Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

A NOVELA DO JÚRI

Eduardo Sens acaba de lançar um livro primoroso. Refiro-me a “De quando éramos iguais” (Editora Penalux – S. Paulo – 2019), que o autor rotula de romance mas eu prefiro qualificar como novela, naquele sentido de obra síntese sobre determinado tema. É um texto como não recordo de ter visto nada semelhante, retratando um julgamento pelo Tribunal do Júri através dos olhos do promotor encarregado da acusação. Literatura a respeito desses julgamentos é o que não falta, mas aqui é o próprio representante da sociedade olhando de dentro para fora e analisando tudo que acontece. O inesperado reconhecimento do réu cria um tal ambiente de tensão que vai envolver o leitor de forma inquietante até o final.

O autor escreve com desenvoltura e tem uma linguagem rica de observações, sugestões e ideias, desenvolvendo com freqüência formulações filosóficas que casam com perfeição com o momento. Ao reconhecer o réu, depois de tantos anos, o promotor se vê diante do próprio passado e os acontecimentos daquele tempo distante voltam à memória com intensidade. Os tempos de infância desfilam pela cabeça num memorialismo minucioso e sofrido que o acompanha durante todo o desenrolar do processo, ato por ato, até a inesperada conclusão. Até mesmo um acontecimento doloroso em que se envolveu no colégio e que julgava esquecido volta com toda força. E o promotor vive um drama indescritível. Por um lado o dever funcional de acusar; pelo outro, o desejo de perdoar o amigo de infância. Para completar, a dúvida sobre a culpa do réu parece se infiltrar no seu coração. Esgotado, ele mal pode acreditar que o julgamento terminou.

Promotor experiente, atuando há dezessete anos no Tribunal do Júri e com mais de uma centena de julgamentos em sua carreia, o personagem fica chocado ao ver na sua frente, no banco dos réus, ninguém menos que o Tainho. Menino pobre, morador de uma favela vizinha à sua morada, ele pertencia ao mesmo grupo de crianças que por ali brincavam sem que houvesse diferença entre elas porque se sentiam iguais. E um caso que deveria ser apenas mais um dentre tantos, de repente se transforma em pesadelo.

Procurando se controlar e manter a frieza necessária, ele vai vencendo as etapas do julgamento. A oitiva das testemunhas, o interrogatório do réu, a leitura das peças processuais, a fala do defensor e, por fim, a angustiante votação dos quesitos na sala secreta, tudo desfila diante do leitor de forma lenta e exasperante. Surgem observações as mais curiosas, dignas dos mais experimentados e assíduos profissionais do Júri. Mesmo vivendo um drama íntimo, observa tudo que acontece: as palavras da defesa, a postura dos jurados, as reações da platéia, o comportamento do réu. Traça um retrato tão perfeito que a gente vê o Tribunal em funcionamento.

Não temo em dizer que se trata de um livro pioneiro pela forma com que o tema é abordado e ficará como algo inovador. Agradará, sem dúvida, a quantos se entregarem à sua leitura e sentirem o impacto da experiência vivida pelo promotor de Santa Bárbara. Eduardo Sens merece as melhores felicitações.

Os integrantes do Ministério Público têm contribuído de forma positiva com a boa literatura catarinense: Artêmio Zanon, Villa Real, Eduardo Sens. Que venham outros! 

Escrito por Enéas Athanázio, 13/08/2019 às 15h39 | e.atha@terra.com.br

JOSÉ ATHANÁZIO, MEU PAI

 Para quem tanto tem escrito sobre estranhos, quero crer que não incidirei em pecado relembrando meu próprio pai, essa figura singular, que viveu tão pouco, e, no entanto, ainda permanece na memória de sua gente mesmo depois de tantos anos após sua morte.

