Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

A convivência das línguas

No magnífico livro “Línguas e Dialetos Românicos e Germânicos” (Editora Kelps – Goiânia – 2010), o Prof. Adovaldo Fernandes Sampaio faz a abordagem de um tema que me é muito caro, ainda que não fosse o assunto central de sua obra. Trata ele nesse tópico da convivência entre as línguas tupi e portuguesa no território nacional durante o regime colonial e a expansão da população, tanto na região norte como no sul. Segundo ele, a grande quantidade de pessoas que falavam o tupi ou tupinambá aumentava de tal forma que o governo chegou a baixar decretos (cartas régias), proibindo o uso do idioma nativo dos indígenas. Claro que terá sido uma medida inócua, uma vez que a língua é um fenômeno social e o uso do tupi só foi diminuindo à medida que os falantes do português foram ocupando o território e levando a sua fala. Por outro lado, o fato revela que a prática de proibir o uso de idiomas não é de hoje, tanto que voltou a acontecer durante a II Guerra Mundial em relação ao alemão. No entanto, nem o tupi e nem o alemão desapareceram.

Segundo o linguista, o tupi foi o idioma usado de maneira predominante nos contatos entre portugueses e índios nos séculos XVI e XVII. A consequência desse prolongado contato foi a incorporação de considerável número de palavras tupis para designar aves, peixes, locais e nomes próprios de pessoas. “É notável a quantidade de lugares – diz ele – com nomes de origem tupinambá, quase sem alteração de pronúncia, muitos deles dados pelos luso-brasileiros dos séculos passados a localidades onde nunca viveram índios tupinambás.” Isso me faz lembrar de certo índio, personagem de um conto, que não se conformava com o frequente “roubo” das palavras indígenas pelos brancos. Dizia ele que estes não tinham imaginação para criar os próprios nomes e por isso se apropriavam dos indígenas.

Lembra o ensaísta que a primeira gramática da língua tupi (nheengatu) se deve ao padre jesuíta José de Anchieta (1534/1597). Era a mais falada na costa do Brasil.

Segundo ele, baseado em intensa pesquisa, o português muito se enriqueceu com um grande número de vocábulos de origem tupi. Alguns exemplos: arapuca, babaquara, beiju, caboclo, caipira, carapina, cuia, embira, jacá, jirau, jururu, maracá, mingau, pamonha, peroba, peteca, pipoca, quicé, tapioca, tocaia. Há muitas criações novas, como os verbos capinar, cutucar, empipocar, espocar, pitar, sapecar. São numerosos os nomes de animais, plantas, topônimos e alguns nomes próprios, entre os quais Jandira, como se chama minha cara-metade.

Aspecto curioso é que vocábulos de origem tupi estão presentes em muitas expressões populares do português brasileiro, como informa o autor, citando os seguintes casos: meter a mão em cumbuca, deixar de nhenhenhém, ficar jururu, puxar pelo guatambu, dar abraço de tamanduá, estourar a sapucaia, ficar de butuca, não dar importância a porandubas, remexer coivara, deixar a pereba criar casca. Como se vê, algumas mais conhecidas por aqui e outras em diferentes lugares.

Conclui-se que, muitas vezes, imaginando se expressar em refinada linguagem europeia, estamos usando a fala indígena dos brasileiros autóctones, um dos três formadores de nossa etnia.

Talvez fosse coerente a campanha do Major Policarpo Quaresma, célebre personagem do genial escritor carioca Lima Barreto, pela adoção do tupi como língua nacional em lugar do português importado da Europa. Com esse objetivo enviou petições aos órgãos do governo e batalhou pelos meios ao seu alcance. Foi hostilizado e ridicularizado, não obteve sucesso e, por ironia do destino, acabou fuzilado, ainda que por outros motivos. Mas o tupi continua vivo nas páginas dos linguistas como o Prof. Adovaldo, é usado no dia a dia pelos índios remanescentes e por todos nós quando utilizamos palavras e expressões “furtadas” dos nossos irmãos índígenas.

