Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

GÊNIO E REBELDE

Tristan Tzara foi uma figura célebre e controversa na Paris da belle époque. Frequentava o mesmo café onde se reuniam os membros da chamada “geração perdida”, entre os quais Ernest Hemingway, em cujas obras se encontram referências a ele. Nascido Samuel Rosesnstock (1896/1963), de família judia, veio ao mundo na Romênia e faleceu em Paris. Adotou o pseudônimo com que se tornou célebre, cuja tradução livre é “triste em meu país.” Desde muito cedo se revelou um contestador e vanguardista, colaborando em periódicos de seu país. Viveu na Alemanha, na Espanha e em Paris, onde se fixou em definitivo, tendo adquirido a nacionalidade francesa. Estudou Ciências Humanas e Filosofia em Zurique. Durante a II Guerra Mundial sofreu perseguições antissemitas, obrigando-se a se refugiar no sul da França, tendo participado da Resistência Francesa como elo de ligação com intelectuais simpatizantes.

Com outros escritores, poetas e artistas, criou o Movimento Dadaísta, cujo manifesto foi lançado em 1918 com intensa repercussão. Nele, o grupo investia contra a poesia convencional, os valores estéticos, culturais e morais imperantes, propondo a destruição dos cânones vigentes numa sociedade que considerava em franca decomposição. Suas ideias revolucionárias teriam sido inspiradoras do Surrealismo. Não obstante, é considerado um dos grandes expoentes da literatura francesa do Século XX.

Para ele, a poesia haveria de ser transgressora e rebelde, alheia aos significados lógicos da linguagem, mesmo que não fosse entendida pelo vulgo. Propunha a associação de termos incompatíveis entre si e uma sucessão de ritmos caóticos. Entre seus princípios estavam: a abolição da lógica, de toda hierarquia, da memória, das profecias, do futuro e das dores crispadas, dos grotescos e das incongruências. O entrelaçamento dos contrários e de todas as contradições eram alguns de seus postulados. Autor de uma obra vasta e complexa, aliava a rebeldia agressiva a um socialismo utópico.

Para orientar os interessados, forneceu a receita de um poema dadaísta. Leia um artigo de jornal, - instruiu ele – depois use uma tesoura e o recorte. Em seguida, com muito cuidado, recorte palavra por palavra, ponha tudo num saquinho e sacuda de leve para misturar. Vá tirando e copiando cada uma das palavras e você terá um poema muito parecido com você e repleto de sensibilidade, embora ninguém o entenda e talvez nem mesmo seu autor (digo eu). Com base nessas instruções, vamos construir um

POEMA DADÁ

Com prisões guerra deputado institucional
Tendências erramos disputa casas política
Contato continuidade membros da justiça
Usurpar aproximou destroços gabinete segura
Para xadrez a da chinês judiciário
Assembleia chegam ministério máximo final
Paz debates mira pacheco extra
Zona da poder mais e para crítico
Mesa alerta faltou é do inovação
Importantes xis minha história estrutura
A em que o da ao . . .

O leitor entendeu?
Confesso que também não!
Será mesmo parecido comigo?

Escrito por Enéas Athanázio, 15/07/2019 às 09h09 | e.atha@terra.com.br

O OGRO E A POMBA

Quando se anunciou o próximo casamento de Diego Rivera e Frida Khalo, o pai da moça teria afirmado que se tratava da união do ogro com a pomba, tão diferentes no aspecto físico eram os dois. Ele, um homem grandalhão, um tanto gordo e feio; ela, uma moça magra e de aparência frágil e doentia. Além disso, o noivo tinha o dobro da idade da noiva e já passara por outros matrimônios, todos mal sucedidos. Mas o casamento aconteceu duas vezes e foi dos mais comentados e controversos dos meios culturais de todo o mundo. A história de amor de Frida e Diego foi a de uma união inseparável em que ambos se irmanavam no sentimento revolucionário, tanto na vida como na arte. Ele foi o maior muralista mexicano e ela, por sua vez, uma pintora que encantou os apreciadores de todo o mundo.

Pessoa doentia, acometida de poliomielite aos seis anos de idade, vítima de terrível acidente que a cumularia de sofrimentos pela vida a fora, Frida se apaixonou pelo pintor quando menina e comparecia ao local onde ele trabalhava para vê-lo e contemplar sua arte. Desde logo comungou com ele do ideal de recuperar o México histórico e tradicional, revivendo os costumes, a arte secular do povo mexicano e a cultura dos indígenas pré-colombianos, libertando-se de influências estrangeiras. Fiel a esse propósito, com o integral apoio dela, Diego realizou imensos murais que impressionaram desde logo pela grandeza, pela inspiração e pela beleza. Seu nome não tardou a transpor as fronteiras e se tornou um artista de fama mundial, convidado várias vezes para executar obras em outros países, inclusive nos Estados Unidos, onde travou uma luta desigual com o todo-poderoso Nelson Rockefeller.

Diego Rivera foi uma figura complexa. A par da seriedade e disciplina com que se lançava ao trabalho, era “um mentiroso, um fanfarrão, um inventor de histórias que se alimentavam do imaginário”, como escreveu seu biógrafo. Inveterado conquistador, apesar da feiúra, manteve vários relacionamentos amorosos complicados e ruidosos. Entregou-se às mais estranhas experiências, provando inclusive o canibalismo, ocasião em que declarou que a carne humana é adocicada. Mas nutria uma fé inquebrantável na renovação da arte popular mexicana e com isso selou sua sobrevivência na história da pintura moderna. Recebeu e suportou com estoicismo críticas que ridicularizavam sua escolha indianista, mas jamais abdicou dela.

Seus imensos murais, vivos e brilhantes, tiravam do ostracismo o México profundo que estava sendo soterrado pelas influências de fora. Retratavam os nativos nas suas atividades cotidianas, as mulheres de pele ocre com as costas largas e fisionomias serenas, os cabelos longos e negros, às vezes numa nudez inocente e despreocupada. A vida fluindo como nos tempos de dantes, Para isso, captando imagens in loco, ele perambulava pelos rincões mexicanos de onde retornava com a mala repleta de esboços e anotações. Realizava o que seu biógrafo denominou de festa indígena, sempre ao lado da mulher. “Frida, bem como Diego, inventou o passado indígena do México (...) Mas Diego é o primeiro a exprimir verdadeiramente o mundo indígena, sua força vital, sua exuberância colorida, seu martírio cotidiano também” – afirmou o biógrafo.

A influência da arte de Diego, ao lado de Frida, não tarda a se fazer sentir. Surge aquele México alegre, colorido, musical e amante da liberdade. Ambos, em conjunto, provocaram a revolução através da pintura. E lutaram sempre por um mundo melhor, com muita paz, a proscrição das armas nucleares e a solidariedade entre os povos.

As biografias paralelas de Frida e Diego estão reconstruídas de forma magistral no livro “Diego e Frida”, de autoria de J. M. G. Le Clézio, escritor francês, detentor do Prêmio Nobel de Literatura, publicado entre nós pela Editora Record (2010), em tradução de Vera Lúcia dos Reis. Obra que mereceu do jornal “Le Monde” as seguintes palavras: “Esta biografia amplia a história, a dos indivíduos e dos povos, até as dimensões da lenda.”

Escrito por Enéas Athanázio, 08/07/2019 às 10h27 | e.atha@terra.com.br

GLOBÊS

A pressão da economia sobre a sociedade, em todos os setores, está chegando às raias do absurdo. Parece ficção surreal, inacreditável e inverossímil, mas já surgiu quem pregasse a “necessidade” de reduzir o vocabulário das pessoas sob a alegação de que “não é econômico ter quinze ou mais palavras para dizer a mesma coisa.” Segundo o escritor francês Erik Orsenna, integrante da Academia Francesa, em entrevista à brasileira Betty Milan, a mundialização está provocando “a desaparição das línguas, isto por causa da tendência a falar a língua das quinhentas palavras, que eu chamo de “globês.” São as quinhentas palavras necessárias à sobrevivência, as palavras do dinheiro, que é o equivalente geral. Não é útil para a economia ter quinze palavras para dizer a mesma coisa... Ora, a maior obra de arte coletiva é uma língua, seja ela qual for, e não há nada pior do que relegá-la ao esquecimento.” Quem diria que a “modernidade” nos levaria a correr tal risco! Ensinados que a cultura da pessoa se mede pela riqueza de seu vocabulário, falando ou escrevendo sem repetições, usando as palavras apropriadas com todas suas nuances, agora pregarão que isso não é econômico e que o correto será falar da forma mais pobre possível, com um mínimo de vocábulos. Nessa marcha, não tardará o dia em que voltaremos a nos comunicar através de grunhidos ou gestos, como seres primitivos! Será o apogeu da “modernidade globalizante.”

Como se não bastasse, está ocorrendo um fenômeno que os sociólogos definem como “enquadramento geral” e que só se imaginava possível em regimes fechados. Assim, por exemplo, qualquer funcionário, mesmo subalterno, abdica da própria individualidade e só se expressa na primeira pessoa do plural – “nós.” Com essa palavrinha de três letras ele se integra melhor à entidade a que serve, mesmo anulando a si próprio. Isso se completa nos uniformes iguais, feitos num modelo único nos menores detalhes, e até nos penteados femininos, idênticos inclusive nas ondulações e fitas. Gestos e modos de agir tão estudados que parecem mecânicos. Vozes tão ásperas e sem modulação que semelham a fala metálica dos robôs. Até os sotaques regionais, uma das riquezas da língua, são proibidos – todos devem falar do mesmo jeito. A “economia de palavras” aparece até no modo de se expressar ao telefone: “Quem?” – é a pergunta seca, não havendo sequer a preocupação de completar a frase. Para que gastar mais uma palavra? Pessoas incumbidas de prestar orientação a clientes, como em bancos e outras instituições, repetem as mesmas frases, como palavras de ordem, sempre no mesmo tom. Algumas nem sequer falam, têm a pergunta escrita nas costas: “Posso ajudar?” Para certas associações, não usar as designações da praxe é um semi-delito: companheiro, confrade, consócio, correligionário, camarada etc. E assim, agindo como autômatos, vamos aos poucos nos afastando cada vez mais de nossos semelhantes. Não existe mais espaço para os “papos” descontraídos e amigos; isso não seria econômico.

Escapamos de ditaduras ideológicas e repressivas mas vivemos sob um controle totalitário difuso, que não sabemos de onde parte e ao qual ficamos cada vez mais submissos. Por tudo isso, despeço-me com palavras, enquanto ainda podem ser usadas. É possível que em breve sejam proibidas e ao escritor reste apenas o silêncio. E no convívio diário nos comunicaremos grunhindo e gesticulando. Mesmo assim com muita economia.

___________________________


CENA FUTURISTA
Brasil em tempos de globês


O filho, entrando na sala:
- Oi, pai! Oi, mãe! Belê?
O pai faz positivo com o polegar.
A mãe:
- Hu! Hu!
- Oi, mano! – diz o rapaz. – Jóia?
- Hu! Hu! – responde o outro.
Para a irmã:
- Aí, mina! Lacrando?
- Hu! Hu!.
Silêncio.
- Que está fazendo, pai?
- Trabalhando em cima duma idéia.
- E como tá?
- Complicado. Eu acho.
- Tipo o quê?
- Tipo história. – Pausa - Difícil.
A mãe:
- Faz parte.
Silêncio.
- Vai ficar legal?
- Com certeza.
Silêncio.
Todos se concentram no celular.
O rapaz levanta e vai saindo.
- Chega de papo. Tchau!
- Hu! Hu! – respondem os outros.
A porta se fecha.
Silêncio.

 

Escrito por Enéas Athanázio, 01/07/2019 às 15h18 | e.atha@terra.com.br

TRIBUTO A UM BATALHADOR

Amanhã o advogado Linésio Laus estará completando 90 anos de idade. Nascido na cidade de Tijucas em 25 de junho de 1929, bacharelou-se pela Faculdade de Direito de Santa Catarina, então sediada à rua Esteves Júnior, em Florianópolis, e hoje integrada à UFSC. Casou-se com Wanda D’Ávila dos Santos Laus, cirurgiã-dentista, e o casal teve cinco filhos: Berenice, Carlos Humberto, Beatriz, Victor e Linésio Júnior. Desde 1979 está radicado em Balneário Camboriú.

Formado, Linésio Laus se fixou em Joaçaba, onde permaneceu por vários anos, depois foi para São Paulo e, por fim, se estabeleceu em Balneário Camboriú, cidade que adotou como sua. Exerce a advocacia há mais de sessenta anos, sem interrupção e sem se dedicar jamais a qualquer outra atividade profissional. Não se curvou à tentação dos negócios, do magistério ou da política. Sua única ambição sempre foi a mesma: ser advogado em tempo integral. Entregou-se à profissão com denodo e competência desde a juventude.

É um dos advogados mais antigos da comarca e foi o primeiro presidente da Subseção local da OAB em dois mandatos consecutivos (1981/1982 e 1983/1984).

Em mais de seis décadas de atividade profissional, Linésio Laus tem advogado em todas as áreas, sempre revelando conhecimento e combatividade. É um batalhador incansável.

No correr de tão prolongado lapso de tempo trabalhou nas mais diversas circunstâncias vividas pelo país, inclusive sob o guante de uma ditadura de 21 anos, correndo todos os riscos inerentes ao estado de exceção. Formado na vigência da Constituição Federal de 1946, a mais democrática que tivemos, acompanhou o surgimento dos Atos Institucionais, inclusive do famigerado AI 5, da Constituição secreta de 1967, da Emenda número 1, de 1969 e, por fim, da Constituição Cidadã, de 1988, que colocou um ponto final em duas décadas de obscurantismo.

Nesse período, presenciou a imensa transformação sofrida pelo Direito, inclusive na sua execução, desde a máquina de escrever e o papel carbono, as petições seladas e os habeas-corpus impetrados pelo correio até o computador e a Internet. Advogou na vigência de três Códigos de Processo Civil, a começar pelo de 1939 até o atual, exigindo constante e dedicado estudo e atualização. Nas outras áreas as alterações também foram intensas, inclusive com a vigência de novos e numerosos diplomas legais versando os mais variados assuntos.

Conheci Linésio Laus nos tempos em que residi em Campos Novos. Atuamos juntos no Tribunal do Júri e em causas cíveis, ora como companheiros, ora como adversários. Nunca deixei de reconhecer seu talento e sua cultura jurídica.

Por tudo isso e muito mais, rendo ao prezado colega e amigo o meu sincero tributo, desejando-lhe o melhor, e o felicito pela longa trajetória de vida dedicada ao Direito e à Justiça. Espero que muitas outras manifestações ocorram, assinalando tão significativa data.

Escrito por Enéas Athanázio, 24/06/2019 às 09h57 | e.atha@terra.com.br

TUDO JUNTO (I)

A globalização atual, - porque outras aconteceram ao longo da história, - trouxe múltiplas consequências. Se, por um lado, facilitou o intercâmbio de produtos e informações, por outro descurou das coisas da cultura em nome do lucro e da vantagem. Assim aconteceu, por exemplo, com o chamado “globês”, por demais comentado na imprensa há alguns anos. Tratava-se da opinião de que não se justificava a existência de muitas palavras com o mesmo significado, devendo a linguagem, em consequência, ser enxugada dos sinônimos para que se usasse uma só e mesma palavra para designar alguma coisa. Diziam que não era econômico e nem prático manter vários vocábulos com o mesmo significado e, assim, o empobrecimento do vocabulário das pessoas se impunha. Ora, é justamente pela amplitude de seu vocabulário que se mede a cultura da pessoa, tornado-a capaz de interpretar qualquer texto escrito, de tal forma que a esdrúxula teoria propunha um movimento para trás, isto é, da incultura e da ignorância. Ninguém precisaria conhecer mais que 300 a 500 palavras para ganhar dinheiro, o valor maior e único dos afinados com a tal teoria. E todos falariam da mesma forma, como se fossem cópias.

Agora, porém, as coisas foram adiante. Uma ideia aberrante que se denomina “pedagogia pragmática” vem plantando notinhas na mídia no sentido de negar a necessidade de alfabetizar as pessoas, ou seja, não se ensinaria mais as pessoas a ler e, acima de tudo, a escrever. Seriam coisas supérfluas, pouco práticas e econômicas pelo tempo que tomam, uma vez que o audiovisual seria suficiente para a vida normal. Ler para quê? Escrever para quê? São atividades arcaicas e inúteis. Em duas ou três gerações o mundo voltaria a ser ágrafo, como nos áureos tempos das cavernas. A suprema consolidação da modernidade!

Tudo se resumiria ao som e à imagem. As cédulas de dinheiro trariam desenhos que representassem seus valores. E, com certeza, surgiriam um código semelhante à linguagem para surdos e outros recursos que dispensassem por completo a palavra. Os cidadãos, felizes e realizados, ficariam ricos com tanta praticidade e economia. Nos momentos de lazer sentariam diante da televisão de última geração e se comunicariam com os demais através de gestos, caretas e guinchos. Como os macacos.


O irrequieto líder modernista Oswald de Andrade, ainda que por linhas traversas, sempre volta à cena. Lavrou nos jornais aguda polêmica entre os poetas Augusto de Campos e Ferreira Gullar, ambos pioneiros do Movimento Concretista e mais tarde rompidos. Segundo Gullar, em almoço no Rio de Janeiro, há cerca de cinquenta anos, Augusto teria declarado que Oswald de Andrade fôra um irresponsável, desmerecendo o valor de sua obra. Indignado, o poeta paulista protestou e os dois passaram a se xingar através dos jornais de maneira virulenta. Embora seja uma questão de somenos constatar se o tal almoço aconteceu ou não, o assunto tocou em ponto sensível, uma vez que a obra de Oswald de Andrade foi a inspiradora do Concretismo e está na sua própria raiz.

Por coincidência, ou feliz acaso, estreou em São Paulo na mesma época a peça teatral “Macumba Antropófaga”, sob a direção de José Celso Martinez Corrêa, incorporando o célebre Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, uma das peças mais importantes e polêmicas do Modernismo.

Dois acontecimentos fortuitos tiraram do esquecimento, ainda que por tempo limitado, um escritor genial cuja obra é pouco lembrada e, menos ainda, lida.


Na coleção Cine Europeu que o jornal “Folha de S. Paulo” lançou, um dos primeiros números foi “Fitzcarraldo”, de Werner Herzog, com Klaus Kinski e Cláudia Cardinale. É a história do sonhador alucinado que desejava apresentar uma ópera em plena selva amazônica e para isso teve que enfrentar as mais inacreditáveis dificuldades, entre elas a de arrastar um navio completo pelo chão, através da selva, de um rio até outro, para prosseguir na viagem. Os cenários são grandiosos, as cenas chocantes, ainda mais para quem conhece a Amazônia e pode imaginar o tamanho da tarefa de cruzar um matagal fechado e inóspito. Dizem os críticos que tal foi o esforço feito que, após a filmagem, o ator Klaus Kinski teria ficado exaurido, esgotado, como se tivesse perdido a energia vital. Ele e o diretor Herzog brigavam o tempo todo e se consideravam inimigos íntimos. É uma aventura que merece ser vista e revista. 

Escrito por Enéas Athanázio, 17/06/2019 às 08h58 | e.atha@terra.com.br

TUDO JUNTO (II)

Graças à gentileza do talentoso poeta Tarso de Melo, recebi vários exemplares de “K – Jornal de Crítica”, publicado em São Paulo e do qual ele é um dos editores. Tenho para mim que é o mais sofisticado periódico nacional dedicado à crítica literária, contando com uma equipe de primeira linha, e realizando análises de obras e autores fora do âmbito universitário, hoje concentrando quase toda essa atividade, cujo espaço nos jornais está desaparecendo. Entre os que escrevem no jornal destacam-se nomes como Carlos Felipe Moisés, Manuel da Costa Pinto, Donizete Galvão, Reynaldo Damazio e muitos outros, além do próprio Tarso de Melo em sua coluna “K Indica”, focalizando obras recentes. O jornal também agasalha poesias de nível, garimpadas na obra de bons poetas. Excelentes os ensaios sobre Ana Cristina Cesar. Trata-se, enfim, de uma publicação que reavivou o meu enlevo pela velha e boa crítica literária, aquela que se constitui num facho de luz iluminando o caminho dos que não dispensam a companhia dos livros. Como já faz algum tempo que não tenho notícia do jornal, espero que não tenha sido vítima do mal do sexto número, como acontece com tantos periódicos culturais brasileiros.


Noticiaram os jornais que os desmatadores da Amazônia estão adotando métodos mais sofisticados. Com o uso de aviões, pulverizam herbicidas sobre a floresta, provocando em poucos dias a queda total das folhas das árvores. Aí entram as malignas motosserras e os monstruosos tratores derrubando tudo. É um herbicida semelhante ao célebre agente laranja que os Estados Unidos tanto usaram na Guerra do Vietnã. Além da destruição implacável das florestas, o veneno mata animais e insetos e contamina o lençol freático de maneira que a água, em toda a região, provoca intoxicação quando ingerida e problemas cutâneos. A nova modalidade de crime seria inacreditável não fosse constatada por satélite, averiguada in loco por fiscais e objeto de inquérito pela Polícia Federal que, por sinal, apreendeu toneladas do herbicida destinadas ao uso. Tais ações criminosas lembram a política de terra arrasada adotada em algumas guerras pelos inimigos. Mais grave, porém, é que são praticadas por brasileiros contra sua própria pátria, sem qualquer consideração pela saúde das pessoas e pelo futuro do país. E como tais práticas logo encontram imitadores, tudo indica que se multiplicarão de forma incontrolável. Até quando? Até que não reste o menor resquício de verde da maior floresta do mundo. País que tem filhos assim não carece de inimigos.


Quando eclodem escândalos na administração pública todos querem, com razão, que os corruptos sejam punidos. Quase ninguém, no entanto, se lembra de que os corruptores também têm idêntica responsabilidade e merecem a mesma punição. Impera a idéia de que quem rouba o erário é ladrão, mas quem furta dos particulares é esperto. Parece, porém, que as coisas aos poucos começam a mudar. Já aparecem na mídia aqueles que protestam contra isso e lembram que sem corruptores não existem corruptos. Antes tarde.
 

Escrito por Enéas Athanázio, 10/06/2019 às 16h01 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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GÊNIO E REBELDE

Tristan Tzara foi uma figura célebre e controversa na Paris da belle époque. Frequentava o mesmo café onde se reuniam os membros da chamada “geração perdida”, entre os quais Ernest Hemingway, em cujas obras se encontram referências a ele. Nascido Samuel Rosesnstock (1896/1963), de família judia, veio ao mundo na Romênia e faleceu em Paris. Adotou o pseudônimo com que se tornou célebre, cuja tradução livre é “triste em meu país.” Desde muito cedo se revelou um contestador e vanguardista, colaborando em periódicos de seu país. Viveu na Alemanha, na Espanha e em Paris, onde se fixou em definitivo, tendo adquirido a nacionalidade francesa. Estudou Ciências Humanas e Filosofia em Zurique. Durante a II Guerra Mundial sofreu perseguições antissemitas, obrigando-se a se refugiar no sul da França, tendo participado da Resistência Francesa como elo de ligação com intelectuais simpatizantes.

Com outros escritores, poetas e artistas, criou o Movimento Dadaísta, cujo manifesto foi lançado em 1918 com intensa repercussão. Nele, o grupo investia contra a poesia convencional, os valores estéticos, culturais e morais imperantes, propondo a destruição dos cânones vigentes numa sociedade que considerava em franca decomposição. Suas ideias revolucionárias teriam sido inspiradoras do Surrealismo. Não obstante, é considerado um dos grandes expoentes da literatura francesa do Século XX.

Para ele, a poesia haveria de ser transgressora e rebelde, alheia aos significados lógicos da linguagem, mesmo que não fosse entendida pelo vulgo. Propunha a associação de termos incompatíveis entre si e uma sucessão de ritmos caóticos. Entre seus princípios estavam: a abolição da lógica, de toda hierarquia, da memória, das profecias, do futuro e das dores crispadas, dos grotescos e das incongruências. O entrelaçamento dos contrários e de todas as contradições eram alguns de seus postulados. Autor de uma obra vasta e complexa, aliava a rebeldia agressiva a um socialismo utópico.

Para orientar os interessados, forneceu a receita de um poema dadaísta. Leia um artigo de jornal, - instruiu ele – depois use uma tesoura e o recorte. Em seguida, com muito cuidado, recorte palavra por palavra, ponha tudo num saquinho e sacuda de leve para misturar. Vá tirando e copiando cada uma das palavras e você terá um poema muito parecido com você e repleto de sensibilidade, embora ninguém o entenda e talvez nem mesmo seu autor (digo eu). Com base nessas instruções, vamos construir um

POEMA DADÁ

Com prisões guerra deputado institucional
Tendências erramos disputa casas política
Contato continuidade membros da justiça
Usurpar aproximou destroços gabinete segura
Para xadrez a da chinês judiciário
Assembleia chegam ministério máximo final
Paz debates mira pacheco extra
Zona da poder mais e para crítico
Mesa alerta faltou é do inovação
Importantes xis minha história estrutura
A em que o da ao . . .

O leitor entendeu?
Confesso que também não!
Será mesmo parecido comigo?

Escrito por Enéas Athanázio, 15/07/2019 às 09h09 | e.atha@terra.com.br

O OGRO E A POMBA

Quando se anunciou o próximo casamento de Diego Rivera e Frida Khalo, o pai da moça teria afirmado que se tratava da união do ogro com a pomba, tão diferentes no aspecto físico eram os dois. Ele, um homem grandalhão, um tanto gordo e feio; ela, uma moça magra e de aparência frágil e doentia. Além disso, o noivo tinha o dobro da idade da noiva e já passara por outros matrimônios, todos mal sucedidos. Mas o casamento aconteceu duas vezes e foi dos mais comentados e controversos dos meios culturais de todo o mundo. A história de amor de Frida e Diego foi a de uma união inseparável em que ambos se irmanavam no sentimento revolucionário, tanto na vida como na arte. Ele foi o maior muralista mexicano e ela, por sua vez, uma pintora que encantou os apreciadores de todo o mundo.

Pessoa doentia, acometida de poliomielite aos seis anos de idade, vítima de terrível acidente que a cumularia de sofrimentos pela vida a fora, Frida se apaixonou pelo pintor quando menina e comparecia ao local onde ele trabalhava para vê-lo e contemplar sua arte. Desde logo comungou com ele do ideal de recuperar o México histórico e tradicional, revivendo os costumes, a arte secular do povo mexicano e a cultura dos indígenas pré-colombianos, libertando-se de influências estrangeiras. Fiel a esse propósito, com o integral apoio dela, Diego realizou imensos murais que impressionaram desde logo pela grandeza, pela inspiração e pela beleza. Seu nome não tardou a transpor as fronteiras e se tornou um artista de fama mundial, convidado várias vezes para executar obras em outros países, inclusive nos Estados Unidos, onde travou uma luta desigual com o todo-poderoso Nelson Rockefeller.

Diego Rivera foi uma figura complexa. A par da seriedade e disciplina com que se lançava ao trabalho, era “um mentiroso, um fanfarrão, um inventor de histórias que se alimentavam do imaginário”, como escreveu seu biógrafo. Inveterado conquistador, apesar da feiúra, manteve vários relacionamentos amorosos complicados e ruidosos. Entregou-se às mais estranhas experiências, provando inclusive o canibalismo, ocasião em que declarou que a carne humana é adocicada. Mas nutria uma fé inquebrantável na renovação da arte popular mexicana e com isso selou sua sobrevivência na história da pintura moderna. Recebeu e suportou com estoicismo críticas que ridicularizavam sua escolha indianista, mas jamais abdicou dela.

Seus imensos murais, vivos e brilhantes, tiravam do ostracismo o México profundo que estava sendo soterrado pelas influências de fora. Retratavam os nativos nas suas atividades cotidianas, as mulheres de pele ocre com as costas largas e fisionomias serenas, os cabelos longos e negros, às vezes numa nudez inocente e despreocupada. A vida fluindo como nos tempos de dantes, Para isso, captando imagens in loco, ele perambulava pelos rincões mexicanos de onde retornava com a mala repleta de esboços e anotações. Realizava o que seu biógrafo denominou de festa indígena, sempre ao lado da mulher. “Frida, bem como Diego, inventou o passado indígena do México (...) Mas Diego é o primeiro a exprimir verdadeiramente o mundo indígena, sua força vital, sua exuberância colorida, seu martírio cotidiano também” – afirmou o biógrafo.

A influência da arte de Diego, ao lado de Frida, não tarda a se fazer sentir. Surge aquele México alegre, colorido, musical e amante da liberdade. Ambos, em conjunto, provocaram a revolução através da pintura. E lutaram sempre por um mundo melhor, com muita paz, a proscrição das armas nucleares e a solidariedade entre os povos.

As biografias paralelas de Frida e Diego estão reconstruídas de forma magistral no livro “Diego e Frida”, de autoria de J. M. G. Le Clézio, escritor francês, detentor do Prêmio Nobel de Literatura, publicado entre nós pela Editora Record (2010), em tradução de Vera Lúcia dos Reis. Obra que mereceu do jornal “Le Monde” as seguintes palavras: “Esta biografia amplia a história, a dos indivíduos e dos povos, até as dimensões da lenda.”

Escrito por Enéas Athanázio, 08/07/2019 às 10h27 | e.atha@terra.com.br

GLOBÊS

A pressão da economia sobre a sociedade, em todos os setores, está chegando às raias do absurdo. Parece ficção surreal, inacreditável e inverossímil, mas já surgiu quem pregasse a “necessidade” de reduzir o vocabulário das pessoas sob a alegação de que “não é econômico ter quinze ou mais palavras para dizer a mesma coisa.” Segundo o escritor francês Erik Orsenna, integrante da Academia Francesa, em entrevista à brasileira Betty Milan, a mundialização está provocando “a desaparição das línguas, isto por causa da tendência a falar a língua das quinhentas palavras, que eu chamo de “globês.” São as quinhentas palavras necessárias à sobrevivência, as palavras do dinheiro, que é o equivalente geral. Não é útil para a economia ter quinze palavras para dizer a mesma coisa... Ora, a maior obra de arte coletiva é uma língua, seja ela qual for, e não há nada pior do que relegá-la ao esquecimento.” Quem diria que a “modernidade” nos levaria a correr tal risco! Ensinados que a cultura da pessoa se mede pela riqueza de seu vocabulário, falando ou escrevendo sem repetições, usando as palavras apropriadas com todas suas nuances, agora pregarão que isso não é econômico e que o correto será falar da forma mais pobre possível, com um mínimo de vocábulos. Nessa marcha, não tardará o dia em que voltaremos a nos comunicar através de grunhidos ou gestos, como seres primitivos! Será o apogeu da “modernidade globalizante.”

Como se não bastasse, está ocorrendo um fenômeno que os sociólogos definem como “enquadramento geral” e que só se imaginava possível em regimes fechados. Assim, por exemplo, qualquer funcionário, mesmo subalterno, abdica da própria individualidade e só se expressa na primeira pessoa do plural – “nós.” Com essa palavrinha de três letras ele se integra melhor à entidade a que serve, mesmo anulando a si próprio. Isso se completa nos uniformes iguais, feitos num modelo único nos menores detalhes, e até nos penteados femininos, idênticos inclusive nas ondulações e fitas. Gestos e modos de agir tão estudados que parecem mecânicos. Vozes tão ásperas e sem modulação que semelham a fala metálica dos robôs. Até os sotaques regionais, uma das riquezas da língua, são proibidos – todos devem falar do mesmo jeito. A “economia de palavras” aparece até no modo de se expressar ao telefone: “Quem?” – é a pergunta seca, não havendo sequer a preocupação de completar a frase. Para que gastar mais uma palavra? Pessoas incumbidas de prestar orientação a clientes, como em bancos e outras instituições, repetem as mesmas frases, como palavras de ordem, sempre no mesmo tom. Algumas nem sequer falam, têm a pergunta escrita nas costas: “Posso ajudar?” Para certas associações, não usar as designações da praxe é um semi-delito: companheiro, confrade, consócio, correligionário, camarada etc. E assim, agindo como autômatos, vamos aos poucos nos afastando cada vez mais de nossos semelhantes. Não existe mais espaço para os “papos” descontraídos e amigos; isso não seria econômico.

Escapamos de ditaduras ideológicas e repressivas mas vivemos sob um controle totalitário difuso, que não sabemos de onde parte e ao qual ficamos cada vez mais submissos. Por tudo isso, despeço-me com palavras, enquanto ainda podem ser usadas. É possível que em breve sejam proibidas e ao escritor reste apenas o silêncio. E no convívio diário nos comunicaremos grunhindo e gesticulando. Mesmo assim com muita economia.

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CENA FUTURISTA
Brasil em tempos de globês


O filho, entrando na sala:
- Oi, pai! Oi, mãe! Belê?
O pai faz positivo com o polegar.
A mãe:
- Hu! Hu!
- Oi, mano! – diz o rapaz. – Jóia?
- Hu! Hu! – responde o outro.
Para a irmã:
- Aí, mina! Lacrando?
- Hu! Hu!.
Silêncio.
- Que está fazendo, pai?
- Trabalhando em cima duma idéia.
- E como tá?
- Complicado. Eu acho.
- Tipo o quê?
- Tipo história. – Pausa - Difícil.
A mãe:
- Faz parte.
Silêncio.
- Vai ficar legal?
- Com certeza.
Silêncio.
Todos se concentram no celular.
O rapaz levanta e vai saindo.
- Chega de papo. Tchau!
- Hu! Hu! – respondem os outros.
A porta se fecha.
Silêncio.

 

Escrito por Enéas Athanázio, 01/07/2019 às 15h18 | e.atha@terra.com.br

TRIBUTO A UM BATALHADOR

Amanhã o advogado Linésio Laus estará completando 90 anos de idade. Nascido na cidade de Tijucas em 25 de junho de 1929, bacharelou-se pela Faculdade de Direito de Santa Catarina, então sediada à rua Esteves Júnior, em Florianópolis, e hoje integrada à UFSC. Casou-se com Wanda D’Ávila dos Santos Laus, cirurgiã-dentista, e o casal teve cinco filhos: Berenice, Carlos Humberto, Beatriz, Victor e Linésio Júnior. Desde 1979 está radicado em Balneário Camboriú.

Formado, Linésio Laus se fixou em Joaçaba, onde permaneceu por vários anos, depois foi para São Paulo e, por fim, se estabeleceu em Balneário Camboriú, cidade que adotou como sua. Exerce a advocacia há mais de sessenta anos, sem interrupção e sem se dedicar jamais a qualquer outra atividade profissional. Não se curvou à tentação dos negócios, do magistério ou da política. Sua única ambição sempre foi a mesma: ser advogado em tempo integral. Entregou-se à profissão com denodo e competência desde a juventude.

É um dos advogados mais antigos da comarca e foi o primeiro presidente da Subseção local da OAB em dois mandatos consecutivos (1981/1982 e 1983/1984).

Em mais de seis décadas de atividade profissional, Linésio Laus tem advogado em todas as áreas, sempre revelando conhecimento e combatividade. É um batalhador incansável.

No correr de tão prolongado lapso de tempo trabalhou nas mais diversas circunstâncias vividas pelo país, inclusive sob o guante de uma ditadura de 21 anos, correndo todos os riscos inerentes ao estado de exceção. Formado na vigência da Constituição Federal de 1946, a mais democrática que tivemos, acompanhou o surgimento dos Atos Institucionais, inclusive do famigerado AI 5, da Constituição secreta de 1967, da Emenda número 1, de 1969 e, por fim, da Constituição Cidadã, de 1988, que colocou um ponto final em duas décadas de obscurantismo.

Nesse período, presenciou a imensa transformação sofrida pelo Direito, inclusive na sua execução, desde a máquina de escrever e o papel carbono, as petições seladas e os habeas-corpus impetrados pelo correio até o computador e a Internet. Advogou na vigência de três Códigos de Processo Civil, a começar pelo de 1939 até o atual, exigindo constante e dedicado estudo e atualização. Nas outras áreas as alterações também foram intensas, inclusive com a vigência de novos e numerosos diplomas legais versando os mais variados assuntos.

Conheci Linésio Laus nos tempos em que residi em Campos Novos. Atuamos juntos no Tribunal do Júri e em causas cíveis, ora como companheiros, ora como adversários. Nunca deixei de reconhecer seu talento e sua cultura jurídica.

Por tudo isso e muito mais, rendo ao prezado colega e amigo o meu sincero tributo, desejando-lhe o melhor, e o felicito pela longa trajetória de vida dedicada ao Direito e à Justiça. Espero que muitas outras manifestações ocorram, assinalando tão significativa data.

Escrito por Enéas Athanázio, 24/06/2019 às 09h57 | e.atha@terra.com.br

TUDO JUNTO (I)

A globalização atual, - porque outras aconteceram ao longo da história, - trouxe múltiplas consequências. Se, por um lado, facilitou o intercâmbio de produtos e informações, por outro descurou das coisas da cultura em nome do lucro e da vantagem. Assim aconteceu, por exemplo, com o chamado “globês”, por demais comentado na imprensa há alguns anos. Tratava-se da opinião de que não se justificava a existência de muitas palavras com o mesmo significado, devendo a linguagem, em consequência, ser enxugada dos sinônimos para que se usasse uma só e mesma palavra para designar alguma coisa. Diziam que não era econômico e nem prático manter vários vocábulos com o mesmo significado e, assim, o empobrecimento do vocabulário das pessoas se impunha. Ora, é justamente pela amplitude de seu vocabulário que se mede a cultura da pessoa, tornado-a capaz de interpretar qualquer texto escrito, de tal forma que a esdrúxula teoria propunha um movimento para trás, isto é, da incultura e da ignorância. Ninguém precisaria conhecer mais que 300 a 500 palavras para ganhar dinheiro, o valor maior e único dos afinados com a tal teoria. E todos falariam da mesma forma, como se fossem cópias.

Agora, porém, as coisas foram adiante. Uma ideia aberrante que se denomina “pedagogia pragmática” vem plantando notinhas na mídia no sentido de negar a necessidade de alfabetizar as pessoas, ou seja, não se ensinaria mais as pessoas a ler e, acima de tudo, a escrever. Seriam coisas supérfluas, pouco práticas e econômicas pelo tempo que tomam, uma vez que o audiovisual seria suficiente para a vida normal. Ler para quê? Escrever para quê? São atividades arcaicas e inúteis. Em duas ou três gerações o mundo voltaria a ser ágrafo, como nos áureos tempos das cavernas. A suprema consolidação da modernidade!

Tudo se resumiria ao som e à imagem. As cédulas de dinheiro trariam desenhos que representassem seus valores. E, com certeza, surgiriam um código semelhante à linguagem para surdos e outros recursos que dispensassem por completo a palavra. Os cidadãos, felizes e realizados, ficariam ricos com tanta praticidade e economia. Nos momentos de lazer sentariam diante da televisão de última geração e se comunicariam com os demais através de gestos, caretas e guinchos. Como os macacos.


O irrequieto líder modernista Oswald de Andrade, ainda que por linhas traversas, sempre volta à cena. Lavrou nos jornais aguda polêmica entre os poetas Augusto de Campos e Ferreira Gullar, ambos pioneiros do Movimento Concretista e mais tarde rompidos. Segundo Gullar, em almoço no Rio de Janeiro, há cerca de cinquenta anos, Augusto teria declarado que Oswald de Andrade fôra um irresponsável, desmerecendo o valor de sua obra. Indignado, o poeta paulista protestou e os dois passaram a se xingar através dos jornais de maneira virulenta. Embora seja uma questão de somenos constatar se o tal almoço aconteceu ou não, o assunto tocou em ponto sensível, uma vez que a obra de Oswald de Andrade foi a inspiradora do Concretismo e está na sua própria raiz.

Por coincidência, ou feliz acaso, estreou em São Paulo na mesma época a peça teatral “Macumba Antropófaga”, sob a direção de José Celso Martinez Corrêa, incorporando o célebre Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, uma das peças mais importantes e polêmicas do Modernismo.

Dois acontecimentos fortuitos tiraram do esquecimento, ainda que por tempo limitado, um escritor genial cuja obra é pouco lembrada e, menos ainda, lida.


Na coleção Cine Europeu que o jornal “Folha de S. Paulo” lançou, um dos primeiros números foi “Fitzcarraldo”, de Werner Herzog, com Klaus Kinski e Cláudia Cardinale. É a história do sonhador alucinado que desejava apresentar uma ópera em plena selva amazônica e para isso teve que enfrentar as mais inacreditáveis dificuldades, entre elas a de arrastar um navio completo pelo chão, através da selva, de um rio até outro, para prosseguir na viagem. Os cenários são grandiosos, as cenas chocantes, ainda mais para quem conhece a Amazônia e pode imaginar o tamanho da tarefa de cruzar um matagal fechado e inóspito. Dizem os críticos que tal foi o esforço feito que, após a filmagem, o ator Klaus Kinski teria ficado exaurido, esgotado, como se tivesse perdido a energia vital. Ele e o diretor Herzog brigavam o tempo todo e se consideravam inimigos íntimos. É uma aventura que merece ser vista e revista. 

Escrito por Enéas Athanázio, 17/06/2019 às 08h58 | e.atha@terra.com.br

TUDO JUNTO (II)

Graças à gentileza do talentoso poeta Tarso de Melo, recebi vários exemplares de “K – Jornal de Crítica”, publicado em São Paulo e do qual ele é um dos editores. Tenho para mim que é o mais sofisticado periódico nacional dedicado à crítica literária, contando com uma equipe de primeira linha, e realizando análises de obras e autores fora do âmbito universitário, hoje concentrando quase toda essa atividade, cujo espaço nos jornais está desaparecendo. Entre os que escrevem no jornal destacam-se nomes como Carlos Felipe Moisés, Manuel da Costa Pinto, Donizete Galvão, Reynaldo Damazio e muitos outros, além do próprio Tarso de Melo em sua coluna “K Indica”, focalizando obras recentes. O jornal também agasalha poesias de nível, garimpadas na obra de bons poetas. Excelentes os ensaios sobre Ana Cristina Cesar. Trata-se, enfim, de uma publicação que reavivou o meu enlevo pela velha e boa crítica literária, aquela que se constitui num facho de luz iluminando o caminho dos que não dispensam a companhia dos livros. Como já faz algum tempo que não tenho notícia do jornal, espero que não tenha sido vítima do mal do sexto número, como acontece com tantos periódicos culturais brasileiros.


Noticiaram os jornais que os desmatadores da Amazônia estão adotando métodos mais sofisticados. Com o uso de aviões, pulverizam herbicidas sobre a floresta, provocando em poucos dias a queda total das folhas das árvores. Aí entram as malignas motosserras e os monstruosos tratores derrubando tudo. É um herbicida semelhante ao célebre agente laranja que os Estados Unidos tanto usaram na Guerra do Vietnã. Além da destruição implacável das florestas, o veneno mata animais e insetos e contamina o lençol freático de maneira que a água, em toda a região, provoca intoxicação quando ingerida e problemas cutâneos. A nova modalidade de crime seria inacreditável não fosse constatada por satélite, averiguada in loco por fiscais e objeto de inquérito pela Polícia Federal que, por sinal, apreendeu toneladas do herbicida destinadas ao uso. Tais ações criminosas lembram a política de terra arrasada adotada em algumas guerras pelos inimigos. Mais grave, porém, é que são praticadas por brasileiros contra sua própria pátria, sem qualquer consideração pela saúde das pessoas e pelo futuro do país. E como tais práticas logo encontram imitadores, tudo indica que se multiplicarão de forma incontrolável. Até quando? Até que não reste o menor resquício de verde da maior floresta do mundo. País que tem filhos assim não carece de inimigos.


Quando eclodem escândalos na administração pública todos querem, com razão, que os corruptos sejam punidos. Quase ninguém, no entanto, se lembra de que os corruptores também têm idêntica responsabilidade e merecem a mesma punição. Impera a idéia de que quem rouba o erário é ladrão, mas quem furta dos particulares é esperto. Parece, porém, que as coisas aos poucos começam a mudar. Já aparecem na mídia aqueles que protestam contra isso e lembram que sem corruptores não existem corruptos. Antes tarde.
 

Escrito por Enéas Athanázio, 10/06/2019 às 16h01 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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