Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

O idioma panlatino

A grande quantidade de línguas faladas no mundo dificulta o entendimento e a aproximação dos povos. Essa profusão de idiomas se deve, segundo a lenda, à Torre de Babel onde se implantou o caos linguístico como uma espécie de castigo à pretensão humana de atingir o céu. Afirmam os estudiosos que existem 2796 línguas vivas no planeta, classificadas em 12 grupos ou famílias linguísticas principais e 50 grupos secundários. Quanto mais distantes as raízes dos idiomas, mais difícil se torna a comunicação. Em face disso, ao longo da história, têm surgido projetos de implantação de línguas artificiais ou criadas, dentre as quais o esperanto tem sido a mais difundida e duradoura. Todas essas tentativas, no entanto, falharam e a babel idiomática continua.

William Agel de Mello, diplomata, escritor e consumado linguista, propõe uma solução diferente, inovadora e prática. Diante da impossibilidade da adoção de um idioma único em todo o mundo, como os fatos vêm demonstrando, sugere ele, com base em longos e acurados estudos, a fusão das línguas em grupos derivados da mesma raiz ou tronco. Haveria assim uma união de idiomas aparentados, aproveitando-se o que eles possuem em comum. Não seria uma substituição mas, “ao contrário, o retorno à unidade partindo da pluralidade.A ideia básica é a convergência das línguas numa língua única” – explica o ensaísta.

Com esse propósito, as línguas ficariam pertencendo a grupos designados como Pangermânicos, Pan-eslavos, Pancélticos, Panlatinos e outros. Como o nosso português é derivado do latim, integraria o grupo Panlatino, junto com o espanhol, o catalão, o provençal, o franco-provençal, o francês, o ladino, o sardo, o italiano e o romeno. Entrariam aí idiomas mais e menos falados, mas todos dando sua contribuição. Não se trata, portanto, de um idioma artificial como tantos outros, uma vez que nunca deixou de ser falado. Além de aproximar os homens, “entre as finalidades específicas destaca-se a de servir de veículo de comunicação entre os povos que falam línguas afins” – afirma o linguista, acrescentando: “A superlíngua assim formada é concomitantemente filha e irmã das que lhe deram origem. É uma, mas ao mesmo tempo todas. Outra vantagem incontestável das línguas submetidas à fusão é o fator tradução.” Como se sabe, a tradução de textos de uma língua para outra é uma atividade complexa e inçada de problemas.

Em seu livro “O Idioma Panlatino e outros ensaios linguísticos” (Editora Kelps – Goiânia – 2011), William Agel de Mello expõe em minúcia o projeto Panlatino e faz outras incursões no mundo das línguas. É admirável a segurança com que ele se move nesse intrincado universo, demonstrando completo domínio de tantos temas nele envolvidos, desde a história e  a geografia até os segredos e particularidades de inúmeros idiomas. Seu livro é um manancial inesgotável de informações a respeito das línguas em geral e do Panlatino em particular. Faz comparações e análises, estuda as afinidades e diferenças num trabalho único e que tem merecido a atenção de renomadas autoridades sobre o assunto. É um trabalho que deveria ser conhecido por todos nós, uma vez que é a língua que nos difere dos outros seres vivos.

O autor é também renomado africanista, conhecedor da África por dentro e por fora, historiador e ficcionista. Sobre ele Guimarães Rosa depositava esperanças de que realizaria uma grande obra literária, o que, de fato, aconteceu. Sua obra tem sido submetida ao crivo de numerosos intérpretes, tanto que tem ele nos dias atuais uma extensa e significativa fortuna crítica.

Seria o projeto Panlatino uma utopia? É possível, mas como diz o seu autor “qualquer tentativa, por mais humilde que seja, no sentido de facilitar a comunicação entre os povos é um bem à humanidade.”

Como seria o mundo se não existissem os utopistas?

Escrito por Enéas Athanázio, 14/05/2018 às 10h01 | e.atha@terra.com.br

A obra de Fernando Jorge

Romancista, cronista, ensaísta, dicionarista, crítico literário e polemista consumado, Fernando Jorge tem se notabilizado como exímio biógrafo. Gênero dos mais exigentes, a biografia depende de grande conhecimento em vários campos do saber, em especial da história, da sociologia e da própria psicologia humana para bem colocar o biografado no seu contexto e interpretar com segurança seus atos e ações. Exige ainda, e de maneira muito especial, a capacidade de narrar de tal forma a exibir o personagem vivo, agindo e reagindo, e não se limitando à mera exposição fria e mecânica de suas atividades durante a jornada terrena. Como se percebe, não se trata de tarefa fácil, tanto que inúmeras biografias não alcançam esse patamar e não passam de meros relatos fastidiosos e sem apelo ao leitor.

Entre as biografias que realizou, destacam-se as de Martinho Lutero, Getúlio Vargas, Paulo Setúbal, Olavo Bilac. Aleijadinho e Santos Dumont, sem contar inúmeras obras de outros gêneros, sempre fundamentadas e minuciosas. Está publicando agora a quinta edição de “As lutas, a glória e o martírio de Santos Dumont” (Harper Collins Brasil – S. Paulo – 2018), monumental ensaio biográfico que se impõe como definitivo do genial inventor mineiro. Alentado volume, com mais de quinhentas páginas, contém a exposição revista e ampliada da vida e das realizações de Dumont, sempre lastreada em criteriosas fontes de informação e cotejadas com a documentação existente. Como de costume, o autor não se contenta com pouco e vai a fundo em cada detalhe, buscando sempre a mais pura verdade. O livro é rico também em material iconográfico, exibindo raras e curiosas fotografias.

A obra vem sendo aclamada pela melhor crítica. Segundo a “Folha de S. Paulo”, o autor “associa seu laborioso trabalho de pesquisa a um texto bem cuidado e atraente. E é bom e oportuno que seja assim, que se enfoque com a merecida grandeza a importância desse mineiro ilustre que foi Santos Dumont. Todos os esforços nesse sentido são válidos e justos para referendar a excepcional contribuição do nosso inventor genial para o desenvolvimento tecnológico da aeronáutica.” O editor Luiz Fernando Emediato, por sua vez, afirmou que o livro é “uma longa, paciente e rigorosa pesquisa, expressa em texto claro, fluente e agradável.” E Brito Broca, referindo-se a outra obra de Fernando Jorge, declarou: “Livros dessa espécie, feitos com talento, amor e honestidade, constituem obra imorredoura.”

Com efeito, a leitura aprisiona o leitor que vai, página por página, desvendando a vida do menino que gostava de balões, dos pássaros e das máquinas, e que, mais tarde, com imensa coragem, singrou por ares nunca dantes navegados, até alcançar a glória nos céus de Paris e conquistar a consagração mundial. Focaliza os amores de Dumont e o seu propósito de permanecer solteiro “porque desejava ser livre para arriscar a vida como entendesse, sem causar dano a ninguém.” Aspectos delicados de sua vida são abordados de maneira discreta, inclusive a depressão que o levou ao trágico suicídio. É, enfim, um retrato de corpo inteiro, minucioso e veraz do notável inventor.

Fernando Jorge lançou outros livros de grande sucesso, entre os quais o célebre “Cale a boca, jornalista!”, levantamento bem documentado das agressões aos homens da imprensa em nosso país; “Vida e obra do plagiário Paulo Francis”, esmiuçando a obra do polêmico jornalista; “A Academia do fardão e da confusão”, abordando as grandezas e misérias daquele sodalício ao longo de sua história; “Se não fosse o Brasil, jamais Barak Obama teria nascido”, sustentando curiosa e inédita tese. Seu livro “Hitler, retrato de uma tirania”, fruto de dez anos de pesquisa, vai ser traduzido em vários países, inclusive na Alemanha. Mesmo com tão intensa produção, Fernando Jorge milita de maneira incansável na imprensa escrita.

Em reconhecimento à sua obra, recebeu o Prêmio Jabuti, o Prêmio Clio, a Medalha Koeler e o diploma e o medalhão comemorativo do centenário de nascimento de Santos Dumont, conferidos pelo Ministério da Aeronáutica. Polêmicas célebres, por ele travadas com bravura e conhecimento, integram os anais jornalísticos do país. É hoje um dos mais conhecidos e lidos escritores nacionais.

