Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

A honra da família

Para Márcia, Eneida e Patrícia,
que não arredaram pé, e para
Jandira, sempre junto
(Escrito no hospital)
Enéas Athanázio

A Fazenda do Aranha ocupava um mundaréu de terras. Principiava no caminho geral do Portão do Alto e descambava em campos de coxilhas e canhadas no rumo do Taimbé. Dividia-se em grandes invernadas de cria e engorda de gado, cavalos e mulas, ovelhas e cabras em quantidade. Para as bandas da geral conservava-se um mato inceiro, onde farfalhavam numerosos pinheiros e madeiras de lei, mantidos como reserva. Ali uma porcada meio alçada pelichava de gorda na safra do pinhão. A Fazenda era uma propriedade de respeito, tinha aguadas suficientes e era bem administrada.

A sede se erguia no alto de um coxilhão verdejante de grama, sólido casarão construído de madeira de lei cerrada em lua própria. Pintada de um azul brilhante, os vidros de suas numerosas janelas e portas retiniam à luz do sol e lançavam chispas à distância. Diante dela corria uma área coberta, larga e espaçosa, onde se alinhavam cadeiras confortáveis, avistando-se dali o panorama que se estendia pela campanha até se juntar com o horizonte do céu azulado. Cercava a casa um jardim sempre florido e bem cuidado no qual estava presente a mão cuidadosa da própria fazendeira.

A Fazenda do Aranha pertencia à mesma família há três gerações, conduzida com mão firme pelo fazendeiro conhecido como Nenê Grande, assim chamado para distinguir de um parente apelidado Nenê Pequeno. Nenê Grande vivia em paz, cuidando dos seus negócios, em companhia da esposa, mulher caprichosa e dedicada, de um filho solteiro de seus vinte anos e a filha caçula de nome Doralinda, tratada pelos íntimos como Linda. Tinha como capataz de fiança um lageano por nome Dorvalino, sojeito de pouca prosa e sorrisos raros, que comandava um ror de peões bem treinados que cuidavam da propriedade com muito zelo.

Nenhuma preocupação grave toldava os dias pacíficos do fazendeiro cujos negócios progrediam, permitindo novas compras de terras com os lucros obtidos. Apenas o comportamento da filha Linda, nos seus dezesseis anos, chamava sua atenção. A moça se interessava pelas festas, encontros com amigos e bailarecos na vila do Pito Aceso e nas fazendas em derredor e lá sempre comparecia, acompanhada pela mãe ou por uma cria de confiança da casa. Atento, o pai acompanhava esse movimento, recomendando sempre a maior atenção.

Nos últimos tempos notou admirado que o interesse da filha por essas festas e encontros havia desaparecido. Não revelava mais o desejo de frequentá-las, preferindo permanecer em casa. O pai aguçou as observações e surpreendeu certas conversas meio murmuradas entre a mãe e a filha sobre assuntos que não conseguiu distinguir. Preocupado, fechou-se com a mulher num quarto e a botou em confissão. Estarrecido, soube que a menina estava grávida de um bundinha da cidade com o qual vinha namorando. O fazendeiro ficou furioso, seus olhos pareciam lançar chispas e teve uma conversa muito séria com a filha que acabou confessando o seu descuido e confirmando que o namorado era mesmo o rapaz da cidade.

Nenê Grande, diante da confirmação do fato, esbravejava, andando pela casa e batendo com o rabo de tatu nos canos das botas. Como se atrevia aquele guri a manchar a honra da casa! Isso não poderia ficar assim! A mulher tudo fazia para acalmá-lo, mas ele afirmava que a atitude merecia uma resposta enérgica. Sem mais conversa intimou o capataz Dorvalino ao escritório e passou ordens diretas.

No dia seguinte, muito cedo, o capataz e mais quatro homens escolhidos entre os peões mais valentes, encilharam as montarias para uma jornada até a cidade. Vestidos nos trinques, montados em animais aperados no capricho e todos armados de revólveres, partiram no cumprimento da missão determinada pelo patrão. Foi bonito de ver a cavalhada levantando poeira na estrada de chão batido no rumo de São Simão. Postado na área, o fazendeiro observava a partida de seus homens, enquanto a mulher desesperada procurava demovê-lo daquela ideia.

A entrada do grupo nas ruas da pacata cidade logo chamou a atenção dos raros transeuntes. Firmes no trote dos animais, os homens do Aranha não tardaram a encontrar a casa onde o namorado da filha residia com os pais e logo se postaram diante dela, um ao lado do outro, na frente da cerca dianteira. Em voz firme o capataz Dorvalino interpelou os moradores:

- Ô de casa!

As pessoas se movimentaram e o dono da casa, com jeito assustado, apareceu na porta e deu com a tropa de cavaleiros enfileirados à sua frente.

- Chame o seu filho! – gritou o capataz Dorvalino com voz firme.

Atrapalhado, o dono da casa se voltou para dentro e chamou o filho aos berros para que aparecesse e ele surgiu ressabiado, ainda arrumando a cabeleira desgrenhada e com cara de muito sono, perguntando o que estava acontecendo.

Dorvalino em poucas palavras explicou que lá se encontrava com ordens expressas de marcar a data para o casamento e assim lavar a honra da casa de Nenê Grande. Pai e filho, temerosos das conseqüências, conversaram em voz baixa enquanto as demais pessoas da casa se juntavam a eles. Confabularam às pressas e discutiram o assunto até se fixarem numa data em que o casamento deveria ser realizado. Diante da palavra empenhada, Dorvalino e seus companheiros se retiraram, deixando para trás a família perplexa do rapaz.

Tempos depois o casamento foi realizado com toda pompa e circunstância. Nenê Grande comandava a sua gente, montado no burro preto da estima, tendo ao lado a mulher no seu cavalo tordilho e do outro a noiva na sua montaria preferida. Atrás, todos enfileirados, desfilavam os peões da fazenda seguidos de numerosos convidados.

E assim a honra da família de Nenê Grande foi lavada em público.