Escrito por Enéas Athanázio, 17/09/2018 às 14h33 | e.atha@terra.com.br

GARIMPEIRO DAS LETRAS

Iaponan Soares foi incansável pesquisador de nossa literatura. Nem havia eu estreado em livro, no início dos anos 70, e já andava ele a publicar ensaios e organizar antologias, atividades que continuou a exercitar com permanente dedicação. Garimpeiro das letras, sempre com a bateia entre as mãos, removendo o leito sedimentado por onde se espraiam as letras catarinenses, procurando afastar o cascalho e extrair algumas pepitas que, depois de lapidadas, recolheu ao arcaz em cujos gavetões guardou as preciosidades. Cada um de seus livros é um deles, repleto de achados que vai exibindo ao leitor com a satisfação de quem põe à mostra seus guardados.

Em um desses gavetões, isto é, em livro publicado, são incontáveis os achados que exibe aos curiosos das coisas da literatura e da vida literária no chão catarinense. “Virgílio Várzea & Outros”, tendo como subtítulo “Literatura e Vida Literária em Santa Catarina no Século XIX e início do Século XX” (Letras Contemporâneas – Florianópolis – 2002) é um conjunto de ensaios breves, mas nem por isso fáceis ou simplistas, que desvendam um mundo de acontecimentos insuspeitados pelos catarinenses em geral, revelando a efervescência do meio cultual naquele período, às vezes turbulento, mas sempre curioso e rico, reavivando passagens importantes que poderiam se apagar da memória histórica não fosse o faro desse faiscador sem cansaço. Graças a ele, detalhes incontáveis estão a salvo da inclemência do tempo e do esquecimento.

Abrindo o desfile, surge Virgílio Várzea, aquele que mereceu a mais volumosa abordagem. Nessas páginas a ele dedicadas o ensaísta se debruçou sobre a história e a ficção na obra do escritor, o recurso da memória, o desaparecimento da musa, a influência de Eça de Queirós, com quem teria tentado uma aproximação, o mistério reinante sobre o livro “Miudezas” e o sabor da aventura que cerca “O Brigue Flibusteiro”, apontado como um dos melhores livros do ano em que foi publicado. O tema desse romance chegou ao conhecimento do autor no período em que ele viajou por três anos pelos oceanos Atlântico e Índico, integrando a tripulação de um navio espanhol. Merece destaque a página que recorda a polêmica entre novos e velhos, através dos jornais, em conseqüência da qual Eduardo Nunes Pires tentou “a todo custo, socar pela boca do jovem Virgílio Várzea o recorte do jornal que estampava os versos provocativos” (Pág. 36). O episódio teve ampla repercussão, pontilhando a “guerrilha literária” que eclodiu como uma espécie de Questão Coimbrã desterrense. Naqueles dias os embates de ideias incendiavam os corações e, às vezes, levavam até ao desafio para duelos. Hoje só haveria o encolher de ombros da indiferença.

O gaúcho Raul Bopp, celebrado poeta de “Cobra Norato”, conquista espaço no livro por conta de um poema que escreveu sobre a Ilha – “Florianóspi”, - um “registro lírico da capital catarinense em 1928” (Pág. 71), cujo texto é transcrito na íntegra. O poema, no entanto, foi eliminado da obra pelo próprio autor. É que, dizia ele, “teria sido mal interpretado por algumas pessoas que naqueles versos só encontraram um deliberado propósito de ridicularizar a terra e a gente catarinense. E para não ferir mais suscetibilidades, “Florianóspi” foi retirado de circulação...” (Pág. 73). O poema nada tem de ofensivo, é antes uma peça impressionista do que o autor sentiu, mas a censura da opinião pública surtiu efeito.

