Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

Rum e Lama

Romances de amor nunca saem de moda. Existe considerável quantidade de leitores fiel ao gênero. Romances como “Amor de Salvação” e “Amor de Perdição”, de Camilo Castelo Branco, fascinam até hoje numerosas pessoas, em que pese sejam muito antigos. Outros tantos exemplos poderiam ser lembrados. Aliás, a palavra romance, num dos seus sentidos lineares, significa história amorosa.

A produção de um romance exige de seu autor muito fôlego e paciência para escrever textos longos, recheados de incidentes e envolvendo muitos personagens. A escritora catarinense Adair Dittrich revela possuir tais qualidades em sua primeira obra romanesca: “Rum na Lama Vermelha”, publicada pela Editora da UNIUV (2017).

Ambientada numa pequena e remota cidade do interior, destituída dos chamados melhoramentos urbanos, com suas ruas poeirentas nos tempos de seca e com lama vermelha nas chuvaradas, a história decorre num meio rude e pobre onde todos se conhecem e a vida de cada um é vigiada por olhos curiosos. Ali acontece a aproximação de uma médica jovem e bonita com um farmacêutico boêmio inveterado, amante dos bares e do cuba-libre. Ela é uma pessoa sensível, dedicada à profissão e preocupada com a precária condição sanitária dos moradores da cidade e dos arredores. Ele é descuidado, acostumado a dormir até tarde e a gastar suas noites bebericando. Dois temperamentos díspares, indicando um relacionamento problemático. Não obstante, se apaixonam e têm momentos de mútua e total entrega.

Os empecilhos à realização desse amor não são poucos. Enfrentam a oposição do outro médico da cidade e, mais ainda, da esposa dele, uma mulher dada à maledicência descontrolada, ou seja, uma “faladeira”. A maledicência não parte apenas dela, mas também de outras pessoas. As insinuações, os risinhos maldosos, os gestos tendenciosos, sem esquecer a maledicência pesada, aquela que parece urdida para provocar tragédias e desgraças. Mas os apaixonados tudo enfrentam e até planejam recomeçar a vida em outra cidade.

O amor, no entanto, nunca se realiza por inteiro e o rapaz acaba perdendo a amada. Cenas de ciúme, sempre provocadas por ele, discussões, desentendimentos, desconfiança. São circunstâncias que se interpõem no caminho e acabam por separar o rapaz e a moça, apesar de várias tentativas frustradas de reatar o relacionamento. O rompimento é doloroso, traumático, uma punhalada no coração. O casal se ama mas não consegue conviver.

Após longa separação, sobrevém o inesperado, a nota trágica que envolve o rapaz e surpreende o leitor. Para completar, há momentos surreais vividos pelo personagem Joel, o rio e suas águas barrentas. Nada falta, enfim, na trama romanesca.

O romance contém muito de memorialismo, refletindo fatos da vida de sua autora, assim como de suas experiências como médica. O relato é feito em segunda pessoa, o que é bastante raro, mas a autora demonstra dominar com segurança as normas da língua. Também chama a atenção o uso da forma indireta ou inversa das frases, colocando o verbo sempre no final. São detalhes de um estilo próprio e pessoal, pois, como dizia Monteiro Lobato, o estilo é como o nariz, cada um tem o seu.

O romance de Adair é bem estruturado, cada episódio está no lugar e no tempo próprio, os personagens são coerentes e bem definidos, e a leitura prende o leitor curioso até a derradeira página.

Escrito por Enéas Athanázio, 15/01/2018 às 09h25 | e.atha@terra.com.br

O método de não ter método

O comissário Jules Maigret, integrante da Polícia Judiciária francesa e o mais célebre personagem do escritor belga Georges Simenon (1903/1989) é um investigador diferente e que costuma desvendar seus casos de uma maneira muito particular, o que nunca o impediu de chegar a bom resultado. Homem grande e pesadão, envergando sempre o sobretudo preto com gola de lã e sugando o inseparável cachimbo, ele se mostra apático e indiferente diante do crime, mas, na verdade, está atento a tudo e com a máquina cerebral funcionando a todo vapor. Muitas vezes desconcerta as pessoas quando olha para quem fala com seus imensos olhos, fixando-a de perto e, de repente, “grunhir algo ininteligível e virar as costas com jeito de não considerar o outro grande coisa.” Indagado a respeito de algum aspecto, responde sempre: “Não acho nada! Não deduzo nada!” Quando um membro mais jovem de sua equipe procura imitá-lo, explica como procedeu num caso: “Fiz a investigação às avessas, o que não me impedirá, talvez, de fazer a próxima às direitas. É uma questão de atmosfera. Uma questão de caras. Quando cheguei aqui, dei com uma cara que me seduziu e não a larguei mais.”

