Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

UMA HISTÓRIA DE AMOR E BALAS

Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, é uma das figuras mais conhecidas da história nacional contemporânea. Poucos homens públicos podem com ele se ombrear em fama e prestígio. Esse conhecimento, no entanto, é quase sempre superficial. Como alguns outros personagens célebres, não é muito o que se sabe de sua real personalidade. Apesar da imensa bibliografia existente, Lampião esconde uma face misteriosa e enigmática. O homem Lampião continua distante.

Decorrido quase um século de sua morte, em 1938, o cangaceiro continua a instigar o interesse dos pesquisadores e as obras a seu respeito não cessam de aparecer. Dentre as mais recentes está o livro “Lampião & Maria Bonita – Uma história de amor e balas”, de autoria do jornalista paulistano Wagner Gutierrez Barreira, publicado pela Editora Planeta (S. Paulo – 2018). É um livro bem escrito, lastreado em intensas pesquisas bibliográficas, visitas a locais de eventos significativos, entrevistas e buscas em publicações e documentos antigos. Traça uma biografia paralela dos dois personagens centrais da gesta cangaceira e revela com imparcialidade as atividades do bandoleiro que desafiou as autoridades e as volantes policiais que fervilhavam pelo sertão em seu encalço. Certas passagens chegam a ter o sabor de genuínas obras de ficção, tão inacreditáveis, ainda que rigorosamente verdadeiras.

Lampião era capaz de atos de extrema generosidade e de atitudes de absoluta crueldade. Implacável nas vinganças, tinha uma coragem sobre-humana. Ferido em combate, foi operado a frio, sem anestesia e sem um gemido. Quando fugiam das tropas policiais, a única filha, ainda de colo, começou a chorar, colocando em risco a segurança do bando. “Mate isso!”, teria determinado a Maria Bonita, ao que ela, indignada, jogou um cantil contra ele, atingindo-o na cabeça. O autor do livro revela um verdadeiro rosário de atrocidades e relaciona, com lugares e datas, os inúmeros combates em que o bando se envolveu.

Alguns episódios superam a ficção. No auge da fama, Lampião enviou uma carta ao governador de Pernambuco propondo a divisão do Estado. Ele governaria o sertão, deixando o restante do território estadual por conta do governador. Em outra ocasião, convidado por Floro Bartolomeu, braço direito do Padre Cícero Romão Batista, visitou Juazeiro do Norte, com toda sua cabroeira, onde foi recebido, entrevistado, armado e municiado para que se comprometesse a combater a Coluna Prestes que assombrava o Nordeste. Forjaram para ele uma patente de capitão dos Batalhões Patrióticos, assinada por um agrônomo do Ministério da Agricultura, sem qualquer validade. Desde então o cangaceiro passou a se declarar capitão mas jamais combateu a Coluna. Semianalfabeto, era inteligente, não se arriscando a enfrentar uma tropa de militares profissionais bem preparados e armados. Quando soube que a patente não tinha valor, teria ficado furioso e ameaçou invadir Juazeiro mas acabou recuando porque a cidade estava muito bem guarnecida. O folclorista potiguar Veríssimo de Melo afirmou que por ocasião do convite o Padre Cícero “estava dementado”, ou seja, “caduco”, na linguagem popular. Essa declaração provocou intensa polêmica.

O livro desvenda muitos episódios interessantes sobre a vida de Lampião e Maria Bonita, suas atividades e amores. É uma contribuição importante para o conhecimento de um tema inesgotável e fascinante: o cangaço. Uma forma de banditismo organizado típica do Brasil, sem similar no mundo e na história.

Escrito por Enéas Athanázio, 18/03/2019 às 13h39 | e.atha@terra.com.br

PROEZAS DE LAMPIÃO

O cangaço foi uma forma de banditismo organizado típica do Brasil, sem similar no mundo ou na história. Ela só foi possível graças aos imensos espaços vazios, abertos e livres de obstáculos, com a população escassa vivendo em fazendas isoladas ou pequenas cidades e vilas com poucos moradores e destituídas de meios de proteção. Graças a isso, o cangaço se espalhou por todo o Nordeste, partes de Minas e de Goiás e, apesar das chamadas “volantes policiais” fervilharem na região em perseguição aos cangaceiros, eles resistiam e seus bandos se tornavam cada vez mais ousados e poderosos. Muitos cangaceiros se transformaram numa espécie de heróis populares, imitações toscas de Robin Hood, que supostamente roubavam dos ricos para dar aos pobres. O Cabeleira, Jesuíno Brilhante, Antônio Silvino, Sinhô Pereira e Corisco (Cristino Gomes da Silva Cleto, o Diabo Loiro) e, acima de todos, Lampião (Virgulino Ferreira da Silva), se notabilizaram em todo o país e até no exterior graças ao noticiário da imprensa a respeito de suas tropelias. A crueldade deles, no entanto, não conhecia limites. Invadiam as povoações, roubavam, sequestravam, destruíam, estupravam e depois se retiravam levando o bárbaro butim.

Lampião granjeou imensa fama. Suas proezas chegaram a ponto de desafiar o governador de Pernambuco, propondo a divisão do Estado entre eles, ficando o cangaceiro como o rei do sertão. Em muitos ataques deixava recados e bilhetes desafiadores às autoridades. Chegou a visitar Juazeiro do Norte, uma das cidades mais importantes da região, avistando-se com o Padre Cícero Romão Batista e as autoridades locais, levando em sua companhia numerosa cabroeira armada. Prometeu combater a Coluna Prestes, obtendo armas e munições, mas jamais a combateu e usou essas provisões em benefício próprio. Encorajado pelo cangaceiro Massilon, aventurou-se a atacar Mossoró, cidade grande e bem guarnecida, mas a população indignada se armou e se defendeu com bravura. Lampião e seu bando sofreram constrangedora derrota e tiveram que se retirar com os rabos entre as pernas. A fuga até Pernambuco, viajando à noite e com toda cautela, foi um episódio épico.