Curiosas também foram as relações de Araújo Figueredo (sem i) com o espiritismo. Segundo o ensaísta, mais que seus livros foram suas curas que o tornaram conhecido e amado pelos contemporâneos. As notícias dessas curas corriam de boca em boca e a casa do poeta se transformou num consultório onde ele dava conselhos e remédios, por isso cada vez mais concorrida, em especial pela gente pobre. Os poderes mediúnicos do poeta caíram na boca do povo, geraram estórias e lendas, provocaram denúncias à Saúde Pública e deram o tom pitoresco, alheio ao campo literário, à biografia do autor de “Madrigais” e “Ascetério.” Além de tudo, por pouco não foi fuzilado durante a Revolução de 93, tendo que buscar asilo em...Tijucas! Para lá fugiu, vestido de mulher, mas as perseguições não cessaram e foi forçado a retornar ao Desterro, onde sobreviveu com o disfarce de... mendigo! Desconheço páginas memorialistas escritas pelo poeta, mas a vida dele, sem dúvida, daria um romance.

Outros autores surgem no livro, abordados sob os mais variados e curiosos ângulos. Assim acontece com Oscar Rosas, Horácio de Carvalho, Duarte Schutel, os irmãos Nunes Pires, João Silveira de Sousa, Silva Mafra, Delminda Silveira, Carlos de Faria, Luís Delfino e outros tantos, inclusive os “três desterrados” – Carl Seidler, Josep Hoermeyer e José Mascarenhas. O segundo deles previu, em visão profética, um brilhante futuro para Itajaí, Joinville e a Ilha. Inúmeros outros aspectos e temas são tratados, tornando impossível focalizá-los a todos neste comentário.

Deixei para o final, muito a propósito, duas figuras estudadas no livro porque me são muito caras – Altino Flores e Othon D’Eça. Não conheci o primeiro em pessoa, mas comentei num jornal, na época do lançamento, seu livro “Sondagens Literárias.” Desde então nos tornamos amigos e por ocasião de uma malfadada candidatura ele, muito doente, enviou através da filha o recado de que me dava o apoio, o que muito me surpreendeu. Quanto ao segundo, exerceu atividades profissionais em minha terra, onde se tornou amigo de meu pai. Quando fui estudar em Florianópolis, eu o encontrava com freqüência e nessas ocasiões ele não se cansava de repetir que eu “parecia o Athanázio quando jovem”, referindo-se, é claro, a meu pai. Abraçava-me com emoção, revelando sempre sentida saudade do amigo de juventude. Fui depois seu aluno na Faculdade de Direito e, muitos anos mais tarde, prefaciei o livro “Aos Espanhóis Confinantes!”, de sua autoria, para a coleção das Obras Completas, editadas pela FCC (*). Em 2000, mais uma vez o acaso nos uniria: recebi o “Prêmio Othon D’Eça”, por ter sido eleito o escritor do ano pela Academia Catarinense de Letras.

Em “Uma conversa à margem do tempo”, Altino Flores aparece numa entrevista fictícia em que Iaponan Soares formula as perguntas e vai buscar as respostas na própria obra do autor, versando, acima de tudo, a crítica literária, da qual o entrevistado foi um militante constante e rigoroso. Mas ele se reporta também ao próprio pai, ao seu projeto de vida, ao jornalismo cultural, que exerceu por longo tempo, aos remanescentes do grupo de Cruz e Sousa, ao sucesso no campo das letras, à polêmica com o bispo D. Joaquim Domingues de Oliveira a respeito de Renan, de cujas ideias discordava, mas assumiu sua defesa ao vê-lo injustiçado, e, por fim, seu “evangelho” de crítico literário. “A minha reação ante as consagrações fáceis pode indicar tudo quanto quiserem os que por ela se sentem incomodados: mas as pessoas cultas e sensatas hão de reconhecer que ela representou sempre contraposta à apologia dos tolos e à vitória da petulância sobre o talento” – resumiu-se ele.(...) “A estimativa do mérito e do demérito (na literatura) começa no momento em que a carcaça do indivíduo é entregue à podridão tumular” (Pág. 53).

Afastando-se da vida pública, “distanciou-se também da vida literária catarinense, pela qual nunca mostrara a menor afeição. Enfarado do convívio mundano, recolheu-se entre os seus livros à espera da última viagem, num exílio voluntário só pouquíssimas vezes rompido” (Pág. 40). Erudito, culto, sensível, duro e justo nos seus julgamentos. Altino Flores foi um crítico como poucos. Sua projeção não foi mais ampla porque exercitava na Província o áspero ofício.

