Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

Cinquenta Anos

Numa dessas manhãs de isolamento fui acordado pelo telefone. Na outra ponta da linha falava Nêodo Filho, que conheci menino, cujo pai, Nêodo Noronha Dias, é meu amigo desde os tempos acadêmicos, em Florianópolis. Para minha surpresa, comunicava ele que o prefácio que fiz para o livro do pai, em 1970, acabava de ser publicado. Nêodo pai guardou aquelas páginas durante 50 anos, ou seja, por meio século, e as publicou no livro “Só Poesias” (Editora Viseu – Paranavaí/PR – 2020), reunindo boa parte de sua obra poética. Curioso por ver como eu escrevia naquela época e saudoso dos velhos tempos, abri o volume e me deparei com o seguinte texto:

PRÓLOGO
O AUTOR E SUA OBRA(*)

Um prólogo, a rigor, deveria ser uma breve introdução à obra.

A experiência, entretanto, demonstra que tanto melhor compreendida e julgada é a obra quando se tem algum conhecimento prévio sobre o autor, sua formação, sua personalidade.

Eis porque deixo a obra à análise dos críticos e à apreciação dos leitores, fixando-me, principalmente, no seu autor.

Nêodo Noronha Dias não é mais um estreante na poesia. Santa Catarina, onde ele viveu tantos anos –, ora fustigado pelo vento sul, ora aquecido pelo sol dourado da querida Florianópolis –, já o conhece por meio de suas publicações nos principais jornais e dos programas radiofônicos de nossa capital.

Sua sensibilidade poética e seu incontestável talento literário são reconhecidos por quantos conhecem suas produções.

Extravasando as fronteiras estaduais, viu gravados na cera (**) alguns de seus sonetos, na voz de famoso produtos carioca de conhecido programa de rádio (***).

No Paraná, para onde o levou o itinerário de sua vida, suas poesias também enriqueceram alguns jornais.

Outros gêneros literários preocupam também a sua atividade criadora. É autor de numerosos contos, novelas e crônicas, sempre naquele estilo tão seu, tão pessoal, de enredo curto e desenlace trágico.

Nêodo é, aparentemente pelo menos, um espírito alegre. Sua alegria talvez esconda, como em quase todo poeta, a amargura que transparece em suas poesias.

No entanto, brinca com a vida; faz trocadilhos dos seus revezes; ridiculariza as situações que ela cria. Só não brinca com sua arte, uma arte em que é tão difícil acreditar nos dias que correm. Nesse particular é exigente e sério. Tudo reclama de si mesmo para buscar com seriedade e constância a perfeição da forma e a limpidez do conteúdo.

Sua poesia é o retrato fiel de um estado de espírito, é fixação definitiva de um sentimento real, é demonstração evidente da palpitação interior de um poeta que sofre com os males do mundo, cujas mazelas é obrigado a aceitar na vida cotidiana colocada em plano tão inferior em relação à existência artística.

Rebela-se contra a mesquinha condição humana. É dessa vida vazia que ele faz troça, é do dia a dia que ele zomba.

Duas facetas no temperamento do poeta, porque Nêodo é poeta até sem querer. Até aqui seus poemas apareceram em periódicos, onde são lidos hoje para serem esquecidos amanhã.

Agora surgem neste primeiro livro. (****) marco inicial de sua carreira que já se esboça promissora. O livro ficará . Irá para a estante do intelectual, para as bibliotecas, para o recesso dos lares. É uma vida que se inicia, com sua própria trajetória, independente da vontade de seu autor.

Depende apenas de uma condição: da aprovação unânime dos leitores. Aprovação que não titubeamos em prever porque o poeta realmente a merece,

Nêodo, consagrado pelos leitores, há de chorar. Mas, percebendo a pureza dos sentimentos que transmite a outros corações não lamentará os espinhos que ferem, a cada poema, sua sensibilidade artística.

E o leitor verá com ele que:

“Todos vão notar que é sobre espinhos
e não por fantásticos caminhos
que o homem chegará aos pés de Deus!”


Campos Novos - SC
_________________
(*) O Prólogo foi escrito em 1970 quando foi pensado o livro. Decidimos não o alterar mantendo a originalidade do texto.
(**) Em Discos de Vinil.
(***) Colid Filho – Salão Grená – Programa que era levado ao ar pela Rádio Tupi do RJ nos idos 70/80.
(****) De fato, este deveria ter sido o primeiro livro, no entanto ficou aguardando um momento mais oportuno. Outro livro foi publicado antes deste. O primeiro, “Lira de Quatro Luas”, saiu nos anos 80, por obra do apoio da Fundação Cultural de Paranavaí, e também uma participação na coletânea publicada pelo Diretório Acadêmico Tristão de Athaíde (DATA), nos anos 70, “Seara Nova”, foram precursores. Assim, atualizando o texto de Athanázio, este é o segundo livro do poeta. __________________________
Agora, uma mostra da poesia de NNDias:

A VIDA QUE NÃO FOI

Ouves? É o vento gélido que chora.
O mesmo vento que te viu menino.
O vento eterno a murmurar agora,
seguindo noite a dentro seu destino.

Aquela luz que prateia a mata,
é a mesma luz dos sonhares teus...
E se te foi a vida tão ingrata,
medita um pouco pois existe Deus!

Não te lamentes feito o vento errante
que em noite escura assusta o caminhante
a se arrastar eternamente ao léu.

Sorri, medita, olha o céu sereno.
Olhando ao céu te sentirás pequeno.
Sentir-te-ás pequeno olhando ao céu!

(P. 82)
 

Escrito por Enéas Athanázio, 06/07/2020 às 10h57 | e.atha@terra.com.br

DESDE A BABITONGA

Quarenta anos são quase meio século, período em que muita coisa importante pode acontecer, mudando inclusive o destino de povos e nações. É um lapso de tempo em que muitas vidas surgem e prosperam, enquanto outras fenecem sem chegar à maturidade. Muita gente nasceu, cresceu e se diplomou nesse período, integrando hoje as mais diversas categorias profissionais. Escritores, poetas, artistas e músicos deixaram o universo dos anônimos, produziram e lançaram suas obras, e agora formam entre os reconhecidos e consagrados.