As proezas de Lampião e outros cangaceiros, no entanto, causavam imenso constrangimento ao país, em especial pelo noticiário da imprensa internacional. Era uma vergonha, uma nódoa que em pleno Século XX o cangaço ainda agisse em vasta porção do nosso território. Apesar do intenso combate, ele persistiu até 1938, ano da morte de Lampião, e que os historiadores assinalam como o final do cangaço. As atividades cangaceiras chegaram até quase metade do século passado, enquanto o mundo superava a I Guerra Mundial, a Revolução Russa e outros acontecimentos que alteraram o panorama geopolítico do planeta. Mas os cangaceiros prosseguiam na sua faina assassina, indiferentes a tudo e desafiando o poder do Estado. Com a posse de Getúlio Vargas, na crista da vitoriosa Revolução de 1930, o governo federal “apertou” os governadores para que acabassem com o cangaço o mais depressa possível. Sua sobrevivência constituía uma vergonha nacional. Acabar com ele se tornou uma questão de honra.

Dentro do país, os protestos contra o cangaço não cessavam. Nos discursos e nos jornais muitas vozes se levantavam, exigindo seu fim. Entre os muitos que se manifestaram nesse sentido estava Humberto de Campos, escritor de grande mérito e prestígio, integrante da Academia Brasileira de Letras e temido pela combatividade e pela inaudita coragem. Em seu livro “Notas de um diarista”, 1ª. série, edição póstuma, nada menos que três ensaios são dedicados ao assunto. No primeiro deles, o autor registra sua indignação diante da invasão da vila de Curuçá pelo grupo de Lampião, composto de 60 cangaceiros, e praticando as maiores atrocidades; no segundo, comenta a anunciada formação de uma coluna militar com mais de ml homens e formidável armamento, inclusive com aviões, sob o comando do capitão do exército Carlos Chevalier; no terceiro e último, volta a comentar a Expedição Chevalier, cuja partida fora suspensa em face do elevado custo da operação. Relembra que – como havia previsto – ela estaria fadada ao fracasso, uma vez que metralhadoras pesadas, canhões e tanques de pouco serviriam na caatinga adusta, onde os cangaceiros exercitavam uma guerra móvel, precursora das guerrilhas, contando com grande mobilidade e absoluto conhecimento do terreno.

Enquanto se discutia, o bando de Lampião e outros agiam com a maior liberdade, colocando em pânico as populações sertanejas a um simples boato sobre sua chegada. Em virtude de sua excentricidade, o cangaço é um fenômeno de patologia social dos mais estudados, existindo hoje imensa bibliografia a respeito.

Escrito por Enéas Athanázio, 11/03/2019 às 11h07 | e.atha@terra.com.br

O jornal do sábio

O escritor pernambucano Antonio Fernando de Andrade vem publicando há vários anos um periódico sui generis que já se tornou conhecido em todo o país. Em formato de panfleto e muito bem ilustrado, é de uma criatividade incrível no encarar a realidade nacional. Com grande coragem editorial e esbanjando humor, ele põe a nu as mazelas brasileiras em charges que nada perdoam. O sucesso tem sido enorme e a publicação já superou os 1235 números.

Nos exemplares que tenho em mãos, - os mais recentes que recebi, - ele comenta assuntos sempre presentes no noticiário, como o estado precário da saúde pública. Diógenes – escreve ele – sai com sua lanterna não à procura de um homem mas à procura de um remédio nos postos de saúde... Veja os direitos do povo, alerta ele diante de um quadro em branco, para concluir: Você não é deficiente visual! E continua: No Século XXX arqueólogos descobrem ruínas no Brasil: o povo era humilhado, explorado e esquecido. Para compensar, quase foi aprovado no Congresso projeto para beneficiar o povo. Não fosse o quase... Em compensação, o povo está livre da depressão, pois chegou o cartão propina.

A má qualidade da educação não escapa. O professor, afirma ele, é uma espécie em extinção. E o maior sonho de muitos é ter um professor alfabetizado. A indispensável reforma da educação prevê os seguintes itens: exportar analfabetos, atualizar o livro sem páginas, incluir a fofoca no primeiro grau e colocar no lixo as cotas para livros. Será perfeita! E agora que reformamos, legislamos e desviamos, o que mais deseja o povo? Morrer? O analfabeto, informa ele, é uma obra inacabada da educação.

A segurança pública marca presença. Menor matador é preso, diz a manchete do Jornal da Mentira. Qual o seu maior sonho? Ter um porte de arma especial. E que mais? Morar num presídio de segurança máxima. Menor abandonado é quase adotado, menor matador é quase preso. Última hora: mineradora precisa de fiscais! Vivemos sob lamas, impunidade e mortes. Na onda de reformas, o Brasil vai patentear a impunidade.

Enquanto isso, prepara-se a reforma política, informa o Jornal da Mentira. Mas ela só virá em 31 de fevereiro. No circo político, o palhaço oficial é o povo. Não tem voz, nem vez, nem liberdade, nem proteção.

E a fome que grassa no país? Foi descoberto o vírus da fome, afirma ele: o salário mínimo. Os direitos humanos, a ONU e Médicos Sem Fronteiras não conseguiram derrotar a milenar fome. A fome é a morte por falta de pão e as crianças estão sem voz, sem vez e sem pão. Enquanto são vendidas as verbas para combater a fome o Brasil terceiriza a fome dos brasileiros. Porque a fome é o clímax da humilhação.

Nessa onda de privatizações, acabarão por privatizar a Previdência. Em conclusão: o povo é o refugiado do sistema. E os assalariados são os refugiados da escravidão.

Como diziam os romanos: ridendo castigat mores!
___________________________
Contatos com o Jornal do Sábio: Rua D. João Moura, 3 0 5
Engenho do Meio – 50730-030 – RECIFE – PE.

Escrito por Enéas Athanázio, 07/03/2019 às 10h17 | e.atha@terra.com.br

BOAS TARDES, COMPANHEIRADA!