Escrito por Enéas Athanázio, 08/05/2018 às 10h57 | e.atha@terra.com.br

A dolorosa luta pela Independência

Diplomata, historiador e escritor, William Agel de Mello é reconhecido africanista e muito tem escrito sobre a África. Entre seus ensaios, avultam os que abordam a África do Sul, a Tanzânia e a Namíbia.  A respeito desta última, escreveu “O processo de independência da Namíbia”, ensaio substancioso, fundamentado e esclarecedor, ora incorporado ao terceiro volume de suas Obras Completas (Editora Kelps – Goiânia – 2016) e que bem merece um comentário;

Situada na África Meridional ou Austral, à margem do Oceano Atlântico, a Namíbia é uma república com a área superficial de 824.285 Km2 e uma população estimada em 1.781.000 habitantes. Tem a capital na cidade de Windhoek e as línguas faladas são o  africâner, o alemão, o inglês e idiomas tribais. É um dos países mais áridos do planeta e o deserto de Namib, na faixa costeira, funcionou, ao longo da história, como uma espécie de escudo natural contra invasões. Foi o último país africano a obter a independência, libertando-se de longo e penoso colonialismo. Antigamente denominado Sudoeste Africano, foi uma colônia da Alemanha desde 1884 até o término da II Guerra Mundial, quando passou a ser administrada pela extinta Liga das Nações, em consonância com o entendimento da época em relação a territórios pouco desenvolvidos. Em seguida o país foi invadido e ocupado pela África do Sul (RAS), que o recebeu como mandato da Liga das Nações, em nome da Grã-Bretanha. Iniciou-se, então, um longo período de exploração das riquezas do país e violência inaudita contra a população nativa. Extinta a Liga das Nações, a África do Sul se recusou o desocupar o território, transformando-o numa espécie de colônia de fato. Rico em urânio e metais, o território da Namíbia foi submetido a verdadeira pilhagem. Os alemães e depois os bôeres lançaram mão de estratagemas engenhosos para evitar o surgimento de uma consciência nacional. Mantiveram as comunidades étnicas física e intelectualmente separadas, como de resto tem acontecido em regimes autoritários.

O nascimento de uma consciência nacionalista, patriótica ou que outro nome tenha parece inevitável, por mais rígida que seja a repressão, e isso também se verificou na Namíbia. Os espíritos mais atilados começaram a perceber a exploração de que o povo era vítima, a sucção das riquezas nacionais em benefício do colonizador e a servidão disfarçada a que a população foi submetida. Surgem lideranças populares que iniciam a pregação em favor da independência do país. A resistência nacional em oposição ao colonizador toma forma através de chefes tradicionais, da igreja, dos intelectuais e dos trabalhadores dos principais centros do país. O movimento cresce e se transforma em aspiração nacional. A independência de outros países africanos impulsiona a ideia de liberdade.

Para conter o movimento nacionalista, a África do Sul implanta o apartheid no território, tal como o existente naquele país, instituindo os chamados buntustões ou homelands e assim seccionando o país com critérios étnicos. Iniciava-se na inacreditável série de manobras e artimanhas de que lançaria mão para prolongar o domínio sobre a Namíbia, de onde não desejava arredar pé. Manobras e artimanhas capazes de causar inveja aos mais reles politiqueiros, praticadas por longos anos às claras e aos olhos de uma sociedade internacional hipócrita e tolerante.

Com absoluto domínio do assunto e lastreado em impressionante bibliografia, o ensaísta vai desenrolando, passo a passo, o penoso processo rumo à independência. Mostra a revolta de um povo cansado do julgo estrangeiro, superando a violência, os massacres, as invasões, anexações de territórios, a boataria e toda sorte de artimanhas com o objetivo de retardar o inevitável. Conta com o apoio de muitos países, inclusive do Brasil, embora os Estados Unidos, alinhados à África do Sul, procurem criar embaraços. Assim, aos trancos e barrancos, com a supervisão da ONU, a Namíbia realiza sua primeira eleição geral, instala a Assembleia Constituinte e, enfim respira como nação livre e dona de seu próprio destino. A independência se consumou em 21 de março de 1990, portanto é acontecimento de hoje, de nossos dias, da história contemporânea.