Mas foi há quarenta anos, num recanto à beira da Babitonga, que nasceu o “Grupo Literário A ILHA”, reunindo um punhado de rapazes e moças que amavam a Literatura, com o objetivo de batalhar pelas letras e pela cultura, incentivando escritores, poetas e artistas para que produzissem cada vez mais e melhor, publicando e divulgando suas obras de todas as formas possíveis. Sem qualquer ajuda, oficial ou não, afrontando o desinteresse e até a hostilidade de alguns, puseram-se em campo e jamais deixaram de agir. Promoveram encontros de escritores e poetas, lançamentos de livros, palestras, debates, exposições, iniciativas criativas e variadas. Publicaram nesse período inúmeros livros, individuais e coletivos, além do suplemento A ILHA, que nunca deixou de circular, vencendo todos os obstáculos e dificuldades. As circunstâncias impuseram a mudança de sua sede, primeiro para Joinville e depois para Florianópolis, de sorte que o Grupo acabou se transferindo de uma ilha para outra. Isso, no entanto, não afetou a unidade e a disposição de seus integrantes, cada vez mais irmanados no seu ideal.

Num Estado em que todas as associações de escritores fracassaram, desaparecendo sem deixar vestígios e sem influir no meio cultural, o “Grupo Literário A ILHA” é um exemplo admirável de persistência e continuidade, merecendo o reconhecimento público de quem tem acompanhado sua luta de longos anos. Alegro-me por tê-lo prestigiado e aplaudido desde o início e faço votos de que continue assim, ativo e dinâmico, pelo tempo afora, sempre liderado pelo incansável Luiz Carlos Amorim, a quem felicito pelo grande evento: 40 anos de A ILHA.

Original - Balneário Camboriú, maio de 2020.
Escrito por Enéas Athanázio, 29/06/2020 às 12h35 | e.atha@terra.com.br

FAHRENHEIT 451

“Fahrenheit 451” é um dos romances mais célebres da moderna literatura universal. Foi publicado em 1953 e seu autor, Ray Bradbury (1920/2012), nasceu nos Estados Unidos e publicou obras de vários gêneros, como romances, contos, peças teatrais e roteiros para filmes, mas obteve renome mundial com este romance. Equiparado às maiores distopias da literatura, como “Admirável mundo novo”, de Aldous Huxley, e “1984”, de George Orwell, é uma história inquietante e até mesmo profética. A narrativa cria um clima asfixiante que oprime o leitor, embora o enredo seja muito simples e poucos os personagens.

Ambientado em local não identificado, fictício, mas que se parece com os Estados Unidos, é um país rigidamente autoritário do qual os livros, quaisquer que fossem, foram banidos e a posse de um só deles constitui crime. É curioso que o autoritarismo não parte do Estado e seus agentes, mas de baixo para cima, do comportamento do próprio povo, fanatizado e alinhado de maneira bovina com as diretrizes gerais. As pessoas são estimuladas a se divertirem o tempo todo porque assim se tornariam felizes. Todas as casas têm imensas telas de televisão no lugar das paredes exibindo novelas e entretenimentos com os quais as pessoas podem interagir. Para fugir da rotina, são estimuladas a ingerir pílulas e mais pílulas. A delação é a norma e acontece até mesmo dentro das famílias, tal como fez Mildred, mulher do bombeiro Montag, por ter ele lido trechos de um poema para ela e algumas amigas que a visitavam. A delação provoca uma perseguição sem precedentes contra o bombeiro que foge apavorado sem saber aonde ir.

Aspecto dos mais curiosos e paradoxais é que os bombeiros, antes dedicados a apagar incêndios, se transformam em queimadores de livros e sua função é incinerá-los sem piedade onde quer que se encontrem. É que a leitura de livros faz pensar e, portanto, o livro é um perigoso inimigo em potencial. As pessoas não devem pensar mas limitar-se a viver o cotidiano vendo novelas, programas de televisão e conversando sobre futilidades. E obedecendo sem pestanejar as regras estabelecidas.

Montag era bombeiro, bem casado com Mildred, tinha uma bela casa com paredes transformadas em telas de televisão. Cumpria sem problemas sua jornada de trabalho e estava feliz da vida. Vai que encontra na rua a vizinha de nome Clarisse, moça de 17 anos, e ela lhe diz coisas estranhas que começam a trabalhar na sua cabeça. Descobre depois, por acaso, que sua mulher vivia à base de drogas. Por fim, entra em contato com o Professor Faber, velho subversivo que, mesmo com muito medo, o estimula à rebeldia. A queima de uma biblioteca com sua dona, uma idosa que se recusa a abandonar seus livros, é a gota d’água. Num ato revolucionário, lê em voz alta para a mulher e suas amigas o trecho de um poema. Ela o denuncia e desaparece enquanto ele inicia uma fuga desesperada. No outro lado do rio, sobre os trilhos abandonados de uma ferrovia, encontra um grupo de intelectuais foragidos que têm na memória grande parte do conhecimento humano e a eles se junta. Com esse recurso, creio que o autor quis indicar que por mais que seja perseguida a cultura sempre encontra uma forma de renascer. Enquanto eles conversam escondidos na mata avistam os clarões de mais uma guerra em que o mundo está envolvido.

O clima do livro é sufocante. Todos pensam e agem da mesma forma como seres fanatizados e intolerantes. Qualquer ideia diferente ou renovadora é punida e todos devem se conformar com a mesma vidinha monótona e aguada. É um alerta contra as ditaduras de todos os tipos e cores cujos adeptos estão sempre de tocaia para implantá-las.

Recorda o escritor Manuel da Costa Pinto, prefaciador da edição brasileira, o seguinte fato: “Em 1933, quando os nazistas queimaram em praça pública livros de escritores e intelectuais como Marx, Kafka, Thomas Mann, Albert Einsten e Freud, o criador da psicanálise fez o seguinte comentário a seu amigo Ernest Jones: Que progresso estamos fazendo. Na Idade Média, teriam queimado a mim; hoje em dia, eles se contentam em queimar meus livros.” Mal previa ele que alguns anos depois teria início a maior queima de pessoas já registrada pela história.

A democracia é a maior conquista do homem civilizado. Sua defesa é um dever de quantos não têm alma de escravos.

Escrito por Enéas Athanázio, 23/06/2020 às 12h07 | e.atha@terra.com.br

A DEMOCRACIA EM PERIGO

Para quem viveu os vinte e um anos da ditadura e as barbaridades que eram praticadas no dia-a-dia, a perspectiva de viver sob outra é algo assustador. Mas o panorama político do momento faz temer pelas nossas instituições e pela Constituição de 1988 cuja conquista custou tanto esforço, sofrimento, perseguições e violência. Um grupo de fascistas, pouco numeroso mas ativo, não cessa de pregar a intervenção militar e o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal. Não sabem esses inocentes úteis que ditadura só serve para quem tem alma de escravo. Para completar, o presidente agita e fala sem cessar os maiores absurdos, sem esconder sua simpatia por tiranos do tipo Pinochet..