Escrito por Enéas Athanázio, 17/09/2019 às 13h59 | e.atha@terra.com.br

EXISTE APENAS AQUI

Sempre que toco no assunto recebo mensagens de alguns leitores manifestando desagrado. Dizem que deve ser esquecido, assim como o foram tantas atrocidades cometidas ao longo da história humana. Penso, ao contrário, que deve ser lembrado sempre e sempre como um dos episódios mais brutais da história contemporânea. Deve e precisa ser lembrado para que não mais se repita e caia no esquecimento pelas novas gerações. Refiro-me ao Holocausto que colocou em execução a monstruosa Solução Final do Problema Judaico, durante a II Guerra Mundial, com seu horrendo propósito de exterminar os judeus da face da terra. Recordar os fatos é ainda mais necessário quando o neonazismo, por espantoso que seja, cresce em toda parte e uma direita agressiva ameaça o mundo.

A tenebrosa memória dos campos de extermínio instituídos como destino final de milhões de inocentes, velhos, doentes, inválidos, crianças, homens e mulheres de todas as idades fechando o círculo de uma operação em moldes industriais calou fundo na memória coletiva e não cessam de surgir novos documentos a respeito, constituindo uma imensa bibliografia. Entre os livros mais recentes, lançado no Brasil depois de imenso sucesso mundial, está “O Tatuador de Asuschwitz”, de autoria da jornalista australiana Heather Morris e publicada pela Editora Planeta (S. Paulo – 2018).

Nele se revela a pungente história de Lale Sokolov, rapaz que vivia em paz numa pequena cidade eslovaca quando o país foi invadido pela Alemanha nazista. Os invasores convocam os judeus para trabalharem no esforço de guerra e como o irmão de Lale era casado e tinha filhos a sustentar, ele se apresenta em Praga e lá é embarcado em trem destinado ao transporte de gado sem saber para onde se dirige. Está tão lotado que torna impossível sentar ou deitar e as pessoas, espremidas, respiram umas sobre as outras. Não há sanitários e são usados baldes cujo conteúdo não tarda a deixar o ar empestado e irrespirável. As portas se fecham e o comboio parte. Três dias e três noites viajando em pé com algumas paradas, sempre fora das cidades ou vilas para não despertar atenção. Há mortes, desmaios, brigas, agressões de guardas, insultos, até a chegada ao destino. Então os infelizes percebem que foram levados ao complexo de extermínio de Auschwitz-Birkenau, na Polônica. Sobre o portão principal lia-se a frase “O trabalho liberta.”

Tangidos através de longa passarela, sob chuva e frio, são despojados de tudo. Perdem os parcos pertences, suas roupas são trocadas por sovados uniformes de soldados inimigos, as bocas são revistadas e os cabelos raspados. Sedentos e famintos, são amontoados em alojamentos superlotados de onde são retirados todos os dias para os trabalhos forçados enquanto resistem. Julgados incapazes, vão para as câmaras de gás e os crematórios cujas cinzas sobem pelas chaminés e cobrem tudo com uma fina camada. Seres esqueléticos, cambaleantes, amedrontados circulam aos milhares, trazidos de toda a Europa.

Nesse ambiente tenebroso onde tudo parece perdido, Lale tem uma oportunidade raríssima: é designado tatuador oficial do campo, cabendo-lhe enumerar os braços dos prisioneiros que chegam. Graças à sua habilidade, consegue uma posição um pouco melhor, ainda que patrulhado sem cansaço pelo guarda Baretski, indivíduo arrogante e boçal, sempre disposto a sacar da pistola e matar por qualquer motivo. Se por um lado consegue furtar pequenas quantidades de comida para os colegas de alojamento, Lale vive o permanente terror de ser considerado colaboracionista ou traidor. Mas a opção era nítida: obedecer ou morrer.Aos trancos a barrancos, padecendo de todos os horrores e contrariando as expectativas, Lale sobrevive por três duros e longos anos. Conhece Gita Fuhrmannova, por quem se apaixona, imaginando uma vida feliz em companhia dela após o pesadelo. A moça, no entanto, não enxerga qualquer perspectiva de futuro e se limita a repetir: existe apenas aqui!

Felizmente ela estava enganada. Os soviéticos se aproximam, invadem e desmantelam o campo, julgam e executam os carrascos. Baretski é condenado à prisão perpétua e se suicida na prisão. Gita e Lale se juntam e recomeçam a vida com bravura e vontade de viver. No momento da libertação do campo o comandante da tropa teria dito: Filmem, fotografem, colham o maior número possível de provas e documentos porque dentro de dez anos não faltará quem sustente que isto não aconteceu!

Escrito por Enéas Athanázio, 09/09/2019 às 08h45 | e.atha@terra.com.br

VIAGEM AO INFERNO

Abril de 1942. A Solução Final do Problema Judaico estava a pleno vapor enquanto a II Guerra Mundial castigava a Europa e tudo apontava para a vitória nazista. Lale Sokolov, natural de pequena cidade eslocava, retorna para casa e toma conhecimento de que os alemães estão prendendo rapazes para trabalharem para eles no esforço de guerra. Como seu irmão tem mulher e filhos a sustentar, decide se apresentar, sendo aceito de imediato e incorporado ao grupo que lá se encontrava. Permitem-lhe que vá até em casa em busca de objetos pessoais e algumas peças de roupas. Rapaz caprichoso e elegante, Lale anda sempre bem vestido, trajando terno completo e gravata. Tem 24 anos.

Tudo preparado, o imenso grupo de homens é conduzido a Praga para o embarque sem saber qual o destino. Espera-os longo trem de cargas com vagões fechados, destinados ao transporte de gado. Sem janelas ou aberturas, as paredes têm apenas alguns vãos estreitos pelos quais se enxerga de relance pouca coisa da paisagem exterior. Não existem bancos e nem instalações sanitárias. E as pessoas vão entrando, entrando, em quantidade cada vez maior enquanto os guardas ordenam que ocupem todos os espaços. Será por pouco tempo, dizem. Os vagões ficam tão lotados que é impossível sentar ou deitar e as pessoas respiram umas sobre os rostos das outras. As necessidades deverão ser feitas em dois baldes.