Em “Othon D’Eça, múltiplo”, Iaponan destaca vários aspectos desse intelectual que foi jurista, contista, memorialista, poeta, articulista, agitador cultural, professor e homem público. Mostra como ele “procurou a seu modo neutralizar junto aos confrades da Academia Catarinense de Letras o horror que as ideias modernistas lhes causavam. Gradativamente foi divulgando nesse espaço (suplemento “Letras e Artes”, do jornal O Estado, que dirigia) poemas dos modernistas menos radicais como Menotti Del Picchia, Ribeiro Couto, Caio de Melo Franco e outros” (Pág. 59). Também fazia observações sobre a arte moderna, em sua coluna, sem adesão incondicional, mas entendendo a mudança dos tempos. Sem sua atuação, é certo que o modernismo tardaria ainda mais a chegar nestas bandas.

Durante a Revolução Federalista sua família sofreu sérias perseguições, tendo o escritor perdido o avô e um tio, ambos fuzilados em Anhatomirim. A família fugiu para a Bahia, onde ele foi batizado. Essas passagens biográficas foram reveladas através de Cesário Braz, pseudônimo que usava em muitos escritos da época. Participou da obra coletiva “ No Mistério da Noite”, que obteve sucesso na imprensa do Desterro, sendo ele o co-autor que Iaponan identifica na letra “O”, sendo “T” de Tito Carvalho e “N” de Gustavo Neves, os outros autores (Pág. 65).

Episódios dos mais curiosos aconteciam, gerando atritos e polêmicas. Altino Flores, crítico literário, desentendeu-se muitas vezes com os medalhões da terra e até mesmo com seus companheiros de geração. Numa de suas crônicas fez comentários que Othon D’Eça julgou dirigidos a ele e se ofendeu, respondendo de forma agressiva no número seguinte, ameaçando o adversário de maneira violenta. Dias depois Altino Flores foi procurado por um emissário que lhe comunicou ter Othon D’Ela convidado a ele e a outro para padrinhos no duelo que travaria com Altino, escolhendo como arma a espada. O desafio provocou muito comentário e divertiu a valer todos que acompanhavam os incidentes, mas não passou disso. “Para tranquilidade de todos, o próprio desafiante, coração boníssimo, logo voltou para o Rio de Janeiro, onde concluía o curso de Direito e logo esqueceu tudo” (Pág. 68).

Concluindo, diria que o livro de Iaponan Soares é um inesgotável manancial de informações sobre nossa vida cultural, além de constituir um agradável exercício de boa leitura.

______________________________
(*) O prefácio foi publicado também em meu Livro “Adeus, Rangel!”, ensaios, Balneário Camboriú/SC, Editora Minarete, 1994.

Escrito por Enéas Athanázio, 10/09/2018 às 12h48 | e.atha@terra.com.br

O JOVEM HEMINGWAY

O escritor norte-americano Ernest Hemingway (1899/1961), nascido em Oak Park, arredores de Chicago, transformou-se num dos mais lidos e populares autores da literatura mundial e um dos nomes da primeira linha das letras de seu país. Além disso, teve a fortuna de encontrar dedicados e competentes biógrafos que souberam registrar sua trajetória de vida e sua carreira de homem de letras, fator importante para a sobrevivência de qualquer autor. Entre os que o biografaram, destacam-se, entre outros, Carlos Baker, autor da mais completa obra a respeito, em dois alentados volumes, o britânico Anthony Burgess, A. E. Hotchner, que muito conviveu com o escritor em seus últimos anos de vida, Milt Machlin, que escreveu uma biografia de excelente leitura, e Peter Griffin, que se dedicou a reconstituir a existência do escritor na sua juventude, desde o nascimento até o primeiro casamento, com Hadley Richardson, no início de 1922. Outros autores também se entregaram à reconstituição da movimentada vida de Hemingway, na totalidade ou apenas em parte, inclusive no Brasil, mas creio que os mencionados são os mais significativos. O número de teses, ensaios, reportagens e matérias jornalísticas sobre Hemingway é imenso e se espalha por muitos países. É curioso lembrar que chegou a se tornar num dos mais lidos e populares na antiga URSS, ainda que nunca tivesse exercido qualquer atividade de natureza política.