Olhando para o passado histórico, a impressão que fica é de que os brasileiros, ou uma boa parte deles, não entendem a democracia. Estão sempre em busca de um senhor, um pai, um chefe a quem obedecer sem pestanejar e sem pensar. Talvez isso venha do segundo reinado, quando D. Pedro II era endeusado como o Pai do Povo cujas ordens eram sempre sábias e corretas, não podendo jamais ser discutidas e, muito menos, contestadas. Assim, o povo estava eximido de pensar; só lhe cabia obedecer. Talvez isso venha de mais longe ainda, dos tempos coloniais, quando os portugueses e os brasileiros esperavam a ressurreição do rei D. Sebastião, morto na batalha de Alcácer-Kibir, e que viria à frente de seu exército encantado para esmagar os inimigos e diante de quem todos se curvariam em sinal de completa obediência e submissão. É possível que esse sebastianismo explique porque estamos sempre buscando um salvador da pátria que nos livrará de todos os males, a exemplo de Collor, Lula e agora Bolsonaro. E assim vamos tropicando pela estrada da vida sem saber ao certo o que desejamos para o país.

D. Sebastião, morto na batalha de Alcácer-Kibir

A revista “Quatro Cinco Um”, em número recente, publicou extensa análise da democracia no Brasil em diversas abordagens. Fez um resumo dos atentados contra ela ao longo dos últimos 100 anos, alguns consumados e outros não. A leitura deixa na alma o sentimento melancólico de que nunca conseguimos consolidar a democracia de forma tranqüula e como definitivo regime do país. Sempre houve e ainda há os que tramam contra ela. Ao contrário da liberdade, do debate, da transparência, querem o obscurantismo, o ódio e a violência.

Desde 1922 até 1964 acontecem sucessivos atos de força por parte dos governos. Estado de sítio, leis draconianas, a Revolução de 1930, a Lei de Segurança Nacional e o Tribunal de Segurança Nacional, ambos de triste memória, deportações, suspensão dos direitos individuais, o golpe de 1937 e a instauração do Estado Novo, cassação de mandatos, o Congresso é fechado, nova Constituição é outorgada (a “polaca”), é instituída a censura, massacres de manifestantes, dissolução da Universidade do Distrito Federal, jornais e entidades de trabalhadores são fechados, sindicatos sofrem intervenção, “golpe preventivo” do general Lott (a “novembrada”), os militares impedem a posse de João Goulart, o golpe de 1964 e a instauração das trevas que vão até 1985, quando tem início a luta pela redemocratização. Como se vê, foi um rosário de atentados contra a democracia que deveriam servir de exemplo mas que muitos fazem por ignorar.

Não podemos voltar a esse estado de coisas. A democracia pode ter seus defeitos e certamente os tem, mas o gênio dos pensadores ainda não conseguiu inventar nada melhor. Só em regime democrático o cidadão pode viver com dignidade. A democracia é o império da lei e, como dizia Rui, fora da lei não há salvação. A história tem demonstrado que nos regimes de força o indivíduo nada vale.

Defender a Constituição e o Estado Democrático de Direito deve ser o mais importante dos objetivos nacionais permanentes do país.

Escrito por Enéas Athanázio, 15/06/2020 às 10h12 | e.atha@terra.com.br

HOLOCAUSTO NUNCA MAIS (2)

Depois de se tornar um best-seller mundial, o livro “O garoto que seguiu o pai para Auschwitz”, de autoria do escritor e jornalista britânico Jeremy Bronfield, foi publicado no Brasil pela Editora Objetiva em tradução de Cássio de Arantes Leite (Rio – 2019). A obra é um retrato fiel e dramático, fundado em copiosa documentação e fontes informativas, dos padecimentos do artesão vienense Gustav Kleinmann e seu filho Fritz, ainda garoto, nos campos de concentração nazistas em que foram aprisionados pelo fato de serem judeus durante a II Guerra Mundial. Tão chocantes são as revelações que o próprio autor confessou o quanto gostaria que os relatos fossem pura ficção. Mas a documentação demonstra que tudo foi a mais absoluta verdade.

Fritz e Gustav em 1959 / Fritz em 1937 (Crédito:Divulgação e Peter Kleinmann)

Pequeno e hábil artesão, Gustav Kleinmann vivia em Viena com a esposa Tini e quatro filhos, Kurt, Fritz, Edith e Herta. Vida modesta mas estável, com boa freguesia e desfrutando da amizade dos vizinhos. Mas o ambiente começou a mudar quando Hitler manifestou o desejo de anexar a Áustria à Alemanha, propósito que sempre alimentou e jamais escondeu. Os adeptos da unificação desencadearam intensa propaganda e as opiniões se dividiram. Para resolver a questão, o chanceler austríaco designou um plebiscito. Irado, no seu estilo tonitruante, Hitler exigiu que a votação fosse suspensa mas o chanceler não concordou e foi afastado do cargo. O plebiscito foi realizado com evidente manipulação dos resultados e a Áustria foi anexada. Era a Anschluss e a partir dali as portas do inferno se abriram, como afirmou uma testemunha. Tiveram início as perseguições contra os judeus e as restrições cada vez maiores de suas atividades. Denunciados pelos vizinhos, antes amigos, Gustav e o filho Fritz foram presos e enviados ao campo de concentração de Buchenwald nos costumeiros vagões destinados ao transporte de gado e tão lotados que as pessoas mal podiam respirar. Aí tem início o terrível calvário vivido pelo pai e pelo filho.

Chegados ao destino, mais mortos que vivos, famintos, sedentos e sonolentos, são submetidos à burocracia: filas, registro, chamada. Raspam-lhes as cabeças, substituem suas roupas por grosseiros uniformes e são enviados aos alojamentos onde dormirão em tarimbas secas e apertadas. A alimentação é precária e insuficiente. E então são enviados aos campos de trabalho escravo, vigiados com extrema severidade pelos soldados e pelos kapos (prisioneiros que mudaram de lado) A brutalidade é constante, tanto nos atos como nas palavras. Não basta matar, é preciso humilhar, maltratar, espancar e, quando possível, explorar. As chamadas Unidades da Caveira superavam as maiores brutalidades imagináveis. Muitos oficiais se notabilizaram pela frieza e pela maldade. Sua presença aterrorizava os prisioneiros.

As cenas de brutalidade são chocantes. Enviados às pedreiras, cabia-lhes alimentar o triturador, carregar os vagonetes e transportá-los pela colina acima e abaixo. Tudo com rapidez, sem luvas, as mãos enregeladas e doloridas, e sem agasalhos. Não havia pausas, exceto uma muito breve para a refeição miserável. Muitos desmaiavam, o que constituía motivo para risotas e brincadeiras dos soldados, enchendo-lhes as bocas de água e acordando-os a cacetadas. Outros tinham que limpar as latrinas, um trabalho abjeto, feito com as mãos nuas e sem qualquer proteção. E os soldados e kapos, nos seus uniformes impecáveis, divertiam-se à custa dos miseráveis. Tiravam-lhes os bonés e os jogavam para além da linha proibida onde o prisioneiro não podia entrar. Imaginando que se tratava de simples brincadeira, os inocentes cruzavam a linha e eram fuzilados sem piedade. Tais fuzilamentos mereciam elogios e prêmios. A maldade não tinha limites.

Não obstante, apesar de todos os horrores, Gustav e Fritz conseguiram sobreviver para contar a terrível experiência a que foram submetidos. Sua triste história ficou como mais um documento da estupidez humana. Com incrível esforço, conseguiram retomar o curso da vida.

O preconceito é um sentimento que não consigo entender. Ninguém escolhe para nascer branco, preto, amarelo ou vermelho. Como ninguém escolhe para nascer europeu, asiático, americano ou africano. Da mesma forma que ninguém escolhe nascer católico, budista, muçulmano ou judeu. Tudo é fruto do mero acaso, dependente do local onde os pais estejam no momento do nascimento e das crenças familiares. Odiar alguém por algum desses motivos não tem o menor sentido e afronta a lógica do homem comum. Odiar o negro porque é negro, o judeu porque é judeu, o índio porque é índio é condenar alguém pelo que não tem culpa. Mas o ódio parece cegar muitas pessoas e elas não enxergam as coisas mais elementares.

Escrito por Enéas Athanázio, 08/06/2020 às 10h56 | e.atha@terra.com.br

HOLOCAUSTO NUNCA MAIS

Foto Marcos Oliveira / Agência Senado

O edifício do Congresso Nacional, em Brasília, amanheceu com as palavras “Holocausto nunca mais” em letras fosforescentes. Uma iniciativa muito oportuna no momento em que o antissemitismo cresce em todo o mundo e no Brasil. O Holocausto é uma das maiores feridas da história mundial, nunca cicatrizada, e por isso precisa ser lembrado sempre para que jamais se repita.

Existe imensa bibliografia sobre o assunto e que não cessa de crescer, o que é muito positivo. O conhecimento é a melhor arma contra os preconceitos. Entre os livros mais recentes sobre o Holocausto está “O garoto que seguiu o pai para Auschwitz”, de autoria do escritor e jornalista Jeremy Bronfield que, depois de se tornar um best-seller mundial, foi publicado no Brasil pela Editora Objetiva (Rio – 2019). O livro reconstitui uma história comovente unindo pai e filho na terrível luta diária pela sobrevivência e que merece mais que um comentário. Aqui, no entanto, desejo me ater apenas aos primórdios do relato, no período que antecedeu à prisão de ambos pelas forças nazistas de ocupação na Áustria. Em outra ocasião voltarei ao livro.

Gustav Kleinmann era um habilidoso artesão que vivia em Viena em companhia da esposa, Tini, e dos filhos, Fritz, Kurt, Edith e Herta. Embora fosse judeu, não era ortodoxo, e se considerava um perfeito austríaco. Havia lutado pela pátria na I Guerra Mundial como soldado, sofreu graves ferimentos e foi condecorado por bravura. Embora levassem vida modesta, nada perturbava a família. Mantinha boas relações com a vizinhança e o viver era tranquilo.

A ascensão de Hitler na Alemanha projeta uma sombra sobre a Áustria. Ele jamais escondeu o desejo de anexar o país onde havia nascido e seus adeptos iniciam uma intensa pregação nesse sentido. As opiniões se dividem e manifestações pró e contra se repetem, algumas com violência. O chanceler austríaco, Schuschingg, designa um plebiscito para decidir a questão. Irado, Hitler esbraveja no seu estilo tonitruante e exige o cancelamento da votação, prevendo uma derrota, mas o chanceler não se curva e acaba afastado do cargo. O plebiscito é realizado com evidente manipulação dos resultados e os favoráveis à anexação vencem com larga margem. Hitler anexa a Áustria à Alemanha, dando início à escalada de ocupações que levariam à II Guerra Mundial. Era o Anschluss e o país estava anexado, sem soberania e sem governo próprio. Um títere, dessas figuras abjetas que sempre surgem nessas ocasiões, assume um governo de fachada. Hitler em pessoa visita a Áustria para comemorar e desfila sob aplausos apoteóticos. O povo saudava seu futuro carrasco, o mesmo que o faria derramar lágrimas de sangue.

Um clima de ódio e intolerância toma conta do país. O fanatismo nazista explode em toda parte e a violência aterroriza as pessoas. Conhecidos de ontem que saudavam os Kleinmann com um sorriso nos lábios agora se revelavam inimigos mortais. Uma das filhas é injuriada e humilhada na rua por um colega de escola. Os filhos homens são ofendidos e forçados a quebrar esquinas para se livrarem dos ataques. Passeatas nazistas acontecem a todo momento com os manifestantes gritando insultos contra os judeus e os católicos. A situação se torna insuportável e o clima irrespirável. Gustav é forçado a encerrar as atividades e sua oficina é fechada. Os filhos não podem mais frequentar a escola. As restrições contra os judeus são cada vez mais severas. Até que a família é denunciada pelos vizinhos, antes amigos, e Gustav e Fritz são presos, conduzidos a uma delegacia e depois para Buchenwald, o temido campo de concentração. Aí tem início o calvário a que pai e filho serão submetidos e que o autor do livro relata em pormenores e com base em fundados elementos de prova. Como ele diz, os fatos são tão terríveis que preferiria que não fossem verdadeiros.

Os acontecimentos da Áustria são um exemplo aos que semeiam o ódio e a intolerância e pregam a ditadura. Em regime democrático o Holocausto não teria acontecido. O mundo vive tempos autoritários e discriminatórios capitaneado por Trump nos Estados Unidos e Macron na França, imitados por outros esbirros de menor porte. Mas é preciso resistir porque só na democracia o ser humano pode viver com dignidade. Ditadura só serve para quem tem alma de escravo.

E agora, Moro? O senhor a quem você tanto serviu o descartou como algo desnecessário e o classificou de mentiroso e chantagista. A mestra vida me ensinou que sempre que Promotores e Magistrados se envolvem com políticos acabam mal.

Como diria Camões, o Brasil vive um período de apagada e vil tristeza. 