As portas são fechadas com estrépito e rangidos de metal. A locomotiva apita e a composição se põe em movimento. Viaja o dia inteiro, fazendo breves escalas em algumas pequenas cidades e entra pela noite sem parar. Na manhã seguinte faz uma parada mais longa em uma cidade maior, talvez para abastecer. As escalas são sempre longe do centro e da vista dos habitantes. Nenhuma explicação é dada aos ocupantes dos vagões, nessa altura já exaustos pela permanência em pé, com dores nas pernas inchadas, sonolentos, famintos e sedentos. Mas a viagem torturante prossegue pelo segundo dia inteiro com rápidas paradas. Alguns passageiros desmaiam, outros se desesperam, eclodem brigas. Os mais fortes tentam arrombar as paredes do vagão jogando-se contra elas. É inútil, lembram, pois nem os bois o conseguiram, quanto mais homens fracos e cansados. E a viagem sinistra prossegue por três dias e três noites. Por fim, enchendo os corações de esperança, o trem para e as portas se abrem. Ar renovado invade o ambiente pestilento.

Os guardas, fuzis em punho, ordenam que todos desçam. Tontos, trôpegos, abobados pela fome e pela sede, eles vão desembarcando aos cambaleios e tropeços. Alguns não conseguem andar e caem. Os demais recebem ríspidas ordens para carregá-los. Todos entram num imenso pavilhão e passam diante de uma mesa onde recebem um número, tatuado a frio no braço. Avançam mais um pouco e mandam que se dispam de toda a roupa e em seguida raspam-lhes as cabeças. Cada um recebe uma muda de roupa, grosseiro uniforme de campanha usado por soldados soviéticos mortos em combates. Cruzam então imenso portão no qual está escrito: O trabalha liberta!

Implorando por água e comida, são conduzidos ao alojamento em cujos beliches estreitos são amontoados. Só no dia seguinte receberão um pouco de comida e água. Se estiverem vivos.

Estão no campo de concentração de Auschwitz e seu destino é a câmara de gás onde o Ziklon B proporcionará uma morte rápida e segura.

Mesmo nessa situação tão absurda, Lale consegue sobreviver. Conhece Gita e por ela se apaixona. O romance impossível que os une é relatado no livro “O Tatuador de Auschwitz”, de Heather Morris, mostrando que o amor sobrevive mesmo sabendo que a morte está do outro lado do muro e pode vir a qualquer momento (Editora Planeta – S. Paulo – 2018).

Escrito por Enéas Athanázio, 02/09/2019 às 14h53 | e.atha@terra.com.br

Caro amigo Enéias Athanázio

Muito obrigado pelo envio de seu livro “O perto e o longe – volume 3”. Aprecio livros de viagens e li com gosto. Muito se aprende com os olhos dos outros sobre a geografia e os costumes de quem os relata com precisão jornalística e as tintas de escritor, como faz você. Mesmo em se tratando de paisagens que eu conheço, como Belém, Macapá e o território do Rio Doce. Às vezes vemos a floresta e não atinamos para a árvore, como é voz corrente e acertada. Com este seu livro, vi que temos mais sentimentos em comum, como o amor às ferrovias. É um tema que sempre me seduziu, pelas mesmas razões que moram no seu coração: também vivi a infância admirando os trens de ferro da Rede Mineira de Viação e da Central do Brasil. Quando viajo a outros países, privilegio os deslocamentos de trem aos de carro, ônibus ou avião, especialmente na Europa, onde os povos de lá souberam conservar as ferrovias como meio de transporte eficiente e cômodo, quando não ao luxo de suas carruagens. Sinto-me uma feliz criança ao tomar um assento ao lado de uma ampla janela para apreciar a paisagem que vai sendo recortada, como fez você e dona Jandira ao percorrer a Vitória-Minas. A última vez em que viajei por esta estrada de ferro foi para conhecer o Caraça, célebre educandário onde estudou o meu avô materno em fins do século 19. Lá dormi na pousada em que foi transformada parte das instalações dos padres e dos alunos. Vivi a emoção de encontrar no livro de matrículas a do meu avô Benigno Magnânimo do Couto, que lá chegou em 1896 em lombo de burro com a escolta de um peão da fazenda de meu bisavô, procedente de Rio Pomba, a léguas de distância.

Mas o menino não pode fazer o curso completo porque o oculista do Rio de Janeiro disse ao pai dele que, fraco da visão, o estudante a perderia de vez se continuasse debruçado nos livros escolares. Benigno, sabendo ler, escrever e fazer contas, foi para o comércio e depois para o jornalismo engajado, tendo sido o proprietário de jornal político em Rio Casca, Zona da Mata mineira, e depois coletor federal.

Miopíssimo, não via as diabruras do neto Pedrinho.

Muito aprendi também sobre as impressões que você anota sobre Hemingway, grande figura humana e de escritor. E mais soube sobre os embates do Contestado e, milhares de quilômetros ao norte, a guerra dos cangaceiros. São dois temas que, percebe-se, você cultiva com curiosidade jornalística de atento repórter. O perto e o longe do seu umbigo de escritor.

Agradeço, também, o envio do artigo sobre Lima Barreto em que cita o saudoso Vivaldi de “A frauta de Mársias”. Meu Pai era como você: um divulgador de seus interesses históricos e literários. São escritores que, por generosidade, gostam de compartilhar o que leram, o que aprenderam. Não guardam só para si o ouro que amealharam no conhecimento dos livros e da realidade. Eis aí um sentido mais alto para o ofício de escrever. Não se deve escrever por escrever, para extravasar apenas a nossa emoção, mas sobretudo para ampliar aos semelhantes essas emoções e o conhecimento adquirido em campo. Parabéns, escritor Enéas Athanázio!

Com esta cartinha, que componho no computador porque minha letra cursiva está cada dia mais amarfanhada, receba o afetuoso abraço do
Pedro Rogério Moreira.


Brasília, madrugada de 24 de julho de 2019.


Nota do Colunista: Pedro Rogério Moreira é escritor e jornalista, foi correspondente televisivo na Amazônia e tem vários livros publicados. É filho de Vivaldi Moreira, que foi presidente da Academia Mineira de Letras por longos anos e em cuja gestão recebi um prêmio daquela Academia pelo meu livro "As Antecipações de Lobato." 