Aí o comissário se referia à investigação realizada no romance “O Cachorro Amarelo”, publicado pela Cia. das Letras (S. Paulo – 2014) e cujo resultado foi perfeito. Nele, a cidade praiana de Concarneau, tão antiga que ainda ostenta muralhas medievais cercando um populoso bairro, se vê de repente assolada por uma série inexplicável de crimes violentos e que deixam em pânico a população. Maigret para lá se dirige, instalando-se no Hotel de L’Amiral, cujo bar é o ponto de encontro das pessoas gradas: o prefeito, o médico (que não clinica), o jornalista, o negociante matriculado e outros. E nesse caso, como em nenhum outro de que me lembro, fica mais visível que nunca que o método investigativo do célebre comissário é mesmo a falta de método. No correr da leitura fica a impressão de que ele mais adivinha que descobre, mas, no final, o leitor percebe que todos os detalhes se juntam com exatidão como um quebra-cabeça.

É então que entra em cena um misterioso cão amarelo. Grandalhão, desajeitado, feio, sem raça definida (SRD), ninguém o conhece ou sabe a quem pertence. Silencioso e humilde, o animal costuma entrar no bar e ali se enrodilhar aos pés da garçonete Ema, figurante obscura na história e que nem sequer chega a ser mais ou menos bonita. Há no ar vago comentário de que o cão poderia pertencer a um embarcado. Mas fica nisso e, no entanto, nele está a chave do mistério que envolve a série de crimes que vêm ocorrendo. E através do mísero cão, que acaba baleado e morto, o comissário desvenda a trama antiga de um vultoso contrabando de drogas que fracassou e do qual participaram várias pessoas da cidade, entre elas aquela sobre a qual ninguém lançaria a menor suspeita. Tudo termina bem e sobrevém até um final feliz pouco comum no fecho de suas obras.

Simenon foi um prodígio de produtividade. Em seus 86 anos de vida escreveu assombrosa quantidade de obras sem decair na qualidade. Romances, novelas, contos, crônicas, artigos, reportagens e páginas de memórias, estas últimas pouco valorizadas porque, segundo a crítica, são por demais fantasiosas e fogem à realidade. Seu biógrafo Pierre Assouline registrou 171 obras, maiores ou menores, escritas por ele sob pseudônimos e 232 já como Georges Simenon, dentre as quais cerca de 200 romances, e sem contar várias coletâneas posteriores reunindo textos esparsos. Para compensar, a quantidade de trabalhos sobre sua vida/obra é espantosa, sendo detentor de uma das maiores fortunas críticas entre os autores modernos. Sua ficção tem sido aproveitada pelo cinema e televisão, existindo incontáveis filmes nela inspirados.

“O Cachorro Amarelo”, agora publicado pela Cia. das Letras, merece leitura. Existem alguns defeitos visíveis de tradução, como repetição desnecessária de vocábulos e vários lugares-comuns que, por certo, não devem estar no original e que poderiam ser evitados.

Escrito por Enéas Athanázio, 08/01/2018 às 10h45 | e.atha@terra.com.br

Hemingway e suas histórias

Ernest Hemingway (1899/1961) foi um “causeur” admirável e suas histórias encantavam os amigos que sempre o cercavam, sequiosos por ouvirem os relatos do Velho Hem. Essas histórias, por inverossímeis e absurdas que fossem, eram sempre contadas com seriedade, sem que esboçasse sequer um sorriso, intrigando os ouvintes admirados de sua inesgotável criatividade. Só relatava histórias que não seriam aproveitadas em sua ficção, nunca aquelas que integrariam os enredos de seus contos e romances. É por isso que se costuma afirmar que ele deixou uma outra obra, oral e paralela, nunca recolhida aos livros.