Escrito por Enéas Athanázio, 01/06/2020 às 18h17 | e.atha@terra.com.br



1 2 3 4 5 6

Enéas Athanázio

Assina a coluna Literatura

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














Fale Conosco - Anuncie no Página 3 - Normas de Uso
© Desenvolvido por Página 3

Endereço: Rua 2448, 360 - Balneário Camboriú - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: [email protected]

Página 3
Literatura
Por Enéas Athanázio

Cinquenta Anos

Numa dessas manhãs de isolamento fui acordado pelo telefone. Na outra ponta da linha falava Nêodo Filho, que conheci menino, cujo pai, Nêodo Noronha Dias, é meu amigo desde os tempos acadêmicos, em Florianópolis. Para minha surpresa, comunicava ele que o prefácio que fiz para o livro do pai, em 1970, acabava de ser publicado. Nêodo pai guardou aquelas páginas durante 50 anos, ou seja, por meio século, e as publicou no livro “Só Poesias” (Editora Viseu – Paranavaí/PR – 2020), reunindo boa parte de sua obra poética. Curioso por ver como eu escrevia naquela época e saudoso dos velhos tempos, abri o volume e me deparei com o seguinte texto:

PRÓLOGO
O AUTOR E SUA OBRA(*)

Um prólogo, a rigor, deveria ser uma breve introdução à obra.

A experiência, entretanto, demonstra que tanto melhor compreendida e julgada é a obra quando se tem algum conhecimento prévio sobre o autor, sua formação, sua personalidade.

Eis porque deixo a obra à análise dos críticos e à apreciação dos leitores, fixando-me, principalmente, no seu autor.

Nêodo Noronha Dias não é mais um estreante na poesia. Santa Catarina, onde ele viveu tantos anos –, ora fustigado pelo vento sul, ora aquecido pelo sol dourado da querida Florianópolis –, já o conhece por meio de suas publicações nos principais jornais e dos programas radiofônicos de nossa capital.

Sua sensibilidade poética e seu incontestável talento literário são reconhecidos por quantos conhecem suas produções.

Extravasando as fronteiras estaduais, viu gravados na cera (**) alguns de seus sonetos, na voz de famoso produtos carioca de conhecido programa de rádio (***).

No Paraná, para onde o levou o itinerário de sua vida, suas poesias também enriqueceram alguns jornais.

Outros gêneros literários preocupam também a sua atividade criadora. É autor de numerosos contos, novelas e crônicas, sempre naquele estilo tão seu, tão pessoal, de enredo curto e desenlace trágico.

Nêodo é, aparentemente pelo menos, um espírito alegre. Sua alegria talvez esconda, como em quase todo poeta, a amargura que transparece em suas poesias.

No entanto, brinca com a vida; faz trocadilhos dos seus revezes; ridiculariza as situações que ela cria. Só não brinca com sua arte, uma arte em que é tão difícil acreditar nos dias que correm. Nesse particular é exigente e sério. Tudo reclama de si mesmo para buscar com seriedade e constância a perfeição da forma e a limpidez do conteúdo.

Sua poesia é o retrato fiel de um estado de espírito, é fixação definitiva de um sentimento real, é demonstração evidente da palpitação interior de um poeta que sofre com os males do mundo, cujas mazelas é obrigado a aceitar na vida cotidiana colocada em plano tão inferior em relação à existência artística.

Rebela-se contra a mesquinha condição humana. É dessa vida vazia que ele faz troça, é do dia a dia que ele zomba.

Duas facetas no temperamento do poeta, porque Nêodo é poeta até sem querer. Até aqui seus poemas apareceram em periódicos, onde são lidos hoje para serem esquecidos amanhã.

Agora surgem neste primeiro livro. (****) marco inicial de sua carreira que já se esboça promissora. O livro ficará . Irá para a estante do intelectual, para as bibliotecas, para o recesso dos lares. É uma vida que se inicia, com sua própria trajetória, independente da vontade de seu autor.

Depende apenas de uma condição: da aprovação unânime dos leitores. Aprovação que não titubeamos em prever porque o poeta realmente a merece,

Nêodo, consagrado pelos leitores, há de chorar. Mas, percebendo a pureza dos sentimentos que transmite a outros corações não lamentará os espinhos que ferem, a cada poema, sua sensibilidade artística.

E o leitor verá com ele que:

“Todos vão notar que é sobre espinhos
e não por fantásticos caminhos
que o homem chegará aos pés de Deus!”


Campos Novos - SC
_________________
(*) O Prólogo foi escrito em 1970 quando foi pensado o livro. Decidimos não o alterar mantendo a originalidade do texto.
(**) Em Discos de Vinil.
(***) Colid Filho – Salão Grená – Programa que era levado ao ar pela Rádio Tupi do RJ nos idos 70/80.
(****) De fato, este deveria ter sido o primeiro livro, no entanto ficou aguardando um momento mais oportuno. Outro livro foi publicado antes deste. O primeiro, “Lira de Quatro Luas”, saiu nos anos 80, por obra do apoio da Fundação Cultural de Paranavaí, e também uma participação na coletânea publicada pelo Diretório Acadêmico Tristão de Athaíde (DATA), nos anos 70, “Seara Nova”, foram precursores. Assim, atualizando o texto de Athanázio, este é o segundo livro do poeta. __________________________
Agora, uma mostra da poesia de NNDias:

A VIDA QUE NÃO FOI

Ouves? É o vento gélido que chora.
O mesmo vento que te viu menino.
O vento eterno a murmurar agora,
seguindo noite a dentro seu destino.

Aquela luz que prateia a mata,
é a mesma luz dos sonhares teus...
E se te foi a vida tão ingrata,
medita um pouco pois existe Deus!

Não te lamentes feito o vento errante
que em noite escura assusta o caminhante
a se arrastar eternamente ao léu.

Sorri, medita, olha o céu sereno.
Olhando ao céu te sentirás pequeno.
Sentir-te-ás pequeno olhando ao céu!

(P. 82)
 

Escrito por Enéas Athanázio, 06/07/2020 às 10h57 | e.atha@terra.com.br

DESDE A BABITONGA

Quarenta anos são quase meio século, período em que muita coisa importante pode acontecer, mudando inclusive o destino de povos e nações. É um lapso de tempo em que muitas vidas surgem e prosperam, enquanto outras fenecem sem chegar à maturidade. Muita gente nasceu, cresceu e se diplomou nesse período, integrando hoje as mais diversas categorias profissionais. Escritores, poetas, artistas e músicos deixaram o universo dos anônimos, produziram e lançaram suas obras, e agora formam entre os reconhecidos e consagrados.