A SWAPO, aguerrido partido de oposição ao colonialismo, liderado pelo carismático Sam Nujoma, e que lutava contra ele há muitos anos, obtém uma vitória incontestável nas urnas, tanto para o Executivo como para o Legislativo. Conquistou 41cadeiras num total de 72, derrotando com larga margem o principal adversário, na verdade um preposto da África do Sul. Apesar da opressão e da exploração que sofreu, o Governo independente não se entregou a vinditas ou caça às bruxas. Procurou agir de forma conciliatória, buscando a paz, para realizar as promessas tão aguardadas pela população: reforma agrária, equilíbrio, assistência e justiça social. E assim, depois de sustentar uma luta árdua, conquistou a duras penas o direito de agir com inteira liberdade, como país independente e soberano.

A história da Namíbia, se conhecida pelos nossos homens públicos, na hipótese de que lessem alguma coisa, seria um notável exemplo para nós, brasileiros. Conquistamos a independência sem sangue e com pouco esforço, ao contrário dela, cujo povo sofreu, foi espoliado, perseguido e humilhado, mas nunca deixou de defender o patrimônio nacional. Enquanto aqui a soberania nacional é alienada às claras em favor de interesses subalternos da politicalha. 

Escrito por Enéas Athanázio, 30/04/2018 às 11h57 | e.atha@terra.com.br

Nossa embaixadora

Mineira de Belo Horizonte, Teresinka Pereira está radicada há longos anos nos Estados Unidos. Escritora, poeta e conferencista de larga experiência, ela é uma presença forte na imprensa cultural de muitos países, inclusive do Brasil. Mantém uma extensa rede de intercâmbio com escritores, poetas, artistas, professores, intelectuais e figuras de destaque de todos os cantos do mundo, empenhada sempre em divulgar os brasileiros, enviando suas obras, comentando-as e divulgando-as num trabalho incansável e permanente. Também viaja com frequência para proferir palestras, lançar livros e manter contatos diretos com a intelectualidade. Graças ao seu empenho, muitos escritores e artistas brasileiros ficaram conhecidos em outros países e estabeleceram relações profissionais e de amizade com colegas de ofício de distantes regiões do planeta. É por isso que se reconhece em Teresinka a embaixadora das letras e artes nacionais.

Há muitos anos ela preside a International Writters and Artists Association (IWA), entidade internacional que congrega escritores e artistas de todo o mundo. Fundada em 1978, com sua sede em Toledo, Ohio, tem como língua oficial o inglês, embora também opere em francês, espanhol, italiano e português. Em virtude de seus objetivos universais, ela mantém diretores em diversos países, como Estados Unidos, Rússia, República Checa, Cuba, Turquia, Tunísia, Algéria, Coréia, Japão e Brasil.

Além das atividades no campo cultural, a IWA luta pela defesa dos direitos e liberdades consagrados pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, pelo respeito a todas as culturas e tradições étnicas, à completa liberdade de expressão, e propugna por um mundo mais justo. Combate o racismo, o sexismo, o tribalismo, o preconceito contra os idosos e todas as outras formas de preconceito. Empenha-se em cultivar os valores que conduzem à felicidade do ser humano. Trata-se, portanto, de uma entidade com profundas raízes democráticas.

É ardorosa defensora do meio ambiente, pregando que a “Terra não é mais do que uma grande nação e a raça humana é o conjunto dos cidadãos de todo o mundo.” Lembra o pensamento do associado espanhol Luis Cuevas Lopez: “Só depois de cortar as últimas árvores, depois de envenenar o último rio, depois de pescar o último peixe, aprenderemos que o dinheiro não é comestível.” Com tão justa e correta advertência, busca conscientizar as pessoas para que preservem o mundo em que vivemos.

Como entidade com ramificações mundiais, a IWA faz indicações para o Prêmio Nobel de Literatura e para o Prêmio Nobel da Paz, além de indicações para premiações de outras categorias. Anuncia e apóia concursos de literatura e artes que concedem prêmios a escritores e artistas patrocinados por diversas organizações. Prestigia e homenageia escritores e artistas anônimos, tirando-os do ostracismo.

A IWA conta atualmente com 1760 associados, distribuídos em 156 países, contando entre seus membros com figuras de grande destaque, como detentores do Prêmio Nobel da Paz e de Literatura, chefes de estado, acadêmicos, professores, escritores, poetas, artistas e intelectuais de variadas áreas, inclusive muitos brasileiros. A entidade ainda confere prêmios de diversas categorias.