José Fontes Athanázio nasceu na então Villa de São João Baptista dos Campos Novos a 7 de junho de 1900. Era filho do casal Francisco Athanázio e Bernardina Fontes Athanázio.
“Seu” Chico, libanês nascido em Beirute e de presumível ascendência grega (como ele próprio costumava afirmar), era o único “turco” da cidade, coisa rara nos Campos Gerais daqueles tempos. Mais tarde chegaria Mustafá Assad. Segundo minha mãe, em cuja residência Francisco Athanázio viveu após o falecimento da esposa e do filho, ele era loiro e de olhos azuis, nascido em 1860, e chegou ao Brasil em 1877, portanto com apenas 17 anos de idade. Residiu em Lages e Curitibanos, fixando-se depois em Campos Novos, onde casou, em 1898.
Comerciante, naturalmente, “Seu” Chico era de poucas letras, engrolando mal o português, mas ninguém o enganava nas contas. Aficionado do bilhar, parece que não se dava bem com tacos e bolas, pois era freqüente e jovial perdedor de latas de conserva e garrafas de bebida.
Sua loja ficava defronte à atual igreja matriz, do outro lado do pasto freqüentado por vacas de leite e velhos matungos de carroça, hoje a Praça Lauro Müller, onde surgiria, mais tarde, o mais famoso jardim público da região, com seus curiosos caramanchões e cercas vivas. O casarão de madeira abria portas e janelas para a rua larga e ali o comerciante vivia, alegre e feliz, proseando com os amigos mais chegados e correndo o metro para o corte dos tecidos. Faleceu em Joaçaba, aos oitenta anos, em 1940.
José era o filho mais velho, seguindo-se as irmãs Maria (Marica), hoje falecida, e que foi casada com João Rupp (o tio), e Anita, esposa do Prof. Sálvio Guilhon Gonzaga, ambos falecidos. Era claro, tinha abundantes cabelos louros e olhos muito azuis, tão azuis que pareciam aguados – no dizer de um amigo. O casal Athanázio perdeu um filho, ainda menino, em horrível acidente.
Alfabetizado em casa, como em geral as crianças de seu tempo, aos oito anos foi levado para o internato, na cidade de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. A viagem era longa e penosa, feita em lombo de burro, com o enxoval em cargueiros, “sesteando” e dormindo no caminho. Durava vários dias e, para maior segurança, formavam-se autênticas caravanas de estudantes, pais e peões, armando barracas para os pernoites em pleno campo. Só retornava para casa nas “férias grandes” e assim foi por longos oito anos. Para ele e os colegas as viagens se transformavam em aventuras inesquecíveis, cujos acontecimentos relatava com saudade.
Estudou mais tarde, por algum tempo, no Colégio Catarinense, em Florianópolis. Relatou-me um de seus contemporâneos dessa fase, muitos anos mais tarde, que ambos retornavam das aulas caminhando pelas areias da praia, com as calças arregaçadas e os sapatos nas mãos.
Vai bem nos estudos e isso enche o coração de “Seu” Chico; o imigrante antevê no filho o futuro doutor na pátria que escolheu e logo na primeira geração.
Em 1916, cheio de planos e sonhos, o jovem camponovense está em Porto Alegre para os “preparatórios.” Os livros de sua biblioteca, parte da qual carrego comigo até hoje, adquiridos nessa época, revelam que muito lia e lia bem. Num deles, em letra miúda e juvenil, está o lema de Cervantes: “Quem lê muito e anda muito, sabe muito e conhece muito.”
No ano de 1917, com dezessete anos, está matriculado na Faculdade de Medicina do Rio Grande do Sul. Nela faz os três primeiros anos do Curso Médico, para transferir-se então para a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. A antiga capital exercia intensa atração como o maior centro cultural, científico e político do país. Faz um curso caprichado, com excelentes notas, convivendo com professores, médicos e intelectuais. Forma-se em 1922, ano do centenário da independência, e a imprensa deu grande destaque à solenidade, à qual compareceu inclusive o Presidente da República.
Mas o camponovense é arrojado, sonha alto. Decide doutorar-se e defender tese, ainda que não visasse o magistério. Permanecendo na “terrinha” por um ano, “não levanta os olhos dos livros.”
Em 12 de novembro de 1923, depois de muito estudo e pesquisa, apresenta à consideração da Faculdade a tese “O cloreto de cálcio em terapêutica.” Submetida ao visto do secretário, Dr. Brito Silva, o moço de Campos Novos, no verdor de seus vinte e três anos, vai defendê-la a 6 de dezembro do mesmo ano.
A Banca Examinadora é das mais exigentes e rigorosas, nela formando algumas figuras de projeção nacional, médicos, cientistas e mestres de renome. É composta pelos Professores Ozório de Almeida, Pedro Pinto, Agenor Porto, Miguel Couto e Aloysio de Castro, Diretor da Faculdade, estes dois últimos até hoje reverenciados como grandes expoentes. Segundo depoimento do Prof. Newton Freire-Maia ao autor, Ozório de Almeida era a maior expressão científica dentre todos (1). Mas José Athanázio vê o seu trabalho aprovado com distinção e louvor. Submeti essa tese a diversos médicos amigos, entre eles o saudoso Prof. Alvir Riesemberg, tendo eles afirmado a indiscutível originalidade do tema escolhido e das suas conclusões para a época em que foi elaborada  (2).
1924 marca o início de suas atividades profissionais na terra natal. O chamado de seu chão faz com que volte à Villa para a convivência com os pais, as irmãs, os amigos. A antiga capital da República, no entanto, ficou gravada na sua lembrança, amando-a tanto que, pouco antes de falecer, aprestava-se para o retorno definitivo. Residiu na Gávea à época dos estudos e isso o levaria a reproduzir em Campos Novos, no topo da coxilha mais elevada, uma das casas de pedra existentes naquele bairro carioca. As paredes, constituídas de blocos retangulares de pedra-ferro, tinham cerca de oitenta centímetros de espessura. Defronte, fazendo vista para a cidade, o varandão corria toda sua extensão.
Nessa casa, ainda hoje existente, ele clinicou até o fim da vida e nela nasceu a Fundação Hospitalar Dr. José Athanázio dos dias atuais. Parte dos móveis do primeiro consultório foram feitos por ele, em madeira-de-lei, com a ajuda do inseparável amigo e vizinho Juventino Lemos. Tanto as poltronas, conhecidas como cadeiras de bispo, como a escrivaninha, andaram comigo por ceca e meca e ainda se encontram, intactas, em meu escritório.