Mas foi há quarenta anos, num recanto à beira da Babitonga, que nasceu o “Grupo Literário A ILHA”, reunindo um punhado de rapazes e moças que amavam a Literatura, com o objetivo de batalhar pelas letras e pela cultura, incentivando escritores, poetas e artistas para que produzissem cada vez mais e melhor, publicando e divulgando suas obras de todas as formas possíveis. Sem qualquer ajuda, oficial ou não, afrontando o desinteresse e até a hostilidade de alguns, puseram-se em campo e jamais deixaram de agir. Promoveram encontros de escritores e poetas, lançamentos de livros, palestras, debates, exposições, iniciativas criativas e variadas. Publicaram nesse período inúmeros livros, individuais e coletivos, além do suplemento A ILHA, que nunca deixou de circular, vencendo todos os obstáculos e dificuldades. As circunstâncias impuseram a mudança de sua sede, primeiro para Joinville e depois para Florianópolis, de sorte que o Grupo acabou se transferindo de uma ilha para outra. Isso, no entanto, não afetou a unidade e a disposição de seus integrantes, cada vez mais irmanados no seu ideal.

Num Estado em que todas as associações de escritores fracassaram, desaparecendo sem deixar vestígios e sem influir no meio cultural, o “Grupo Literário A ILHA” é um exemplo admirável de persistência e continuidade, merecendo o reconhecimento público de quem tem acompanhado sua luta de longos anos. Alegro-me por tê-lo prestigiado e aplaudido desde o início e faço votos de que continue assim, ativo e dinâmico, pelo tempo afora, sempre liderado pelo incansável Luiz Carlos Amorim, a quem felicito pelo grande evento: 40 anos de A ILHA.

Original - Balneário Camboriú, maio de 2020.
Escrito por Enéas Athanázio, 29/06/2020 às 12h35 | e.atha@terra.com.br

FAHRENHEIT 451

“Fahrenheit 451” é um dos romances mais célebres da moderna literatura universal. Foi publicado em 1953 e seu autor, Ray Bradbury (1920/2012), nasceu nos Estados Unidos e publicou obras de vários gêneros, como romances, contos, peças teatrais e roteiros para filmes, mas obteve renome mundial com este romance. Equiparado às maiores distopias da literatura, como “Admirável mundo novo”, de Aldous Huxley, e “1984”, de George Orwell, é uma história inquietante e até mesmo profética. A narrativa cria um clima asfixiante que oprime o leitor, embora o enredo seja muito simples e poucos os personagens.

Ambientado em local não identificado, fictício, mas que se parece com os Estados Unidos, é um país rigidamente autoritário do qual os livros, quaisquer que fossem, foram banidos e a posse de um só deles constitui crime. É curioso que o autoritarismo não parte do Estado e seus agentes, mas de baixo para cima, do comportamento do próprio povo, fanatizado e alinhado de maneira bovina com as diretrizes gerais. As pessoas são estimuladas a se divertirem o tempo todo porque assim se tornariam felizes. Todas as casas têm imensas telas de televisão no lugar das paredes exibindo novelas e entretenimentos com os quais as pessoas podem interagir. Para fugir da rotina, são estimuladas a ingerir pílulas e mais pílulas. A delação é a norma e acontece até mesmo dentro das famílias, tal como fez Mildred, mulher do bombeiro Montag, por ter ele lido trechos de um poema para ela e algumas amigas que a visitavam. A delação provoca uma perseguição sem precedentes contra o bombeiro que foge apavorado sem saber aonde ir.

Aspecto dos mais curiosos e paradoxais é que os bombeiros, antes dedicados a apagar incêndios, se transformam em queimadores de livros e sua função é incinerá-los sem piedade onde quer que se encontrem. É que a leitura de livros faz pensar e, portanto, o livro é um perigoso inimigo em potencial. As pessoas não devem pensar mas limitar-se a viver o cotidiano vendo novelas, programas de televisão e conversando sobre futilidades. E obedecendo sem pestanejar as regras estabelecidas.

Montag era bombeiro, bem casado com Mildred, tinha uma bela casa com paredes transformadas em telas de televisão. Cumpria sem problemas sua jornada de trabalho e estava feliz da vida. Vai que encontra na rua a vizinha de nome Clarisse, moça de 17 anos, e ela lhe diz coisas estranhas que começam a trabalhar na sua cabeça. Descobre depois, por acaso, que sua mulher vivia à base de drogas. Por fim, entra em contato com o Professor Faber, velho subversivo que, mesmo com muito medo, o estimula à rebeldia. A queima de uma biblioteca com sua dona, uma idosa que se recusa a abandonar seus livros, é a gota d’água. Num ato revolucionário, lê em voz alta para a mulher e suas amigas o trecho de um poema. Ela o denuncia e desaparece enquanto ele inicia uma fuga desesperada. No outro lado do rio, sobre os trilhos abandonados de uma ferrovia, encontra um grupo de intelectuais foragidos que têm na memória grande parte do conhecimento humano e a eles se junta. Com esse recurso, creio que o autor quis indicar que por mais que seja perseguida a cultura sempre encontra uma forma de renascer. Enquanto eles conversam escondidos na mata avistam os clarões de mais uma guerra em que o mundo está envolvido.

O clima do livro é sufocante. Todos pensam e agem da mesma forma como seres fanatizados e intolerantes. Qualquer ideia diferente ou renovadora é punida e todos devem se conformar com a mesma vidinha monótona e aguada. É um alerta contra as ditaduras de todos os tipos e cores cujos adeptos estão sempre de tocaia para implantá-las.

Recorda o escritor Manuel da Costa Pinto, prefaciador da edição brasileira, o seguinte fato: “Em 1933, quando os nazistas queimaram em praça pública livros de escritores e intelectuais como Marx, Kafka, Thomas Mann, Albert Einsten e Freud, o criador da psicanálise fez o seguinte comentário a seu amigo Ernest Jones: Que progresso estamos fazendo. Na Idade Média, teriam queimado a mim; hoje em dia, eles se contentam em queimar meus livros.” Mal previa ele que alguns anos depois teria início a maior queima de pessoas já registrada pela história.

A democracia é a maior conquista do homem civilizado. Sua defesa é um dever de quantos não têm alma de escravos.

Escrito por Enéas Athanázio, 23/06/2020 às 12h07 | e.atha@terra.com.br

A DEMOCRACIA EM PERIGO

Para quem viveu os vinte e um anos da ditadura e as barbaridades que eram praticadas no dia-a-dia, a perspectiva de viver sob outra é algo assustador. Mas o panorama político do momento faz temer pelas nossas instituições e pela Constituição de 1988 cuja conquista custou tanto esforço, sofrimento, perseguições e violência. Um grupo de fascistas, pouco numeroso mas ativo, não cessa de pregar a intervenção militar e o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal. Não sabem esses inocentes úteis que ditadura só serve para quem tem alma de escravo. Para completar, o presidente agita e fala sem cessar os maiores absurdos, sem esconder sua simpatia por tiranos do tipo Pinochet..