Escrito por Enéas Athanázio, 26/08/2019 às 13h39 | e.atha@terra.com.br

POESIA EM VERSO & PROSA

C. Ronald é um poeta em constante atividade. Desde que o conheci, e lá se foram longos anos, está sempre produzindo uma poesia da melhor qualidade, elaborada, esmerada, límpida, merecedora dos aplausos da melhor crítica nacional. Com vários livros publicados, dentre os quais “Os sempre”, “Caro Rimbaud”, “Um lugar para os dias”, “Nessa agonia”, “Bichos procuram buracos nas paredes brancas” e “Seguindo o tempo”, sua obra constitui um conjunto da melhor expressão na poética produzida em nosso Estado. A admiração por Rimbaud sugere uma benéfica influência do poeta andarilho que tanto fascinava as novas gerações.


Também contista, dramaturgo, tradutor e ensaísta, residiu no Rio de Janeiro e muito escreveu para jornais e revistas.


Agora, desde seu recanto na bucólica Biguaçu, ele publica “Então esquece”, contendo suas mais recentes produções (Bernúncia Editora – Florianópolis – 2019).


Sua poesia é rica de ideias, sugestões, impressões e pensamentos que elaborou ao longo do tempo e que registrou nos seus versos.


As inquietações do poeta vão surgindo, revelando a universalidade de seu pensamento. O comportamento de certas nações, o sofrimento das pessoas, a liberdade, a busca incansável da perfeição de suas obras, o mistério do tempo, os medos, a angústia, o bem e o mal, os sonhos, a memória, as artes, a música, a felicidade e, naturalmente, o amor. Tudo aquilo que povoa a complexa alma do poeta e fere sua sensibilidade.


É uma sucessão de mensagens carregadas das mais diversas sensações que escorre até o fim, levando o leitor a voltar, observar e reler para sentir mais uma vez.


Encerrando, transcrevo um dos poemas do livro, publicado à p. 18:


SER LIVRE

Ser livre se
nos adjetivos a voz fica
lapidando o cristal
na pontuação impossível
das minhas cartas
repletas de ansiedade.

Logo

o pulso percorre as milhas
de letras o hóspede sem
silhueta agarra
a parte de trás do poema
dentro daquilo
que a entrega inventa.
_______________________
Zenilda Nunes Lins, por sua vez, prefere a poesia em prosa. Romancista, contista, poeta e historiadora, é professora. Homenageada pela Academia Catarinense de Letras, pertence a diversas entidades culturais.
Em primorosa crônica há pouco publicada, intitulada “O suave entardecer da velhice”, elaborou curiosa analogia entre as fases do dia e da vida humana num texto tocante e iluminado.
“Gosto do inverno – da estação e da vida -, tema inspirador do texto aqui publicado”, afirma ela. E, com efeito, a inspiração não poderia ser das melhores, tantas e tão precisas são as observações feitas no correr do texto.
É uma crônica poética, humana e enternecedora que merece a melhor das atenções (*).
________________________
(*) “Mosaico Literário” – I Coletânea da ANACLA
Florianópolis – 2019 – pp. 103/106.

Escrito por Enéas Athanázio, 19/08/2019 às 21h12 | e.atha@terra.com.br

A NOVELA DO JÚRI

Eduardo Sens acaba de lançar um livro primoroso. Refiro-me a “De quando éramos iguais” (Editora Penalux – S. Paulo – 2019), que o autor rotula de romance mas eu prefiro qualificar como novela, naquele sentido de obra síntese sobre determinado tema. É um texto como não recordo de ter visto nada semelhante, retratando um julgamento pelo Tribunal do Júri através dos olhos do promotor encarregado da acusação. Literatura a respeito desses julgamentos é o que não falta, mas aqui é o próprio representante da sociedade olhando de dentro para fora e analisando tudo que acontece. O inesperado reconhecimento do réu cria um tal ambiente de tensão que vai envolver o leitor de forma inquietante até o final.

O autor escreve com desenvoltura e tem uma linguagem rica de observações, sugestões e ideias, desenvolvendo com freqüência formulações filosóficas que casam com perfeição com o momento. Ao reconhecer o réu, depois de tantos anos, o promotor se vê diante do próprio passado e os acontecimentos daquele tempo distante voltam à memória com intensidade. Os tempos de infância desfilam pela cabeça num memorialismo minucioso e sofrido que o acompanha durante todo o desenrolar do processo, ato por ato, até a inesperada conclusão. Até mesmo um acontecimento doloroso em que se envolveu no colégio e que julgava esquecido volta com toda força. E o promotor vive um drama indescritível. Por um lado o dever funcional de acusar; pelo outro, o desejo de perdoar o amigo de infância. Para completar, a dúvida sobre a culpa do réu parece se infiltrar no seu coração. Esgotado, ele mal pode acreditar que o julgamento terminou.

Promotor experiente, atuando há dezessete anos no Tribunal do Júri e com mais de uma centena de julgamentos em sua carreia, o personagem fica chocado ao ver na sua frente, no banco dos réus, ninguém menos que o Tainho. Menino pobre, morador de uma favela vizinha à sua morada, ele pertencia ao mesmo grupo de crianças que por ali brincavam sem que houvesse diferença entre elas porque se sentiam iguais. E um caso que deveria ser apenas mais um dentre tantos, de repente se transforma em pesadelo.

Procurando se controlar e manter a frieza necessária, ele vai vencendo as etapas do julgamento. A oitiva das testemunhas, o interrogatório do réu, a leitura das peças processuais, a fala do defensor e, por fim, a angustiante votação dos quesitos na sala secreta, tudo desfila diante do leitor de forma lenta e exasperante. Surgem observações as mais curiosas, dignas dos mais experimentados e assíduos profissionais do Júri. Mesmo vivendo um drama íntimo, observa tudo que acontece: as palavras da defesa, a postura dos jurados, as reações da platéia, o comportamento do réu. Traça um retrato tão perfeito que a gente vê o Tribunal em funcionamento.

Não temo em dizer que se trata de um livro pioneiro pela forma com que o tema é abordado e ficará como algo inovador. Agradará, sem dúvida, a quantos se entregarem à sua leitura e sentirem o impacto da experiência vivida pelo promotor de Santa Bárbara. Eduardo Sens merece as melhores felicitações.

Os integrantes do Ministério Público têm contribuído de forma positiva com a boa literatura catarinense: Artêmio Zanon, Villa Real, Eduardo Sens. Que venham outros! 