Desde logo se revelou um profissional competente e dedicado. Era daqueles que passavam a noite à cabeceira do doente, só arredando pé após o seu restabelecimento. Não foram poucas as pessoas que ainda conheci e que confessaram lhe dever a cura. Viajando a cavalo e, mais tarde, num Ford, percorreu os caminhos e carreiros dos campos para atender a chamados distantes. Sua fama, em pouco, se firmou na região, tanto que mesmo após tantas décadas sua memória é venerada. Diziam mesmo os mais antigos que sua alma prosseguia fazendo curas, tantas as promessas atendidas.
De pouco falar era, no entanto, espirituoso, desses que em duas palavras definem uma situação. Conta-se que foi visitado por um cliente, caboclo de enormes cabelos, barbas e bigodes.
- Para que tanto pelo, “Seu” João? – inquiriu.
- É luto, sentimento pela morte da mulher – explicou o homem.
- É, - concluiu o médico, - esse é um verdadeiro sentimento cabeludo!
Uma noite, - relatou um conhecido, - foi chamado a atender o ferido de tiroteio num baile do interior. Para lá se dirigiu, guiando o “Fordeco”, levando em sua companhia o meu informante, ainda estudante.
A vítima gemia numa “tarimba”, um projétil encravado nas costas. Verificou logo que se tratava de ferimento superficial: a bala transfixara outra pessoa, chegando sem força, e ficou presa apenas na pele. Numa manobra rápida, o médico a retirou, exibindo-a ao ferido, e ele, feliz da vida, parou os gemidos e se pôs a agradecer.
- Não agradeça – resolveu o médico brincar, ainda que com a fisionomia séria. – A bala passou pelo corpo do H. P. antes de atingir você. . .
O homem, no começo, não entendeu; depois, aos poucos, esbugalhou os olhos e caiu no desespero. É que o H. P. tinha fama de ser morfético.
Ouvi certa vez que ele teria extraído o coração de um suicida para estudos e dissecação. Por mais que investigasse, não encontrei qualquer indício de veracidade, de maneira que o incluo no rol dos numerosos “causos” em que é pródigo o povo. Meu pai só fazia pequenas cirurgias, uma vez que não havia hospital, instalações e pessoal habilitado para a realização de cirurgias maiores, de forma continuada. Minha mãe recorda a angústia que o acometia quando nada podia fazer, exceto encaminhar o doente para fora, sem saber se chegaria com vida.
Desprendido dos bens materiais, José Athanázio não se preocupava com dinheiro, roupas, vida social. Vestia-se com displicência, os sapatos sempre sem cordões. Fumava “Jockey Club”, cigarro da época, mas jogava-o antes de consumida a metade, para acender outro em seguida. Gostava de lidar no imenso pomar dos fundos da casa, fabricar móveis e andar a pé pelas redondezas da cidadezinha, acompanhado de seu cão São Bernardo, de nome Fumanchu. Durante anos manteve na cocheira o cavalo Tufão, um tordilho negro em que costumava visitar clientes e amigos. Foi também exímio nadador.
Irritava-se com os colegas mais novos, que viviam à caça do dinheiro, e por muitas vezes manifestou sua preocupação com a incipiente comercialização da medicina de seus dias. Não desejava que o filho fosse médico.
Herdou algumas terras, hoje situadas no município de Erval Velho. Relatam os seus amigos que ele gostava de subir ao alto de uma elevação e de lá apreciar a massa dos pinheiros verdes, de copadas farfalhantes. Pinheiro, naqueles tempos, nada valia. Havia até fazendeiros que os derrubavam para que suas grimpas espinhentas não “sujassem” os campos.
- Essa árvore – previa ele – valerá fortunas. Em vinte anos, quem tiver pinheiros estará muito rico.
Os caboclos, ao seu redor, sorriam por dentro e “maginavam” que aquilo era mesmo coisa de doutor de cidade grande.
José Athanázio já era um solteirão. Estava com trinta e dois anos quando resolveu casar. A sua decisão causou espanto entre os amigos, mas a escolhida foi Irma Vieira, filha dos fazendeiros Policarpo Alves Vieira e Olívia Alves Vieira, ele nascido em Curitibanos, ela nos campos de Vacaria. “Seu” Lica era o proprietário da Fazenda do Fundo Grande, onde residia. Numa antiga caderneta de capa preta, minha mãe escreveu em letras caprichadas: “Dia 8 de março de 1932. Fiquei noiva, sendo pedida na Fazenda.” Imagino o velho “Fordeco”, roncando e pulando pelos fundos trilhos campeiros, conduzindo o Dr. Athanázio para o pedido de casamento. Acredito que tenha ido só; nenhum de seus amigos, dentre os que conheci, se recordava de tê-lo acompanhado nessa jornada.
O casamento, porém, só se realizaria mais de dois anos depois, em 26 de maio de 1934, um sábado, pelas 21h, como era de praxe e a noiva registrou no caderninho preto. Eles se conheceram nos bailes e festas do Clube Repentino (que disputava com o Democrata) e de cujo carnaval minha mãe chegou a ser rainha. Lembra ela que papai era inteiramente desajeitado para danças.
As irmãs Irma e Iracy (esta depois se casaria com o advogado e mais tarde deputado Waldemar Rupp) eram bonitas e disputadas a tal ponto que se tornaram meio de comparação. Conta-se que Nhô Justo, morador daquelas bandas, quando queria realçar a beleza de alguma coisa, exclamava:
- Linda que nem as filhas do Lica Vieira!
O casamento, no entanto, só duraria menos de três anos. O casal teve um único filho.
Cercado pelos amigos e sempre às voltas com os livros, José Athanázio, além das leituras de assuntos profissionais, foi um apreciador da História e acompanhava com atenção a política nacional e estrangeira. Das freqüentes viagens ao Rio, voltava carregado de livros. Ele e os amigos, nas tardes de calor, rumavam para o Poço da Bica, nas cercanias da cidade. Deitados à sombra das árvores, liam e discutiam. Depois se banhavam na água cristalina e gelada que escorria da pequena bica de madeira. Num de seus últimos contos, Guido Wilnar Sassi recorda uma dessas tertúlias a céu aberto (“O Naufrágio do Black Ship”).
Nas noites silenciosas se reuniam na imensa sala do casarão de pedras. Ouviam rádio, quando não havia muita “estática”, num dos primeiros (provavelmente o primeiro) aparelhos por lá aparecidos. A voz dos locutores distantes estabelecia a ligação daquela vila perdida nos campos com o resto do mundo. A antena se estendia por muitos metros, fixada em postes que formavam fila ao longo do quintal.
A qualquer pretexto José Athanázio se punha a declamar Camões.  O célebre “Soneto 29” era o preferido:
 