Peter Griffin, em seu livro “O Jovem Hemingway” (Jorge Zahar Editor – Rio de Janeiro – 1987), realizou impressionante levantamento dos primeiros vinte e dois anos do escritor. Seu livro é minucioso ao extremo, contendo numerosas datas e muitas vezes até horários em que ocorreram certos fatos. Para tanto o autor teve que examinar avultado número de cartas, tanto de Hemingway e sua primeira esposa como de outras pessoas, os diários da mãe do escritor, manuscritos em diversos volumes, além da impressionante bibliografia existente sobre o tema e depoimentos de inúmeras personalidades. O resultado foi um livro documental, embora com sabor de romance, e que esclarece pormenores não abordados por outros autores. E como se diz que sobre um grande artista das letras tudo é importante, este livro é indispensável aos aficionados do romancista de “O Velho e o Mar.”

A leitura revela, entre outros fatos, que não foi nada fácil o início da carreira de Hemingway. Depois que concluiu o secundário e não quis ingressar numa universidade, para desgosto de seu pai, o médico Clarence Hemingway, o jovem candidato a escritor começou a duras penas o aprendizado. Passou uns tempos cuidando da fazenda paterna, exercendo um trabalho braçal, depois fez um longo estágio como foca de um grande jornal e, por fim, instalou-se em Chicago para trabalhar em publicidade. Esse foi um período duro, vivendo em acomodações miseráveis, alimentando-se mal e vestindo-se ainda pior, embora trabalhando com afinco para afiar o instrumento de trabalho – a linguagem literária. Escrevia e escrevia, lendo, estudando e observando, procurando absorver os ensinamentos dos mestres sobre a arte difícil de escrever. Além disso, exercitava-se de todas as formas, inclusive no box, embora não tivesse uma saúde das melhores. O grandalhão que parecia forte como um touro, na verdade padecia de vários males, entre eles uma renitente inflamação da garganta. Também namorava, bebia e se divertia com os amigos, enquanto tratava de economizar para voltar à Itália, onde pretendia se fixar após o casamento. Copiosa correspondência foi trocada entre ele e Hadley, revelando que a noiva também era doentia, nervosa e insegura, tudo indicando que o casamento estava fadado ao fracasso, como deveras aconteceu.

Sherwood Anderson, escritor célebre e admirador de Hemingway, convenceu o novo colega de que seu lugar não estava na Itália mas em Paris, onde Gertrude Stein, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound e James Joyce pontificavam e a “geração perdida” buscava conquistar o seu espaço. Hemingway e Hadley trocaram as liras economizadas por francos e partiram para a Cidade Luz, onde foram residir num minúsculo apartamento situado sobre uma serraria. Ali o escritor deu a arrancada na direção no Prêmio Nobel, coroando uma das mais belas carreiras das letras universais.

Escrito por Enéas Athanázio, 03/09/2018 às 13h13 | e.atha@terra.com.br

Por ares nunca dantes navegados

O mundo reconhece a importância dos inventos de Alberto Santos Dumont, em especial o voo pioneiro com o mais pesado que o ar. No entanto, a vida e as peripécias do inventor para chegar a tal resultado nem de longe são conhecidas. Elas se perderiam no esquecimento, não fosse o trabalho ressuscitador e justiceiro dos biógrafos, a exemplo de Fernando Jorge em seu magnífico livro “As lutas, a glória e o martírio de Santos Dumont”, publicado por Harper Collins Brasil (São Paulo – 2018). É um trabalho minucioso, fundamentado em imensa pesquisa, rigoroso na escolha das fontes e que rastreia os passos do menino mineiro que gostava de balões, de máquinas e de pássaros até o inventor genial que deu asas ao homem e permitiu que ele voasse por ares nunca dantes navegados. Enfrentando toda sorte de obstáculos, afrontando o perigo em suas experiências, sobrevivendo a graves acidentes mas persistindo sempre, acabou por conquistar a glória merecida como, acredito, nenhum outro brasileiro havia conseguido. “Perseverar é cair sete vezes e levantar-se oito”, segundo o provérbio japonês que deveria norteá-lo.