Escrito por Enéas Athanázio, 13/08/2019 às 15h39 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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A honra da família

Para Márcia, Eneida e Patrícia,
que não arredaram pé, e para
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A Fazenda do Aranha ocupava um mundaréu de terras. Principiava no caminho geral do Portão do Alto e descambava em campos de coxilhas e canhadas no rumo do Taimbé. Dividia-se em grandes invernadas de cria e engorda de gado, cavalos e mulas, ovelhas e cabras em quantidade. Para as bandas da geral conservava-se um mato inceiro, onde farfalhavam numerosos pinheiros e madeiras de lei, mantidos como reserva. Ali uma porcada meio alçada pelichava de gorda na safra do pinhão. A Fazenda era uma propriedade de respeito, tinha aguadas suficientes e era bem administrada.

A sede se erguia no alto de um coxilhão verdejante de grama, sólido casarão construído de madeira de lei cerrada em lua própria. Pintada de um azul brilhante, os vidros de suas numerosas janelas e portas retiniam à luz do sol e lançavam chispas à distância. Diante dela corria uma área coberta, larga e espaçosa, onde se alinhavam cadeiras confortáveis, avistando-se dali o panorama que se estendia pela campanha até se juntar com o horizonte do céu azulado. Cercava a casa um jardim sempre florido e bem cuidado no qual estava presente a mão cuidadosa da própria fazendeira.

A Fazenda do Aranha pertencia à mesma família há três gerações, conduzida com mão firme pelo fazendeiro conhecido como Nenê Grande, assim chamado para distinguir de um parente apelidado Nenê Pequeno. Nenê Grande vivia em paz, cuidando dos seus negócios, em companhia da esposa, mulher caprichosa e dedicada, de um filho solteiro de seus vinte anos e a filha caçula de nome Doralinda, tratada pelos íntimos como Linda. Tinha como capataz de fiança um lageano por nome Dorvalino, sojeito de pouca prosa e sorrisos raros, que comandava um ror de peões bem treinados que cuidavam da propriedade com muito zelo.

Nenhuma preocupação grave toldava os dias pacíficos do fazendeiro cujos negócios progrediam, permitindo novas compras de terras com os lucros obtidos. Apenas o comportamento da filha Linda, nos seus dezesseis anos, chamava sua atenção. A moça se interessava pelas festas, encontros com amigos e bailarecos na vila do Pito Aceso e nas fazendas em derredor e lá sempre comparecia, acompanhada pela mãe ou por uma cria de confiança da casa. Atento, o pai acompanhava esse movimento, recomendando sempre a maior atenção.

Nos últimos tempos notou admirado que o interesse da filha por essas festas e encontros havia desaparecido. Não revelava mais o desejo de frequentá-las, preferindo permanecer em casa. O pai aguçou as observações e surpreendeu certas conversas meio murmuradas entre a mãe e a filha sobre assuntos que não conseguiu distinguir. Preocupado, fechou-se com a mulher num quarto e a botou em confissão. Estarrecido, soube que a menina estava grávida de um bundinha da cidade com o qual vinha namorando. O fazendeiro ficou furioso, seus olhos pareciam lançar chispas e teve uma conversa muito séria com a filha que acabou confessando o seu descuido e confirmando que o namorado era mesmo o rapaz da cidade.

Nenê Grande, diante da confirmação do fato, esbravejava, andando pela casa e batendo com o rabo de tatu nos canos das botas. Como se atrevia aquele guri a manchar a honra da casa! Isso não poderia ficar assim! A mulher tudo fazia para acalmá-lo, mas ele afirmava que a atitude merecia uma resposta enérgica. Sem mais conversa intimou o capataz Dorvalino ao escritório e passou ordens diretas.

No dia seguinte, muito cedo, o capataz e mais quatro homens escolhidos entre os peões mais valentes, encilharam as montarias para uma jornada até a cidade. Vestidos nos trinques, montados em animais aperados no capricho e todos armados de revólveres, partiram no cumprimento da missão determinada pelo patrão. Foi bonito de ver a cavalhada levantando poeira na estrada de chão batido no rumo de São Simão. Postado na área, o fazendeiro observava a partida de seus homens, enquanto a mulher desesperada procurava demovê-lo daquela ideia.

A entrada do grupo nas ruas da pacata cidade logo chamou a atenção dos raros transeuntes. Firmes no trote dos animais, os homens do Aranha não tardaram a encontrar a casa onde o namorado da filha residia com os pais e logo se postaram diante dela, um ao lado do outro, na frente da cerca dianteira. Em voz firme o capataz Dorvalino interpelou os moradores:

- Ô de casa!

As pessoas se movimentaram e o dono da casa, com jeito assustado, apareceu na porta e deu com a tropa de cavaleiros enfileirados à sua frente.

- Chame o seu filho! – gritou o capataz Dorvalino com voz firme.

Atrapalhado, o dono da casa se voltou para dentro e chamou o filho aos berros para que aparecesse e ele surgiu ressabiado, ainda arrumando a cabeleira desgrenhada e com cara de muito sono, perguntando o que estava acontecendo.

Dorvalino em poucas palavras explicou que lá se encontrava com ordens expressas de marcar a data para o casamento e assim lavar a honra da casa de Nenê Grande. Pai e filho, temerosos das conseqüências, conversaram em voz baixa enquanto as demais pessoas da casa se juntavam a eles. Confabularam às pressas e discutiram o assunto até se fixarem numa data em que o casamento deveria ser realizado. Diante da palavra empenhada, Dorvalino e seus companheiros se retiraram, deixando para trás a família perplexa do rapaz.

Tempos depois o casamento foi realizado com toda pompa e circunstância. Nenê Grande comandava a sua gente, montado no burro preto da estima, tendo ao lado a mulher no seu cavalo tordilho e do outro a noiva na sua montaria preferida. Atrás, todos enfileirados, desfilavam os peões da fazenda seguidos de numerosos convidados.

E assim a honra da família de Nenê Grande foi lavada em público.