“Sete anos de pastor José servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,  
Que a ela só por prêmio pretendia.
 
Os dias na esperança de um só dia
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela
Em lugar de Raquel lhe deu a Lia.
 
Vendo o triste pastor que com enganos
Assi lhe era negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;
 
Começou a servir outros sete anos,
Dizendo: Mais serviria, se não fora,
Para tão longo amor tão curta a vida.” (3)
 
Grande foi o seu círculo de amigos. Othon D’Eça, ainda solteiro e que viria a ser meu professor na Faculdade; Edmundo Acácio Moreira e José do Patrocínio Gallotti, também meus futuros professores; o Desembargador Sálvio Gonzaga; o juiz A. Selistre de Campos, figura ardorosa e controvertida de magistrado, defensor corajoso dos índios do Oeste Catarinense, foram seus amigos. Mas Antônio Bottini, também médico e mais tarde professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Darcy Pedroso, Paulo Blasi, Ozório Farias e Juventino Lemos eram os mais chegados. Este último foi o seu companheiro no fabrico de móveis, nas lidas de horta e pomar a que gostava de se entregar nas horas de folga, nas freqüentes caminhadas pelas cercanias e até em algumas pequenas viagens profissionais. “Tio Tino”, homem simples, tinha-lhe verdadeira adoração, embora fosse vítima constante de suas troças, das quais até gostava. De uma fidelidade inconcebível nos dias de hoje, contou-me o próprio “Tio Tino” que, quando se excedia no linguajar, meu pai se irritava:
- Cala a boca, Juventino! Deixa de burrices!
Mas ele se deleitava com as estórias de fantasmas e assombrações em que Juventino era pródigo e tinha nele um animado companheiro para os bailes do “Repentino”, pois “Tio Tino” era um grande carnavalesco. Dos seus amigos mais íntimos, foi o único com quem convivi e conheci bem de perto. Algumas passagens de sua vida dariam excelentes crônicas. Juventino guardou até o fim da vida uma dolorosa e sincera saudade do amigo que se foi tão jovem. Já bem velhinho, trôpego e cansado, muitas vezes vi seus olhos marejados quando recordávamos coisas vividas por ele e papai. Homem de passo leve e macio, costumava entrar em meu escritório sem se anunciar, sentando-se numa poltrona, e dali me observava em silêncio. Entretido no trabalho, eu levava um susto quando o avistava.
- Parece que estou vendo o José quando moço! – afirmava, acentuando sempre nossa semelhança física.
Othon D’Eça relembrava as longas conversas com meu pai nas noites silenciosas, caminhando em torno do célebre jardim com seus caramanchões, cedrinhos recortados e cercas vivas bem aparadas. Quando cansavam, depois de muito andar, sentavam-se no banco tosco, na verdade uma tora maciça lustrada pelo uso, diante do hotel em que D’Eça se hospedava, quase ao lado da casa de meus avós paternos, com os quais meu pai residia. A conversa se estendia sob um céu pintalgado de estrelas e às vezes o friozinho se anunciava. Enquanto D’Eça era falante, irrequieto, cheio de gestos, meu pai ouvia muito e falava pouco.
A biblioteca que pertenceu a José Athanázio, na parte que me chegou intacta e que guardo até hoje, era toda em francês, na literatura médica, e parte em francês e latim, na literatura geral.
Charles H. May, Gaston Lyon, E. Macé, Fernand Berlioz, J. Castaigne, H. Paillard, Victor Viau, M. Guibé, Alex Renault, M. Nicolle et J. Magrou, Ch. Debierre, G. Pouchet, Allyre Chassevant, Hermann Eichorst, Ph. Störh, F. Lejars, Rémy Perrier, E. Hédon, L. Testut, G. Dieulafoy, Ganot-Maneuvrier, Fabre, E. Apert, André Broca, A. Richaud, M. Arthus, J. Darier, J. Barozzi, C. Oddo, Simon Duplay, J. Courmont, E. Terrien, Guy Laroche, Georges Laurens, J. Comby, Félix Coste  são alguns autores de sua estante médica. Cícero (“Orationes”), Cesar (“De Bello Gallico”), Jules Verne, Gustave Le Bon, Louis Buchner, excelentes e variadas gramáticas e antologias latinas, francesas e portuguesas, além de inúmeros livros e revistas sobre assuntos da atualidade compunham a parte geral. Não poderia faltar a História de Cesare Cantu.
Em política, formou ao lado de Adolfo Konder, integrando o grupo dos “Coligados.” Candidato a deputado, não foi eleito, embora obtivesse mais votos que o concorrente de sua região. O sistema eleitoral da época, ainda na República Velha, continha dessas armadilhas.
Desde 1936 começou a apresentar problemas de saúde. Não alterou, porém, o modo de vida, trabalhando e atendendo normalmente a clientela. Em novembro desse mesmo ano, apesar de seu empenho e dedicação, falece sua mãe, Bernardina, fato que muito o abala e leva a surdas recriminações contra os limitados recursos médicos de então. Salvara tanta gente, jovens e velhos, e, no entanto, era incapaz de evitar o falecimento da mãe, cuja morte veio a agravar o seu próprio estado. As fotografias dessa época mostram-no triste e abatido.
No início do ano seguinte a sua saúde inspira cuidados. Colegas e amigos temem pela sua vida e se desvelam em tratamentos e cuidados. A 24 de março não se sente bem, permanece acamado, mas conversa com a esposa e recebe os amigos pela manhã. Seus colegas, inclusive de cidades vizinhas, e até um colega de turma, vêm prestar-lhe assistência. Consciente do seu estado, e por certo seguro como sempre no diagnóstico, por volta das nove horas afirma a Paulo Blasi, em francês: “C’est mon dernier jour!” Efetivamente, assinalavam os sinos da velha igreja matriz o meio-dia quando ele deixou de existir. Era uma quarta-feira cinzenta e fria.
Sepultado no dia seguinte, no cemitério de sua terra, quase toda a população o acompanhou. Paulo Blasi, o mesmo amigo inseparável, faz um sentido discurso. “Espírito humanitário, - escreveu ele – encontramos sempre em José Athanázio um amigo dedicado, um amigo nas passagens mais alegres, um amigo nos momentos mais melindrosos, como um abnegado nos transes mais amargos e dolorosos. Desempenhando suas funções de médico, não foi só o profissional, foi o abnegado. Muitas vezes não dava ao pobre só a receita, mas também dinheiro para que pudesse mandar aviá-la.”
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(1)                                                                                 – Sobre Miguel Couto, v. “Enciclopédia Brasileira Globo”, P. Alegre, 1971, Vol. IV.
(2)                                                                                 – A tese foi publicada pela Tipografia Alba, à Rua Maranguape, 17, Lapa/RJ, no mesmo ano de 1923. Tem 45 páginas, divididas em nove capítulos, e a bibliografia arrolada é toda estrangeira, indicando que o assunto era mesmo novo no Brasil.  Há exemplares dela nas bibliotecas de Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba, São Paulo e Rio, bem como em bibliotecas universitárias, como a da UFSC.
(3)                                                                                 – “Obras” – Tomo II da edição do Visconde de Jurumenha. Indicações anotadas num exemplar do soneto encontrado nos papéis de José Athanázio.
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(Transcrito, com acréscimos e correções, do livro “Figuras e Lugares”, Blumenau/SC, Fundação Casa Dr. Blumenau, 1983).
Escrito por Enéas Athanázio, 09/08/2019 às 16h00 | e.atha@terra.com.br

MAR E GUERRA

Em visita ao Rio de Janeiro, para receber os prêmios que me foram conferidos pela União Brasileira de Escritores (UBE/RJ), adquiri numa loja das Livrarias da Travessa um exemplar do terceiro volume dos contos de Ernest Hemingway (1899/1961), integrante de suas Obras Completas (Bertrand Brasil – Rio – 2001). O volume reúne 21 contos de autoria do norte-americano, dentre eles alguns dos menos conhecidos e outros muito longos, talvez fragmentos de romances não concluídos pelo autor. A tradução é de José J. Veiga.

