Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

O BARULHO DO TEIXEIRA

Advogado com longa militância no Rio de Janeiro e folclorista, Francisco de Vasconcellos é autor de uma obra ampla e variada que não cessa de crescer. Tem abordado os mais diversos temas da chamada cultura popular de vários pontos do país, sempre fundamentado nas melhores fontes e em pesquisas próprias. Em seu mais recente livro, - “Temas de Feira e de Cordel” (Arteg Impressões – Juiz de Fora – 2019), - focaliza três curiosos eventos da vida sertaneja e seus personagens, além de realizar interessante incursão no exame da poesia popular.

No primeiro deles analisa um episódio que ficou gravado na memória do povo e que aconteceu na remota Vila do Teixeira, povoado pobre e desconhecido do sertão da Paraíba. A mulher, a terra e a política, ressalta o autor, eram as causas de frequentes lutas de famílias que se tornavam inimigas. No caso em tela, tudo indica que a política colocou em posições opostas os Dantas, conhecidos como a Família Terrível, e os Nóbregas. A serviço dos primeiros estavam os Guabirabas, “mestres nas tocaias, nos insultos e nas insinuações malévolas. Sua crueldade não conhecia limites...” Delphino e Liberato, delegados em sucessão, teriam perseguido os Dantas, adversários políticos, tendo aquele se afastado do cargo para que assumisse o segundo.

Cirino Guabiraba, um dos irmãos facínoras, envia ao delegado Liberato um recado atrevido: estaria na feira da Vila e, de fato, lá compareceu quando ela estava no auge. Saindo um por um, para não despertar suspeitas, os homens do delegado prepararam uma tocaia num local por onde Cirino teria forçosamente que passar. E ali o mataram à traição, não lhe permitindo nem sequer confessar-se, enquanto o cavalo ensanguentado voltava para casa e dava o sinal de que o dono fora preso ou morto. A família se movimenta para o revide e tanto Liberato como Dekphino foram mortos, embora este, a rigor, não participasse dos acontecimentos. Seguiram-se outros desdobramentos e os episódios entraram na história como o Barulho do Teixeira.

Barulho do Teixeira atraiu a atenção dos cantadores de feiras e da literatura de cordel, tendo variadas versões. É tema de livros de Pedro Batista e de Gustavo Barroso, tendo ultrapassado as fronteiras nordestinas para ecoar no Rio de Janeiro, em Minas Gerais e no Espírito Santo. O cantador Hugolino Nunes da Costa seria o autor da primeira versão rimada e metrificada dos acontecimentos. Outros poetas populares também se dedicaram ao assunto.

Nesse período histórico o cangaço vicejava em todo o Nordeste. Apesar das volantes policiais que os perseguiam, os bandos de cangaceiros aterrorizavam as populações indefesas das pequenas cidades e vilas. O caso de Cirino caiu no gosto do povo, talvez pela valentia com que tentou reagir ou por ter morrido sem padre e confissão.

Com seu ensaio, Francisco de Vasconcellos reaviva um episódio dos mais conhecidos e cantados nas feiras populares.

Nos ensaios seguintes, o autor analisa a figura e a época do Valente Valério que, de bandido virou santo, e, a seguir, a de Inácio da Catingueira (1845/1879), herói cultural de seu povo, escravo, pobre e analfabeto que se tornou um dos maiores cantadores e poetas populares do sertão, falando pela gente miserável e conquistando os corações. Jamais foi esquecido. O ensaio de Vasconcellos é merecida homenagem

Para fechar seu belo livro, o autor tece eruditas considerações sobre a hipérbole na poesia popular.

Escrito por Enéas Athanázio, 09/12/2019 às 12h35 | e.atha@terra.com.br

JORGE AMADO EM CORPO INTEIRO

Jorge Amado foi dos poucos brasileiros que viveu na plenitude a vida do escritor. Foi profissional das letras e delas tirou o sustento. Nunca quis escrever memórias ou autobiografia. Em sua obra, o livro que mais se aproxima do gênero é “Navegação de Cabotagem”, repertório de recordações de pessoas, lugares e fatos, embora sem a ordem e o método costumeiros. Relatou muito de sua vida em entrevistas mas isso nunca foi organizado e publicado em conjunto. É curioso notar que só teve um biógrafo em vida, Miécio Tati, mas parece que o livro não mereceu boa aceitação e foi pouco comentado.

Agora, porém, surge uma biografia para valer, compensando a ausência de outras. Trata-se de “Jorge Amado – Uma biografia”, de autoria de Josélia Aguiar (Todavia Editora – S. Paulo – 2018 – 635 págs.). Baiana de Salvador, radicada em São Paulo, a autora é jornalista e historiadora. Foi correspondente da “Folha de S. Paulo” em Londres, editora da revista “Entrelinhas” e curadora da Feira Literária Internacional de Paraty (FLIP). Dedicou nada menos que sete anos à confecção desta obra.

A narrativa tem início nos dias do menino grapiúna correndo solto no meio cacaueiro da Bahia, convivendo com as pessoas e absorvendo a cultura local. Depois, os duros tempos do internato, de onde foge e vai se abrigar na casa do avô, fazendo longa caminhada a pé e sozinho. Acontece a primeira paixão, ardente e arrebatada, mas que acaba em nada. A mudança para o Rio de Janeiro para estudar Direito, entregando-se a intensa militância literária, escrevendo para os jornais, e exercendo grande atividade política. Nesse período faz amplo relacionamento com numerosas pessoas com as quais se cruzará em muitas outras oportunidades.

Com o lançamento do primeiro romance, “País de Carnaval”, tem início a carreira literária. Embora o autor fosse muito jovem e com pouca experiência, o livro desperta a atenção da crítica e agrada aos leitores. A partir daí, não cessa de escrever e publicar. Com o passar dos anos sua obra vai se aprimorando, é muito lida e ele se transforma no escritor mais célebre do país. Viaja muito, conquista prêmios e distinções, seus livros são traduzidos para 49 idiomas. É dos raros brasileiros que enriquece com a literatura.

A militância política não cessa e as perseguições acontecem em vários períodos de nossa confusa vida institucional. Eleito Deputado Federal por São Paulo, tem o mandato cassado em 1948 por decisão da Justiça Eleitoral, em pleno regime democrático e na vigência da Constituição de 1946. Têm início os diversos exílios a que é forçado. Esconde-se em Estância, no interior de Sergipe, onde fica em paz e muito escreve. Mais tarde iria para a Argentina, o Uruguai e Paris, sendo expulso da França por pressão do governo brasileiro, e para Dobris, na antiga Tchecoslováquia. Lá, ele e a esposa Zélia vivem por longo tempo e nasce a filha Paloma. Regressando ao país, vai se afastando da militância política, ingressa na Academia Brasileira de Letras e se muda para Salvador, passando a viver na célebre Casa do Rio Vermelho, à rua Alagoinhas 33. Conhecido em todo o mundo, vive cercado pelos amigos, seus romances são adaptados para o cinema, o teatro e a televisão, e continua viajando. Como diz a biógrafa é ali, na Bahia, que se dá o outono do patriarca.

O pensamento do escritor e suas variações no correr do tempo sobre temas cruciais é abordado pela autora com clareza e segurança, sempre com base em sólidas fontes. Jorge Amado jamais abdicou de suas convicções políticas e formou sempre com as correntes progressistas.

Assim foi, em largas pinceladas, a rica existência de Jorge Amado. A autora esmiúça todas as fases da vida do escritor com impressionante quantidade de detalhes e informações. Para isso se valeu de imensa bibliografia, consultando livros, revistas e jornais velhos, arquivos e documentos, sem falar nas incontáveis entrevistas que realizou e nas constantes releituras da obra do próprio biografado. Rico álbum de fotografias enriquece ainda mais a obra.

Os admiradores do escritor baiano podem ter agora um retrato em corpo inteiro de Jorge Amado e a resposta para todas suas indagações.

Escrito por Enéas Athanázio, 02/12/2019 às 10h11 | e.atha@terra.com.br

A HISTÓRIA DA ESCRITA

Adovaldo Fernandes Sampaio é um dos maiores linguistas do país. Tem produzido obras fundamentais sobre os temas de sua especialidade e que são autênticos marcos no campo da linguística. Cabe mencionar, dentre elas, “Línguas e dialetos românicos e germânicos”, livro enciclopédico, revelador de impressionante erudição, e que comentei nesta coluna (Editora Kelps – Goiânia – 2010). No ano anterior, pela Ateliê Editorial (S. Paulo), havia publicado “Letras e memória – Uma breve história da escrita”, livro que encanta pela beleza e fascina pelo conteúdo. Em tamanho grande e fartamente ilustrado, é o resultado de anos de pesquisas, trabalho e dedicação de quem não se contenta com o comum, o ordinário, o convencional.

Não satisfeito com as fontes disponíveis, o ensaísta estendeu uma rede de contatos com entidades e especialistas de diferentes áreas do conhecimento em todo o mundo. Com paciência e organização, fez contatos que lhe trouxeram informações valiosas que enriqueceram seu trabalho e lhe deram ainda maior base científica. Consultando a relação desses contatos surgem pessoas e instituições da Mauritânia, Croácia, Rússia, Cazaquistão, Alemanha, França, Inglaterra, Índia, Etiópia, Austrália, Geórgia, Turquia e muitas outras, obtendo de cada uma informações, documentos, fotografias e reproduções que lhe forneceram material para enriquecer seu notável ensaio. O resultado foi um livro que considero único.

Mas na busca da história da escrita, objeto maior do livro, o autor afundou no passado da humanidade na caça dos mais rudimentares resquícios da escrita até seu pleno desenvolvimento através de longo e tortuoso avanço. Começa informando que o orgulhoso homo sapiens passou nada menos que 150.000 anos em estado de selvageria e de barbárie. Não tinha a menor ideia do que fosse escrever; era ágrafo. Entre 45.000 e 35.000 anos, movido pela necessidade de comunicação, começou a gravar em paredões sinais e figuras que podem ser considerados os embriões da escrita. Esse costume evoluiu no correr dos tempos e surge na Mesopotâmia a escrita cuneiforme e, mais tarde, no Egito, aparecem os hieróglifos gravados em papiros. São invenções revolucionárias, permitindo o aparecimento da literatura sobre variados assuntos e a formação de bibliotecas. Os fenícios contribuem com seu alfabeto e de avanço em avanço o homem chega ao alfabeto latino que muito tem servido às línguas que o utilizam. A criatividade sem limites conduz por caminhos jamais imaginados até a escrita real e a virtual. Línguas surgem e prosperam; outras morrem ou são abandonadas. E assim, no mundo de hoje, a escrita está em toda parte e as sociedades se organizam em torno dela.

Na sequência, o livro exibe incontáveis reproduções de todos os tipos de escrita e de línguas. É espantosa a quantidade e a variedade desses elementos obtidos pelo autor, permitindo ao leitor fazer ideia segura do que está lendo. Surgem figuras rupestres, caracteres cuneiformes, escrita chinesa, etrusca, hieróglifos e outras. A seguir o livro se estende por diferentes línguas e diferentes escritas. O alfabeto grego, hebraico, árabe, copta, aramaico, samaritano, híndi, cingalês, armênio, persa, gaélico e uma infinidade de outros. Aborda a escrita gótica, o alfabeto cirílico, a escrita quíchua, o alfabeto quadrado, escritas mongol, iídiche, malaio, abcázio e incontáveis outras línguas e escritas, antigas e modernas, faladas por muitos ou por poucos, vivas e mortas, deixando herdeiras ou não. Também há lugar para a língua de sinais, o alfabeto braile, o código Morse, o semáforo, a escrita matemática, a escrita musical, a escrita pictográfica, línguas e escritas imaginárias, escritas universais, escrita hip-hop (grafite e pichação) e até a escrita epidérmica (tatuagem). O Latim, de onde veio nosso musical português, merece tratamento especial.

Tudo isso ilustrado à farta, com clareza e boa definição, num trabalho gráfico da melhor categoria, formando um conjunto impressionante. Acentuo a imensa tarefa que o autor se impôs, manuseando por longo tempo uma enormidade de línguas e dialetos, milhões de palavras, símbolos e desenhos, escritas estranhíssimas, algumas grafadas da direita para a esquerda e caracteres indecifráveis. Trabalho sem similar.

Registro, por fim, a bibliografia de que se valeu o autor. É espantosa pela quantidade, toda estrangeira e da melhor qualidade.

Dizer que o Prof. Adovaldo merece parabéns é muito pouco. Ele merece a consagração.

Escrito por Enéas Athanázio, 25/11/2019 às 10h52 | e.atha@terra.com.br

O ROMANCE DE UMA VIDA

Ao publicar minhas reminiscências do internato, no livro “Vida Confinada”, lançado em 1997, classifiquei-o como autoficção. Eu me rendia à posição mais recente da crítica européia, fundada em princípios psicanalíticos, de que memórias exatamente fiéis aos fatos não existem e que a cada vez que nos lembramos de algum episódio ele volta acrescido de novos ingredientes imaginários ou, ao contrário, despido de alguns detalhes. Eu andava lendo na época alguns escritos da psiquiatra e escritora Betty Milan, que vinha divulgando entre nós esses conceitos inovadores. Alguns resenhistas estranharam um pouco o novo gênero, mas parece que ele não encontrou maior aceitação e permaneceu pouco usado. Como leitor inveterado de autobiografias e memórias, não me lembro de ter encontrado outro livro com tal classificação.

Mas eis que agora me vem às mãos o romance autobiográfico “Innocens Manibus”, de autoria de Vasco de Sant’Anna, publicado no Rio Grande do Sul (2012), e que acabo de ler. Para surpresa minha, ele é classificado como autoficção, vale dizer, é um livro de memórias. É muito mais abrangente que o meu, uma vez que procura reconstituir de forma romanceada toda a existência do personagem central, alter-ego do autor-narrador, desde os bancos escolares até os dias atuais. E nesse particular ele revela o fôlego do romancista, estendendo-se por 330 páginas repletas dos mais variados acontecimentos, sempre contextualizados com a história regional e do país. É um vasto painel que exibe um homem vivido e que, como ministrava Gilberto Amado, nunca foi um distraído mas soube prestar atenção à vida.

As recordações mais antigas remontam aos tempos do seminário. Esses anos de vida reclusa têm a característica de se incrustar para sempre na memória, talvez porque naquela idade ela funciona como disco virgem e retém tudo de maneira indelével. Nessa fase se entremeiam as lembranças da terra natal, típica cidade gaúcha da fronteira com todos seus tiques e cacoetes. É ali que explode como bomba em família a sua revelada intenção de virar padre. Para os machões do clã, aquilo soava como o maior dos despautérios. Onde já se viu semelhante coisa? As reações de Tio Henrique, em particular, são antológicas, e as soluções que indica para debelar a “vexata quaestio” são extraordinárias. E quando é advertido pela mãe do rapaz de que irá para o inferno, ele retruca: “Mas é isso mesmo que eu quero, festa e mulherada. O céu deve ser muito chato, só santos, anjos e beatas!” (p. 25). O dia-a-dia no seminário, com os pequeninos acontecimentos da rotina ganhando relevância aos olhos da garotada reclusa e submetida a rígida disciplina. Surgem os dramas, as comédias, os atos de grandeza e de mesquinharia, como as delações, e tudo mais que é próprio de uma vida vigiada. Mas o tempo implacável se escoa e um dia o rapaz deixa o seminário para ingressar em outras fases da vida. As páginas sobre esse período são intensas e absorventes, talvez o ponto alto do livro.

Marcha da Liberdade (foto Reprodução/Arquivo)

Segue-se o período universitário na busca da profissão. Forma-se em engenharia e se especializa na construção de rodovias. Depois de um casamento algo arranjado, inicia a lenta e dura luta pela afirmação profissional. A ascensão é difícil, enfrentando as disputas e, mais que isso, a corrupção institucionalizada no setor, onde as propinas, o tráfico de influência e as maquinações parecem uma constante. Nesse ponto o livro se torna um libelo contra corruptos e corruptores, entrando em minúcias espantosas de quem viveu para contar. A Justiça e sua proclamada lentidão, as malandragens dos burocratas para obter vantagens e a venalidade de muitos não escapam ilesos. Sucedem-se quadros admiráveis de situações e personalidades que se cruzam e entrecruzam ao longo dos anos, não faltando os eternos e inúteis embates entre capitalistas e socialistas na defesa de suas convicções. E permeando tudo, a situação do país, desde a marcha pela Legalidade, liderada por Brizola, até o golpe e os pesados anos de chumbo. Um amor de maturidade, espécie de tábua de salvação, culmina em desastre. E o final é trágico mas, de certo modo, intuitivo. Para alguém com tais princípios de formação e tão a fundo marcado pela vida, quer me parecer que não haveria outra saída para continuar fiel a si mesmo.

Afinal, como expressavam as frases inscritas na capela do seminário e gravadas a ferro na memória do personagem: “Quem subirá ao monte do Senhor? Aquele que tiver as mãos inocentes e o coração limpo!” 

Escrito por Enéas Athanázio, 18/11/2019 às 11h56 | e.atha@terra.com.br

JAIR, O CRONISTA

Jair Francisco Hamms (1935/2012) foi, para mim, o mais inspirado e completo cronista catarinense. Publicou cinco coletâneas de crônicas antes estampadas na imprensa e que fizeram bastante sucesso, nos restritos limites em que trabalhos desse gênero conseguem fazer sucesso em nosso acanhado meio literário. “Estórias de gente e outras estórias” (1971), “O vendedor de maravilhas” (1973), “O detetive de Florianópolis” (1984), “A cabra azul” (1985) e “Samba no céu” (2002) foram os volumes por ele publicados, afora trabalhos de outros gêneros e participações em coletâneas. Numa leitura comparativa, acredito ainda hoje que o segundo livro alcançou o melhor nível e não foi superado pelos demais, embora estes também contenham textos da melhor qualidade literária.

Jair escrevia bem, em linguagem simples e direta, sempre precisa. Tinha um faro aguçado e estava atento aos fatos “cronicáveis” que aconteciam à sua volta, captando-os de maneira admirável. Conhecia como poucos a fala, as manhas e os truques dos ilhéus, retratando-os com autenticidade nas crônicas ambientadas em Florianópolis e que constituem a maioria. Não foi muito feliz na concepção do detetive particular que exercia suas atividades na Ilha porque, acredito, é pouco verossímil o exercício dessa profissão numa cidade com as características de nossa velha capital. Domingos Tertuliano Tive, mais conhecido como D. T. Tive, seria o único detetive particular de Santa Catarina e suas investigações estavam sempre repletas de surpresas.

As crônicas de Jair são permeadas de muito humor e algumas hilariantes.

Em “A cabra azul”, ele começa instigando a curiosidade do leitor com a figura bizarra, toda vestida de azul, que se apresentava no centro da cidade tangendo pela corda azul uma cabra também azul. O espanto que provoca atrai considerável número de curiosos, enquanto o homem de azul permanece impávido e misterioso, mesmo quando a imprensa procura desvendar o mistério. O desfecho é surpreendente e revela a criatividade popular.