Tavico alimentava pretensões eleitorais e gostava da atividade política. Deparava-se, porém, com um sério obstáculo: não conseguia falar em público. Diante dos ouvintes, entrava numa timidez infantil, as pernas fraquejavam e batia-lhe invencível tremedeira. O máximo que conseguia era levantar o chapéu e exclamar em voz tremida:

- Boas tardes, companheirada!

Diante do impasse, justou um porta-voz, advogado sem serviço mas bem falante.

Lançado candidato, Tavico compareceu ao grande comício realizado na praça central da cidade e com intensa presença de público. E lá estava ele, com ar solene, apresentando-se ao eleitorado. Ao lado, muito empolgado, o porta-voz tomou da palavra:

- Senhoras e senhores! Estou aqui, junto de nosso candidato e falando em nome dele. Trata-se de pessoa das mais conhecidas, homem de bem, cidadão prestante. É um homem alquebrado nas lutas em favor do povo, alquebrado no serviço coletivo, alquebrado na devoção ao bem comum, alquebrado, alquebrado. . .

Tavico, ali perto, pegou a se inquietar com aquilo. Trocava as pernas, retorcia os bastos bigodes e começou a suar frio. Até que, não suportando mais, venceu a custo a timidez e bradou:

- Péra aí, dotor, péra aí! Quebrado, não! Quebrado, não!

A gargalhada do povaréu ecoou na praça mas o candidato ficou feliz por ter colocado as coisas no devido lugar.

Eleito, Tavico compareceu à solenidade de posse no salão do Clube Comercial, o mais importante do lugar. Todo enfeitado e florido, o local estava repleto de convidados e iluminado de maneira feérica. A banda local, a euterpe municipal, logo de início atacou o Hino Nacional. Muito animado e disposto, o candidato eleito agarrou a patroa e saiu dançando, só parando quando a banda deu os derradeiros acordes.

Retornando à mesa, enxugando com um lenço rajado o suor que brotava da testa, foi indagado por um gaiato:

- Então, “seu” Tavico, que achou da música?

E ele, muito pronto:

- Munto boa, munto boa, mas munto ligeirinha!

Dias após a posse, Tavico foi convocado para um curso em Florianópolis, destinado a orientar os novos eleitos. Para lá se dirigiu, hospedou-se em grande estilo num bom hotel junto com a comitiva. Passou um dia inteiro dentro de uma sala abafada ouvindo explicações e mais explicações sobe administração, orçamento, normas tributárias e o mais. No final da aula, suado e cansado, saía da sala quando se deparou com o repórter Adolfo Zigelli de microfone em punho. Tentou se desviar mas o repórter escolado o cercou num canto e foi perguntando:

- Então, “seu” Tavico, como foi o curso?

- Bãh, tchê! – respondeu ele. – Tô ca cabeça que é um tacho!

Pano rápido! – como dizia o Milor Fernandes.

Escrito por Enéas Athanázio, 25/02/2019 às 09h23 | e.atha@terra.com.br

AGRURAS DO MEIÓTA

Embora retinto e lustroso, ninguém se arriscava a chamá-lo de negro. Com muito boa vontade, estando no seu dinheiro, ele tolerava que o tratassem de moreno, eufemismo em geral usado. Naqueles tempos o conceito de negritude era difuso e a palavra já por si carregava enorme carga de preconceito. Tanto que o Meióta não aceitava preto ou negro e respondia em cima da tampa: “Isso é sua mãe!” Exigia que o chamassem de cidadão e tinha lá suas boas razões, encravadas nos dias já afastados do passado. E no entanto, nunca se livrou do apelido, por mais que protestasse.

Quando o conheci, ele residia num rancho para os lados da “saída” e vivia dias difíceis. Em nossos encontros sempre nos tratamos com cordialidade, mesmo quando ele, bem alto na pinga, andava em zigue-zague pela rua poeirenta. Numa dessas ocasiões, ele afirmou, com a língua travada e a voz pastosa: “Eu já fui coisa nesta vida, menino! Não fosse o maldito vício, hoje eu seria o seu Pereira, enfiado no meu uniforme, e todos me respeitariam.” Não tive razão para duvidar, mesmo porque ele tinha modos de gente educada e eu, ainda garoto, o conhecia de pouco. Mas a partir dali tomei interesse e comecei a indagar a respeito daquele homem solitário e sofrido.

Contava-se na Vila que Meióta, cujo nome caiu no esquecimento, fora, de fato, coisa. Entrando muito cedo no serviço da ferrovia, aos trinta e poucos era chefe-de-trens cargueiros e, pouco depois, de passageiros, quase no topo da carreira que terminava na função de inspetor. E lá ia ele, o seu Pereira, para o norte e para o sul, envergando seu vistoso uniforme azul com botões e punhos dourados, coberto pelo quepe alusivo à condição de chefe supremo a bordo da composição. Em passo firme e decidido, percorria os vagões, gritando o nome da próxima estação, e recolhendo os tíquetes das passagens. Respeitado por todos, tinha fama de honesto, não aceitando propinas e nem permitindo clandestinos. No seu trem ninguém viajava sem passagem e os passageiros tinham que manter o bom comportamento. Nada de gritarias, arruaças, bebedeiras ou agarramentos de casais.

Mas – e aí entra o velho mas! – o vício é a perdição do homem. Provando um gole aqui, outro acolá, nas frias e solitárias travessias do vale tortuoso por onde o trem corria todos os dias, virou um escravo da pinga, transformando-se naquilo que os médicos definem gravemente por dependente. Quando começou a se sentir notado pelos subordinados, maquinistas, foguistas, guarda-freios e jornaleiros, tratou de esconder o vício numa pequena garrafa que levava no bolso, - uma meióta, - de onde lhe veio o tenebroso apelido. E assim, em pouco tempo, perdeu o emprego, perdeu o respeito dos outros, perdeu até o próprio nome, substituído pela alcunha infamante. Foi morar naquela Vila esquecida, biscateando, fugindo das chuvas e friagens num rancho mambembe, feio e esburacado.