Nesses contos, como em toda a obra do autor, o mar e a guerra são muito presentes. É conhecida a paixão dele pelo mar, pelas pescarias e aventuras marítimas, aos quais se dedicou com intensidade, em especial no período em que viveu na Finca Vigia, em Cuba. Ficou célebre sua lancha Pilar, com a qual muito navegou pelo Gulf Stream e que usou até mesmo para localizar submarinos alemães durante a II Guerra Mundial. Também o fascínio que alimentava pelas guerras é conhecido, uma vez que se tornou herói da I Guerra Mundial, ao ser ferido em missão, na Itália. Depois disso, cobriu outros conflitos e até mesmo participou de operações bélicas, inclusive na Guerra Civil espanhola e na retomada de Paris. Diante disso tudo, é natural que muito dessas experiências transpareça na sua obra em páginas de fundo memorialístico, como acontece em muitos destes contos.

Logo no conto de abertura nos deparamos com o capitão Harry, personagem já conhecido, seu barco e uma perigosa travessia clandestina para contrabandear chineses. É um conto que culmina com muita violência, como se espera do capitão Harry, em que é morto o Sr. Sing, intermediário do negócio, sem que pareça existir motivo. E os chineses transportados, em vez de serem levados a um dos destinos combinados, são largados à própria sorte em Cuba. Conto escrito com maestria, com muito diálogo e que transmite com precisão o ambiente do cais e da gente ribeirinha. O conto seguinte também se envolve com as coisas do mar. E os três que se seguem têm a guerra como pano de fundo. Em um deles é relatada a angústia do combatente na véspera de uma batalha que já sabe perdida e na qual prevê que vai morrer. Esses contos acontecem na época em que o narrador-personagem vivia no Hotel Flórida, em Madri, enquanto a guerra se travava no fim da rua e as bombas explodiam na frente do próprio hotel e às vezes até o atingiam.

Os contos subsequentes também têm a guerra como pano de fundo, um na Espanha e outro em Cuba. São contos “pesados”, conforme a divisão de Monteiro Lobato, tradutor de Hemingway, para distingui-los dos “leves” No primeiro deles, o cinegrafista filma uma batalha ao pé da cordilheira quando observa um soldado francês que está desertando, desiludido com a possibilidade de vitória. É então perseguido e morto de maneira fria e implacável pelos fiscais armados. No segundo conto, numa casa cheia de armas, jovem casal revolucionário tenta fugir. O rapaz é metralhado e a moça conduzida à prisão e à tortura pela polícia do ditador Batista. Nesses contos Hemingway parece dizer que os humanistas apreciam a humanidade cm conjunto, como algo etéreo e distante, mas não suportam os indivíduos isolados, em carne e osso. É um amor platônico pelo ser humano indeterminado – aquele a que chamamos o povo.

No longo conto “Quando o mundo era novo”, o escritor repisa uma de suas antigas obsessões: a velhice deste mundo caduco e que está sempre repetindo os mesmos erros. Nele parece suspirar de doloridas saudades de um mundo jovem, limpo, justo e humano. No fundo, é provável que acreditasse no rejuvenescimento deste mundo velho renovando-se para melhor. E nos demais contos reunidos no volume o leitor vai encontrar todas as paixões do escritor: a África, a Espanha (que considerava a segunda pátria), as touradas, os animais (com predileção pelos grandes – leões, búfalos, elefantes, cães...), as viagens, o movimento, as inquietações, as argutas observações. Sempre e sempre a atividade, as lutas, as vitórias e as derrotas, a vida e a morte, a paisagem, a natureza, o amor, o espetáculo da vida. Nunca a masturbação psicológica de que falava o crítico Wilson Martins. Nick Adams, um de seus mais célebres personagens, também se apresenta. Estes talvez não sejam o melhor Hemingway mas são, sem dúvida, alguns dos grandes momentos da contística universal.

Escrito por Enéas Athanázio, 05/08/2019 às 12h04 | e.atha@terra.com.br

Os últimos anos

Entre as muitas biografias parciais de Ernest Hemingway (1899/1961), nenhuma me parece tão tocante e sincera como “Papá Hemingway”, de A. E. Hotchner (Civilização Brasileira – Rio – 1967). Ela reconstitui os últimos quatorze anos de vida do escritor, desde que o autor o conheceu em Cuba, no célebre bar Floridita, e se tornou seu maior e mais íntimo amigo nessa última fase da existência, acompanhando passo a passo a doença que o levaria ao trágico fim. Como ele próprio afirma, depois de muito ponderar, resolveu “contar toda a verdade, sem ocular nada; contar ao leitor como a coisa realmente aconteceu.” Encarregado por uma grande revista americana de entrevistar Hemingway sobre o tema “O futuro da literatura”, Hotchner embarcou para Havana, em cujas proximidades o escritor vivia, na conhecida Finca Vigia, para tentar arrancar dele algumas declarações a respeito de assunto tão vago quanto imprevisível. Sem coragem de bater em sua porta, o repórter enviou ao escritor um bilhete onde dizia que seu fracasso lhe custaria o emprego. Foi então que Hemingway marcou um encontro no bar e ali se conheceram, dando início a uma sólida amizade, realizando juntos numerosas viagens, caçadas, pescarias, temporadas para acompanhar touradas e longas conversas reveladoras do pensamento do escritor e sua inigualável técnica de escrever. Enquanto isso, Hotchner adaptava para a televisão contos de Hemingway com grande sucesso.

Têm início então as mais incansáveis viagens, tanto pelos Estados Unidos como pela Europa. O carro constituía o transporte predileto do escritor, sentado sempre ao lado do motorista, seu trono particular. Dali – dizia ele – podia contemplar a paisagem, as cidades e as vilas, as pessoas e os animais, os pássaros e a vegetação. Observador atento, tudo retinha na memória e sempre que desejava recordar de algo dizia: “Aperto apenas o botão das lembranças e lá surge a coisa. Se não estiver lá é porque não valia a pena ser conservada.” E durante as viagens conversava muito, tanto sobre o que acontecia no momento como a respeito de fatos passados, histórias e leituras. Foi sempre um inigualável companheiro de viagens.