Tive o prazer de receber em minha residência a visita de Teresinka Pereira em uma de suas vindas ao Brasil, levando-a a conhecer recantos de nossa cidade e de Blumenau. Na ocasião ela concedeu entrevistas à televisão e a uma de nossas emissoras de rádio sobre as atividades e os objetivos da IWA. Espero recebê-la em sua nova vinda ao país, ocasião em que pretendo levá-la à redação do nosso “Página 3.” Participei com contos de minha autoria em duas coletâneas por ela patrocinadas, uma em inglês e outra em português, e que foram amplamente distribuídas.

Escrito por Enéas Athanázio, 23/04/2018 às 15h50 | e.atha@terra.com.br

Passeio pela “Revista da AML” (2)

Tenho em mãos o mais recente número da “Revista da Academia Mineira de Letras”, instituição que, como se sabe, é uma das mais ativas e respeitadas dentre suas congêneres (*). Neste número, muitos são os trabalhos merecedores de atenção e sobre os quais tentarei dar aqui uma pálida ideia.

A revista se abre com um pequeno e substancioso ensaio de Elizabeth Rennó, atual presidente da Academia, abordando a obra de dois autores indianistas de forte presença em nossas letras: José de Alencar e Gonçalves Dias, um prosador e um poeta. Alencar pintou o índio ideal e fez dele o símbolo do nacionalismo, exaltando a natureza brasileira. “Sua obra, – escreve a ensaísta – principalmente em “O Guarani”, polariza-se em duas vertentes: a aristocrática, em que as suas personagens atuam no ambiente da Corte ou das fazendas ricas do Brasil do século XIX e a popular, nas cantigas nordestinas, também manifestada na literatura de cordel.” José de Alencar exerceu grande influência, contribuindo para a formação de uma consciência nacional, além de ter sido, acredito eu, o mais remoto precursor do regionalismo literário no país.

Quanto a Gonçalves Dias, depõe Rennó, “substituiu o mito e a ideologia pela realidade humana e fantasiosa do indígena. Foi autêntico pelo sangue e pelo viver com os índios, assimilando-lhes os hábitos e culturas e pelos estudos deixados em “Brasil e Oceania”, escrito para o Instituto Histórico, e no “Vocabulário da Língua Tupi.” Apesar de ter sido estudado etnológica e socialmente, o seu índio é o herói idealizado. O indianismo gonçalvino é específico, autobiográfico, inerente à sua imaginação poética, substância de sua obra. Não se liga ao europeu, repassado à concepção do bom selvagem. O brasileirismo que impregna a sua obra é simples e puro. Gonçalves Dias não foi o introdutor do tema indianista na literatura brasileira, mas a esta predileção do sentimento nacional, insuflou vida.”

A abordagem do indianismo é mais que oportuna, uma vez que no momento os indígenas brasileiros estão acuados e sob constante ataque dos gananciosos. Além disso, traz-me à lembrança outros autores que fizeram do índio personagem destacado de suas obras: Montaigne, Darcy Ribeiro, Antonio Callado.

Em inspirada crônica, José Maria Couto Moreira evoca Ernest Hemingway e seu livro “Paris é uma festa.” Nessa obra o escritor americano rememora sua vida em Paris, no início da carreira, ainda casado com Hadley Richardson, período de muita pobreza, por ele descrito com evidente exagero. Integrando a chamada “geração perdida”, conviveu com Gertrude Stein, James Joyce, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Ford Madox Ford e outros americanos auto-exilados na Cidade Luz. Inspirado pelo livro, o cronista faz um périplo pela cidade, destacando suas obras de arte, museus, prédios ilustres, ruas célebres, locais de importância histórica e turística,  transmitindo ao leitor o clima da cidade e da extraordinária cultura francesa. Uma crônica admirável, sintética mas sem perda de conteúdo.