Aclamado onde passasse ou estivesse, era cercado por multidões que desejavam homenageá-lo em solenidades, banquetes e recepções, com discursos, músicas e poemas. Até mesmo as pequenas estações onde faziam escalas os trens em que viajava se viam tomadas pelo povo sequioso por homenageá-lo. Havia uma verdadeira febre de homenagens, o que levou Monteiro Lobato a escrever:

“Não se fala, não se vê, não se ouve, não se come, não se sonha outra coisa que não seja ele, sempre ele, com o histórico panamazinho, sempre sob todas as formas, em todos os estilos, nas gravuras, nos trocadilhos, nos discursos, nos jornais, nos telegramas, nas petas, nos teatros, nos concertos, no céu, na terra, em toda a parte; é sempre ele, é sempre o ilustre brasileiro, o intrépido aeronauta, escalavrado de comentários patrióticos, arranhado, mordido, disputado, é sempre ele, o santo, o herói supremo, o mártir da retórica nacional, o impávido gigante saído incólume dos treze discursos com que Taubaté chimpou-lhe a coragem” (p. 258).

Ou muito me engano, ou vislumbro no texto um fiapo de inveja do jovem Lobato. É de reconhecer, porém, que o culto a Dumont chegou às raias do exagero e tudo indica que ele próprio se sentia constrangido com isso.

Ao contrário do que faziam outros inventores, Dumont realizava suas experiências em público, sob os olhares atentos do povo, com a presença de inúmeros parisienses e da imprensa. O livro está recheado de fotos que assim o comprovam. Ele não escondia os fracassos e buscava o testemunho dos observadores nos sucessos.

O dia 13 de setembro de 1906 se tornou histórico porque pela primeira vez um homem se elevou ao ar por seus próprios meios. Ali Alberto Santos Dumont conquistava “uma glória colossal, ruidosa, incontrolável, esplendente...” Era um dos loucos voadores que teimavam em vencer o que parecia impossível. “E não condenemos todos os malucos de ideias extravagantes: sem eles o mundo se tornaria demasiado enfadonho” – escreveu Fernando Jorge.

Sempre elegante nos seus ternos impecáveis, colarinhos engomados e gravatas estilosas, cobrindo-se com o célebre panamá desabado, até mesmo nas suas experiências, Santos Dumont fruiu a maior glória já atribuída em vida a um brasileiro. Não obstante, entrou em irrefreável processo de profunda depressão que o conduziu a um trágico destino na praia do Guarujá, no litoral paulista. Foi atendido na ocasião pelo escritor Raimundo de Menezes, então delegado de polícia na cidade. Muitos de seus objetos pessoais se encontram em sua casa de Petrópolis, conhecida como a Encantada, hoje convertida em museu.

Escrito por Enéas Athanázio, 27/08/2018 às 10h49 | e.atha@terra.com.br

UM LIVRO ENCICLOPÉDICO

A língua é o maior patrimônio cultural de um povo. Ela registra sua história, lutas, conquistas, vitórias e derrotas. Documenta, enfim, a própria existência do povo e sua transformação em nação. Acima de tudo, permite a comunicação e o entendimento entre as pessoas. É uma entidade viva, em constante transformação, absorvendo influências de outras línguas e criando palavras novas em função do meio e das circunstâncias históricas. É merecedora do maior respeito. O perfeito domínio de uma língua é tarefa complexa, exigindo dedicação e estudo.

Numerosas são as línguas conhecidas, parte delas com seus dialetos, muitas faladas por grande quantidade de pessoas e em permanente expansão, outras minguando por ausência de falantes e até se extinguindo. Segundo a lenda, a diversidade linguística foi um castigo aplicado à pretensão humana de chegar ao céu com a construção da Torre de Babel. Os trabalhadores se desentenderam e as línguas se transformaram em sério obstáculo ao convívio humano. Para solucionar o problema, várias tentativas de criar uma língua universal aconteceram ao longo da História, a exemplo do Esperanto.