Escrito por Enéas Athanázio, 17/09/2019 às 13h59 | e.atha@terra.com.br

EXISTE APENAS AQUI

Sempre que toco no assunto recebo mensagens de alguns leitores manifestando desagrado. Dizem que deve ser esquecido, assim como o foram tantas atrocidades cometidas ao longo da história humana. Penso, ao contrário, que deve ser lembrado sempre e sempre como um dos episódios mais brutais da história contemporânea. Deve e precisa ser lembrado para que não mais se repita e caia no esquecimento pelas novas gerações. Refiro-me ao Holocausto que colocou em execução a monstruosa Solução Final do Problema Judaico, durante a II Guerra Mundial, com seu horrendo propósito de exterminar os judeus da face da terra. Recordar os fatos é ainda mais necessário quando o neonazismo, por espantoso que seja, cresce em toda parte e uma direita agressiva ameaça o mundo.

A tenebrosa memória dos campos de extermínio instituídos como destino final de milhões de inocentes, velhos, doentes, inválidos, crianças, homens e mulheres de todas as idades fechando o círculo de uma operação em moldes industriais calou fundo na memória coletiva e não cessam de surgir novos documentos a respeito, constituindo uma imensa bibliografia. Entre os livros mais recentes, lançado no Brasil depois de imenso sucesso mundial, está “O Tatuador de Asuschwitz”, de autoria da jornalista australiana Heather Morris e publicada pela Editora Planeta (S. Paulo – 2018).

Nele se revela a pungente história de Lale Sokolov, rapaz que vivia em paz numa pequena cidade eslovaca quando o país foi invadido pela Alemanha nazista. Os invasores convocam os judeus para trabalharem no esforço de guerra e como o irmão de Lale era casado e tinha filhos a sustentar, ele se apresenta em Praga e lá é embarcado em trem destinado ao transporte de gado sem saber para onde se dirige. Está tão lotado que torna impossível sentar ou deitar e as pessoas, espremidas, respiram umas sobre as outras. Não há sanitários e são usados baldes cujo conteúdo não tarda a deixar o ar empestado e irrespirável. As portas se fecham e o comboio parte. Três dias e três noites viajando em pé com algumas paradas, sempre fora das cidades ou vilas para não despertar atenção. Há mortes, desmaios, brigas, agressões de guardas, insultos, até a chegada ao destino. Então os infelizes percebem que foram levados ao complexo de extermínio de Auschwitz-Birkenau, na Polônica. Sobre o portão principal lia-se a frase “O trabalho liberta.”

Tangidos através de longa passarela, sob chuva e frio, são despojados de tudo. Perdem os parcos pertences, suas roupas são trocadas por sovados uniformes de soldados inimigos, as bocas são revistadas e os cabelos raspados. Sedentos e famintos, são amontoados em alojamentos superlotados de onde são retirados todos os dias para os trabalhos forçados enquanto resistem. Julgados incapazes, vão para as câmaras de gás e os crematórios cujas cinzas sobem pelas chaminés e cobrem tudo com uma fina camada. Seres esqueléticos, cambaleantes, amedrontados circulam aos milhares, trazidos de toda a Europa.

Nesse ambiente tenebroso onde tudo parece perdido, Lale tem uma oportunidade raríssima: é designado tatuador oficial do campo, cabendo-lhe enumerar os braços dos prisioneiros que chegam. Graças à sua habilidade, consegue uma posição um pouco melhor, ainda que patrulhado sem cansaço pelo guarda Baretski, indivíduo arrogante e boçal, sempre disposto a sacar da pistola e matar por qualquer motivo. Se por um lado consegue furtar pequenas quantidades de comida para os colegas de alojamento, Lale vive o permanente terror de ser considerado colaboracionista ou traidor. Mas a opção era nítida: obedecer ou morrer.Aos trancos a barrancos, padecendo de todos os horrores e contrariando as expectativas, Lale sobrevive por três duros e longos anos. Conhece Gita Fuhrmannova, por quem se apaixona, imaginando uma vida feliz em companhia dela após o pesadelo. A moça, no entanto, não enxerga qualquer perspectiva de futuro e se limita a repetir: existe apenas aqui!

Felizmente ela estava enganada. Os soviéticos se aproximam, invadem e desmantelam o campo, julgam e executam os carrascos. Baretski é condenado à prisão perpétua e se suicida na prisão. Gita e Lale se juntam e recomeçam a vida com bravura e vontade de viver. No momento da libertação do campo o comandante da tropa teria dito: Filmem, fotografem, colham o maior número possível de provas e documentos porque dentro de dez anos não faltará quem sustente que isto não aconteceu!

Escrito por Enéas Athanázio, 09/09/2019 às 08h45 | e.atha@terra.com.br

VIAGEM AO INFERNO

Abril de 1942. A Solução Final do Problema Judaico estava a pleno vapor enquanto a II Guerra Mundial castigava a Europa e tudo apontava para a vitória nazista. Lale Sokolov, natural de pequena cidade eslocava, retorna para casa e toma conhecimento de que os alemães estão prendendo rapazes para trabalharem para eles no esforço de guerra. Como seu irmão tem mulher e filhos a sustentar, decide se apresentar, sendo aceito de imediato e incorporado ao grupo que lá se encontrava. Permitem-lhe que vá até em casa em busca de objetos pessoais e algumas peças de roupas. Rapaz caprichoso e elegante, Lale anda sempre bem vestido, trajando terno completo e gravata. Tem 24 anos.

Tudo preparado, o imenso grupo de homens é conduzido a Praga para o embarque sem saber qual o destino. Espera-os longo trem de cargas com vagões fechados, destinados ao transporte de gado. Sem janelas ou aberturas, as paredes têm apenas alguns vãos estreitos pelos quais se enxerga de relance pouca coisa da paisagem exterior. Não existem bancos e nem instalações sanitárias. E as pessoas vão entrando, entrando, em quantidade cada vez maior enquanto os guardas ordenam que ocupem todos os espaços. Será por pouco tempo, dizem. Os vagões ficam tão lotados que é impossível sentar ou deitar e as pessoas respiram umas sobre os rostos das outras. As necessidades deverão ser feitas em dois baldes.