Paulo Fernando Silveira, por sua vez, aborda a figura e a obra de Mário Palmério, romancista cujos livros me fascinam e sobre os quais escrevi mais de uma vez. Educador, político e dotado de espírito de aventura, viveu em um barco na região amazônica, provocando geral admiração. “Vila dos Confins” e “Chapadão do Bugre” são obras de leitura absorvente e seus personagens são inesquecíveis, em especial o mascate Xixi-Piriá, sempre aprumado, a percorrer a região, vendendo de porta em porta, mas, para surpresa de todos, capaz de uma reação à altura no momento necessário. Essas obras – diz o autor – “são monumentos perenes, que desafiaram o tempo, por várias gerações, e mantiveram incólume o seu estético valor artístico, como esteios e fundamentos da literatura regionalista brasileira.” Após outras oportunas considerações a respeito do escritor mineiro, arremata o autor: “Mário Palmério é nome definitivo na renovação do regionalismo na ficção brasileira.”

Já Petrônio Braz, em alentada aula, proferida na Universidade Livre, focaliza o mineiro de Montes Claros, ou Moc, como ele dizia, Darcy Ribeiro. Antropólogo, professor, político, ensaísta, romancista, memorialista, criador de museu e de universidade, além de dotado de espírito de aventura, como revelou nos “Diários Índios.” Uma das mais extraordinárias figuras do mundo cultural brasileiro do século passado, sempre apaixonado pelo povo de um Brasil que tanto quis explicar. “Darcy Ribeiro foi, sem dúvida, um dos antropólogos brasileiros que mais diversificaram suas atividades”, afirmou com razão Luís Lopes Borges de Mattos, citado pelo autor. Nesse ensaio o autor faz uma análise do romance “Maíra”, publicado há quarenta anos mas que continua atual, uma vez que os indígenas brasileiros vivem as mesmas angústias. Mostra a genialidade com que a obra foi construída, os personagens bem identificados e coerentes, suas aflições e conflitos, numa trama que fascina o leitor até o fim. É a mais completa análise desse romance que encontrei. O desaparecimento de Darcy Ribeiro comoveu o mundo cultural e, dentre múltiplas manifestações de pesar, lembra o autor as palavras de Zuenir Ventura: “Morreu o grande pajé, foi embora o nosso bom selvagem, subiu aos céus o nosso feiticeiro. A utopia ficou sem sua encarnação. A política, a ética, a erótica e a poética perderam sua rima rica.” Darcy Ribeiro faz muita falta, inclusive no Senado Federal, ainda mais quando tramitam projetos prejudiciais aos povos indígenas.

 Jornalista e acadêmico, Manoel Hygino dos Santos, o colunista mais lido da imprensa mineira, publica interessante crônica a respeito da cidade de Santos Dumont, terra natal do célebre inventor. Situada no sopé da Serra da Mantiqueira, orgulha-se do filho ilustre, ali nascido em 20 de julho de 1873. Como quem pega o leitor pela mão e o conduz, o cronista palmilha pelas ruas da cidade exibindo suas realizações, suas indústrias, sua cultura e o modus vivendi de um povo acolhedor e amigo. É um texto que divulga a gentil cidade das Gerais e instiga o leitor a conhecê-la.

Por fim, mas não menos importante, destaco o ensaio de Carlos Perktold, crítico de artes, sobre o conjunto arquitetônico da Pampulha, um dos recantos mais interessantes e belos do país, obra de Niemeyer e Portinari, realizada por JK quando prefeito de Belo Horizonte. Sobre o conjunto, agora declarado patrimônio cultural da humanidade pela UNESCO, o autor ministra verdadeira aula, abordando sua história, aspectos arquitetônicos, detalhes estéticos e tudo mais, numa orientação segura para que o leitor melhor aproveite a eventual visita.

Concluindo, diria que a “Revista da AML” é um grande manancial de cultura e conhecimento, merecedora de atenta leitura.

__________________________

(*) “Revista da Academia Mineira de Letras”, Belo Horizonte,
Ano 96, Vol. LXXVII, 2017.

Escrito por Enéas Athanázio, 16/04/2018 às 14h33 | e.atha@terra.com.br

SAVARY: A AMAZÔNIA E A URBE

Olga Savary é poeta universal mas não se desliga jamais de suas origens amazônicas. Nascida em Belém do Pará, gosta de lembrar que teve uma bisavó índia. Sua poesia, em grande parte, se estriba em temas amazônicos, região que ela conhece por dentro e por fora. A cultura regional, a formação e a psicologia de seu povo, o modus vivendi, os problemas de natureza social e tudo que respeita à imensidão da floresta repercute de forma artística em seus versos cuja estética é sempre ressaltada pela mais categorizada crítica. O fundo telúrico de sua poética contracena com a sensualidade que permeia importante parcela de sua produção. O telurismo e a sensualidade, o amor à terra e ao ser humano são as vigas mestras de sua obra.