Tinha lá alguns amigos, entre eles um tal Natão, desocupado e desordeiro que passava os dias na plataforma da estação, numa roda de vadios, proseando prosas à-toa e dando risadas que ecoavam ao longe. Quando não bebia, Natão era o melhor dos amigos; bêbado, ficava insuportável. Nesse estado, por mal da sorte, acometia-o uma idéia malvada e sem razão: queria a todo custo incendiar o rancho do Meióta e mais de uma vez foi impedido a muque de realizar o propósito incendiário. Pertencente à família dos mandões da Vila, nada lhe acontecia, e por isso o pobre Meióta vivia em permanente e desesperada vigília. Cada vez que avistava o Natão no rumo de seu rancho ou lhe diziam que ele andava por aquelas bandas, desabalava na defesa de seu último reduto. Não foram poucas as vezes em que acordou, alta madrugada, com o Natão rondando sua mísera morada, munido de petrechos inflamáveis. Durante anos essa corrida se repetiu.

Os tempos voaram, afastei-me da Vila e não tive notícia do desfecho de tão estranho furor incendiário. Meióta “passou para o outro lado do mistério”, como dizia mestre Machado de Assis, e Natão está sumido em vida, conforme o dito mineiro. Creio que o rancho não foi consumido pelas chamas, mas os protagonistas da história, com certeza, se consumiram no fogo da pinga.

Escrito por Enéas Athanázio, 18/02/2019 às 09h57 | e.atha@terra.com.br

O CONTESTADO: CONVERGÊNCIAS E DIVERGÊNCIAS

Os historiadores consagraram o nome de Guerra do Contestado para designar o conflito ocorrido no Planalto entre 1912 e 1916. Nas minhas leituras a respeito, cheguei à conclusão de que se trata de uma designação imprópria. Tanto do ponto de vista jurídico como sociológico, o que aconteceu, na verdade, foi uma revolução e não uma guerra. De fato, o que caracteriza uma revolução é o movimento espontâneo, nascido de baixo para cima e com o objetivo de alterar pela força um statu quo que oprime ou prejudica as pessoas. Havia na região profundo mal-estar social decorrente das dificuldades econômicas dos moradores menos favorecidos, entregues ao abandono e submetidos aos desmandos dos latifundiários. Com o término da construção da ferrovia, grande contingente de trabalhadores braçais, os chamados arigós, foram demitidos, engrossando a caudal de desempregados que não tinham para onde ir. Agravou-se ainda mais a situação quando a Companhia Lumber, um dos braços do Sindicato Farquhar, deu início à expulsão dos posseiros que habitavam as terras recebidas do governo federal em troca da construção da estrada de ferro. Tudo isso, além da confusão decorrente da questão de limites entre Santa Catarina e o Paraná e o fanatismo religioso implantado pela longa pregação dos “monges” levou aquele povo à maior sublevação popular de nossa história. O povo da região, pelo que verifiquei, rotulava aqueles acontecimentos como a Revolta dos Jagunços, designação que me parece mais aproximada da realidade.

Há muita confusão a respeito do nome da grande madeireira, a segunda maior do país, só suplantada pela de Três Barras. Seu nome correto era Southern Brazil Lumber and Colonization Company. Mais tarde foi “incorporada” ao patrimônio nacional e depois privatizada em uma transação das mais suspeitas, segundo a imprensa da época.

O jornalista Paulo Ramos Derengoski, em livro muito conhecido, afirma que no chamado Combate do Irani, travado em 22 de outubro de 1912, pereceram 13 soldados e 1 alferes, omitindo o número de sertanejos mortos. Em outros autores, li que morreram 22 pessoas, enquanto alguns não conseguem precisar o número exato de vítimas. É uma questão em aberto (*)

Em relação aos personagens, muitas discrepâncias existem. Sobre Chiquinho Alonso, o mesmo autor acima citado afirma que se tratava de antigo tropeiro e havia liderado os “Doze pares de França.” Outros afirmam que ele fora “comandante de briga” de um dos redutos. Ora, corre a versão, ou lenda, de que ele teria liderado a invasão de Calmon quando tinha entre 16 e 17 anos de idade. Com um passado assim longo em outras atividades, não me parece que fosse tão jovem ao comandar a invasão; existe aí algo mal explicado. Por outro lado, sempre tive como certo, a partir de leituras, que o ataque a Calmon ocorreu em 5 de setembro de 1915, mas Derengoski o situa um ano antes, em 1914. É outro ponto a esclarecer.

Escreve ainda o mesmo jornalista que teriam sido usados dois aviões, pela primeira vez em conflito civil, para bombardear a área da luta, lançando panfletos e granadas. Os pilotos foram Ricardo Kirk e Dariolli, ambos italianos, segundo afirma. Em outras fontes, li que Kirk era tenente, portanto oficial das forças armadas nacionais, o que torna difícil entender que fosse italiano. Como se sabe, um dos aviões caiu, matando o referido Ricardo Kirk. Outros autores se referem a um único avião.

Em outra passagem, diz o mesmo autor que o capitão Matos Costa foi morto por Venuto Baiano quando se dirigia à serraria da Companhia Lumber que ardia em chamas. Sempre li que ele, na verdade, foi assassinado nas proximidades de São João dos Pobres, hoje Matos Costa. Os moradores mais antigos indicavam como palco da tragédia o local em que a antiga rodovia cruzava sobre a estrada de ferro. Em virtude desse crime, o Baiano teria sido degolado por Adeodato, o último jagunço, cognominado de Flagelo de Deus,

Por fim, afirma ele que o célebre bilhete de Chiquinho Alonso foi deixado dentro de uma locomotiva e não afixado numa parede, como em geral se afirma.

Como se vê, muitos são os aspectos duvidosos e que precisam de maior esclarecimento.

_____________________
(*) “O desmoronamento do mundo jagunço”, de Paulo Ramos Derengoski, Florianópolis, Fundação Catarinense de Cultura, 1986.

