Jornal Página 3
Coluna
Crônica Semanal
Por João José Leal

Viagem de Trem

Gosto de viajar de trem. Na Europa, é claro, onde trem sai sempre na hora, marcada em minutos porque pontualidade faz parte da cultura europeia. São confortáveis e democráticos. Se você não vai na primeira classe, o vagão é um espaço onde se misturam jovens mochileiros, executivos engravatados, madames encasacadas bem penteadas e de salto alto. Nesse pedaço de diversidade social móvel e sem discriminação, todos convivem, com certa indiferença e allheamento, é verdade!, mas amistosamente.

Cada um no seu lugar, sem diferença de assento, sem preconceito de classe, de idade ou de raça. Um vagão europeu de passageiros é uma interessante arca de biotipos diversos, chineses, coreanos e japoneses, esses amarelos que só eles sabem a sua origem e que estão tomando conta do mundo globalizado. De nórdicos loiros, todos parecendo Fritzes e Fridas vindos das geladas terras escandinavas. De árabes e negros, a nova onda migratória em busca de trabalho no Velho Mundo. No meio dessa babel étnica e linguística, viajam também, é claro, os nativos europeus país que o turista está visitando.

Gosto de chegar na estação ferroviária, sempre no centro da cidade, referência de localização para quem procura por um endereço qualquer e ver aquele burburinho, aquele corre-corre de gente falando alto, muitos gritando, gente apressada para não perder o trem, que não espera um minuto sequer, porque horário é dever, é ponto de honra e atraso de minutos pode custar caro para a companhia, quase todas ainda empresas públicas.

Gosto de ver, logo no começo da viagem, aquelas casas velhas, muitas já centenárias do tempo da construção dos caminhos de ferro, quase todas de costas, a cozinha virada para a via férrea. para evitar o barulho ensurdecedor das pioneiras locomotivas movidas a vapor, pelo carvão incandescente. porque Seus moradores, gente simples sem escolha de moradia, de certo, quiseram evitar o barulho das pioneiras locomotivas e escolheram a sala para olhar a rua.

Depois, o trem em alta velocidade, 300 km/h, a paisagem do campo desfilando rápido na janela cinematográfica, as pastagens quase sem gado, meia dúzia de bois e ovelhas, porque não estamos contemplando os campos deste Brasil imenso, os trigais e as florestas, hoje retornando às terras europeias. Enfim, a chegada, pontualmente no horário, bem no coração da cidade, uma multidão de passageiros a andar rápido pela plataforma, uns para o trabalho, outros para o lazer, porque a vida é assim mesmo. Uns trabalham e outros se divertem.

É pena. No Brasil, não temos mais trens de passageiro, há muito tempo aposentados, transformados em sucata. Se quisermos percorrer a imensidão do território brasileiro, só de avião porque, de carro, leva tempo e é uma ventura perigosa.

Escrito por João José Leal, 11/06/2018 às 10h24 | jjoseleal@gmail.com



João José Leal

Assina a coluna Crônica Semanal

Graduado pela Faculdade de Direito da UFSC, Mestre em Ciências Criminológicas pela Universidade de Bruxelas, Livre-Docente-Doutor pela Universidade Gama Filho - Rio de Janeiro. Promotor de Justiça aposentado e Ex-Procurador Geral de Justiça de Santa Catarina. Ex-Professor de Direito Penal, de Criminologia e Diretor de Ciências Judiciais da FURB - Blumenau. Ex-Professor de Política Criminal e Controle Social do Programa de Mestrado em Ciência Jurídica da UNIVALI.


Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade

Fale Conosco - Anuncie no Página 3 - Normas de Uso
© Desenvolvido por Página 3

Endereço: Rua 2448, 360 - Balneário Camboriú - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: jornal@pagina3.com.br