Quando na Espanha, que considerava a segunda pátria, acompanhava com fervor as touradas, assunto em que se tornou autoridade. Conhecia os toureiros, discutia com eles e até protegeu alguns, e comparecia aos bares onde se juntavam os aficionados. Em várias oportunidades acompanhou as caravanas dos toureiros preferidos nas suas maratonas pelas cidades onde se apresentavam, às vezes muito distantes umas das outras. Toureiros célebres foram seus hóspedes na Finca Vigía, em Cuba. Em compensação, tornou-se conhecido dos frequentadores das touradas e mais de uma vez foi aplaudido pela multidão. Sua mulher foi contemplada com a orelha de um touro, grande homenagem de um toureiro a alguma pessoa de destaque. Além de colecionar milhares de fotos sobre touradas, escreveu livros, reportagens e artigos sobre o assunto.

A vida seguia nesse ritmo ágil e vitorioso quando os problemas começaram a se manifestar. Imperceptíveis no início, só notados pelas pessoas mais chegadas, agravaram-se com rapidez. Tornou-se tristonho, preocupado com ninharias, perdeu peso e parecia frágil. Instalaram-se as ideias fixas e a mania de perseguição. Julgava-se vigiado pela polícia e pela receita federal, imaginava que seus telefones estavam grampeados e enxergava um espião em cada desconhecido. Irritadiço ao extremo, voltou-se até mesmo contra a esposa Mary e o amigo Hotchner, autor do livro. Começa, então, a terrível sequência de internações, a princípio simuladas para evitar escândalos, e depois públicas e do domínio da imprensa. Seguiram-se os tratamentos terríveis da época, com isolamento, eletrochoques, calmantes violentos. Até que ele adotou uma postura dúplice: mostrava-se lúcido e são perante os médicos, mas, tão logo libertado, retornavam todos os sintomas. E foi numa dessas ocasiões, em 1961, que burlou a vigilância da mulher e o tiro fatal ecoou no casarão de Ketchum, sua última morada. Tinha 62 anos e o mundo perdia um dos maiores escritores do Século XX.

Escrito por Enéas Athanázio, 29/07/2019 às 09h33 | e.atha@terra.com.br

O HÓSPEDE

O senhor Almeida se dedicava à agricultura. Vivia num sítio perdido no ermo, aprazível e silencioso, onde as preocupações mais urgentes se relacionavam às condições do tempo, em geral favoráveis, propiciando boas colheitas. Gastava seus longos dias sugando grosso palheiro e, pela tarde, se ajeitava à beira do fogão de lenha, matutando ideias nunca reveladas, enquanto a mulher preparava um jantar simples mas delicioso. Com o correr do tempo, porém, outra preocupação começou a toldar sua paz. É que o tranquilo sitiante tinha nada menos que nove filhas, algumas já passadas e outras em pleno viço, todas simpáticas e bonitonas. Como naqueles ínvios pouca gente de fora aparecia, as pobres moças não encontravam pretendentes e todas corriam o risco de ficar para titias. Em conversas com a mulher, Almeida se convenceu de que teria que mudar de lugar e de profissão em benefício da prole casadoira.

Passou a ler com atenção os anúncios dos jornais até que encontrou a solução. Numa estância de águas, não distante dali, estava à venda um amplo e antigo hotel. Almeida tratou de vender o sítio, com o gado, os cavalos, as ovelhas, as roças e tudo o mais, apurando considerável importância. Logo em seguida, sem maiores problemas, adquiriu o estabelecimento. Em pouco tempo, ele e a família estavam instalados no Grande Hotel, tão grande que possuía quartos em profusão, corredores imensos e salas espaçosas, além de ficar bem próximo das fontes minerais.

Ansiosa, toda a família ficou aguardando a chegada dos hóspedes, mas eles tardavam a aparecer. Mal administrado pelos antigos donos, o hotel não gozava de grande conceito. Mas vai que um dia, afinal, apontou na curva da estrada o primeiro e tão esperado hóspede. Tratava-se de um senhor Garcia, já entrado em anos, acometido de mal dos nervos e que procurava um recanto sossegado onde aplacar o mal que tanto o afligia. Foi recebido com toda cortesia e alojado no melhor quarto, com ampla vista para a cidadezinha e as verdejantes matas da região.

Desde o primeiro instante, foi o hóspede tratado com as maiores gentilezas. Bastava manifestar qualquer desejo e seu Almeida estava pronto a satisfazê-lo.

- O senhor Garcia quer um copo d’água! – gritava para dentro. E não tardava a aparecer uma das nove, toda elegante e brejeira, levando o líquido numa bandeja recoberta por uma toalha de crochê.

Tão logo servida a refeição, acorria o senhor Almeida, todo cheio de mesuras, em busca do precioso hóspede.

- Meninas! – bradava ele. – Preparem um lugar para o senhor Garcia!

Durante a refeição os salamaleques se repetiam.

- Sirva-se mais, senhor Garcia! Experimente esta coxa de frango crioulo. Este é um feijão especial, preparado para o senhor.

Constrangido, o hóspede agradecia, embora lamentasse no íntimo a conspiração contra o sossego e a solidão que tanto procurava. Até que um dia, enjoado daquilo tudo, tomou uma séria decisão.

Na calada da noite, quando todos dormiam, arrumou sua tralha, desceu a escadaria e deixou sobre o balcão da portaria o pagamento da hospedagem.

Em completo silêncio, sumiu na noite sem deixar rastro. Delicadeza em excesso enjoa e cansa!

Este é o resumo simplificado de um capítulo do romance “Vida Ociosa”, obra-prima de nossa literatura, publicado em 1920, e que consagrou o escritor mineiro Godofredo Rangel.

Escrito por Enéas Athanázio, 22/07/2019 às 13h20 | e.atha@terra.com.br

GÊNIO E REBELDE

Tristan Tzara foi uma figura célebre e controversa na Paris da belle époque. Frequentava o mesmo café onde se reuniam os membros da chamada “geração perdida”, entre os quais Ernest Hemingway, em cujas obras se encontram referências a ele. Nascido Samuel Rosesnstock (1896/1963), de família judia, veio ao mundo na Romênia e faleceu em Paris. Adotou o pseudônimo com que se tornou célebre, cuja tradução livre é “triste em meu país.” Desde muito cedo se revelou um contestador e vanguardista, colaborando em periódicos de seu país. Viveu na Alemanha, na Espanha e em Paris, onde se fixou em definitivo, tendo adquirido a nacionalidade francesa. Estudou Ciências Humanas e Filosofia em Zurique. Durante a II Guerra Mundial sofreu perseguições antissemitas, obrigando-se a se refugiar no sul da França, tendo participado da Resistência Francesa como elo de ligação com intelectuais simpatizantes.

Com outros escritores, poetas e artistas, criou o Movimento Dadaísta, cujo manifesto foi lançado em 1918 com intensa repercussão. Nele, o grupo investia contra a poesia convencional, os valores estéticos, culturais e morais imperantes, propondo a destruição dos cânones vigentes numa sociedade que considerava em franca decomposição. Suas ideias revolucionárias teriam sido inspiradoras do Surrealismo. Não obstante, é considerado um dos grandes expoentes da literatura francesa do Século XX.

Para ele, a poesia haveria de ser transgressora e rebelde, alheia aos significados lógicos da linguagem, mesmo que não fosse entendida pelo vulgo. Propunha a associação de termos incompatíveis entre si e uma sucessão de ritmos caóticos. Entre seus princípios estavam: a abolição da lógica, de toda hierarquia, da memória, das profecias, do futuro e das dores crispadas, dos grotescos e das incongruências. O entrelaçamento dos contrários e de todas as contradições eram alguns de seus postulados. Autor de uma obra vasta e complexa, aliava a rebeldia agressiva a um socialismo utópico.

Para orientar os interessados, forneceu a receita de um poema dadaísta. Leia um artigo de jornal, - instruiu ele – depois use uma tesoura e o recorte. Em seguida, com muito cuidado, recorte palavra por palavra, ponha tudo num saquinho e sacuda de leve para misturar. Vá tirando e copiando cada uma das palavras e você terá um poema muito parecido com você e repleto de sensibilidade, embora ninguém o entenda e talvez nem mesmo seu autor (digo eu). Com base nessas instruções, vamos construir um

POEMA DADÁ

Com prisões guerra deputado institucional
Tendências erramos disputa casas política
Contato continuidade membros da justiça
Usurpar aproximou destroços gabinete segura
Para xadrez a da chinês judiciário
Assembleia chegam ministério máximo final
Paz debates mira pacheco extra
Zona da poder mais e para crítico
Mesa alerta faltou é do inovação
Importantes xis minha história estrutura
A em que o da ao . . .

O leitor entendeu?
Confesso que também não!
Será mesmo parecido comigo?

Escrito por Enéas Athanázio, 15/07/2019 às 09h09 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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Página 3
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

A NOVELA DO JÚRI

Eduardo Sens acaba de lançar um livro primoroso. Refiro-me a “De quando éramos iguais” (Editora Penalux – S. Paulo – 2019), que o autor rotula de romance mas eu prefiro qualificar como novela, naquele sentido de obra síntese sobre determinado tema. É um texto como não recordo de ter visto nada semelhante, retratando um julgamento pelo Tribunal do Júri através dos olhos do promotor encarregado da acusação. Literatura a respeito desses julgamentos é o que não falta, mas aqui é o próprio representante da sociedade olhando de dentro para fora e analisando tudo que acontece. O inesperado reconhecimento do réu cria um tal ambiente de tensão que vai envolver o leitor de forma inquietante até o final.

O autor escreve com desenvoltura e tem uma linguagem rica de observações, sugestões e ideias, desenvolvendo com freqüência formulações filosóficas que casam com perfeição com o momento. Ao reconhecer o réu, depois de tantos anos, o promotor se vê diante do próprio passado e os acontecimentos daquele tempo distante voltam à memória com intensidade. Os tempos de infância desfilam pela cabeça num memorialismo minucioso e sofrido que o acompanha durante todo o desenrolar do processo, ato por ato, até a inesperada conclusão. Até mesmo um acontecimento doloroso em que se envolveu no colégio e que julgava esquecido volta com toda força. E o promotor vive um drama indescritível. Por um lado o dever funcional de acusar; pelo outro, o desejo de perdoar o amigo de infância. Para completar, a dúvida sobre a culpa do réu parece se infiltrar no seu coração. Esgotado, ele mal pode acreditar que o julgamento terminou.

Promotor experiente, atuando há dezessete anos no Tribunal do Júri e com mais de uma centena de julgamentos em sua carreia, o personagem fica chocado ao ver na sua frente, no banco dos réus, ninguém menos que o Tainho. Menino pobre, morador de uma favela vizinha à sua morada, ele pertencia ao mesmo grupo de crianças que por ali brincavam sem que houvesse diferença entre elas porque se sentiam iguais. E um caso que deveria ser apenas mais um dentre tantos, de repente se transforma em pesadelo.

Procurando se controlar e manter a frieza necessária, ele vai vencendo as etapas do julgamento. A oitiva das testemunhas, o interrogatório do réu, a leitura das peças processuais, a fala do defensor e, por fim, a angustiante votação dos quesitos na sala secreta, tudo desfila diante do leitor de forma lenta e exasperante. Surgem observações as mais curiosas, dignas dos mais experimentados e assíduos profissionais do Júri. Mesmo vivendo um drama íntimo, observa tudo que acontece: as palavras da defesa, a postura dos jurados, as reações da platéia, o comportamento do réu. Traça um retrato tão perfeito que a gente vê o Tribunal em funcionamento.

Não temo em dizer que se trata de um livro pioneiro pela forma com que o tema é abordado e ficará como algo inovador. Agradará, sem dúvida, a quantos se entregarem à sua leitura e sentirem o impacto da experiência vivida pelo promotor de Santa Bárbara. Eduardo Sens merece as melhores felicitações.

Os integrantes do Ministério Público têm contribuído de forma positiva com a boa literatura catarinense: Artêmio Zanon, Villa Real, Eduardo Sens. Que venham outros! 

Escrito por Enéas Athanázio, 13/08/2019 às 15h39 | e.atha@terra.com.br

JOSÉ ATHANÁZIO, MEU PAI

 Para quem tanto tem escrito sobre estranhos, quero crer que não incidirei em pecado relembrando meu próprio pai, essa figura singular, que viveu tão pouco, e, no entanto, ainda permanece na memória de sua gente mesmo depois de tantos anos após sua morte.