Escrito por Enéas Athanázio, 12/02/2019 às 12h55 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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UMA HISTÓRIA DE AMOR E BALAS

Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, é uma das figuras mais conhecidas da história nacional contemporânea. Poucos homens públicos podem com ele se ombrear em fama e prestígio. Esse conhecimento, no entanto, é quase sempre superficial. Como alguns outros personagens célebres, não é muito o que se sabe de sua real personalidade. Apesar da imensa bibliografia existente, Lampião esconde uma face misteriosa e enigmática. O homem Lampião continua distante.

Decorrido quase um século de sua morte, em 1938, o cangaceiro continua a instigar o interesse dos pesquisadores e as obras a seu respeito não cessam de aparecer. Dentre as mais recentes está o livro “Lampião & Maria Bonita – Uma história de amor e balas”, de autoria do jornalista paulistano Wagner Gutierrez Barreira, publicado pela Editora Planeta (S. Paulo – 2018). É um livro bem escrito, lastreado em intensas pesquisas bibliográficas, visitas a locais de eventos significativos, entrevistas e buscas em publicações e documentos antigos. Traça uma biografia paralela dos dois personagens centrais da gesta cangaceira e revela com imparcialidade as atividades do bandoleiro que desafiou as autoridades e as volantes policiais que fervilhavam pelo sertão em seu encalço. Certas passagens chegam a ter o sabor de genuínas obras de ficção, tão inacreditáveis, ainda que rigorosamente verdadeiras.

Lampião era capaz de atos de extrema generosidade e de atitudes de absoluta crueldade. Implacável nas vinganças, tinha uma coragem sobre-humana. Ferido em combate, foi operado a frio, sem anestesia e sem um gemido. Quando fugiam das tropas policiais, a única filha, ainda de colo, começou a chorar, colocando em risco a segurança do bando. “Mate isso!”, teria determinado a Maria Bonita, ao que ela, indignada, jogou um cantil contra ele, atingindo-o na cabeça. O autor do livro revela um verdadeiro rosário de atrocidades e relaciona, com lugares e datas, os inúmeros combates em que o bando se envolveu.

Alguns episódios superam a ficção. No auge da fama, Lampião enviou uma carta ao governador de Pernambuco propondo a divisão do Estado. Ele governaria o sertão, deixando o restante do território estadual por conta do governador. Em outra ocasião, convidado por Floro Bartolomeu, braço direito do Padre Cícero Romão Batista, visitou Juazeiro do Norte, com toda sua cabroeira, onde foi recebido, entrevistado, armado e municiado para que se comprometesse a combater a Coluna Prestes que assombrava o Nordeste. Forjaram para ele uma patente de capitão dos Batalhões Patrióticos, assinada por um agrônomo do Ministério da Agricultura, sem qualquer validade. Desde então o cangaceiro passou a se declarar capitão mas jamais combateu a Coluna. Semianalfabeto, era inteligente, não se arriscando a enfrentar uma tropa de militares profissionais bem preparados e armados. Quando soube que a patente não tinha valor, teria ficado furioso e ameaçou invadir Juazeiro mas acabou recuando porque a cidade estava muito bem guarnecida. O folclorista potiguar Veríssimo de Melo afirmou que por ocasião do convite o Padre Cícero “estava dementado”, ou seja, “caduco”, na linguagem popular. Essa declaração provocou intensa polêmica.

O livro desvenda muitos episódios interessantes sobre a vida de Lampião e Maria Bonita, suas atividades e amores. É uma contribuição importante para o conhecimento de um tema inesgotável e fascinante: o cangaço. Uma forma de banditismo organizado típica do Brasil, sem similar no mundo e na história.

Escrito por Enéas Athanázio, 18/03/2019 às 13h39 | e.atha@terra.com.br

PROEZAS DE LAMPIÃO

O cangaço foi uma forma de banditismo organizado típica do Brasil, sem similar no mundo ou na história. Ela só foi possível graças aos imensos espaços vazios, abertos e livres de obstáculos, com a população escassa vivendo em fazendas isoladas ou pequenas cidades e vilas com poucos moradores e destituídas de meios de proteção. Graças a isso, o cangaço se espalhou por todo o Nordeste, partes de Minas e de Goiás e, apesar das chamadas “volantes policiais” fervilharem na região em perseguição aos cangaceiros, eles resistiam e seus bandos se tornavam cada vez mais ousados e poderosos. Muitos cangaceiros se transformaram numa espécie de heróis populares, imitações toscas de Robin Hood, que supostamente roubavam dos ricos para dar aos pobres. O Cabeleira, Jesuíno Brilhante, Antônio Silvino, Sinhô Pereira e Corisco (Cristino Gomes da Silva Cleto, o Diabo Loiro) e, acima de todos, Lampião (Virgulino Ferreira da Silva), se notabilizaram em todo o país e até no exterior graças ao noticiário da imprensa a respeito de suas tropelias. A crueldade deles, no entanto, não conhecia limites. Invadiam as povoações, roubavam, sequestravam, destruíam, estupravam e depois se retiravam levando o bárbaro butim.

Lampião granjeou imensa fama. Suas proezas chegaram a ponto de desafiar o governador de Pernambuco, propondo a divisão do Estado entre eles, ficando o cangaceiro como o rei do sertão. Em muitos ataques deixava recados e bilhetes desafiadores às autoridades. Chegou a visitar Juazeiro do Norte, uma das cidades mais importantes da região, avistando-se com o Padre Cícero Romão Batista e as autoridades locais, levando em sua companhia numerosa cabroeira armada. Prometeu combater a Coluna Prestes, obtendo armas e munições, mas jamais a combateu e usou essas provisões em benefício próprio. Encorajado pelo cangaceiro Massilon, aventurou-se a atacar Mossoró, cidade grande e bem guarnecida, mas a população indignada se armou e se defendeu com bravura. Lampião e seu bando sofreram constrangedora derrota e tiveram que se retirar com os rabos entre as pernas. A fuga até Pernambuco, viajando à noite e com toda cautela, foi um episódio épico.

As proezas de Lampião e outros cangaceiros, no entanto, causavam imenso constrangimento ao país, em especial pelo noticiário da imprensa internacional. Era uma vergonha, uma nódoa que em pleno Século XX o cangaço ainda agisse em vasta porção do nosso território. Apesar do intenso combate, ele persistiu até 1938, ano da morte de Lampião, e que os historiadores assinalam como o final do cangaço. As atividades cangaceiras chegaram até quase metade do século passado, enquanto o mundo superava a I Guerra Mundial, a Revolução Russa e outros acontecimentos que alteraram o panorama geopolítico do planeta. Mas os cangaceiros prosseguiam na sua faina assassina, indiferentes a tudo e desafiando o poder do Estado. Com a posse de Getúlio Vargas, na crista da vitoriosa Revolução de 1930, o governo federal “apertou” os governadores para que acabassem com o cangaço o mais depressa possível. Sua sobrevivência constituía uma vergonha nacional. Acabar com ele se tornou uma questão de honra.

Dentro do país, os protestos contra o cangaço não cessavam. Nos discursos e nos jornais muitas vozes se levantavam, exigindo seu fim. Entre os muitos que se manifestaram nesse sentido estava Humberto de Campos, escritor de grande mérito e prestígio, integrante da Academia Brasileira de Letras e temido pela combatividade e pela inaudita coragem. Em seu livro “Notas de um diarista”, 1ª. série, edição póstuma, nada menos que três ensaios são dedicados ao assunto. No primeiro deles, o autor registra sua indignação diante da invasão da vila de Curuçá pelo grupo de Lampião, composto de 60 cangaceiros, e praticando as maiores atrocidades; no segundo, comenta a anunciada formação de uma coluna militar com mais de ml homens e formidável armamento, inclusive com aviões, sob o comando do capitão do exército Carlos Chevalier; no terceiro e último, volta a comentar a Expedição Chevalier, cuja partida fora suspensa em face do elevado custo da operação. Relembra que – como havia previsto – ela estaria fadada ao fracasso, uma vez que metralhadoras pesadas, canhões e tanques de pouco serviriam na caatinga adusta, onde os cangaceiros exercitavam uma guerra móvel, precursora das guerrilhas, contando com grande mobilidade e absoluto conhecimento do terreno.

Enquanto se discutia, o bando de Lampião e outros agiam com a maior liberdade, colocando em pânico as populações sertanejas a um simples boato sobre sua chegada. Em virtude de sua excentricidade, o cangaço é um fenômeno de patologia social dos mais estudados, existindo hoje imensa bibliografia a respeito.

Escrito por Enéas Athanázio, 11/03/2019 às 11h07 | e.atha@terra.com.br

O jornal do sábio

O escritor pernambucano Antonio Fernando de Andrade vem publicando há vários anos um periódico sui generis que já se tornou conhecido em todo o país. Em formato de panfleto e muito bem ilustrado, é de uma criatividade incrível no encarar a realidade nacional. Com grande coragem editorial e esbanjando humor, ele põe a nu as mazelas brasileiras em charges que nada perdoam. O sucesso tem sido enorme e a publicação já superou os 1235 números.

Nos exemplares que tenho em mãos, - os mais recentes que recebi, - ele comenta assuntos sempre presentes no noticiário, como o estado precário da saúde pública. Diógenes – escreve ele – sai com sua lanterna não à procura de um homem mas à procura de um remédio nos postos de saúde... Veja os direitos do povo, alerta ele diante de um quadro em branco, para concluir: Você não é deficiente visual! E continua: No Século XXX arqueólogos descobrem ruínas no Brasil: o povo era humilhado, explorado e esquecido. Para compensar, quase foi aprovado no Congresso projeto para beneficiar o povo. Não fosse o quase... Em compensação, o povo está livre da depressão, pois chegou o cartão propina.

A má qualidade da educação não escapa. O professor, afirma ele, é uma espécie em extinção. E o maior sonho de muitos é ter um professor alfabetizado. A indispensável reforma da educação prevê os seguintes itens: exportar analfabetos, atualizar o livro sem páginas, incluir a fofoca no primeiro grau e colocar no lixo as cotas para livros. Será perfeita! E agora que reformamos, legislamos e desviamos, o que mais deseja o povo? Morrer? O analfabeto, informa ele, é uma obra inacabada da educação.

A segurança pública marca presença. Menor matador é preso, diz a manchete do Jornal da Mentira. Qual o seu maior sonho? Ter um porte de arma especial. E que mais? Morar num presídio de segurança máxima. Menor abandonado é quase adotado, menor matador é quase preso. Última hora: mineradora precisa de fiscais! Vivemos sob lamas, impunidade e mortes. Na onda de reformas, o Brasil vai patentear a impunidade.

Enquanto isso, prepara-se a reforma política, informa o Jornal da Mentira. Mas ela só virá em 31 de fevereiro. No circo político, o palhaço oficial é o povo. Não tem voz, nem vez, nem liberdade, nem proteção.

E a fome que grassa no país? Foi descoberto o vírus da fome, afirma ele: o salário mínimo. Os direitos humanos, a ONU e Médicos Sem Fronteiras não conseguiram derrotar a milenar fome. A fome é a morte por falta de pão e as crianças estão sem voz, sem vez e sem pão. Enquanto são vendidas as verbas para combater a fome o Brasil terceiriza a fome dos brasileiros. Porque a fome é o clímax da humilhação.

Nessa onda de privatizações, acabarão por privatizar a Previdência. Em conclusão: o povo é o refugiado do sistema. E os assalariados são os refugiados da escravidão.

Como diziam os romanos: ridendo castigat mores!
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Contatos com o Jornal do Sábio: Rua D. João Moura, 3 0 5
Engenho do Meio – 50730-030 – RECIFE – PE.

Escrito por Enéas Athanázio, 07/03/2019 às 10h17 | e.atha@terra.com.br

BOAS TARDES, COMPANHEIRADA!