As portas são fechadas com estrépito e rangidos de metal. A locomotiva apita e a composição se põe em movimento. Viaja o dia inteiro, fazendo breves escalas em algumas pequenas cidades e entra pela noite sem parar. Na manhã seguinte faz uma parada mais longa em uma cidade maior, talvez para abastecer. As escalas são sempre longe do centro e da vista dos habitantes. Nenhuma explicação é dada aos ocupantes dos vagões, nessa altura já exaustos pela permanência em pé, com dores nas pernas inchadas, sonolentos, famintos e sedentos. Mas a viagem torturante prossegue pelo segundo dia inteiro com rápidas paradas. Alguns passageiros desmaiam, outros se desesperam, eclodem brigas. Os mais fortes tentam arrombar as paredes do vagão jogando-se contra elas. É inútil, lembram, pois nem os bois o conseguiram, quanto mais homens fracos e cansados. E a viagem sinistra prossegue por três dias e três noites. Por fim, enchendo os corações de esperança, o trem para e as portas se abrem. Ar renovado invade o ambiente pestilento.

Os guardas, fuzis em punho, ordenam que todos desçam. Tontos, trôpegos, abobados pela fome e pela sede, eles vão desembarcando aos cambaleios e tropeços. Alguns não conseguem andar e caem. Os demais recebem ríspidas ordens para carregá-los. Todos entram num imenso pavilhão e passam diante de uma mesa onde recebem um número, tatuado a frio no braço. Avançam mais um pouco e mandam que se dispam de toda a roupa e em seguida raspam-lhes as cabeças. Cada um recebe uma muda de roupa, grosseiro uniforme de campanha usado por soldados soviéticos mortos em combates. Cruzam então imenso portão no qual está escrito: O trabalha liberta!

Implorando por água e comida, são conduzidos ao alojamento em cujos beliches estreitos são amontoados. Só no dia seguinte receberão um pouco de comida e água. Se estiverem vivos.

Estão no campo de concentração de Auschwitz e seu destino é a câmara de gás onde o Ziklon B proporcionará uma morte rápida e segura.

Mesmo nessa situação tão absurda, Lale consegue sobreviver. Conhece Gita e por ela se apaixona. O romance impossível que os une é relatado no livro “O Tatuador de Auschwitz”, de Heather Morris, mostrando que o amor sobrevive mesmo sabendo que a morte está do outro lado do muro e pode vir a qualquer momento (Editora Planeta – S. Paulo – 2018).

Escrito por Enéas Athanázio, 02/09/2019 às 14h53 | e.atha@terra.com.br

Caro amigo Enéias Athanázio

Muito obrigado pelo envio de seu livro “O perto e o longe – volume 3”. Aprecio livros de viagens e li com gosto. Muito se aprende com os olhos dos outros sobre a geografia e os costumes de quem os relata com precisão jornalística e as tintas de escritor, como faz você. Mesmo em se tratando de paisagens que eu conheço, como Belém, Macapá e o território do Rio Doce. Às vezes vemos a floresta e não atinamos para a árvore, como é voz corrente e acertada. Com este seu livro, vi que temos mais sentimentos em comum, como o amor às ferrovias. É um tema que sempre me seduziu, pelas mesmas razões que moram no seu coração: também vivi a infância admirando os trens de ferro da Rede Mineira de Viação e da Central do Brasil. Quando viajo a outros países, privilegio os deslocamentos de trem aos de carro, ônibus ou avião, especialmente na Europa, onde os povos de lá souberam conservar as ferrovias como meio de transporte eficiente e cômodo, quando não ao luxo de suas carruagens. Sinto-me uma feliz criança ao tomar um assento ao lado de uma ampla janela para apreciar a paisagem que vai sendo recortada, como fez você e dona Jandira ao percorrer a Vitória-Minas. A última vez em que viajei por esta estrada de ferro foi para conhecer o Caraça, célebre educandário onde estudou o meu avô materno em fins do século 19. Lá dormi na pousada em que foi transformada parte das instalações dos padres e dos alunos. Vivi a emoção de encontrar no livro de matrículas a do meu avô Benigno Magnânimo do Couto, que lá chegou em 1896 em lombo de burro com a escolta de um peão da fazenda de meu bisavô, procedente de Rio Pomba, a léguas de distância.

Mas o menino não pode fazer o curso completo porque o oculista do Rio de Janeiro disse ao pai dele que, fraco da visão, o estudante a perderia de vez se continuasse debruçado nos livros escolares. Benigno, sabendo ler, escrever e fazer contas, foi para o comércio e depois para o jornalismo engajado, tendo sido o proprietário de jornal político em Rio Casca, Zona da Mata mineira, e depois coletor federal.

Miopíssimo, não via as diabruras do neto Pedrinho.

Muito aprendi também sobre as impressões que você anota sobre Hemingway, grande figura humana e de escritor. E mais soube sobre os embates do Contestado e, milhares de quilômetros ao norte, a guerra dos cangaceiros. São dois temas que, percebe-se, você cultiva com curiosidade jornalística de atento repórter. O perto e o longe do seu umbigo de escritor.

Agradeço, também, o envio do artigo sobre Lima Barreto em que cita o saudoso Vivaldi de “A frauta de Mársias”. Meu Pai era como você: um divulgador de seus interesses históricos e literários. São escritores que, por generosidade, gostam de compartilhar o que leram, o que aprenderam. Não guardam só para si o ouro que amealharam no conhecimento dos livros e da realidade. Eis aí um sentido mais alto para o ofício de escrever. Não se deve escrever por escrever, para extravasar apenas a nossa emoção, mas sobretudo para ampliar aos semelhantes essas emoções e o conhecimento adquirido em campo. Parabéns, escritor Enéas Athanázio!

Com esta cartinha, que componho no computador porque minha letra cursiva está cada dia mais amarfanhada, receba o afetuoso abraço do
Pedro Rogério Moreira.


Brasília, madrugada de 24 de julho de 2019.


Nota do Colunista: Pedro Rogério Moreira é escritor e jornalista, foi correspondente televisivo na Amazônia e tem vários livros publicados. É filho de Vivaldi Moreira, que foi presidente da Academia Mineira de Letras por longos anos e em cuja gestão recebi um prêmio daquela Academia pelo meu livro "As Antecipações de Lobato." 

