Jornal Página 3
Coluna
Crônica Semanal
Por João José Leal

Almoço em Família de Antigamente

Como se dizia no tempo da carochinha, estórias que as crianças de hoje, celular nas mãos de siri a dedilhar sem parar na telinha mágica do mundo encantado digital, não querem mais escutar, houve uma época em que as famílias almoçavam, todos os dias, no recanto do lar doce lar. Quando cheguei a Brusque, além das poucas churrascarias, havia dois ou três restaurantes abertos ao meio-dia para almoço dos visitantes da cidade.

Havia até uma piada, conhecida e repetida, do marido dizendo à mulher: “Hoje, vamos almoçar fora”. E, quando a boa esposa, toda contente, corria para botar o vestido de festa e passar o pó de arroz nas faces envelhecidas, o marido logo cortava o barato para dizer, naquele tom patriarcal de chefe da família sem admitir pedido de explicação, muito menos contestação: “Onde pensas que vamos? Vai logo, botar a mesa no quintal, que o dia está ensolarado”.

Era um tempo de família numerosa, o casal, seis ou mais filhos e, ainda, a sempre bem-vinda e querida sogra. Se o marido era o chefe da família, cabia à mulher, mãe da numerosa prole, enfrentar sozinha a rotina da vida doméstica.  Especialmente, a repetitiva lide da cozinha, que significava passar a vida em frente ao fogão, no exaustivo manejo das panelas, frigideiras e chaleiras para o preparo das refeições diárias, porque alimentar a família era preciso, promessa sagrada feita para sempre aos pés do altar. 

Almoço servido, tribo familiar reunida à mesa e a luta pelo prato cheio, cada um buscando garantir o seu quinhão, sob o olhar da autoridade patriarcal. Comida nem sempre bastante, de raspar o prato, às vezes de dar briga pelo melhor pedaço, sempre apaziguada com um simples e convincente olhar maternal. Assim, era a reunião gastronômica diária das famílias de muitos filhos. Comer fora, um batalhão sentado à mesa de um restaurante, só em raros domingos e, isso, para as famílias ricas, que não eram muitas.

Sobremesa era iguaria sofisticada, coisa de rico, da culinária aristocrática, que só chegava à mesa da gente humilde, nos domingos. Lembro bem daquele manjar de coco Royal ou Medeiros, feito numa forma redonda, cheia de gomos e com um furo no meio. Minha mãe tinha um cuidado enorme, próprio do afeto maternal, para cortar o pitéu em quinhões iguais, tarefa acompanhada por mais de uma dezena de olhos arregalados, faiscando de gula.

Tantas bocas ávidas em volta da mesa, as partes eram centimetricamente cortadas, a cada um o seu pedaço, sem direito à repetição porque sobra não havia. Mas, sempre alguém achava o seu gomo de pudim menor. E, durante muito tempo, ouvi sem entender, o ditado repetido por minha mãe dizendo que o “melhor quinhão era do amuado”.

Escrito por João José Leal, 06/09/2018 às 11h00 | jjoseleal@gmail.com



João José Leal

Assina a coluna Crônica Semanal

Membro da Academia Catarinense de Letras. Graduado pela Faculdade de Direito da UFSC, Mestre em Ciências Criminológicas pela Universidade de Bruxelas, Livre-Docente-Doutor pela Universidade Gama Filho - Rio de Janeiro. Promotor de Justiça aposentado e Ex-Procurador Geral de Justiça de Santa Catarina. Ex-Professor de Direito Penal, de Criminologia e Diretor de Ciências Judiciais da FURB - Blumenau. Ex-Professor de Política Criminal e Controle Social do Programa de Mestrado em Ciência Jurídica da UNIVALI.


Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade

Fale Conosco - Anuncie no Página 3 - Normas de Uso
© Desenvolvido por Página 3

Endereço: Rua 2448, 360 - Balneário Camboriú - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: jornal@pagina3.com.br

Página 3
Crônica Semanal
Por João José Leal

Almoço em Família de Antigamente

Como se dizia no tempo da carochinha, estórias que as crianças de hoje, celular nas mãos de siri a dedilhar sem parar na telinha mágica do mundo encantado digital, não querem mais escutar, houve uma época em que as famílias almoçavam, todos os dias, no recanto do lar doce lar. Quando cheguei a Brusque, além das poucas churrascarias, havia dois ou três restaurantes abertos ao meio-dia para almoço dos visitantes da cidade.

Havia até uma piada, conhecida e repetida, do marido dizendo à mulher: “Hoje, vamos almoçar fora”. E, quando a boa esposa, toda contente, corria para botar o vestido de festa e passar o pó de arroz nas faces envelhecidas, o marido logo cortava o barato para dizer, naquele tom patriarcal de chefe da família sem admitir pedido de explicação, muito menos contestação: “Onde pensas que vamos? Vai logo, botar a mesa no quintal, que o dia está ensolarado”.

Era um tempo de família numerosa, o casal, seis ou mais filhos e, ainda, a sempre bem-vinda e querida sogra. Se o marido era o chefe da família, cabia à mulher, mãe da numerosa prole, enfrentar sozinha a rotina da vida doméstica.  Especialmente, a repetitiva lide da cozinha, que significava passar a vida em frente ao fogão, no exaustivo manejo das panelas, frigideiras e chaleiras para o preparo das refeições diárias, porque alimentar a família era preciso, promessa sagrada feita para sempre aos pés do altar. 

Almoço servido, tribo familiar reunida à mesa e a luta pelo prato cheio, cada um buscando garantir o seu quinhão, sob o olhar da autoridade patriarcal. Comida nem sempre bastante, de raspar o prato, às vezes de dar briga pelo melhor pedaço, sempre apaziguada com um simples e convincente olhar maternal. Assim, era a reunião gastronômica diária das famílias de muitos filhos. Comer fora, um batalhão sentado à mesa de um restaurante, só em raros domingos e, isso, para as famílias ricas, que não eram muitas.

Sobremesa era iguaria sofisticada, coisa de rico, da culinária aristocrática, que só chegava à mesa da gente humilde, nos domingos. Lembro bem daquele manjar de coco Royal ou Medeiros, feito numa forma redonda, cheia de gomos e com um furo no meio. Minha mãe tinha um cuidado enorme, próprio do afeto maternal, para cortar o pitéu em quinhões iguais, tarefa acompanhada por mais de uma dezena de olhos arregalados, faiscando de gula.

Tantas bocas ávidas em volta da mesa, as partes eram centimetricamente cortadas, a cada um o seu pedaço, sem direito à repetição porque sobra não havia. Mas, sempre alguém achava o seu gomo de pudim menor. E, durante muito tempo, ouvi sem entender, o ditado repetido por minha mãe dizendo que o “melhor quinhão era do amuado”.

Escrito por João José Leal, 06/09/2018 às 11h00 | jjoseleal@gmail.com



João José Leal

Assina a coluna Crônica Semanal

Membro da Academia Catarinense de Letras. Graduado pela Faculdade de Direito da UFSC, Mestre em Ciências Criminológicas pela Universidade de Bruxelas, Livre-Docente-Doutor pela Universidade Gama Filho - Rio de Janeiro. Promotor de Justiça aposentado e Ex-Procurador Geral de Justiça de Santa Catarina. Ex-Professor de Direito Penal, de Criminologia e Diretor de Ciências Judiciais da FURB - Blumenau. Ex-Professor de Política Criminal e Controle Social do Programa de Mestrado em Ciência Jurídica da UNIVALI.


Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade