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Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

Os bem casados

 O terceiro e último romance do escritor mineiro Godofredo Rangel (1884/1951) é uma crítica ao casamento levada às raias da caricatura. A esposa ambiciosa inicia pela dominação do marido, indivíduo fraco, destituído de personalidade, “anêmico de caráter”, acabando por se tornar uma déspota familiar que explora os pobres filhos, molambentos e tristes, e que reduz a autênticos servos-da-gleba. Esta, a gleba, é a fazenda de onde sobrevêm não apenas a subsistência, a riqueza material e o luxo, mas também a dignidade latifundiária.

“Os Bem Casados”, escrito com a mesma correção, limpeza e propriedade de expressão de “Vida Ociosa”, o romance de estreia, é triste, uma sátira terrível dos que  casam bem. Há momentos, porém, em que é impossível conter a gargalhada diante dos retratos de certas figuras ou do ridículo de algumas cenas.

Da mesma forma como ocorreu com “Falange Gloriosa”, o aparecimento do livro era temido pelo autor. Receava ele, sem dúvida, que alguém se identificasse nos seus personagens. Por essa razão, como na anterior, a obra só veio a público quatro anos após a morte do autor. A timidez rangelina manteve o “número três”, como ele dizia, por longos anos no fundo da gaveta.

Baldados foram os esforços de Monteiro Lobato para que o publicasse em vida. “Li o “Bem Casados” de uma assentada – o que quer você mais? Só as novelas muito empolgantes suportam essa prova. Todos os personagens fisgados na vida; e cada um, um tipo. Dona Alípia, ótima! O Coutinho, o Licínio, todos, até a Flausina, ótimos! Só Dona Ismênia me parece algo imaginado – poderá lá existir tamanha carneirice? Mas fica bem num livro de tanto realismo essa leve fuga à realidade. É sal na melancia. Está você, portanto, doutorado em romance” – escrevia-lhe o taubateano (“A Barca de Gleyre”, I/210).

Antonio Candido considera este o melhor livro do escritor mineiro, colocando-o mesmo acima de “Vida Ociosa.”

“Com efeito – escreve ele – para o leitor ainda lembrado das aquarelas pitorescas de “Vida Ociosa”, “Os Bem Casados” revelam um romancista novo e vigoroso, em que as qualidades ali manifestadas se encontram no plano mais alto duma visão novelesca surpreendente pela densidade humana, o equilíbrio da fatura e a nítida linha diretora da concepção. Na literatura brasileira Godofredo Rangel não será mais daqui por diante (penso eu) o autor plácido e humorístico de “Vida Ociosa”, mas sobretudo o autor amargo e destemido de “Os Bem Casados” (“Literatura Caligráfica”, p. 5).

Embora escrito antes dos demais (em fase anterior a 1910) é o romance mais perfeito da trilogia rangelina. Ao que tudo indica, foi totalmente reescrito, revisto e melhorado pelo autor, com paciência, antes do lançamento. Era o único livro de Rangel realmente inédito, jamais publicado, mesmo em jornais ou revistas. Nele, ao contrário do que ocorreu com outros escritos, Rangel abandona os personagens à própria sorte, sem enternecimento algum, aspecto também já anotado pelos seus analistas.

“Os Bem Casados” foi lançado em volume por Edições Melhoramentos, na série Ficção Nacional, e se encontra totalmente esgotado.

Desde 1977 – quarenta anos! – travo uma cruzada em favor de Godofredo Rangel. Perdi a conta dos locais e ocasiões em que falei e escrevi a respeito dele. Apesar de meu esforço, reconheço que o resultado tem sido pífio. Mas não perdi a esperança de que surja um editor corajoso que reedite suas Obras Completas, em volumes caprichados e com grande divulgação. Será prova de que a justiça, incluindo a literária, às vezes tarda mas não falha.

Escrito por Enéas Athanázio, 13/11/2017 às 18h35 | e.atha@terra.com.br

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Libelo contra Lampião

O cangaço existiu desde o final do século XVIII até meados do século XX e constituiu um dos fenômenos mais curiosos de doença social endêmica até hoje registrado pela História. Foi um banditismo típico de nosso país, sem similar em qualquer outro canto do mundo. Bandoleiros e assaltantes existiram em muitos países, mas nunca com a organização interna, a hierarquia, as técnicas e a longevidade do cangaço brasileiro. Por tudo isso, ele tem sido objeto de permanente estudo por parte de historiadores, sociólogos e cientistas sociais, brasileiros e estrangeiros, muitos dos quais se tornaram especialistas no tema. A bibliografia a respeito é imensa, espraiando-se pelo cinema, pela televisão e pelo jornalismo em todas suas modalidades.

Em ordem cronológica, os autores costumam situar os períodos do cangaço conforme a figura do cangaceiro dominante na época. Assim, o mais antigo deles teria sido o Cabeleira, descrito em romance célebre por Franklin Távora. Chamava-se José ou Joaquim Gomes. No mesmo período, ou logo a seguir, pontificava Lucas da Feira, estuprador e torturador que chegou a interessar ao Imperador. Em seguida apareceu Jesuíno Brilhante, chamado o cangaceiro romântico, espécie de justiceiro que tirava dos ricos para dar aos pobres e se recusava a ser considerado ladrão. Também apareceu Antônio Dó, homem revoltado e violento. Depois deles, destacou-se Antônio Silvino, considerado homem de coragem sobre-humana, mas que acabou ferido e preso, cumprindo longa pena na penitenciária de Recife, hoje transformada em centro de cultura popular. Entrou em cena, então, a figura estranha de Sinhô Pereira, cangaceiro de longa carreira que pressentiu o início do fim e se retirou para uma vida pacata, nos confins de Goiás, depois de designar como seu sucessor ninguém menos que Virgolino Ferreira da Silva, o Lampião. Imperando por 22 anos, Lampião foi morto na Grota do Angico em 28 de julho de 1938, data considerada como o fecho do cangaço. É verdade que Cristino Gomes da Silva Cleto, o Corisco, tentou resistir como chefe de bando e praticou as maiores atrocidades como vingança, mas acabou morto em 25 de maio de 1940.

Com o ingresso de Lampião na vida cangaceira, segundo os autores, teve início a era do cangaço sem ética. Para ele e seu bando não existiam limites. Invadia vilas e cidades indefesas, assaltava propriedades, torturava pessoas, sequestrava, surrava, humilhava. Exigia vultosos pagamentos em dinheiro da população sob pena de depredar suas casas. Sua audácia chegou a tal ponto que enviou uma carta ao governador propondo a divisão do Estado em duas partes, ficando ele como governador do sertão. Zé Baiano, um de seus homens, ferrava as mulheres nas faces com um ferro incandescente com suas iniciais. Em suma, Lampião constituía um flagelo para os moradores, sempre temerosos de sua chegada. Qualquer boato nesse sentido levava a população em massa a se refugiar nas matas. Não obstante, Lampião sempre teve um séquito de admiradores que o consideravam o herói que enfrentava o poder público ausente e corrupto.

Foi então que Pedro de Morais, magistrado aposentado, publicou o livro “Lampião, o mata sete” (2011) no qual, além de realçar toda a maldade de Lampião, afirma que o mesmo era  gay, revelando essa tendência desde a infância. Segundo ele, o cangaceiro formava um trio amoroso com Luís Pedro, integrante do grupo e seu protegido, e a célebre Maria Bonita. Para tanto se baseou em vastíssima pesquisa, consultado os mais respeitados especialistas. Como é de imaginar, a obra caiu como autêntica bomba e provocou intensa polêmica. A filha e a neta de Lampião obtiveram uma liminar proibindo a circulação da obra, mas o Tribunal de Justiça a cassou e a venda foi permitida. Archimedes Marques, outro estudioso do assunto, publicou o livro “Lampião contra o mata sete” em que rebate as afirmações de Pedro de Morais e defende a masculinidade de Lampião. E assim a polêmica se instaurou, prosseguindo até hoje, com debates, entrevistas, cartas e o mais. Tudo indica que não terminará tão cedo.

Mesmo deixando de lado essa questão, o livro de Pedro de Morais é um tremendo libelo contra Lampião. Grande conhecedor da biografia do cangaceiro, o autor põe em dúvida sua proclamada valentia, duvida de sua estratégia, afirma que nada entendia de guerrilha e aponta sua extrema crueldade, incapaz de qualquer sentimento mais nobre. Embora invocasse justificativas sentimentais (escudo ético), na verdade teria abraçado o cangaço por pura ganância, como lucrativo meio de vida, tanto que, ao morrer, carregava vultosa quantidade de dinheiro e ouro. Segundo ele, Lampião não passou de um degenerado. É verdade que sua visão é conservadora, não levando em conta as circunstâncias mesológicas, como se o cangaceiro pura e simplesmente decidisse, de um momento para o outro, tornar-se um indivíduo maligno, capaz das maiores atrocidades. Também não explica como, com tantas falhas, Lampião tenha sobrevivido no cangaço por longos 22 anos e só foi morto graças a uma traição e com o sertão fervilhando de volantes à sua procura.

Seja como for, é uma contribuição importante e merece ser lido. Livro bem escrito e fundamentado.

Escrito por Enéas Athanázio, 06/11/2017 às 10h41 | e.atha@terra.com.br

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O anjo de Hamburgo

“A Aracy, minha mulher,
Ara, pertence este livro.”
      Guimarães Rosa

Importante publicação de cunho histórico e cultural publicou interessante ensaio a respeito de Aracy Guimarães Rosa (1908/2011), de autoria de Ayrton Gonçalves Celestino, e que bem merece algumas considerações (*).

Nascida em Rio Negro (PR), foi registrada como Ema e, mais tarde, mediante sentença judicial, passou e ser Aracy Mebios (que deveria ser Moebius). Ainda criança, mudou-se para São Paulo em companhia da mãe. Em 1929 casou-se com o cidadão alemão Johannes Edward Ludwuig Tess, com quem teve o filho Eduardo Tess. O casamento não durou muito e Aracy, com o filho e a mãe, mudou-se para a Alemanha, onde a vida não foi fácil. Graças ao seu conhecimento de idiomas, conseguiu um emprego no Consulado Brasileiro em Hamburgo, onde lhe cabia tratar dos documentos das pessoas que desejavam emigrar para o Brasil. Aí teve início uma fase gloriosa de sua vida.

Médico, escritor e diplomata de carreira, o mineiro João Guimarães Rosa foi designado titular do mesmo Consulado e lá conheceu Aracy, mulher muito bonita e elegante. Apaixonaram-se e passaram a viver juntos, casando-se anos depois no México, por procuração, uma vez que no Brasil ainda não havia divórcio. Guimarães Rosa também havia saído de um casamento mal sucedido. Passam, então, a trabalhar juntos.

Intensificava-se na Alemanha a perseguição contra os judeus, com a chamada Solução Final em plena execução, enquanto no Brasil o governo Vargas impedia a entrada de semitas. Desesperados, eles buscavam todas as formas para deixar aquele país. E então, correndo o risco de ser descoberta e cair nas mãos da Gestapo, o que lhe custaria a própria vida, Aracy começou a tomar medidas para facilitar a entrada de judeus no Brasil. Omitia nos documentos qualquer menção à condição de judeus dos emigrantes e assim salvou a vida de muitas pessoas de todas as idades. Era um sério risco que ela assumiu com imensa coragem, ciente de que praticava atos de verdadeiro heroísmo e movida por profundo sentimento humanitário. Sabendo das ações da esposa, Guimarães Rosa temia por ela mas jamais interferiu.  “O pavor que você tinha que a Gestapo me pegasse...” – lembrou ela em uma carta.

Retornando ao Brasil, Guimarães Rosa se consagra como um dos maiores expoentes de nossa literatura.  Eleito para a Academia Brasileira de Letras, vai adiando a posse como que tomado de estranha premonição. Falece três dias após a solenidade, aos 59 anos de idade, deixando uma obra imorredoura em que avulta o “Grande sertão: veredas”, romance monumental que até hoje desafia os críticos. Dizia-se, na época de seu lançamento, que ele provocou um abalo sísmico em nosso mundo literário.

Aracy, sempre corajosa e decidida, desafia a ditadura e abriga perseguidos políticos em sua própria casa. Como em tempos de guerra, na Alemanha, afronta todos os riscos.

O reconhecimento pelo seu esforço em favor dos judeus não tarda a aparecer, não apenas aqui mas também no exterior. “Foi a única mulher latino-americana de origem não judia considerada personalidade de relevo internacional pela Comunidade de Israel”, informa o autor. Tornou-se conhecida como o Anjo de Hamburgo, foi homenageada no Museu do Holocausto, em Jerusalém, no Jardim dos Justos, e também no de Washington. Em 1985, com a presença dela, foi inaugurado o Bosque Aracy, em Jerusalém, ocasião em que proferiu bela oração. Em Rio Negro, sua cidade natal, é inaugurada em 2012 a Biblioteca Cidadã Aracy Guimarães Rosa  em festiva e justa homenagem à filha da terra, contando com a presença de seus descendentes e numeroso público.

Aracy viveu até os 102 anos, cercada sempre pelo afeto e pelo reconhecimento por sua corajosa defesa das vítimas do ódio e da desvairada intolerância. Seu nome ficou inscrito de maneira perene nos anais da história mundial.

O ensaio de Ayrton Gonçalves Celestino é rico em material iconográfico e constitui uma bela homenagem a quem a mereceu, além de ser um alerta para que tais monstruosidades nunca mais se repitam.

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(*) Boletim do Instituto Histórico e Geográfico
           do Paraná, Vol. LXX, 2017, p. 23.

Escrito por Enéas Athanázio, 30/10/2017 às 16h25 | e.atha@terra.com.br

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Ideia Fora do Lugar (2)

Gilberto Amado, expoente do memorialismo nacional, foi diplomata de carreira e viveu inúmeros anos no exterior, quase sempre em países de pequenas dimensões. Com fundamento nessa experiência vital, concluiu que os nativos de países grandes e pequenos são muito diferentes na sua psicologia e na formação da personalidade. Aqueles são criados na largueza, na amplidão, nos vastos espaços, e por isso cultivam o sentimento inato de liberdade e independência, podendo se locomover a grandes distâncias sem encontrar barreiras, alfândegas, fronteiras, revistas e policiamento. Como nós, brasileiros, que podemos palmilhar por dias seguidos ou por horas de voo sem sair do território nacional, sem qualquer obstáculo, e ouvindo a mesma e doce língua portuguesa, uma das mais belas dentre todas.

Por essas e outras, espanta-me o movimento que pretende criar novo país nos Estados do sul. Ele me parece uma ideia fora do lugar porque é a primeira vez na vida que vejo uma luta para deixar de ser grande para se tornar pequeno. Em vez de progredir, regredir; em vez de crescer, minguar. Posso dizer que conheço o Brasil de ponta a ponta, inclusive a região sul, e por isso não vejo como o novo país poderia vingar. Seria inviável e colocaria a população da região numa situação catastrófica. Como tantos países pequenos, seria mais um a tropicar pela estrada da vida, sem perspectiva e sem futuro.

Com efeito, como iria de sustentar? De onde viriam os combustíveis, o gás, a energia elétrica, os medicamentos, os veículos, os alimentos e tudo mais que procede de outras regiões?  E se isso não bastasse, com que recursos criaria um Judiciário federal, um Congresso Nacional, um Executivo com todos seus ministérios, secretarias, departamentos, empresas estatais, polícia federal e rodoviária e toda a parafernália administrativa?  E as Forças Armadas, como seriam mantidas? Como adquirir navios, aviões, veículos e tudo mais? Adotaríamos canoas e barcos a remo? Com que roupa manteríamos o SUS? Ou seria extinto e voltaríamos às meizinhas, garrafadas e benzeduras? Como pagaríamos aos aposentados e pensionistas do INSS? Deixaríamos morrer à míngua? As universidades federais seriam fechadas? É evidente que seria impossível custear tudo com recursos apenas do sul, a menos que não existisse nada disso e se revertesse ao passado remoto, com o presidente legislando por decreto e a justiça se realizando no braço ou no tiro.

Talvez se adotasse uma monarquia, tendo no comando os Orleães e Bragança, já que “Dom” Bertrand é visitante assíduo de nosso Estado. E com ela viria todo o séquito de nobres, barões, condes, viscondes e tudo mais, dos quais seríamos “fiéis vassalos”..

No campo das relações internacionais, seria necessário estabelecer embaixadas em Brasília e em numerosos outros países, salvo que se pretendesse adotar um isolamento suicida. Para ir a São Paulo, à Bahia ou ao Rio de Janeiro seria necessário passaporte e visto do governo brasileiro. E qual seria a capital nacional? E a língua oficial: o alemão estropiado ou o italiano macarrônico? E o vestuário: a pilcha ou as bermudas com suspensório e chapeuzinho com pena? Ora, ora, convenhamos que seria um país digno de pena, um arremedo de país.

Como costuma acontecer em pequenos países sul-americanos, não tardariam a surgir clãs dominadores que tomariam o poder por bem ou por mal e nele se perpetuariam. Aí estão os exemplos históricos da Nicarágua, da República Dominicana, da Guatemala, do Haiti, do Paraguai e outros mais, onde ditadores sanguinários se apossaram do país por décadas.

Para sorte da população sulista, essa campanha está fadada ao fracasso. É cláusula pétrea da Constituição Federal a integridade do território nacional, tema que nem pode ser discutido em termos jurídicos, e a simples tentativa de secessão já constitui crime previsto em lei. Aí está o ponto final desse desvairismo.

Nosso povo é dotado de inato bom senso e não se deixa envolver com facilidade. Prova disso foi o retumbante fracasso do “plebiscito” há pouco realizado sobre o assunto.

Escrito por Enéas Athanázio, 23/10/2017 às 10h36 | e.atha@terra.com.br

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A Casa da Torre

Em viagem à Bahia, conheci a chamada Casa da Torre, também conhecida como Castelo da Torre, situada na colina de Tatuapara, no município de Mata de São João e nas proximidades da Praia do Forte. Construído por volta de 1608, o prédio ainda permanece em pé, soberbo e majestoso, em meio a imenso jardim gramado e cercado de árvores centenárias, entre elas uma gameleira de imenso tronco. As paredes de pedra, largas e maciças, resistiram por quatro séculos às intempéries e atestam a solidez de uma construção feita para desafiar os tempos e na qual o braço escravo foi decisivo. A capela se encontra em perfeitas condições de conservação. O local é ponto turístico dos mais visitados, tanto pela curiosidade arquitetônica do edifício como pelo seu significado histórico.  Situado no alto, tendo o mar aos fundos e as estradas à frente, o lugar dispõe de uma vista privilegiada, permitindo divisar de longe qualquer aproximação.

A Casa da Torre foi o solar principal de um conjunto residencial e militar, com suas torres e seus anexos. Dali era administrado um dos maiores, se não o maior, latifúndio do país, que se estendia desde a Bahia até o Maranhão, abrangendo uma área aproximada de trezentos mil quilômetros quadrados (300.000 km2), território equivalente ou mesmo maior que o de muitos países, como a Itália, por exemplo.

Naquele local imperava a dinastia dos Garcia D’Ávila, fundada pelo primeiro deles, português nascido em São Pedro de Rates, e que veio ao Brasil na comitiva de Tomé de Souza, o primeiro governador-geral, de quem seria filho bastardo. Com mão de ferro, instituiu verdadeiro exército composto de súditos, escravos e índios mansos, e foi ampliando suas posses, mesmo destruindo as aldeias indígenas e provocando a matança de seus habitantes. Através da cobrança de aluguéis pelo uso das terras, participação nas plantações e colheitas, criação extensiva de animais, foi consolidando tal poderio que até mesmo o governo central temia, evitando atritos com ele. O governo, por sinal, parecia ver com bons olhos o avanço do magnata pelas terras indígenas, fortalecendo assim a ocupação dos extensos territórios por portugueses e brasileiros fiéis à Metrópole portuguesa.

O primeiro Garcia D’Ávila, fundador do império, teve vários descendentes do mesmo nome, inclusive mulheres, que lutaram pela manutenção do imenso patrimônio e o conseguiram enquanto os sertões eram um imenso vazio. Com a chamada corrida do ouro, as regiões remotas se encheram de estranhos, entre os quais todo tipo de aventureiros, que foram estabelecendo posses e formando vilas. O controle e a dominação de tão vasto território se tornou impossível, mesmo pela força das armas, e o latifúndio entrou em crise. Em 1835 o solar foi abandonado “por ficar isolado no ermo da colina, longe de tudo e de todos. Sua manutenção ficou por demais onerosa para uma família em decadência, despojada, por força do progresso, de suas terras, de suas rendas”, como escreveu Luciano Costa Reis, autor de um livro sobre o assunto (*).

Assim, como tudo que é construído com base na força, o império se esboroou e teve um fim melancólico. O casarão de pedras é o testemunho silencioso e solitário de um poderio imenso que rivalizava com os próprios governos locais da época. Suas paredes maciças parecem ecoar os planos de poder e dominação que por tão longo tempo foram traçados nas amplas e luxuosas dependências. Embora pouco conhecida e divulgada, só a história ainda guarda suas lembranças.

Grandes autores escreveram obras a respeito da espantosa saga dos Garcia D’Ávila, verdadeiro império dentro do país. Entre eles estão Pedro Calmon, magnífico reitor da extinta Universidade do Brasil, e Moniz Bandeira.

É um local que vale visitar.

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(*) “A história do Castelo da Torre”, de Luciano
Costa Reis, JM Gráfica e Editora, Salvador, 2011.

 

Escrito por Enéas Athanázio, 16/10/2017 às 09h08 | e.atha@terra.com.br

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A vida através das cartas 2

O LIVRO

A carta é um meio de comunicação dos mais antigos e hoje caminha para a extinção. Tenho observado que muitas pessoas não sabem mais escrever uma carta. Mas ela é uma fonte importante de informação e conhecimento e, em muitos casos, mais confiável que documentos oficiais. Ao escrever uma carta, em especial para pessoas mais chegadas, seu autor não tem preocupações estéticas, gramaticais ou com outros leitores, de sorte que redige de maneira livre, sem censura ou reserva. Por isso mesmo, até as cartas de pessoas anônimas do povo vêm sendo valorizadas pelos cientistas sociais como fonte insuspeita de informação sobre épocas ou fatos.

Quando as cartas são de pessoa de realce em qualquer campo, adquirem ainda mais valor. No caso dos escritores, suas cartas ajudam a iluminar sua obra literária e desvendam fatos de sua vida que podem ter influenciado de forma marcante sua criação. Muitos autores, no correr da história literária, só se tornaram totalmente compreendidos após o conhecimento de sua correspondência.

Por isso mesmo, o lançamento do livro “As Cartas de Ernest Hemingway” (Martins Fontes – S. Paulo – 2015), organizado por Sandra Spanier e Robert W. Trogdon,  é um evento importante para os leitores e admiradores do Velho Hem. O volume é o primeiro de uma série prevista para doze e engloba as cartas escritas entre 1907 e 1922, ou seja, a fase de formação do homem e do escritor na luta pela afirmação profissional. É um trabalho criterioso, com milhares de notas explicativas, três ensaios introdutórios, cronologia, mapas, lista de correspondentes com uma súmula biográfica, calendário das cartas e um álbum com excelentes fotos. Trata-se, enfim, de um trabalho minucioso e repleto das mais variadas informações sobre o escritor e sua obra. Ambos os organizadores são professores universitários de literatura nos Estados Unidos. O livro foi traduzido por Rogério Bettoni.

O ESCRITOR

Ernest Miller Hemingway (1889/1961) nasceu em Oak Park, proximidades de Chicago, no Meio Oeste americano. Filho do médico Clarence Edmonds Hemingway e Grace Hall Hemingway, estudou nos colégios locais e não frequentou a universidade. Embora escrevesse desde cedo, teve uma infância ativa e passou muito tempo no meio rural, pescando, caçando e até trabalhando duro nas propriedades da família.  Influenciado pelo pai, seu orientador, tornou-se exímio caçador e pescador. Suas cartas registram inúmeras excursões de caça e pesca.  No decorrer da vida realizaria grandes caçadas, inclusive safáris na África, alguns deles repletos de incidentes cujas notícias correram mundo. Tomado de intenso desejo de aventura, alistou-se como motorista de ambulâncias na Cruz Vermelha Americana e serviu na Itália durante a I Guerra Mundial. Sofreu em ação sérios ferimentos, sendo internado num hospital militar em Milão, e foi condecorado por atos de bravura. Durante a permanência no hospital, apaixonou-se pela enfermeira americana Agnes Von Kurowski, mais velha que ele, mas ela romperia a relação, tempos depois, fato que o marcou por toda a vida. Ao retornar aos Estados Unidos, descobriu que era um herói, admirado e cortejado por todos. Depois de um período incerto, trabalhando em empregos provisórios, casou-se com Elizabeth Hadley Richardson, que seria a primeira de suas quatro esposas. Com ela, decide se mudar para Paris, influenciado pelo escritor Sherwood Anderson, que o recomendou aos amigos lá residentes, entre os quais Gertrude Stein, Ezra Pound e a livreira-editora Sylvia Beach, proprietária da célebre Livraria Shakespeare and Company.  Na capital francesa, sobrevivendo de matérias enviadas a um jornal canadense, do qual era correspondente, e de um pecúlio da mulher, iniciou a luta por um lugar ao sol no mundo das letras. Vida pobre, de poucos recursos, o que, no entanto, não os impediu de viajar à Suíça, Itália e ao interior do país, além de frequentar o hipódromo, as corridas de bicicletas, as lutas de box e outras diversões.  Além disso, como correspondente de jornal, realizou outras viagens internacionais para cobrir eventos importantes. O casal retornou por algum tempo à América para o nascimento do primeiro filho, John Hadley Nicanor Hemingway. Seus trabalhos literários começam a aparecer e ele não tarda a se impor no meio literário e cultural. Esse é o período coberto pelo livro.

BIOGRAFIA EPISTOLAR

Hemingway era arredio à ideia de ser biografado, fosse em vida ou cem anos depois da morte. No entanto, sem querer, acabou se autobiografando nas incontáveis cartas que escreveu aos mais variados destinatários, muitas delas longas e detalhistas. É verdade que desde cedo nutria certa preocupação com a leitura desses documentos íntimos pela posteridade. Em carta de 1950, segundo os organizadores do livro, Hemingway afirmou que havia queimado as cartas daquele período depois de se impressionar com as palavras do escritor Ford Madox Ford: “Um homem sempre deveria escrever suas cartas imaginando como seriam lidas pela posteridade.”

Assim, a correspondência ativa dele foi sempre deixada de lado e jamais destinada à publicação. No entanto, “ela constitui a sua autobiografia narrada em tempo presente. Ela enriquece nossa compreensão de seus processos criativos, oferece informações acerca da cena literária do século XX e documenta a construção e o marketing de um ícone norte-americano” – afirmam os organizadores.

Apesar de contrariar seu desejo, Hemingway teve sua vida examinada nos menores detalhes e inúmeros são os seus biógrafos, sem falar nos ensaios, reportagens, entrevistas, artigos e matérias jornalísticas a seu respeito. As cartas constituíam “a última fronteira inexplorada  de sua obra.”

AS CARTAS

Hemingway escreveu grande quantidade de cartas ao longo de toda a vida. Costumava dizer que elas eram mal escritas, em geral com muita pressa, nos intervalos do longo e cansativo trabalho de jornalista e, mais tarde, de escritor, e por isso elas nem sempre mereciam o cuidado devido. Mas gostava de escrever e exigia dos correspondentes que respondessem. É interessante notar que escreveu numerosas cartas à mãe, com quem sempre teve suas diferenças, e também ao pai. Em algumas passagens revelava irritação com certas atitudes paternas.

As primeiras missivas revelam um caráter ainda infantil, hesitante, redigidas em caligrafia de criança. Tratam de pescarias, acampamentos com amigos, caçadas e assuntos ligados à fazenda da família, onde costumava permanecer nas folgas do colégio. Aos poucos começam a aparecer temas ligados a namoradas, esportes, escritos para jornais escolares e preocupação com o futuro. Depois, já na iniciação no jornalismo, queixa-se do excesso de trabalho, dos parcos salários e da falta de dinheiro. Com o avanço da guerra na Europa, surgem os primeiros desejos de se alistar como voluntário. Mas um defeito na vista impede sua ida; é rejeitado pelas forças regulares. Alguém sugere, então, a Cruz Vermelha, nela se alista como motorista de ambulâncias e ruma para o campo de luta. Ferido com gravidade, em ação, é hospitalizado em Milão e aí acontece a grande paixão de sua vida. Recuperando-se, embora ainda mancando e usando muletas, retorna aos Estados Unidos. Não tarda a chegar a carta de Agnes rompendo o namoro. O choque é tão violento que fica transtornado; na verdade nunca superou o trauma, que carregaria pelo resto da vida. As cartas do período revelam o seu sofrimento. Mas eis que surge Hadley, exuberante moça de Saint Louis, e se apaixona por ela. Muito jovem, casam-se, já com a intenção de se mudar para a Itália. Sherwood Anderson, escritor célebre, o convence a trocar a Itália por Paris, o local adequado para um aspirante a escritor. E assim Hemingway e a jovem esposa se fixam em Paris. Ali ele dá início a uma carreira vitoriosa que o transformará num dos mais lidos e famosos escritores de todo o mundo.

Escrito por Enéas Athanázio, 09/10/2017 às 16h57 | e.atha@terra.com.br

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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 48 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.
















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