Escrito por Enéas Athanázio, 26/08/2019 às 13h39 | e.atha@terra.com.br

POESIA EM VERSO & PROSA

C. Ronald é um poeta em constante atividade. Desde que o conheci, e lá se foram longos anos, está sempre produzindo uma poesia da melhor qualidade, elaborada, esmerada, límpida, merecedora dos aplausos da melhor crítica nacional. Com vários livros publicados, dentre os quais “Os sempre”, “Caro Rimbaud”, “Um lugar para os dias”, “Nessa agonia”, “Bichos procuram buracos nas paredes brancas” e “Seguindo o tempo”, sua obra constitui um conjunto da melhor expressão na poética produzida em nosso Estado. A admiração por Rimbaud sugere uma benéfica influência do poeta andarilho que tanto fascinava as novas gerações.


Também contista, dramaturgo, tradutor e ensaísta, residiu no Rio de Janeiro e muito escreveu para jornais e revistas.


Agora, desde seu recanto na bucólica Biguaçu, ele publica “Então esquece”, contendo suas mais recentes produções (Bernúncia Editora – Florianópolis – 2019).


Sua poesia é rica de ideias, sugestões, impressões e pensamentos que elaborou ao longo do tempo e que registrou nos seus versos.


As inquietações do poeta vão surgindo, revelando a universalidade de seu pensamento. O comportamento de certas nações, o sofrimento das pessoas, a liberdade, a busca incansável da perfeição de suas obras, o mistério do tempo, os medos, a angústia, o bem e o mal, os sonhos, a memória, as artes, a música, a felicidade e, naturalmente, o amor. Tudo aquilo que povoa a complexa alma do poeta e fere sua sensibilidade.


É uma sucessão de mensagens carregadas das mais diversas sensações que escorre até o fim, levando o leitor a voltar, observar e reler para sentir mais uma vez.


Encerrando, transcrevo um dos poemas do livro, publicado à p. 18:


SER LIVRE

Ser livre se
nos adjetivos a voz fica
lapidando o cristal
na pontuação impossível
das minhas cartas
repletas de ansiedade.

Logo

o pulso percorre as milhas
de letras o hóspede sem
silhueta agarra
a parte de trás do poema
dentro daquilo
que a entrega inventa.
_______________________
Zenilda Nunes Lins, por sua vez, prefere a poesia em prosa. Romancista, contista, poeta e historiadora, é professora. Homenageada pela Academia Catarinense de Letras, pertence a diversas entidades culturais.
Em primorosa crônica há pouco publicada, intitulada “O suave entardecer da velhice”, elaborou curiosa analogia entre as fases do dia e da vida humana num texto tocante e iluminado.
“Gosto do inverno – da estação e da vida -, tema inspirador do texto aqui publicado”, afirma ela. E, com efeito, a inspiração não poderia ser das melhores, tantas e tão precisas são as observações feitas no correr do texto.
É uma crônica poética, humana e enternecedora que merece a melhor das atenções (*).
________________________
(*) “Mosaico Literário” – I Coletânea da ANACLA
Florianópolis – 2019 – pp. 103/106.

Escrito por Enéas Athanázio, 19/08/2019 às 21h12 | e.atha@terra.com.br

A NOVELA DO JÚRI

Eduardo Sens acaba de lançar um livro primoroso. Refiro-me a “De quando éramos iguais” (Editora Penalux – S. Paulo – 2019), que o autor rotula de romance mas eu prefiro qualificar como novela, naquele sentido de obra síntese sobre determinado tema. É um texto como não recordo de ter visto nada semelhante, retratando um julgamento pelo Tribunal do Júri através dos olhos do promotor encarregado da acusação. Literatura a respeito desses julgamentos é o que não falta, mas aqui é o próprio representante da sociedade olhando de dentro para fora e analisando tudo que acontece. O inesperado reconhecimento do réu cria um tal ambiente de tensão que vai envolver o leitor de forma inquietante até o final.

O autor escreve com desenvoltura e tem uma linguagem rica de observações, sugestões e ideias, desenvolvendo com freqüência formulações filosóficas que casam com perfeição com o momento. Ao reconhecer o réu, depois de tantos anos, o promotor se vê diante do próprio passado e os acontecimentos daquele tempo distante voltam à memória com intensidade. Os tempos de infância desfilam pela cabeça num memorialismo minucioso e sofrido que o acompanha durante todo o desenrolar do processo, ato por ato, até a inesperada conclusão. Até mesmo um acontecimento doloroso em que se envolveu no colégio e que julgava esquecido volta com toda força. E o promotor vive um drama indescritível. Por um lado o dever funcional de acusar; pelo outro, o desejo de perdoar o amigo de infância. Para completar, a dúvida sobre a culpa do réu parece se infiltrar no seu coração. Esgotado, ele mal pode acreditar que o julgamento terminou.

Promotor experiente, atuando há dezessete anos no Tribunal do Júri e com mais de uma centena de julgamentos em sua carreia, o personagem fica chocado ao ver na sua frente, no banco dos réus, ninguém menos que o Tainho. Menino pobre, morador de uma favela vizinha à sua morada, ele pertencia ao mesmo grupo de crianças que por ali brincavam sem que houvesse diferença entre elas porque se sentiam iguais. E um caso que deveria ser apenas mais um dentre tantos, de repente se transforma em pesadelo.

Procurando se controlar e manter a frieza necessária, ele vai vencendo as etapas do julgamento. A oitiva das testemunhas, o interrogatório do réu, a leitura das peças processuais, a fala do defensor e, por fim, a angustiante votação dos quesitos na sala secreta, tudo desfila diante do leitor de forma lenta e exasperante. Surgem observações as mais curiosas, dignas dos mais experimentados e assíduos profissionais do Júri. Mesmo vivendo um drama íntimo, observa tudo que acontece: as palavras da defesa, a postura dos jurados, as reações da platéia, o comportamento do réu. Traça um retrato tão perfeito que a gente vê o Tribunal em funcionamento.

Não temo em dizer que se trata de um livro pioneiro pela forma com que o tema é abordado e ficará como algo inovador. Agradará, sem dúvida, a quantos se entregarem à sua leitura e sentirem o impacto da experiência vivida pelo promotor de Santa Bárbara. Eduardo Sens merece as melhores felicitações.

Os integrantes do Ministério Público têm contribuído de forma positiva com a boa literatura catarinense: Artêmio Zanon, Villa Real, Eduardo Sens. Que venham outros! 

Escrito por Enéas Athanázio, 13/08/2019 às 15h39 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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