Tavico alimentava pretensões eleitorais e gostava da atividade política. Deparava-se, porém, com um sério obstáculo: não conseguia falar em público. Diante dos ouvintes, entrava numa timidez infantil, as pernas fraquejavam e batia-lhe invencível tremedeira. O máximo que conseguia era levantar o chapéu e exclamar em voz tremida:

- Boas tardes, companheirada!

Diante do impasse, justou um porta-voz, advogado sem serviço mas bem falante.

Lançado candidato, Tavico compareceu ao grande comício realizado na praça central da cidade e com intensa presença de público. E lá estava ele, com ar solene, apresentando-se ao eleitorado. Ao lado, muito empolgado, o porta-voz tomou da palavra:

- Senhoras e senhores! Estou aqui, junto de nosso candidato e falando em nome dele. Trata-se de pessoa das mais conhecidas, homem de bem, cidadão prestante. É um homem alquebrado nas lutas em favor do povo, alquebrado no serviço coletivo, alquebrado na devoção ao bem comum, alquebrado, alquebrado. . .

Tavico, ali perto, pegou a se inquietar com aquilo. Trocava as pernas, retorcia os bastos bigodes e começou a suar frio. Até que, não suportando mais, venceu a custo a timidez e bradou:

- Péra aí, dotor, péra aí! Quebrado, não! Quebrado, não!

A gargalhada do povaréu ecoou na praça mas o candidato ficou feliz por ter colocado as coisas no devido lugar.

Eleito, Tavico compareceu à solenidade de posse no salão do Clube Comercial, o mais importante do lugar. Todo enfeitado e florido, o local estava repleto de convidados e iluminado de maneira feérica. A banda local, a euterpe municipal, logo de início atacou o Hino Nacional. Muito animado e disposto, o candidato eleito agarrou a patroa e saiu dançando, só parando quando a banda deu os derradeiros acordes.

Retornando à mesa, enxugando com um lenço rajado o suor que brotava da testa, foi indagado por um gaiato:

- Então, “seu” Tavico, que achou da música?

E ele, muito pronto:

- Munto boa, munto boa, mas munto ligeirinha!

Dias após a posse, Tavico foi convocado para um curso em Florianópolis, destinado a orientar os novos eleitos. Para lá se dirigiu, hospedou-se em grande estilo num bom hotel junto com a comitiva. Passou um dia inteiro dentro de uma sala abafada ouvindo explicações e mais explicações sobe administração, orçamento, normas tributárias e o mais. No final da aula, suado e cansado, saía da sala quando se deparou com o repórter Adolfo Zigelli de microfone em punho. Tentou se desviar mas o repórter escolado o cercou num canto e foi perguntando:

- Então, “seu” Tavico, como foi o curso?

- Bãh, tchê! – respondeu ele. – Tô ca cabeça que é um tacho!

Pano rápido! – como dizia o Milor Fernandes.

Escrito por Enéas Athanázio, 25/02/2019 às 09h23 | e.atha@terra.com.br

AGRURAS DO MEIÓTA

Embora retinto e lustroso, ninguém se arriscava a chamá-lo de negro. Com muito boa vontade, estando no seu dinheiro, ele tolerava que o tratassem de moreno, eufemismo em geral usado. Naqueles tempos o conceito de negritude era difuso e a palavra já por si carregava enorme carga de preconceito. Tanto que o Meióta não aceitava preto ou negro e respondia em cima da tampa: “Isso é sua mãe!” Exigia que o chamassem de cidadão e tinha lá suas boas razões, encravadas nos dias já afastados do passado. E no entanto, nunca se livrou do apelido, por mais que protestasse.

Quando o conheci, ele residia num rancho para os lados da “saída” e vivia dias difíceis. Em nossos encontros sempre nos tratamos com cordialidade, mesmo quando ele, bem alto na pinga, andava em zigue-zague pela rua poeirenta. Numa dessas ocasiões, ele afirmou, com a língua travada e a voz pastosa: “Eu já fui coisa nesta vida, menino! Não fosse o maldito vício, hoje eu seria o seu Pereira, enfiado no meu uniforme, e todos me respeitariam.” Não tive razão para duvidar, mesmo porque ele tinha modos de gente educada e eu, ainda garoto, o conhecia de pouco. Mas a partir dali tomei interesse e comecei a indagar a respeito daquele homem solitário e sofrido.

Contava-se na Vila que Meióta, cujo nome caiu no esquecimento, fora, de fato, coisa. Entrando muito cedo no serviço da ferrovia, aos trinta e poucos era chefe-de-trens cargueiros e, pouco depois, de passageiros, quase no topo da carreira que terminava na função de inspetor. E lá ia ele, o seu Pereira, para o norte e para o sul, envergando seu vistoso uniforme azul com botões e punhos dourados, coberto pelo quepe alusivo à condição de chefe supremo a bordo da composição. Em passo firme e decidido, percorria os vagões, gritando o nome da próxima estação, e recolhendo os tíquetes das passagens. Respeitado por todos, tinha fama de honesto, não aceitando propinas e nem permitindo clandestinos. No seu trem ninguém viajava sem passagem e os passageiros tinham que manter o bom comportamento. Nada de gritarias, arruaças, bebedeiras ou agarramentos de casais.

Mas – e aí entra o velho mas! – o vício é a perdição do homem. Provando um gole aqui, outro acolá, nas frias e solitárias travessias do vale tortuoso por onde o trem corria todos os dias, virou um escravo da pinga, transformando-se naquilo que os médicos definem gravemente por dependente. Quando começou a se sentir notado pelos subordinados, maquinistas, foguistas, guarda-freios e jornaleiros, tratou de esconder o vício numa pequena garrafa que levava no bolso, - uma meióta, - de onde lhe veio o tenebroso apelido. E assim, em pouco tempo, perdeu o emprego, perdeu o respeito dos outros, perdeu até o próprio nome, substituído pela alcunha infamante. Foi morar naquela Vila esquecida, biscateando, fugindo das chuvas e friagens num rancho mambembe, feio e esburacado.