Nesse mesmo livro o autor põe em ação personagens já conhecidos de crônicas anteriores e que compõem um mundinho que vem se constituindo no correr das narrativas. Ali aparecem a cidade de Lendária, alguns de seus moradores e visitantes. Padre Celestino, Tomé (que só acreditava vendo), Romildo (o primo complacente), a benzedeira Apolônia, o velho leiteiro Estácio, o Tavinho, dono da venda, o negro Porfírio e outros tantos que se cruzam e entrecruzam no correr dos dias.

Também surgem crônicas que formam séries. Assim. nada menos que meia dúzia tem como personagem central um certo Alexander Graham Bell Pereira, cuja ocupação principal consistia em dar trotes (telefônicos, para ser fiel ao nome) nos conhecidos. E nessa atividade revelava extraordinária imaginação, inventando as mais incríveis histórias, perturbando as pobres vítimas, salvo nos raros casos em que elas o identificavam. Padre Jesuíno, Antoninha Esperança e uma socialite foram algumas delas, mas registraram-se ainda os estranhos casos da cocoroca de cócoras, do zanfrosprócrava e da Rádio Família. Outra série acontece no céu e lá se reúnem, em torno de Pedro Álvares Cabral e Frei Henrique de Coimbra (o da primeira missa), numa rodinha brasileira, nada menos que Pixinguinha, Castro Alves, Tiradentes, Érico Veríssimo, Cecília Meireles, Orestes Barbosa, Jorge de Lima, Manuel Bandeira, Pedro Nava, Noel Rosa, Vinícius de Moraes e outros mais, bebendo vinho e proseando prosas bem típicas de brasileiros. Nem São Pedro escapa das troças e até Ele, o Maioral, a tudo assiste, tolerante e compreensivo. O catarinense Seixas Neto observa e ri, como era de seu feitio. É claro que tudo acaba em samba.

Mas há mais, muito mais. Surge o “artista” que se passa por rico, frequentador de lautos banquetes, mas que come escondido o sanduíche enrolado em papel pardo; o Erasmo que se exasperava com a mulher que posava de biquíni para o fotógrafo de uma revista masculina; o estranhíssimo colecionador de penicos e outras figuras não menos curiosas. É um mundo movimentado, divertido e imprevisível em que não falta imaginação para engendrar as mais estranhas situações.

Jair faleceu cedo, quando muito ainda poderia dar. Como diz o povo, viajou antes do combinado, mas deixou uma excelente herança. Suas crônicas são para ler, reler e não esquecer. 

Escrito por Enéas Athanázio, 11/11/2019 às 11h40 | e.atha@terra.com.br

A ANGÚSTIA DO POETA

É uma observação antiga a de que nós, latino-americanos, pouco nos conhecemos e temos as costas voltadas uns para os outros. Fenômeno semelhante ocorre na literatura. Excetuados os mais notórios, como Jorge Luis Borges, Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, Pablo Neruda e mais um punhado de escritores famosos, pouco conhecemos de outros autores e lemos suas obras. Por isso mesmo, foi uma agradável e aliciante surpresa a leitura de “O Caso Neruda”, de autoria do escritor chileno Roberto Ampuero, publicado pelo Benvirá (S. Paulo – 2011), que eu só conhecia de nome e de maneira muito vaga. Nascido em 1953, Ampuero é professor de redação e escrita criativa da Universidade de Iowa, tendo se radicado nos Estados Unidos, como exilado, para fugir das perseguições da ditadura de Augusto Pinochet. Segundo a crítica, é um dos mais festejados escritores das novas gerações chilenas e suas obras têm alcançado grande sucesso, embora raros sejam os comentários sobre elas na imprensa brasileira.


Pablo Neruda

O livro é um romance policial, embora fugindo um pouco do gênero porque tem muito de biográfico e um fundo histórico. Já doente, o poeta Pablo Neruda se convence de que o jovem Cayetano Brulé poderia se transformar num detetive e investigar para ele uma questão cuja resposta procurava e que muito o angustiava. Licenciado do cargo de embaixador do Chile na França, o poeta se encontrava em sua casa de Valparaíso, – La Sebastiana, - onde convence o rapaz a realizar a busca, sugerindo-lhe a leitura das obras de Georges Simenon para aprender a ser detetive. Embora surpreso, o detetive improvisado aceita a incumbência e se lança numa busca frenética, correndo sem cansaço para obter a resposta enquanto o poeta ainda vivia. No desenrolar do relato vai aparecendo muito da tumultuada vida do poeta, desde a juventude, enquanto o enredo tem como pano de fundo o Chile de Salvador Allende, pouco antes do golpe militar que já se anunciava no horizonte. Começa, então, a corrida contra o tempo e a distância.

A missão do improvisado investigador consistia em encontrar um médico de sobrenome Bracamante, envolvido em pesquisas sobre ervas curativas, cuja esposa, Beatriz, era a única pessoa no mundo que poderia responder à angustiante indagação do poeta doente. E assim, confiando em frágeis indícios, apalpando, ouvindo e procurando, Brulé sai em busca da misteriosa mulher que, por mal da sorte, estava sempre trocando de nome e de país. No apagado rastro dela vai a Cuba, ao México, à Alemanha Oriental e à Bolívia até que, mais adivinhando que descobrindo (tal como Maigret), acaba por localizá-la em Santiago e, por vias curvas, obtém dela a confissão tão procurada. Mas era tarde. Nesse meio tempo se havia desencadeado o processo golpista e Allende foi morto, o que contribuiu de forma decisiva para apressar o falecimento de Neruda, chocado com tudo que acontecia no país. O Autor relata, com base em fatos reais, o impressionante sepultamento do poeta, com a multidão desafiando os golpistas e gritando seu nome, mesmo cercada pelas tropas, como se o poeta pudesse levantar do caixão e colocar em risco o regime implantado. As peripécias vividas pelo detetive para tentar chegar até o poeta numa cidade policiada ao extremo e com os atos de violência se repetindo em toda parte são impressionantes. As casas do poeta, tanto em Valparaíso como em Santiago e na Isla Negra foram invadidas e rebuscadas, provocando grandes danos às suas célebres coleções.

Mas tudo passa, os anos correm. Embora sofrido, mais maduro e experiente, Cayetano Brulé se transforma em famoso investigador. Nunca esqueceu, porém, de que fora uma criação de Neruda, por ele inventado como seus poemas e personagens. Cultivou para sempre a memória do poeta, Nobel de Literatura, e protagonizou outros romances do Autor, sempre com grande sucesso de crítica e de público.

Escrito por Enéas Athanázio, 04/11/2019 às 11h01 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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O BARULHO DO TEIXEIRA

Advogado com longa militância no Rio de Janeiro e folclorista, Francisco de Vasconcellos é autor de uma obra ampla e variada que não cessa de crescer. Tem abordado os mais diversos temas da chamada cultura popular de vários pontos do país, sempre fundamentado nas melhores fontes e em pesquisas próprias. Em seu mais recente livro, - “Temas de Feira e de Cordel” (Arteg Impressões – Juiz de Fora – 2019), - focaliza três curiosos eventos da vida sertaneja e seus personagens, além de realizar interessante incursão no exame da poesia popular.

No primeiro deles analisa um episódio que ficou gravado na memória do povo e que aconteceu na remota Vila do Teixeira, povoado pobre e desconhecido do sertão da Paraíba. A mulher, a terra e a política, ressalta o autor, eram as causas de frequentes lutas de famílias que se tornavam inimigas. No caso em tela, tudo indica que a política colocou em posições opostas os Dantas, conhecidos como a Família Terrível, e os Nóbregas. A serviço dos primeiros estavam os Guabirabas, “mestres nas tocaias, nos insultos e nas insinuações malévolas. Sua crueldade não conhecia limites...” Delphino e Liberato, delegados em sucessão, teriam perseguido os Dantas, adversários políticos, tendo aquele se afastado do cargo para que assumisse o segundo.

Cirino Guabiraba, um dos irmãos facínoras, envia ao delegado Liberato um recado atrevido: estaria na feira da Vila e, de fato, lá compareceu quando ela estava no auge. Saindo um por um, para não despertar suspeitas, os homens do delegado prepararam uma tocaia num local por onde Cirino teria forçosamente que passar. E ali o mataram à traição, não lhe permitindo nem sequer confessar-se, enquanto o cavalo ensanguentado voltava para casa e dava o sinal de que o dono fora preso ou morto. A família se movimenta para o revide e tanto Liberato como Dekphino foram mortos, embora este, a rigor, não participasse dos acontecimentos. Seguiram-se outros desdobramentos e os episódios entraram na história como o Barulho do Teixeira.

Barulho do Teixeira atraiu a atenção dos cantadores de feiras e da literatura de cordel, tendo variadas versões. É tema de livros de Pedro Batista e de Gustavo Barroso, tendo ultrapassado as fronteiras nordestinas para ecoar no Rio de Janeiro, em Minas Gerais e no Espírito Santo. O cantador Hugolino Nunes da Costa seria o autor da primeira versão rimada e metrificada dos acontecimentos. Outros poetas populares também se dedicaram ao assunto.

Nesse período histórico o cangaço vicejava em todo o Nordeste. Apesar das volantes policiais que os perseguiam, os bandos de cangaceiros aterrorizavam as populações indefesas das pequenas cidades e vilas. O caso de Cirino caiu no gosto do povo, talvez pela valentia com que tentou reagir ou por ter morrido sem padre e confissão.

Com seu ensaio, Francisco de Vasconcellos reaviva um episódio dos mais conhecidos e cantados nas feiras populares.

Nos ensaios seguintes, o autor analisa a figura e a época do Valente Valério que, de bandido virou santo, e, a seguir, a de Inácio da Catingueira (1845/1879), herói cultural de seu povo, escravo, pobre e analfabeto que se tornou um dos maiores cantadores e poetas populares do sertão, falando pela gente miserável e conquistando os corações. Jamais foi esquecido. O ensaio de Vasconcellos é merecida homenagem

Para fechar seu belo livro, o autor tece eruditas considerações sobre a hipérbole na poesia popular.

Escrito por Enéas Athanázio, 09/12/2019 às 12h35 | e.atha@terra.com.br

JORGE AMADO EM CORPO INTEIRO

Jorge Amado foi dos poucos brasileiros que viveu na plenitude a vida do escritor. Foi profissional das letras e delas tirou o sustento. Nunca quis escrever memórias ou autobiografia. Em sua obra, o livro que mais se aproxima do gênero é “Navegação de Cabotagem”, repertório de recordações de pessoas, lugares e fatos, embora sem a ordem e o método costumeiros. Relatou muito de sua vida em entrevistas mas isso nunca foi organizado e publicado em conjunto. É curioso notar que só teve um biógrafo em vida, Miécio Tati, mas parece que o livro não mereceu boa aceitação e foi pouco comentado.

Agora, porém, surge uma biografia para valer, compensando a ausência de outras. Trata-se de “Jorge Amado – Uma biografia”, de autoria de Josélia Aguiar (Todavia Editora – S. Paulo – 2018 – 635 págs.). Baiana de Salvador, radicada em São Paulo, a autora é jornalista e historiadora. Foi correspondente da “Folha de S. Paulo” em Londres, editora da revista “Entrelinhas” e curadora da Feira Literária Internacional de Paraty (FLIP). Dedicou nada menos que sete anos à confecção desta obra.

A narrativa tem início nos dias do menino grapiúna correndo solto no meio cacaueiro da Bahia, convivendo com as pessoas e absorvendo a cultura local. Depois, os duros tempos do internato, de onde foge e vai se abrigar na casa do avô, fazendo longa caminhada a pé e sozinho. Acontece a primeira paixão, ardente e arrebatada, mas que acaba em nada. A mudança para o Rio de Janeiro para estudar Direito, entregando-se a intensa militância literária, escrevendo para os jornais, e exercendo grande atividade política. Nesse período faz amplo relacionamento com numerosas pessoas com as quais se cruzará em muitas outras oportunidades.

Com o lançamento do primeiro romance, “País de Carnaval”, tem início a carreira literária. Embora o autor fosse muito jovem e com pouca experiência, o livro desperta a atenção da crítica e agrada aos leitores. A partir daí, não cessa de escrever e publicar. Com o passar dos anos sua obra vai se aprimorando, é muito lida e ele se transforma no escritor mais célebre do país. Viaja muito, conquista prêmios e distinções, seus livros são traduzidos para 49 idiomas. É dos raros brasileiros que enriquece com a literatura.

A militância política não cessa e as perseguições acontecem em vários períodos de nossa confusa vida institucional. Eleito Deputado Federal por São Paulo, tem o mandato cassado em 1948 por decisão da Justiça Eleitoral, em pleno regime democrático e na vigência da Constituição de 1946. Têm início os diversos exílios a que é forçado. Esconde-se em Estância, no interior de Sergipe, onde fica em paz e muito escreve. Mais tarde iria para a Argentina, o Uruguai e Paris, sendo expulso da França por pressão do governo brasileiro, e para Dobris, na antiga Tchecoslováquia. Lá, ele e a esposa Zélia vivem por longo tempo e nasce a filha Paloma. Regressando ao país, vai se afastando da militância política, ingressa na Academia Brasileira de Letras e se muda para Salvador, passando a viver na célebre Casa do Rio Vermelho, à rua Alagoinhas 33. Conhecido em todo o mundo, vive cercado pelos amigos, seus romances são adaptados para o cinema, o teatro e a televisão, e continua viajando. Como diz a biógrafa é ali, na Bahia, que se dá o outono do patriarca.

O pensamento do escritor e suas variações no correr do tempo sobre temas cruciais é abordado pela autora com clareza e segurança, sempre com base em sólidas fontes. Jorge Amado jamais abdicou de suas convicções políticas e formou sempre com as correntes progressistas.

Assim foi, em largas pinceladas, a rica existência de Jorge Amado. A autora esmiúça todas as fases da vida do escritor com impressionante quantidade de detalhes e informações. Para isso se valeu de imensa bibliografia, consultando livros, revistas e jornais velhos, arquivos e documentos, sem falar nas incontáveis entrevistas que realizou e nas constantes releituras da obra do próprio biografado. Rico álbum de fotografias enriquece ainda mais a obra.

Os admiradores do escritor baiano podem ter agora um retrato em corpo inteiro de Jorge Amado e a resposta para todas suas indagações.

Escrito por Enéas Athanázio, 02/12/2019 às 10h11 | e.atha@terra.com.br

A HISTÓRIA DA ESCRITA

Adovaldo Fernandes Sampaio é um dos maiores linguistas do país. Tem produzido obras fundamentais sobre os temas de sua especialidade e que são autênticos marcos no campo da linguística. Cabe mencionar, dentre elas, “Línguas e dialetos românicos e germânicos”, livro enciclopédico, revelador de impressionante erudição, e que comentei nesta coluna (Editora Kelps – Goiânia – 2010). No ano anterior, pela Ateliê Editorial (S. Paulo), havia publicado “Letras e memória – Uma breve história da escrita”, livro que encanta pela beleza e fascina pelo conteúdo. Em tamanho grande e fartamente ilustrado, é o resultado de anos de pesquisas, trabalho e dedicação de quem não se contenta com o comum, o ordinário, o convencional.

Não satisfeito com as fontes disponíveis, o ensaísta estendeu uma rede de contatos com entidades e especialistas de diferentes áreas do conhecimento em todo o mundo. Com paciência e organização, fez contatos que lhe trouxeram informações valiosas que enriqueceram seu trabalho e lhe deram ainda maior base científica. Consultando a relação desses contatos surgem pessoas e instituições da Mauritânia, Croácia, Rússia, Cazaquistão, Alemanha, França, Inglaterra, Índia, Etiópia, Austrália, Geórgia, Turquia e muitas outras, obtendo de cada uma informações, documentos, fotografias e reproduções que lhe forneceram material para enriquecer seu notável ensaio. O resultado foi um livro que considero único.

Mas na busca da história da escrita, objeto maior do livro, o autor afundou no passado da humanidade na caça dos mais rudimentares resquícios da escrita até seu pleno desenvolvimento através de longo e tortuoso avanço. Começa informando que o orgulhoso homo sapiens passou nada menos que 150.000 anos em estado de selvageria e de barbárie. Não tinha a menor ideia do que fosse escrever; era ágrafo. Entre 45.000 e 35.000 anos, movido pela necessidade de comunicação, começou a gravar em paredões sinais e figuras que podem ser considerados os embriões da escrita. Esse costume evoluiu no correr dos tempos e surge na Mesopotâmia a escrita cuneiforme e, mais tarde, no Egito, aparecem os hieróglifos gravados em papiros. São invenções revolucionárias, permitindo o aparecimento da literatura sobre variados assuntos e a formação de bibliotecas. Os fenícios contribuem com seu alfabeto e de avanço em avanço o homem chega ao alfabeto latino que muito tem servido às línguas que o utilizam. A criatividade sem limites conduz por caminhos jamais imaginados até a escrita real e a virtual. Línguas surgem e prosperam; outras morrem ou são abandonadas. E assim, no mundo de hoje, a escrita está em toda parte e as sociedades se organizam em torno dela.

Na sequência, o livro exibe incontáveis reproduções de todos os tipos de escrita e de línguas. É espantosa a quantidade e a variedade desses elementos obtidos pelo autor, permitindo ao leitor fazer ideia segura do que está lendo. Surgem figuras rupestres, caracteres cuneiformes, escrita chinesa, etrusca, hieróglifos e outras. A seguir o livro se estende por diferentes línguas e diferentes escritas. O alfabeto grego, hebraico, árabe, copta, aramaico, samaritano, híndi, cingalês, armênio, persa, gaélico e uma infinidade de outros. Aborda a escrita gótica, o alfabeto cirílico, a escrita quíchua, o alfabeto quadrado, escritas mongol, iídiche, malaio, abcázio e incontáveis outras línguas e escritas, antigas e modernas, faladas por muitos ou por poucos, vivas e mortas, deixando herdeiras ou não. Também há lugar para a língua de sinais, o alfabeto braile, o código Morse, o semáforo, a escrita matemática, a escrita musical, a escrita pictográfica, línguas e escritas imaginárias, escritas universais, escrita hip-hop (grafite e pichação) e até a escrita epidérmica (tatuagem). O Latim, de onde veio nosso musical português, merece tratamento especial.

Tudo isso ilustrado à farta, com clareza e boa definição, num trabalho gráfico da melhor categoria, formando um conjunto impressionante. Acentuo a imensa tarefa que o autor se impôs, manuseando por longo tempo uma enormidade de línguas e dialetos, milhões de palavras, símbolos e desenhos, escritas estranhíssimas, algumas grafadas da direita para a esquerda e caracteres indecifráveis. Trabalho sem similar.

Registro, por fim, a bibliografia de que se valeu o autor. É espantosa pela quantidade, toda estrangeira e da melhor qualidade.

Dizer que o Prof. Adovaldo merece parabéns é muito pouco. Ele merece a consagração.

Escrito por Enéas Athanázio, 25/11/2019 às 10h52 | e.atha@terra.com.br

O ROMANCE DE UMA VIDA

Ao publicar minhas reminiscências do internato, no livro “Vida Confinada”, lançado em 1997, classifiquei-o como autoficção. Eu me rendia à posição mais recente da crítica européia, fundada em princípios psicanalíticos, de que memórias exatamente fiéis aos fatos não existem e que a cada vez que nos lembramos de algum episódio ele volta acrescido de novos ingredientes imaginários ou, ao contrário, despido de alguns detalhes. Eu andava lendo na época alguns escritos da psiquiatra e escritora Betty Milan, que vinha divulgando entre nós esses conceitos inovadores. Alguns resenhistas estranharam um pouco o novo gênero, mas parece que ele não encontrou maior aceitação e permaneceu pouco usado. Como leitor inveterado de autobiografias e memórias, não me lembro de ter encontrado outro livro com tal classificação.

Mas eis que agora me vem às mãos o romance autobiográfico “Innocens Manibus”, de autoria de Vasco de Sant’Anna, publicado no Rio Grande do Sul (2012), e que acabo de ler. Para surpresa minha, ele é classificado como autoficção, vale dizer, é um livro de memórias. É muito mais abrangente que o meu, uma vez que procura reconstituir de forma romanceada toda a existência do personagem central, alter-ego do autor-narrador, desde os bancos escolares até os dias atuais. E nesse particular ele revela o fôlego do romancista, estendendo-se por 330 páginas repletas dos mais variados acontecimentos, sempre contextualizados com a história regional e do país. É um vasto painel que exibe um homem vivido e que, como ministrava Gilberto Amado, nunca foi um distraído mas soube prestar atenção à vida.

As recordações mais antigas remontam aos tempos do seminário. Esses anos de vida reclusa têm a característica de se incrustar para sempre na memória, talvez porque naquela idade ela funciona como disco virgem e retém tudo de maneira indelével. Nessa fase se entremeiam as lembranças da terra natal, típica cidade gaúcha da fronteira com todos seus tiques e cacoetes. É ali que explode como bomba em família a sua revelada intenção de virar padre. Para os machões do clã, aquilo soava como o maior dos despautérios. Onde já se viu semelhante coisa? As reações de Tio Henrique, em particular, são antológicas, e as soluções que indica para debelar a “vexata quaestio” são extraordinárias. E quando é advertido pela mãe do rapaz de que irá para o inferno, ele retruca: “Mas é isso mesmo que eu quero, festa e mulherada. O céu deve ser muito chato, só santos, anjos e beatas!” (p. 25). O dia-a-dia no seminário, com os pequeninos acontecimentos da rotina ganhando relevância aos olhos da garotada reclusa e submetida a rígida disciplina. Surgem os dramas, as comédias, os atos de grandeza e de mesquinharia, como as delações, e tudo mais que é próprio de uma vida vigiada. Mas o tempo implacável se escoa e um dia o rapaz deixa o seminário para ingressar em outras fases da vida. As páginas sobre esse período são intensas e absorventes, talvez o ponto alto do livro.

Marcha da Liberdade (foto Reprodução/Arquivo)

Segue-se o período universitário na busca da profissão. Forma-se em engenharia e se especializa na construção de rodovias. Depois de um casamento algo arranjado, inicia a lenta e dura luta pela afirmação profissional. A ascensão é difícil, enfrentando as disputas e, mais que isso, a corrupção institucionalizada no setor, onde as propinas, o tráfico de influência e as maquinações parecem uma constante. Nesse ponto o livro se torna um libelo contra corruptos e corruptores, entrando em minúcias espantosas de quem viveu para contar. A Justiça e sua proclamada lentidão, as malandragens dos burocratas para obter vantagens e a venalidade de muitos não escapam ilesos. Sucedem-se quadros admiráveis de situações e personalidades que se cruzam e entrecruzam ao longo dos anos, não faltando os eternos e inúteis embates entre capitalistas e socialistas na defesa de suas convicções. E permeando tudo, a situação do país, desde a marcha pela Legalidade, liderada por Brizola, até o golpe e os pesados anos de chumbo. Um amor de maturidade, espécie de tábua de salvação, culmina em desastre. E o final é trágico mas, de certo modo, intuitivo. Para alguém com tais princípios de formação e tão a fundo marcado pela vida, quer me parecer que não haveria outra saída para continuar fiel a si mesmo.

Afinal, como expressavam as frases inscritas na capela do seminário e gravadas a ferro na memória do personagem: “Quem subirá ao monte do Senhor? Aquele que tiver as mãos inocentes e o coração limpo!” 

Escrito por Enéas Athanázio, 18/11/2019 às 11h56 | e.atha@terra.com.br

JAIR, O CRONISTA

Jair Francisco Hamms (1935/2012) foi, para mim, o mais inspirado e completo cronista catarinense. Publicou cinco coletâneas de crônicas antes estampadas na imprensa e que fizeram bastante sucesso, nos restritos limites em que trabalhos desse gênero conseguem fazer sucesso em nosso acanhado meio literário. “Estórias de gente e outras estórias” (1971), “O vendedor de maravilhas” (1973), “O detetive de Florianópolis” (1984), “A cabra azul” (1985) e “Samba no céu” (2002) foram os volumes por ele publicados, afora trabalhos de outros gêneros e participações em coletâneas. Numa leitura comparativa, acredito ainda hoje que o segundo livro alcançou o melhor nível e não foi superado pelos demais, embora estes também contenham textos da melhor qualidade literária.

Jair escrevia bem, em linguagem simples e direta, sempre precisa. Tinha um faro aguçado e estava atento aos fatos “cronicáveis” que aconteciam à sua volta, captando-os de maneira admirável. Conhecia como poucos a fala, as manhas e os truques dos ilhéus, retratando-os com autenticidade nas crônicas ambientadas em Florianópolis e que constituem a maioria. Não foi muito feliz na concepção do detetive particular que exercia suas atividades na Ilha porque, acredito, é pouco verossímil o exercício dessa profissão numa cidade com as características de nossa velha capital. Domingos Tertuliano Tive, mais conhecido como D. T. Tive, seria o único detetive particular de Santa Catarina e suas investigações estavam sempre repletas de surpresas.

As crônicas de Jair são permeadas de muito humor e algumas hilariantes.

Em “A cabra azul”, ele começa instigando a curiosidade do leitor com a figura bizarra, toda vestida de azul, que se apresentava no centro da cidade tangendo pela corda azul uma cabra também azul. O espanto que provoca atrai considerável número de curiosos, enquanto o homem de azul permanece impávido e misterioso, mesmo quando a imprensa procura desvendar o mistério. O desfecho é surpreendente e revela a criatividade popular.

Nesse mesmo livro o autor põe em ação personagens já conhecidos de crônicas anteriores e que compõem um mundinho que vem se constituindo no correr das narrativas. Ali aparecem a cidade de Lendária, alguns de seus moradores e visitantes. Padre Celestino, Tomé (que só acreditava vendo), Romildo (o primo complacente), a benzedeira Apolônia, o velho leiteiro Estácio, o Tavinho, dono da venda, o negro Porfírio e outros tantos que se cruzam e entrecruzam no correr dos dias.

Também surgem crônicas que formam séries. Assim. nada menos que meia dúzia tem como personagem central um certo Alexander Graham Bell Pereira, cuja ocupação principal consistia em dar trotes (telefônicos, para ser fiel ao nome) nos conhecidos. E nessa atividade revelava extraordinária imaginação, inventando as mais incríveis histórias, perturbando as pobres vítimas, salvo nos raros casos em que elas o identificavam. Padre Jesuíno, Antoninha Esperança e uma socialite foram algumas delas, mas registraram-se ainda os estranhos casos da cocoroca de cócoras, do zanfrosprócrava e da Rádio Família. Outra série acontece no céu e lá se reúnem, em torno de Pedro Álvares Cabral e Frei Henrique de Coimbra (o da primeira missa), numa rodinha brasileira, nada menos que Pixinguinha, Castro Alves, Tiradentes, Érico Veríssimo, Cecília Meireles, Orestes Barbosa, Jorge de Lima, Manuel Bandeira, Pedro Nava, Noel Rosa, Vinícius de Moraes e outros mais, bebendo vinho e proseando prosas bem típicas de brasileiros. Nem São Pedro escapa das troças e até Ele, o Maioral, a tudo assiste, tolerante e compreensivo. O catarinense Seixas Neto observa e ri, como era de seu feitio. É claro que tudo acaba em samba.

Mas há mais, muito mais. Surge o “artista” que se passa por rico, frequentador de lautos banquetes, mas que come escondido o sanduíche enrolado em papel pardo; o Erasmo que se exasperava com a mulher que posava de biquíni para o fotógrafo de uma revista masculina; o estranhíssimo colecionador de penicos e outras figuras não menos curiosas. É um mundo movimentado, divertido e imprevisível em que não falta imaginação para engendrar as mais estranhas situações.

Jair faleceu cedo, quando muito ainda poderia dar. Como diz o povo, viajou antes do combinado, mas deixou uma excelente herança. Suas crônicas são para ler, reler e não esquecer. 

Escrito por Enéas Athanázio, 11/11/2019 às 11h40 | e.atha@terra.com.br

A ANGÚSTIA DO POETA

É uma observação antiga a de que nós, latino-americanos, pouco nos conhecemos e temos as costas voltadas uns para os outros. Fenômeno semelhante ocorre na literatura. Excetuados os mais notórios, como Jorge Luis Borges, Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, Pablo Neruda e mais um punhado de escritores famosos, pouco conhecemos de outros autores e lemos suas obras. Por isso mesmo, foi uma agradável e aliciante surpresa a leitura de “O Caso Neruda”, de autoria do escritor chileno Roberto Ampuero, publicado pelo Benvirá (S. Paulo – 2011), que eu só conhecia de nome e de maneira muito vaga. Nascido em 1953, Ampuero é professor de redação e escrita criativa da Universidade de Iowa, tendo se radicado nos Estados Unidos, como exilado, para fugir das perseguições da ditadura de Augusto Pinochet. Segundo a crítica, é um dos mais festejados escritores das novas gerações chilenas e suas obras têm alcançado grande sucesso, embora raros sejam os comentários sobre elas na imprensa brasileira.


Pablo Neruda

O livro é um romance policial, embora fugindo um pouco do gênero porque tem muito de biográfico e um fundo histórico. Já doente, o poeta Pablo Neruda se convence de que o jovem Cayetano Brulé poderia se transformar num detetive e investigar para ele uma questão cuja resposta procurava e que muito o angustiava. Licenciado do cargo de embaixador do Chile na França, o poeta se encontrava em sua casa de Valparaíso, – La Sebastiana, - onde convence o rapaz a realizar a busca, sugerindo-lhe a leitura das obras de Georges Simenon para aprender a ser detetive. Embora surpreso, o detetive improvisado aceita a incumbência e se lança numa busca frenética, correndo sem cansaço para obter a resposta enquanto o poeta ainda vivia. No desenrolar do relato vai aparecendo muito da tumultuada vida do poeta, desde a juventude, enquanto o enredo tem como pano de fundo o Chile de Salvador Allende, pouco antes do golpe militar que já se anunciava no horizonte. Começa, então, a corrida contra o tempo e a distância.

A missão do improvisado investigador consistia em encontrar um médico de sobrenome Bracamante, envolvido em pesquisas sobre ervas curativas, cuja esposa, Beatriz, era a única pessoa no mundo que poderia responder à angustiante indagação do poeta doente. E assim, confiando em frágeis indícios, apalpando, ouvindo e procurando, Brulé sai em busca da misteriosa mulher que, por mal da sorte, estava sempre trocando de nome e de país. No apagado rastro dela vai a Cuba, ao México, à Alemanha Oriental e à Bolívia até que, mais adivinhando que descobrindo (tal como Maigret), acaba por localizá-la em Santiago e, por vias curvas, obtém dela a confissão tão procurada. Mas era tarde. Nesse meio tempo se havia desencadeado o processo golpista e Allende foi morto, o que contribuiu de forma decisiva para apressar o falecimento de Neruda, chocado com tudo que acontecia no país. O Autor relata, com base em fatos reais, o impressionante sepultamento do poeta, com a multidão desafiando os golpistas e gritando seu nome, mesmo cercada pelas tropas, como se o poeta pudesse levantar do caixão e colocar em risco o regime implantado. As peripécias vividas pelo detetive para tentar chegar até o poeta numa cidade policiada ao extremo e com os atos de violência se repetindo em toda parte são impressionantes. As casas do poeta, tanto em Valparaíso como em Santiago e na Isla Negra foram invadidas e rebuscadas, provocando grandes danos às suas célebres coleções.

Mas tudo passa, os anos correm. Embora sofrido, mais maduro e experiente, Cayetano Brulé se transforma em famoso investigador. Nunca esqueceu, porém, de que fora uma criação de Neruda, por ele inventado como seus poemas e personagens. Cultivou para sempre a memória do poeta, Nobel de Literatura, e protagonizou outros romances do Autor, sempre com grande sucesso de crítica e de público.

Escrito por Enéas Athanázio, 04/11/2019 às 11h01 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.