Muitos desses casos foram anotados por seus biógrafos e mais tarde divulgados. A. E. Hotchner, amigo íntimo do escritor e que com ele conviveu na última fase da vida, tornando-se depois um de seus melhores biógrafos, registrou algumas dessas histórias.

Segundo ele, havia um enorme urso negro que costumava sentar-se no meio da estrada, impedindo a passagem e atemorizando as pessoas. Sabedor do fato, Hemingway teria se dirigido ao local e passado tremenda descompostura no urso, criticando sua conduta inconveniente e que poderia, inclusive, provocar uma tragédia. Para geral surpresa, o animal baixou a cabeça, retirando-se do local e penetrando na floresta. Dali em diante, ao avistar algum carro, o urso se escondia atrás das árvores, tremelicando de medo, temeroso de que nele estivesse o escritor. Indagado a respeito, Hemingway asseverou que havia aprendido a falar com animais, em especial com ursos e leões.

Relata o mesmo autor que Hemingway muito apreciava certo bar de Nova York. Mas aconteceu que um ex-pugilista peso médio deu para aparecer no local tangendo pela corda um grande leão. Embora o animal fosse manso, não rugindo ou grunhindo, costumava sujar o local, provocando náuseas nos frequentadores e mau cheiro no ambiente. Diante disso, o proprietário do bar pediu ao pugilista que não levasse mais o leão ao seu bar, mas ele não atendeu e no dia seguinte lá apareceu com ele. Quando o leão sujou outra vez o soalho, Hemingway não se conteve. “Eu me aproximei, agarrei o pugilista, carreguei-o para fora e joguei-o na rua. Depois voltei, agarrei o leão pela juba e o pus para fora daqui. Já na calçada, o leão lançou-me um olhar, mas afastou-se quietamente” – arrematou o próprio escritor.

Em outra ocasião, relatou ele que nos tempos em que fora correspondente de guerra havia um escritor de “renome” que costumava furtar suas histórias “tão rapidamente quanto eu as escrevia, mudar os nomes dos personagens e dos lugares e vendê-las por mais dinheiro do que eu obtinha. Mas encontrei uma maneira de detê-lo. Deixei de escrever por dois anos, e o filho da mãe morreu de fome.” 

Nos tempos difíceis que viveu em Paris, habitando minúsculo apartamento sobre uma serraria, a comida nas panelas era fraca – contava ele. Gostava muito do Jardim de Luxemburgo porque “nos dias em que a panela do jantar se achava absolutamente vazia de conteúdo, eu colocava Bumby (o filho), que tinha então cerca de um ano de idade, no carrinho de bebê e levava-o a passear no Jardim. Havia sempre, lá, um gendarme em serviço, mas eu sabia que, ali pelas quatro horas, ele costumava ir tomar um copo de vinho num bar situado do outro lado do parque. Era então que eu aparecia com Mr. Bumby – e um punhado de milho para os pombos. Sentava-me a um banco, em meu disfarce de amante apaixonado de pombos, e examinava o bando, para ver qual era o mais gordo e tinha os olhos mais vivos. Uma vez feita a minha escolha, era simples atrair a vítima com o milho, agarrá-la, torcer-lhe o pescoço e metê-la sob o cobertor de Mr. Bumby.” E, muito sério, concluía: “O Luxemburgo sempre foi famoso pela excelência de seus pombos...”

Em outra ocasião, relata o biógrafo Milt Machlin, um soldado de seu batalhão de “provisórios”, indagou porque ele, com tantos serviços prestados e tanta idade nunca passara de capitão. (Na verdade nem militar ele era). Para espanto geral, respondeu: “É que não pude ser promovido porque não sei ler nem escrever....”

São uns poucos exemplos da conhecida obra oral e paralela de Ernest Hemingway.

