lembro muito pouco, uma lembrança nebulosa. Mas, sentirei que ali estão enterrados personagens que fazem parte da minha existência e da minha história.

O meu périplo de Finados terminou no antigo cemitério de São Miguel, junto à bicentenária igreja do mesmo nome, próximo a Biguaçu. Lá, onde repousam famílias açorianas, estão enterrados meus pais e avós maternos. O cemitério é um pouco como as ruas tortuosas, desalinhadas e estreitas de Angra do Heroísmo, bela cidade dos Açores.

Para chegar ao túmulo de meus pais, foi preciso caminhar, ziguezagueando, sobre antigas sepulturas Mas, os mortos não falam, não reclamam nem se incomodam ao se sentirem pisoteados por estranhos de flores nas mãos, que ali foram, justamente, para preservar a tradição do culto aos seus antepassados. Na sepultura, também deixei crisântemos e agradeci aos meus pais e avós o exemplo de vida que me legaram e à toda nossa família.

Escrito por João José Leal, 03/11/2017 às 15h05 | jjoseleal@gmail.com

publicidade





publicidade



João José Leal

Assina a coluna Crônica Semanal

Graduado pela Faculdade de Direito da UFSC, Mestre em Ciências Criminológicas pela Universidade de Bruxelas, Livre-Docente-Doutor pela Universidade Gama Filho - Rio de Janeiro. Promotor de Justiça aposentado e Ex-Procurador Geral de Justiça de Santa Catarina. Ex-Professor de Direito Penal, de Criminologia e Diretor de Ciências Judiciais da FURB - Blumenau. Ex-Professor de Política Criminal e Controle Social do Programa de Mestrado em Ciência Jurídica da UNIVALI.
















Fale Conosco - Anuncie no Página 3 - Normas de Uso
© Desenvolvido por Página 3

Endereço: Rua 2448, 360 - Balneário Camboriú - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: jornal@pagina3.com.br