Muitas línguas de grande importância no passado desapareceram mas delas se originaram outras, vivas e faladas até hoje por grandes multidões ao redor do planeta. Foi o caso do Latim, idioma oficial da poderosa Roma, e das línguas germânicas faladas ao norte da Europa. Insatisfeito com as informações encontradas sobre o tema, o Prof. Adovaldo Fernandes Sampaio, filólogo e humanista de renome, se entregou à árdua tarefa de empreender um levantamento tão completo quanto possível das línguas e dialetos neolatinos e germânicos, cujo número se revelou maior do que o imaginado. Depois de uma pesquisa exaustiva, percorrendo imensa bibliografia, e se valendo de questionários submetidos a inúmeras pessoas espalhadas pelo mundo, deu a público o livro “Línguas e Dialetos Românicos e Germânicos”, publicado pela Editora Kelps (Goiânia – 2010). Trata-se de uma obra enciclopédica pela incrível quantidade de elementos informativos, realizada com apurado didatismo, fundamentada em sólidas fontes e elaborada com esmero.

Abre-se o livro com um quadro geral das línguas e dialetos românicos (Orbis Romanus) e que são os seguintes: Português, Galego, Francês (D’Oil e D’Oc), Valão, Italiano, Piemontês, Genovês, Espanhol, Moçárabe, Aragonês, Asturiano, Catalão, Occitano, Franco-Provençal, Reto-Românico, Sardo, Corso, Dálmata e Romeno. Fornece, a seguir, minuciosas informações a respeito de cada uma e relaciona seus múltiplos dialetos. Ficou-me a impressão de que o Italiano é a que conta com maior número de dialetos, sendo a Itália um país multilíngue. É impressionante a riqueza linguística que herdamos do Latim, idioma hoje descurado e cujos rudimentos não são ministrados nem sequer aos acadêmicos de cursos de Direito e que muito contribuiriam para a compreensão dos numerosos institutos jurídicos que nos vieram de Roma. Como elemento de comparação entre os diversos idiomas, o Autor publica o Pai-Nosso e a Ave-Maria traduzidos para cada um deles.

Idêntico processo é usado em relação aos idiomas germânicos, com o acréscimo de um minidicionário. São curiosidades as orações mencionadas vertidas ao Iídiche, ou judeo-alemão, escritas em caracteres hebraicos que mais parecem elaborados desenhos. Não são menos curiosas em Africâner. Não poucas línguas germânicas soam estranhas aos nossos ouvidos.

O alentado livro revela um Autor de vasta erudição, conhecimento linguístico e histórico, inclusive da História antiga de vários povos, e também da Geografia com suas mutações no correr dos tempos em virtude de guerras, invasões, disputas territoriais e toda sorte de contatos entre povos diferentes que conduziram suas línguas nativas, ocasionando recíprocas modificações. Só a visão panorâmica e segura do Autor permitiu a realização desta obra.

Para encerrar, permito-me transcrever a Ave-Maria em Latim, lembrando os distantes tempos em que tínhamos que rezá-la antes das refeições no velho internato:

Ave, Maria!

Ave, Maria, gratia plena;
Dominus tecum;
benedicta tu in mulieribus
et benedictus fructus
ventris tui Jesus.

Sancta Maria,
mater Dei, ora pro nobis
peccatoribus, nunc et in
hora mortis nostrae.
Amen.

Escrito por Enéas Athanázio, 20/08/2018 às 15h27 | e.atha@terra.com.br

OCASO

Amigo e confidente de Adolf Hitler, Albert Speer gozou de invulgar prestígio durante o III Reich. Arquiteto de formação e apolítico por temperamento, mesmo assim caiu nas graças do ditador, integrou o grupo de sua intimidade e se transformou no arquiteto do regime. A ele foram confiados importantes projetos e seria o encarregado de projetar as grandiosas obras para a futura Germânia em que se transformaria Berlim como a capital do mundo após a vitória nazista e a dominação global. Foi nomeado Ministro do Armamento, posição de relevo na máquina de guerra, o que lhe permitiu uma aproximação incomum com o ditador, inclusive nos últimos dias de sua vida, quando o sonho de poder mundial se desvaneceu ante o cerco de Berlim pelas tropas soviéticas e a inexorável derrota na guerra. Com o fim das hostilidades, Speer foi preso, julgado pelo Tribunal de Nuremberg e condenado a vinte anos de reclusão na penitenciária de Spandau.