Não obstante, sua vivência urbana. no Rio de Janeiro, também a colocou em destacada posição no meio cultural, literário e social. O escritor Ruy Castro, em livro de sucesso, lhe dedicou todo um verbete onde aponta suas realizações e o espírito de liderança com que ela promovia os mais diversos eventos. Segundo o autor, Savary foi a criadora do “mito” de Ipanema. “Este se criou a partir das festas pré-carnavalescas da poetisa Olga Savary, então casada com o cartunista Jaguar, em fins dos anos 50. Foi nelas que as diversas turmas se agruparam e veio à tona, publicamente, a Ipanema boêmia, excêntrica e criativa que, na década de 60, se tornaria a “Ipanema” oficial” (*).

Segundo o mesmo autor, as festas cresceram, tomaram o bairro, a cidade  e, “quando se viu, o Olimpo.” Decidida e organizada, a poeta era “a mentora intelectual, produtora e responsável por tudo.” Agarrada ao telefone, convidava jornalistas, escritores, poetas, cartunistas, atores, artistas plásticos, as grandes mulheres, a turma da praia e os amigos. (Conhecendo o espírito carioca, imagino que não faltavam “penetras”).  Músicos amadores levavam seus instrumentos e compunham a orquestra. Cada um dos participantes levava sua bebida. E assim, num clima alegre e descontraído, a festa se transformava num evento cultural cujas notícias logo ganhavam todo o país e mereciam a cobertura da imprensa.

As festas de Olga cresceram tanto que não cabiam mais em casas particulares e passaram a ser realizadas em bares, restaurantes e até mesmo em teatros.

Outro feito de Olga, muito comentado na época, foi a disseminação da expressão “dicas”, ou seja, indicações de locais, restaurantes, bebidas, preços e tudo o mais. Trouxe a palavra para a letra impressa e hoje está dicionarizada com crédito para ela.

Mesmo ativa e ocupada, nunca a paraense se afastou das letras e continuava produzindo bastante e bem. Recebeu o Prêmio Jabuti e publicou as Obras Completas, na verdade nada completas porque continuou produzindo, como faz até hoje.  Também se tornou conhecida como protetora de escritores e poetas iniciantes, espécie de madrinha dos novatos. Não são poucos os que muito lhe devem.

Em 2016, em primorosa edição artesanal de Mac/Feira, ela publicou o livro “Ara”, coletânea de poemas, fato que considerou uma honra porque são volumes feitos à mão, um a um, mediante uma escolha criteriosa e exigente. “Ara”, em tupi, significa luz, dia. O livro se divide em cinco partes, partindo da gênese em busca da essência. Os poemas contemplam a origem, o índio, a iara, a mulher, a nudez, a erótica, a água, o mar, o rio, a poesia e, enfim, a vida. Culmina no poema-título, dizendo: “O dia não está/ pra peixe, o dia/ só serve à poesia.”  Porque é a poesia que salva, revigora, eleva.

Em 1955, homenageando Savary, Carlos Drummond de Andrade compôs o poema


MIRAGEM

Chegou, impressentida e silenciosa,
com uma saudade eslava nos cabelos
e um ritmo de crepúsculo ou de rosa.

Os olhos eram suaves, e eis que ao vê-los,
outra paisagem, fluida, na distância,
sugeria doçuras e desvelos.

No coração, agora já sem ânsia,
paira a serenidade comovida
que lembra os puros cânticos da infância.

Logo depois se foi, mas refletida
nesse espelho interior, onde as imagens
se libertam do tempo, além da vida.

Olenka permanece, entre miragens. (**)

_______________________________

(*) “Ela é carioca”, Ruy Castro, S. Paulo, Cia. das Letras, 1999, p. 277;

(**) Olenka é diminutivo de Olga, em russo.

Escrito por Enéas Athanázio, 09/04/2018 às 10h22 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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