Escrito por Enéas Athanázio, 02/01/2018 às 09h17 | e.atha@terra.com.br

Memória

O Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina (IHGSC) publicou suas memórias. “Memória do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina”, organizada por Iza Vieira da Rosa Grisard, com a colaboração de Marly A. F. B. Mira, cobre o período de 1896 a 2014 e foi publicada em livro em 2015. É uma homenagem a José Arthur Boiteux, idealizador, proponente do nome, um dos fundadores e presidente da entidade, segundo a organizadora. “Conhecer aqueles que fundaram o IHGSC, – escreve ela – que participaram e contribuíram para o desenvolvimento dessa instituição científica e cultural essencial para o Estado de Santa Catarina, revelou-se não só necessário quanto oportuno para sua história” (p. XV).

Com esse propósito, ela mergulhou em infindáveis leituras de atas, registros e documentos para reconstituir a biografia de uma entidade com fundas raízes em nosso passado histórico. O resultado foi um livro fundamentado e minucioso que retrata a ação do Instituto dos primórdios aos nossos dias.

A primeira parte aborda a vida administrativa, as atas e as diretorias que comandaram a entidade, reproduzindo alguns documentos originais. Em seguida aparecem as notas biográficas dos que exerceram a presidência, iniciando-se por Hercílio Pedro da luz e concluindo com Augusto César Zeferino, atual ocupante do cargo, destacando as realizações de cada um. Na terceira parte são descritas e comentadas as insígnias e as sedes, indicando o significado de cada uma das primeiras, com reprodução de suas imagens. As sedes onde funcionou o Instituto são comentadas em detalhe, com realce para a Casa de Santa Catarina. Também as respectivas fotos são publicadas. A atual sede, prédio ilustre e de rico passado, mereceu abordagem especial. Foi o antigo Instituto Politécnico, hoje Casa de José Boiteux, um edifício imponente, de linhas clássicas e elegantes, onde o Instituto está instalado de maneira condigna.

Seguem-se os estatutos de 1896, 1939, 1971, 1984, 1997 e 2013, acrescidos de comentários que mostram a evolução da entidade, sua organização, métodos de ação e atualização aos novos tempos. Convênios e parcerias são relacionados com seus detalhes.

O quadro associativo merece capítulo especial. São relacionados o presidente honorário, os presidentes e vice-presidentes perpétuos, os membros fundadores e eméritos, os membros efetivos, correspondentes, honorários e beneméritos. As atividades científicas e culturais abrangem congressos, ciclos de estudos, simpósios, cursos, encontros, reuniões, colóquios, paineis, seminários, concursos e fórum, registrando intensa realização nas áreas científica e cultural. Comendas, prêmios e sessões especiais, solenes e comemorativas também são relacionadas, além das publicações do Instituto, como a revista, a coleção catariniana, a série de ensaios e o boletim mensal. Anais, livros, biblioteca, catálogos dos livros digitalizados da Família Boiteux, trabalhos de alunos, periódicos e documentos também merecem minuciosa descrição.

Trata-se, enfim, de um retrato fiel do Instituto como, creio eu, jamais fora realizado.

“A presença do IHGSC, - escreveu Jali Meirinho – no contexto cultural do Estado de Santa Catarina, já está se findando na primeira vintena do seu segundo século de existência, personalizando-o como agente perene de ações interessadas na constituição de estímulos à preservação da memória, formação de acervos e incentivo ao conhecimento do ser catarinense.”

Como demonstra em detalhes esta interessante “Memória”, o IHGSC é uma entidade vitoriosa e tem realizado em plenitude sua importante função científica e cultural. E a organizadora, sua colaboradora e o Instituto merecem efusivos aplausos.

“Tem o Instituto uma sede. Vive. Viverá.
Preservar, preservar; meu caro Lucas. E triunfa-se!
Como é bom triunfar...”
Palavras de José Boiteux ao irmão Lucas, em 1915, prevendo o profícuo futuro da Instituição.