Olhando para o passado histórico, a impressão que fica é de que os brasileiros, ou uma boa parte deles, não entendem a democracia. Estão sempre em busca de um senhor, um pai, um chefe a quem obedecer sem pestanejar e sem pensar. Talvez isso venha do segundo reinado, quando D. Pedro II era endeusado como o Pai do Povo cujas ordens eram sempre sábias e corretas, não podendo jamais ser discutidas e, muito menos, contestadas. Assim, o povo estava eximido de pensar; só lhe cabia obedecer. Talvez isso venha de mais longe ainda, dos tempos coloniais, quando os portugueses e os brasileiros esperavam a ressurreição do rei D. Sebastião, morto na batalha de Alcácer-Kibir, e que viria à frente de seu exército encantado para esmagar os inimigos e diante de quem todos se curvariam em sinal de completa obediência e submissão. É possível que esse sebastianismo explique porque estamos sempre buscando um salvador da pátria que nos livrará de todos os males, a exemplo de Collor, Lula e agora Bolsonaro. E assim vamos tropicando pela estrada da vida sem saber ao certo o que desejamos para o país.

D. Sebastião, morto na batalha de Alcácer-Kibir

A revista “Quatro Cinco Um”, em número recente, publicou extensa análise da democracia no Brasil em diversas abordagens. Fez um resumo dos atentados contra ela ao longo dos últimos 100 anos, alguns consumados e outros não. A leitura deixa na alma o sentimento melancólico de que nunca conseguimos consolidar a democracia de forma tranqüula e como definitivo regime do país. Sempre houve e ainda há os que tramam contra ela. Ao contrário da liberdade, do debate, da transparência, querem o obscurantismo, o ódio e a violência.

Desde 1922 até 1964 acontecem sucessivos atos de força por parte dos governos. Estado de sítio, leis draconianas, a Revolução de 1930, a Lei de Segurança Nacional e o Tribunal de Segurança Nacional, ambos de triste memória, deportações, suspensão dos direitos individuais, o golpe de 1937 e a instauração do Estado Novo, cassação de mandatos, o Congresso é fechado, nova Constituição é outorgada (a “polaca”), é instituída a censura, massacres de manifestantes, dissolução da Universidade do Distrito Federal, jornais e entidades de trabalhadores são fechados, sindicatos sofrem intervenção, “golpe preventivo” do general Lott (a “novembrada”), os militares impedem a posse de João Goulart, o golpe de 1964 e a instauração das trevas que vão até 1985, quando tem início a luta pela redemocratização. Como se vê, foi um rosário de atentados contra a democracia que deveriam servir de exemplo mas que muitos fazem por ignorar.

Não podemos voltar a esse estado de coisas. A democracia pode ter seus defeitos e certamente os tem, mas o gênio dos pensadores ainda não conseguiu inventar nada melhor. Só em regime democrático o cidadão pode viver com dignidade. A democracia é o império da lei e, como dizia Rui, fora da lei não há salvação. A história tem demonstrado que nos regimes de força o indivíduo nada vale.

Defender a Constituição e o Estado Democrático de Direito deve ser o mais importante dos objetivos nacionais permanentes do país.

Escrito por Enéas Athanázio, 15/06/2020 às 10h12 | e.atha@terra.com.br

HOLOCAUSTO NUNCA MAIS (2)

Depois de se tornar um best-seller mundial, o livro “O garoto que seguiu o pai para Auschwitz”, de autoria do escritor e jornalista britânico Jeremy Bronfield, foi publicado no Brasil pela Editora Objetiva em tradução de Cássio de Arantes Leite (Rio – 2019). A obra é um retrato fiel e dramático, fundado em copiosa documentação e fontes informativas, dos padecimentos do artesão vienense Gustav Kleinmann e seu filho Fritz, ainda garoto, nos campos de concentração nazistas em que foram aprisionados pelo fato de serem judeus durante a II Guerra Mundial. Tão chocantes são as revelações que o próprio autor confessou o quanto gostaria que os relatos fossem pura ficção. Mas a documentação demonstra que tudo foi a mais absoluta verdade.

Fritz e Gustav em 1959 / Fritz em 1937 (Crédito:Divulgação e Peter Kleinmann)

Pequeno e hábil artesão, Gustav Kleinmann vivia em Viena com a esposa Tini e quatro filhos, Kurt, Fritz, Edith e Herta. Vida modesta mas estável, com boa freguesia e desfrutando da amizade dos vizinhos. Mas o ambiente começou a mudar quando Hitler manifestou o desejo de anexar a Áustria à Alemanha, propósito que sempre alimentou e jamais escondeu. Os adeptos da unificação desencadearam intensa propaganda e as opiniões se dividiram. Para resolver a questão, o chanceler austríaco designou um plebiscito. Irado, no seu estilo tonitruante, Hitler exigiu que a votação fosse suspensa mas o chanceler não concordou e foi afastado do cargo. O plebiscito foi realizado com evidente manipulação dos resultados e a Áustria foi anexada. Era a Anschluss e a partir dali as portas do inferno se abriram, como afirmou uma testemunha. Tiveram início as perseguições contra os judeus e as restrições cada vez maiores de suas atividades. Denunciados pelos vizinhos, antes amigos, Gustav e o filho Fritz foram presos e enviados ao campo de concentração de Buchenwald nos costumeiros vagões destinados ao transporte de gado e tão lotados que as pessoas mal podiam respirar. Aí tem início o terrível calvário vivido pelo pai e pelo filho.

Chegados ao destino, mais mortos que vivos, famintos, sedentos e sonolentos, são submetidos à burocracia: filas, registro, chamada. Raspam-lhes as cabeças, substituem suas roupas por grosseiros uniformes e são enviados aos alojamentos onde dormirão em tarimbas secas e apertadas. A alimentação é precária e insuficiente. E então são enviados aos campos de trabalho escravo, vigiados com extrema severidade pelos soldados e pelos kapos (prisioneiros que mudaram de lado) A brutalidade é constante, tanto nos atos como nas palavras. Não basta matar, é preciso humilhar, maltratar, espancar e, quando possível, explorar. As chamadas Unidades da Caveira superavam as maiores brutalidades imagináveis. Muitos oficiais se notabilizaram pela frieza e pela maldade. Sua presença aterrorizava os prisioneiros.

