Jornal Página 3
Coluna
Dedo na Moleira
Por Waldemar Cezar Neto

O que eles querem é ditadura

A foto mostra o jornalista Vladimir Herzog torturado e morto no DOI-CODI em 1975. Seu assassinato gerou um movimento mundial de repulsa e acelerou o fim da ditadura brasileira.  

Como é normal nessa época a conversa em todos os cantos é eleição presidencial e entre meus amigos bolsonaristas, agoniados com a trágica situação brasileira, o que percebo é a vontade de mudar o país pela força, através de uma ditadura.

Porque os bolsonaristas acreditam que a força pode resolver o que eles consideram os problemas nacionais como corrupção, leniência nas instâncias superiores do judiciário, decadência dos costumes, criminalidade endêmica etc.

O vice de Bolsonaro, general Mourão (não confundir como general Olímpio Mourão Filho que deflagrou o golpe militar de 1o de abril de 1964), em 2015 elogiou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, vulgo Dr. Tibiriçá, o primeiro militar condenado pela prática de tortura.

Segundo a Comissão da Verdade, uma entidade oficial do governo brasileiro, no período em que Ustra comandou o Destacamento de Operações de Informação - Centro de Operações de Defesa Interna, o famigerado DOI-CODI em São Paulo, 50 pessoas foram torturadas e mortas naquele porão.

Bolsonaro também considera o torturador Ustra um herói da pátria.

Em 2017 Mourão (o vice do Bolsonaro) voltou a externar o que pensa como solução para o país ao declarar que "até chegar o momento em que ou as instituições solucionam o problema político, pela ação do Judiciário, retirando da vida pública esses elementos envolvidos em todos os ilícitos, ou então nós teremos que impor isso”.

Traduzindo, impor uma ditadura.

Eu vivi uma ditadura militar. Ela começou quando eu tinha 10 anos de idade e terminou quando completei 31.

Se querem uma ditadura acho conveniente lembrar alguns fatos sobre a útima que tivemos:

1961 - O presidente Jânio Quadros renuncia e Jango Goulart toma posse.

1962 - O Brasil chega a 52% de inflação.

1963 - Inflação se aproxima de 80% e o PIB fica em pouco mais que 0,5%. A crise econômica devora o país.

Mar/1964 - Em São Paulo acontece a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, dentre outras coisas contra "o comunismo que ameaça o Brasil".

Mar/1964 - O general Olímpio Mourão Filho desloca tropas de MG tentando motivar outras guarnições militares a aderirem ao golpe.

1 de Abril de 1964 - O general Costa e Silva se intitula Comandante do Exército e líder da revolução.

15 de abril de 1964 - O general Castelo Branco assume, para sanear o Brasil e promete manter as eleições.

9 de abril de 1964 - A ditadura cassa os primeiros mandatos legislativos.

Junho de 1964 - A ditadura cassa o ex-presidente e agora senador Juscelino Kubitschek e mais 39 políticos.

22 de julho de 1964 - Castelo Branco prorroga seu próprio mandato até 15 de março de 1967.

01 de setembro de 1964 - Jornais começam a denunciar torturas nas prisões da ditadura.

Setembro de1964 - É criado o Serviço Nacional de Informações (SNI), para controlar a vida dos cidadãos.

Outubro de 1964 - É extinta a União Nacional dos Estudantes (UNE).

Dezembro de 1964 - São 203 denúncias de tortura e 20 mortes.

Outubro de 1965 - São dissolvidos os partidos políticos, a eleição presidencial se torna indireta e civis acusados de crimes políticos passam a ser julgados pela Justiça Militar.

Fevereiro de 1966 - Governadores dos Estados e prefeitos das capitais e de algumas estâncias turísticas passam a ser “eleitos” indiretamente.

Outubro de 1966 - O general Artur da Costa e Silva é escolhido pelas forças armadas para ser o novo ditador do país.

Março de 1968 - Eclodem duas grandes greves de trabalhadores em Contagem e Osasco. Eles protestam contra os baixos salários e a violência da ditadura.

Março de 1968 - O estudante Edson Luís de Lima Souto é assassinado por policiais militares no Rio de Janeiro. Dezenas de milhares de pessoas foram ao enterro o que leva a ditadura um dia depois a proibir passeatas estudantis.

Junho de 1968 - Acontece a Passeata dos 100 mil no Rio de Janeiro contra a violência da ditadura e pelo retorno da democracia.

Dezembro de 1968 - Ditadura baixa o Ato Institucional número 5 - O Congresso Nacional e todas as Assembleias Legislativas são fechadas, menos a de São Paulo. Dentre outras coisas reuniões políticas só podem ocorrer se autorizadas pela polícia e o habeas corpus para crimes de motivação política deixa de existir. Cabia aos ditadores determinar o que era crime de motivação política. Reclamar do preço do gás, por exemplo, podia ser crime político, dependia do militar de plantão.

(...)

Vou parar por aqui, quem ainda não entendeu o que é uma ditadura é imbecil ou se faz de.
 

Escrito por Waldemar Cezar Neto, 07/08/2018 às 13h52 | waldemar@camboriu.com.br



Waldemar Cezar Neto

Assina a coluna Dedo na Moleira

Lê, pesca, cozinha, escreve e é diretor chefe do Jornal Página 3.


Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade

Fale Conosco - Anuncie no Página 3 - Normas de Uso
© Desenvolvido por Página 3

Endereço: Rua 2448, 360 - Balneário Camboriú - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: jornal@pagina3.com.br