Escrito por Enéas Athanázio, 27/12/2017 às 16h59 | e.atha@terra.com.br

Zorico contra a Lumber

A formação do chamado Homem do Contestado foi lenta e complexa. Juntaram-se na região os índios, os caboclos autóctones e as levas de gaúchos que se retiraram das revoluções do sul. Gerou-se, em consequência, um habitante com características bem definidas, agarrado ao chão natal, sua geografia, paisagem, flora e fauna típicas da região serrana. Vivendo nos seus ranchos de madeira bruta e cobertos de tabuinhas, explorando a erva-mate, cultivando roças de manutenção e criando seus animais, ali consumia seus dias na paz bucólica daquele sertão. Gerações se sucediam na posse imemorial de terras que nunca precisaram de documentos e que ninguém jamais contestou. Mas o monge João Maria, de longa data, havia profetizado que um monstro de ferro e fogo invadiria o sertão, alterando em tudo o modo de vida daquele povo. Tratava-se do trem-de- ferro, cujos trilhos avançavam sem cessar, trazendo consigo inovações preocupantes. E atrás dele vieram as colonizadoras, em especial a célebre Companhia Lumber, um dos braços do chamado Sindicato Farquhar, que havia recebido uma faixa de quinze quilômetros em cada margem da ferrovia para explorá-la como bem entendesse. Tudo feito nos gabinetes, ignorando a presença dos posseiros, como se estes não existissem. Não tardam a iniciar os despejos sumários e violentos dos posseiros das terras por eles ocupadas dês que o mundo é mundo.

A maioria dos posseiros expulsos reunia o pouco que tinha e se punha nas estradas, mesmo porque contra a força não há resistência. Muitos iriam engrossar a caudal de miseráveis que formariam os redutos que, pouco mais tarde, ingressariam na história da Guerra do Contestado. Alguns poucos, porém, decidiam resistir à sua maneira, mesmo intuindo que se tratava de uma atitude suicida. Foi o caso de Zorico Tamanqueiro, assim conhecido pela rara habilidade com que fabricava tamancos. Inconformado com o despejo, decidiu reagir e realizou uma defesa muito peculiar, aproveitando o conhecimento que tinha da região, suas florestas e seus acidentes.

Tão logo o chefe do grupo de emissários cuspiu no chão e determinou que Zorico desaparecesse antes que seu cuspe secasse, o caboclo pôs em prática sua estratégia e iniciou um combate desesperado e desigual em armas e homens. Traquejado naqueles ínvios, senhor de cada detalhe das redondezas, Zorico se valeu da surpresa e da astúcia e foi eliminando um a um os integrantes do grupo, provocando inclusive a confusão entre eles, o que facilitou sua luta. Para completar, submeteu o chefe a uma humilhação sem precedentes. Naquelas horas de luta Zorico se alçou à condição de um super-herói, embora ciente de que a retaliação viria, violenta e brutal. No entanto, ainda que por pouco tempo, ele pôde saborear o gosto da vitória numa terra de derrotados. “Zorico Tamanqueiro fez seu cavalo empinar, encheu os pulmões com aquele ar que vinha respirando desde criança e soltou um extenso e forte grito de sapucaí que reverberou pelas coxilhas, igual ao grito de guerra de seus antepassados.”

Essa é, em linhas gerais, a trama do romance “Contestado: que o povo fique com a história”, de autoria de Pedro Penteado do Prado (Nova Letra – Blumenau – 2016). Nele, a ficção parece expressar o agudo sentimento de um povo que foi explorado pela ganância sem limites das multinacionais em conluio com vendilhões da pátria.

O volume é recheado de ilustrações, fotografias, mapas e documentos, alguns deles raros e difíceis de encontrar. Reproduz até mesmo as notas de dinheiro utilizadas pela Lumber e que só tinham curso em seus próprios armazéns, prática proibida pela legislação brasileira mas exercida às claras. Lembra ainda que a Lumber tinha suas próprias leis e suas sedes funcionavam como território americano dentro do país, festejando inclusive o 4 de julho, dia da independência dos Estados Unidos.

O sentido do romance é claro: evidencia que nem todos os brasileiros se rendem com facilidade e existem aqueles que resistem, ainda que nas piores circunstâncias.

O autor é professor de Química, integrante da Academia de Letras de Canoinhas e publicou “O Pássaro Abatido” e “Mácula”, além de livros de sua especialidade.

Seu romance é uma boa contribuição para a estante do Contestado e segue rumos inovadores nos trabalhos sobre o tema.