As cenas de brutalidade são chocantes. Enviados às pedreiras, cabia-lhes alimentar o triturador, carregar os vagonetes e transportá-los pela colina acima e abaixo. Tudo com rapidez, sem luvas, as mãos enregeladas e doloridas, e sem agasalhos. Não havia pausas, exceto uma muito breve para a refeição miserável. Muitos desmaiavam, o que constituía motivo para risotas e brincadeiras dos soldados, enchendo-lhes as bocas de água e acordando-os a cacetadas. Outros tinham que limpar as latrinas, um trabalho abjeto, feito com as mãos nuas e sem qualquer proteção. E os soldados e kapos, nos seus uniformes impecáveis, divertiam-se à custa dos miseráveis. Tiravam-lhes os bonés e os jogavam para além da linha proibida onde o prisioneiro não podia entrar. Imaginando que se tratava de simples brincadeira, os inocentes cruzavam a linha e eram fuzilados sem piedade. Tais fuzilamentos mereciam elogios e prêmios. A maldade não tinha limites.

Não obstante, apesar de todos os horrores, Gustav e Fritz conseguiram sobreviver para contar a terrível experiência a que foram submetidos. Sua triste história ficou como mais um documento da estupidez humana. Com incrível esforço, conseguiram retomar o curso da vida.

O preconceito é um sentimento que não consigo entender. Ninguém escolhe para nascer branco, preto, amarelo ou vermelho. Como ninguém escolhe para nascer europeu, asiático, americano ou africano. Da mesma forma que ninguém escolhe nascer católico, budista, muçulmano ou judeu. Tudo é fruto do mero acaso, dependente do local onde os pais estejam no momento do nascimento e das crenças familiares. Odiar alguém por algum desses motivos não tem o menor sentido e afronta a lógica do homem comum. Odiar o negro porque é negro, o judeu porque é judeu, o índio porque é índio é condenar alguém pelo que não tem culpa. Mas o ódio parece cegar muitas pessoas e elas não enxergam as coisas mais elementares.

Escrito por Enéas Athanázio, 08/06/2020 às 10h56 | e.atha@terra.com.br

HOLOCAUSTO NUNCA MAIS

Foto Marcos Oliveira / Agência Senado

O edifício do Congresso Nacional, em Brasília, amanheceu com as palavras “Holocausto nunca mais” em letras fosforescentes. Uma iniciativa muito oportuna no momento em que o antissemitismo cresce em todo o mundo e no Brasil. O Holocausto é uma das maiores feridas da história mundial, nunca cicatrizada, e por isso precisa ser lembrado sempre para que jamais se repita.

Existe imensa bibliografia sobre o assunto e que não cessa de crescer, o que é muito positivo. O conhecimento é a melhor arma contra os preconceitos. Entre os livros mais recentes sobre o Holocausto está “O garoto que seguiu o pai para Auschwitz”, de autoria do escritor e jornalista Jeremy Bronfield que, depois de se tornar um best-seller mundial, foi publicado no Brasil pela Editora Objetiva (Rio – 2019). O livro reconstitui uma história comovente unindo pai e filho na terrível luta diária pela sobrevivência e que merece mais que um comentário. Aqui, no entanto, desejo me ater apenas aos primórdios do relato, no período que antecedeu à prisão de ambos pelas forças nazistas de ocupação na Áustria. Em outra ocasião voltarei ao livro.

Gustav Kleinmann era um habilidoso artesão que vivia em Viena em companhia da esposa, Tini, e dos filhos, Fritz, Kurt, Edith e Herta. Embora fosse judeu, não era ortodoxo, e se considerava um perfeito austríaco. Havia lutado pela pátria na I Guerra Mundial como soldado, sofreu graves ferimentos e foi condecorado por bravura. Embora levassem vida modesta, nada perturbava a família. Mantinha boas relações com a vizinhança e o viver era tranquilo.

A ascensão de Hitler na Alemanha projeta uma sombra sobre a Áustria. Ele jamais escondeu o desejo de anexar o país onde havia nascido e seus adeptos iniciam uma intensa pregação nesse sentido. As opiniões se dividem e manifestações pró e contra se repetem, algumas com violência. O chanceler austríaco, Schuschingg, designa um plebiscito para decidir a questão. Irado, Hitler esbraveja no seu estilo tonitruante e exige o cancelamento da votação, prevendo uma derrota, mas o chanceler não se curva e acaba afastado do cargo. O plebiscito é realizado com evidente manipulação dos resultados e os favoráveis à anexação vencem com larga margem. Hitler anexa a Áustria à Alemanha, dando início à escalada de ocupações que levariam à II Guerra Mundial. Era o Anschluss e o país estava anexado, sem soberania e sem governo próprio. Um títere, dessas figuras abjetas que sempre surgem nessas ocasiões, assume um governo de fachada. Hitler em pessoa visita a Áustria para comemorar e desfila sob aplausos apoteóticos. O povo saudava seu futuro carrasco, o mesmo que o faria derramar lágrimas de sangue.

Um clima de ódio e intolerância toma conta do país. O fanatismo nazista explode em toda parte e a violência aterroriza as pessoas. Conhecidos de ontem que saudavam os Kleinmann com um sorriso nos lábios agora se revelavam inimigos mortais. Uma das filhas é injuriada e humilhada na rua por um colega de escola. Os filhos homens são ofendidos e forçados a quebrar esquinas para se livrarem dos ataques. Passeatas nazistas acontecem a todo momento com os manifestantes gritando insultos contra os judeus e os católicos. A situação se torna insuportável e o clima irrespirável. Gustav é forçado a encerrar as atividades e sua oficina é fechada. Os filhos não podem mais frequentar a escola. As restrições contra os judeus são cada vez mais severas. Até que a família é denunciada pelos vizinhos, antes amigos, e Gustav e Fritz são presos, conduzidos a uma delegacia e depois para Buchenwald, o temido campo de concentração. Aí tem início o calvário a que pai e filho serão submetidos e que o autor do livro relata em pormenores e com base em fundados elementos de prova. Como ele diz, os fatos são tão terríveis que preferiria que não fossem verdadeiros.

Os acontecimentos da Áustria são um exemplo aos que semeiam o ódio e a intolerância e pregam a ditadura. Em regime democrático o Holocausto não teria acontecido. O mundo vive tempos autoritários e discriminatórios capitaneado por Trump nos Estados Unidos e Macron na França, imitados por outros esbirros de menor porte. Mas é preciso resistir porque só na democracia o ser humano pode viver com dignidade. Ditadura só serve para quem tem alma de escravo.

E agora, Moro? O senhor a quem você tanto serviu o descartou como algo desnecessário e o classificou de mentiroso e chantagista. A mestra vida me ensinou que sempre que Promotores e Magistrados se envolvem com políticos acabam mal.

Como diria Camões, o Brasil vive um período de apagada e vil tristeza. 

Escrito por Enéas Athanázio, 01/06/2020 às 18h17 | e.atha@terra.com.br



1 2 3 4 5 6

Enéas Athanázio

Assina a coluna Literatura

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.