Cumprida a longa pena e colocado em liberdade, Speer concedeu inúmeras entrevistas ao escritor Joachim Fest, o biógrafo de Hitler e especialista mundial em nazismo, fazendo importantes revelações sobre o período da guerra, as atividades do governo e, em especial, sobre o comportamento de Hitler em seu ocaso. Com o título de “Conversas com Albert Speer”, o livro foi lançado no Brasil pela Editora Nova Fronteira (Rio de Janeiro – 2012).

Segundo ele, Hitler seria incapaz de algum gesto ou ato de amor, acreditando que nem mesmo com sua companheira, Eva Braun, tenha havido algo de mais íntimo. Seria incapaz “de fazer até mesmo um pequeno gesto amoroso a outra pessoa, como exige o ato sexual.” Sua atitude em relação a ela seria mais de gratidão por acompanhá-lo até a morte. Temperamento de altos e baixos, o ditador tinha verdadeiros acessos de fúria e momentos de recolhimento com longos períodos de mutismo e até mesmo de soluços e lágrimas. Desejava ficar na história muito mais como protetor das artes que como chefe militar. Tinha verdadeira obsessão pela morte, desejava ser cremado para que não fosse desonrado pelos inimigos e queria ser sepultado no alto de uma torre para ficar bem acima. Imaginava-se em condições idênticas aos de grandes heróis do passado, cujas virtudes admirava, e aos quais se igualava. Chegou a declarar, mais de uma vez, que gostaria de entrar para a história “como um homem que o mundo jamais conhecera” Afirmou Speer que tais foram suas palavras textuais. Seu objetivo, afirmou, seria conquistar a fama por quatro vias: pensador, estadista, patrono das artes e militar invencível.

Os fatos, porém, não permitiram a realização de suas ambições e à medida em que os Aliados venciam ele entrou em pânico. Segundo Speer, adquiriu uma aparência frágil, tornou-se trôpego e nervoso, seus braços tremiam muito, em especial o esquerdo, e sua autoridade entrou em visível declínio. A ordem de praticar a operação “terra arrasada” não foi obedecida e até mesmo nos pequenos atos seu desgaste ficou evidente. No “bunker” onde se refugiava, os subordinados nem mesmo se levantavam em sua presença e até fingiam não vê-lo. Quando o planejado contra-ataque final não aconteceu, foi tomado por violento ataque de fúria. Mesmo correndo risco de vida, Speer foi visitá-lo e se despedir antes do final que já se desenhava próximo. Como todos os ditadores, Hitler teve um fim trágico e violento.

Quanto a Speer, jamais confessou que soubesse das atrocidades do regime, em especial do genocídio dos judeus. Admitiu, quando muito, que alimentava suspeitas em virtude de algumas conversas ou indícios, mas nunca explicou porque não procurou se informar a respeito. Ao que parece, preferiu ignorar. É verdade que considerava o anissemitismo uma anomalia e nunca se enquadrou bem aos postulados nazistas, tornando-se conhecido como o “bom nazista.” Não explicou também sua atitude contraditória de servir a um regime e a seu chefe sem convicção. Não obstante, escapou da pena de morte, cumpriu a pena e ainda viveu muitos anos, tendo publicado livros sobre sua experiência. Também não soube explicar como um povo educado e esclarecido foi conduzido como um rebanho para a derrota e o caos.

Escrito por Enéas Athanázio, 14/08/2018 às 09h40 | e.atha@terra.com.br



1 2 3 4 5 6

Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade

Fale Conosco - Anuncie no Página 3 - Normas de Uso
© Desenvolvido por Página 3

Endereço: Rua 2448, 360 - Balneário Camboriú - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: jornal@pagina3.com.br