Escrito por Enéas Athanázio, 18/12/2017 às 11h56 | e.atha@terra.com.br

Vaqueiro e poeta

“Crônica Memorista”, de autoria de José Peixoto Júnior (Editora Kelps – Goiânia – 2017) é um livro escrito com o coração. Ele contém as remembranças de um homem vivido, calejado e sofrido, mas nem por isso brigado com a vida. Revela-se uma pessoa sensível, observador arguto e dono de admirável memória. Como dizia Gilberto Amado, soube prestar atenção à vida e rechear o minuto, condições indispensáveis a um bom memorialista.

Nascido nos ínvios da Chapada do Araripe, de origem modesta, com esforço e tenacidade foi galgando os degraus do sucesso. Estudou sem cansaço, muito aprendeu, conquistou posições. Perambulou no exercício de suas atividades por diversas cidades, cada uma delas deixando marcas nas recordações e, ao mesmo tempo, nelas deixando um pouco de si mesmo, como acontece com aqueles que a carreira leva por diferentes lugares.

Para mim, porém, o período mais interessante foi aquele em que Peixoto Júnior foi vaqueiro. Vaqueiro encourado, com peitoral, gibão, perneiras e chapéu de couro, varando a caatinga áspera e espinhenta na busca do gado xucro criado à solta. Essa fase é relatada no delicioso capítulo “Vaqueiro do derradeiro gado solto campeado na Serra Araripe.” Em linguagem típica, por ele ainda retida na memória de maneira admirável, o autor recorda os tempos aventureiros e brabos num meio rude, em contato com a natureza bruta do sertão nordestino. Apesar de tudo, eleva-se do texto uma aura de nostalgia, tanto pela ação em si como pelo tempo vivido e que já vai longe. Tudo se desenha de forma nítida aos olhos do leitor.

Num desses momentos, noite alta e céu límpido, o vaqueiro jovem observa pela primeira vez um eclipse total da lua, fenômeno jamais esquecido. Espera as reses, campeia-as nos seus pastos, as conduz estrovadas, está presente nos coletivos das apartações dos currais, reúne o gado pasteiro. Participa do esporte da vaquejada urbana, ainda recente naqueles dias, impetuoso pela força da idade, não decepciona seus pares. Enverga com orgulho a vestimenta de couro do vaqueiro, “traje romântico, uma armadura de cavaleiro. Dos pés à cabeça protege quem a veste, desde as chinelas de rosto fechado e as perneiras muito justas ao relevo das pernas e das coxas, o guarda-peito colado ao torso, o gibão amplo que mais acentua a esbelteza do homem e por fim o chapéu que é quase a cópia exata do elmo de Mambrino.” E assim entrajado, ele inflete a galope pelo mato a dentro, levando no peito tudo que encontra pela frente, a galharia batendo no peito, nos braços, nas pernas e até no rosto. Defende-se com extrema agilidade e conduz o cavalo com mão firme e segura.

Não raro, os acidentes acontecem.

“Zé nos encontrou caídos – relata ele -, um morto, um arquejando e este seu criado a gemer. Vinte e nove dias de motoro, perna entre duas telhas de barro, amarradas, e muito sumo de mentruz e caldo de pinto pilado com pena e tudo para o osso soldar.”

Os Zés não eram poucos. “Zé-de-Zeca é como me chamam desde eu vaqueiro – explica o memorista. – Somos três primos José e vaqueiros, ao mais velho coube o nome familiar, eu e Zé-de-Luna tomamos o nome paterno para a identificação quando necessário saber quem é quem de nós três.”

Essa vivência de memória saudosa revoluteia na cabeça do antigo vaqueiro e começa a retornar em forma de poemas, contos, novelas. As imagens da Chapada do Araripe, da qual manam as incontáveis fontes que fazem do Cariri um oásis em meio ao deserto, se transmudam em versos, as pessoas se transfundem em personagens, os idos e acontecidos são vertidos em contos, crônicas, novelas. O vaqueiro despiu o gibão, empunhou a pena, deixou de lado a luta com as bestas e travou-a com as palavras. Destacou-se na capital federal, sua obra se impôs, acabou presidente da Associação Nacional de Escritores (ANE).

Agora, neste livro saboroso, conta aos amigos e leitores o que viveu, sentiu e aprendeu. Tudo num estilo viril e movimentado como as lidas do competente vaqueiro que foi.

Escrito por Enéas Athanázio, 11/12/2017 às 10h59 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 48 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.
















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