Tinha lá alguns amigos, entre eles um tal Natão, desocupado e desordeiro que passava os dias na plataforma da estação, numa roda de vadios, proseando prosas à-toa e dando risadas que ecoavam ao longe. Quando não bebia, Natão era o melhor dos amigos; bêbado, ficava insuportável. Nesse estado, por mal da sorte, acometia-o uma idéia malvada e sem razão: queria a todo custo incendiar o rancho do Meióta e mais de uma vez foi impedido a muque de realizar o propósito incendiário. Pertencente à família dos mandões da Vila, nada lhe acontecia, e por isso o pobre Meióta vivia em permanente e desesperada vigília. Cada vez que avistava o Natão no rumo de seu rancho ou lhe diziam que ele andava por aquelas bandas, desabalava na defesa de seu último reduto. Não foram poucas as vezes em que acordou, alta madrugada, com o Natão rondando sua mísera morada, munido de petrechos inflamáveis. Durante anos essa corrida se repetiu.

Os tempos voaram, afastei-me da Vila e não tive notícia do desfecho de tão estranho furor incendiário. Meióta “passou para o outro lado do mistério”, como dizia mestre Machado de Assis, e Natão está sumido em vida, conforme o dito mineiro. Creio que o rancho não foi consumido pelas chamas, mas os protagonistas da história, com certeza, se consumiram no fogo da pinga.

Escrito por Enéas Athanázio, 18/02/2019 às 09h57 | e.atha@terra.com.br

O CONTESTADO: CONVERGÊNCIAS E DIVERGÊNCIAS

Os historiadores consagraram o nome de Guerra do Contestado para designar o conflito ocorrido no Planalto entre 1912 e 1916. Nas minhas leituras a respeito, cheguei à conclusão de que se trata de uma designação imprópria. Tanto do ponto de vista jurídico como sociológico, o que aconteceu, na verdade, foi uma revolução e não uma guerra. De fato, o que caracteriza uma revolução é o movimento espontâneo, nascido de baixo para cima e com o objetivo de alterar pela força um statu quo que oprime ou prejudica as pessoas. Havia na região profundo mal-estar social decorrente das dificuldades econômicas dos moradores menos favorecidos, entregues ao abandono e submetidos aos desmandos dos latifundiários. Com o término da construção da ferrovia, grande contingente de trabalhadores braçais, os chamados arigós, foram demitidos, engrossando a caudal de desempregados que não tinham para onde ir. Agravou-se ainda mais a situação quando a Companhia Lumber, um dos braços do Sindicato Farquhar, deu início à expulsão dos posseiros que habitavam as terras recebidas do governo federal em troca da construção da estrada de ferro. Tudo isso, além da confusão decorrente da questão de limites entre Santa Catarina e o Paraná e o fanatismo religioso implantado pela longa pregação dos “monges” levou aquele povo à maior sublevação popular de nossa história. O povo da região, pelo que verifiquei, rotulava aqueles acontecimentos como a Revolta dos Jagunços, designação que me parece mais aproximada da realidade.

Há muita confusão a respeito do nome da grande madeireira, a segunda maior do país, só suplantada pela de Três Barras. Seu nome correto era Southern Brazil Lumber and Colonization Company. Mais tarde foi “incorporada” ao patrimônio nacional e depois privatizada em uma transação das mais suspeitas, segundo a imprensa da época.

O jornalista Paulo Ramos Derengoski, em livro muito conhecido, afirma que no chamado Combate do Irani, travado em 22 de outubro de 1912, pereceram 13 soldados e 1 alferes, omitindo o número de sertanejos mortos. Em outros autores, li que morreram 22 pessoas, enquanto alguns não conseguem precisar o número exato de vítimas. É uma questão em aberto (*)

Em relação aos personagens, muitas discrepâncias existem. Sobre Chiquinho Alonso, o mesmo autor acima citado afirma que se tratava de antigo tropeiro e havia liderado os “Doze pares de França.” Outros afirmam que ele fora “comandante de briga” de um dos redutos. Ora, corre a versão, ou lenda, de que ele teria liderado a invasão de Calmon quando tinha entre 16 e 17 anos de idade. Com um passado assim longo em outras atividades, não me parece que fosse tão jovem ao comandar a invasão; existe aí algo mal explicado. Por outro lado, sempre tive como certo, a partir de leituras, que o ataque a Calmon ocorreu em 5 de setembro de 1915, mas Derengoski o situa um ano antes, em 1914. É outro ponto a esclarecer.

Escreve ainda o mesmo jornalista que teriam sido usados dois aviões, pela primeira vez em conflito civil, para bombardear a área da luta, lançando panfletos e granadas. Os pilotos foram Ricardo Kirk e Dariolli, ambos italianos, segundo afirma. Em outras fontes, li que Kirk era tenente, portanto oficial das forças armadas nacionais, o que torna difícil entender que fosse italiano. Como se sabe, um dos aviões caiu, matando o referido Ricardo Kirk. Outros autores se referem a um único avião.

Em outra passagem, diz o mesmo autor que o capitão Matos Costa foi morto por Venuto Baiano quando se dirigia à serraria da Companhia Lumber que ardia em chamas. Sempre li que ele, na verdade, foi assassinado nas proximidades de São João dos Pobres, hoje Matos Costa. Os moradores mais antigos indicavam como palco da tragédia o local em que a antiga rodovia cruzava sobre a estrada de ferro. Em virtude desse crime, o Baiano teria sido degolado por Adeodato, o último jagunço, cognominado de Flagelo de Deus,

Por fim, afirma ele que o célebre bilhete de Chiquinho Alonso foi deixado dentro de uma locomotiva e não afixado numa parede, como em geral se afirma.

Como se vê, muitos são os aspectos duvidosos e que precisam de maior esclarecimento.

_____________________
(*) “O desmoronamento do mundo jagunço”, de Paulo Ramos Derengoski, Florianópolis, Fundação Catarinense de Cultura, 1986.

Escrito por Enéas Athanázio, 12/02/2019 às 12h55 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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