José Fontes Athanázio nasceu na então Villa de São João Baptista dos Campos Novos a 7 de junho de 1900. Era filho do casal Francisco Athanázio e Bernardina Fontes Athanázio.
“Seu” Chico, libanês nascido em Beirute e de presumível ascendência grega (como ele próprio costumava afirmar), era o único “turco” da cidade, coisa rara nos Campos Gerais daqueles tempos. Mais tarde chegaria Mustafá Assad. Segundo minha mãe, em cuja residência Francisco Athanázio viveu após o falecimento da esposa e do filho, ele era loiro e de olhos azuis, nascido em 1860, e chegou ao Brasil em 1877, portanto com apenas 17 anos de idade. Residiu em Lages e Curitibanos, fixando-se depois em Campos Novos, onde casou, em 1898.
Comerciante, naturalmente, “Seu” Chico era de poucas letras, engrolando mal o português, mas ninguém o enganava nas contas. Aficionado do bilhar, parece que não se dava bem com tacos e bolas, pois era freqüente e jovial perdedor de latas de conserva e garrafas de bebida.
Sua loja ficava defronte à atual igreja matriz, do outro lado do pasto freqüentado por vacas de leite e velhos matungos de carroça, hoje a Praça Lauro Müller, onde surgiria, mais tarde, o mais famoso jardim público da região, com seus curiosos caramanchões e cercas vivas. O casarão de madeira abria portas e janelas para a rua larga e ali o comerciante vivia, alegre e feliz, proseando com os amigos mais chegados e correndo o metro para o corte dos tecidos. Faleceu em Joaçaba, aos oitenta anos, em 1940.
José era o filho mais velho, seguindo-se as irmãs Maria (Marica), hoje falecida, e que foi casada com João Rupp (o tio), e Anita, esposa do Prof. Sálvio Guilhon Gonzaga, ambos falecidos. Era claro, tinha abundantes cabelos louros e olhos muito azuis, tão azuis que pareciam aguados – no dizer de um amigo. O casal Athanázio perdeu um filho, ainda menino, em horrível acidente.
Alfabetizado em casa, como em geral as crianças de seu tempo, aos oito anos foi levado para o internato, na cidade de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. A viagem era longa e penosa, feita em lombo de burro, com o enxoval em cargueiros, “sesteando” e dormindo no caminho. Durava vários dias e, para maior segurança, formavam-se autênticas caravanas de estudantes, pais e peões, armando barracas para os pernoites em pleno campo. Só retornava para casa nas “férias grandes” e assim foi por longos oito anos. Para ele e os colegas as viagens se transformavam em aventuras inesquecíveis, cujos acontecimentos relatava com saudade.
Estudou mais tarde, por algum tempo, no Colégio Catarinense, em Florianópolis. Relatou-me um de seus contemporâneos dessa fase, muitos anos mais tarde, que ambos retornavam das aulas caminhando pelas areias da praia, com as calças arregaçadas e os sapatos nas mãos.
Vai bem nos estudos e isso enche o coração de “Seu” Chico; o imigrante antevê no filho o futuro doutor na pátria que escolheu e logo na primeira geração.
Em 1916, cheio de planos e sonhos, o jovem camponovense está em Porto Alegre para os “preparatórios.” Os livros de sua biblioteca, parte da qual carrego comigo até hoje, adquiridos nessa época, revelam que muito lia e lia bem. Num deles, em letra miúda e juvenil, está o lema de Cervantes: “Quem lê muito e anda muito, sabe muito e conhece muito.”
No ano de 1917, com dezessete anos, está matriculado na Faculdade de Medicina do Rio Grande do Sul. Nela faz os três primeiros anos do Curso Médico, para transferir-se então para a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. A antiga capital exercia intensa atração como o maior centro cultural, científico e político do país. Faz um curso caprichado, com excelentes notas, convivendo com professores, médicos e intelectuais. Forma-se em 1922, ano do centenário da independência, e a imprensa deu grande destaque à solenidade, à qual compareceu inclusive o Presidente da República.
Mas o camponovense é arrojado, sonha alto. Decide doutorar-se e defender tese, ainda que não visasse o magistério. Permanecendo na “terrinha” por um ano, “não levanta os olhos dos livros.”
Em 12 de novembro de 1923, depois de muito estudo e pesquisa, apresenta à consideração da Faculdade a tese “O cloreto de cálcio em terapêutica.” Submetida ao visto do secretário, Dr. Brito Silva, o moço de Campos Novos, no verdor de seus vinte e três anos, vai defendê-la a 6 de dezembro do mesmo ano.
A Banca Examinadora é das mais exigentes e rigorosas, nela formando algumas figuras de projeção nacional, médicos, cientistas e mestres de renome. É composta pelos Professores Ozório de Almeida, Pedro Pinto, Agenor Porto, Miguel Couto e Aloysio de Castro, Diretor da Faculdade, estes dois últimos até hoje reverenciados como grandes expoentes. Segundo depoimento do Prof. Newton Freire-Maia ao autor, Ozório de Almeida era a maior expressão científica dentre todos (1). Mas José Athanázio vê o seu trabalho aprovado com distinção e louvor. Submeti essa tese a diversos médicos amigos, entre eles o saudoso Prof. Alvir Riesemberg, tendo eles afirmado a indiscutível originalidade do tema escolhido e das suas conclusões para a época em que foi elaborada  (2).
1924 marca o início de suas atividades profissionais na terra natal. O chamado de seu chão faz com que volte à Villa para a convivência com os pais, as irmãs, os amigos. A antiga capital da República, no entanto, ficou gravada na sua lembrança, amando-a tanto que, pouco antes de falecer, aprestava-se para o retorno definitivo. Residiu na Gávea à época dos estudos e isso o levaria a reproduzir em Campos Novos, no topo da coxilha mais elevada, uma das casas de pedra existentes naquele bairro carioca. As paredes, constituídas de blocos retangulares de pedra-ferro, tinham cerca de oitenta centímetros de espessura. Defronte, fazendo vista para a cidade, o varandão corria toda sua extensão.
Nessa casa, ainda hoje existente, ele clinicou até o fim da vida e nela nasceu a Fundação Hospitalar Dr. José Athanázio dos dias atuais. Parte dos móveis do primeiro consultório foram feitos por ele, em madeira-de-lei, com a ajuda do inseparável amigo e vizinho Juventino Lemos. Tanto as poltronas, conhecidas como cadeiras de bispo, como a escrivaninha, andaram comigo por ceca e meca e ainda se encontram, intactas, em meu escritório.
Desde logo se revelou um profissional competente e dedicado. Era daqueles que passavam a noite à cabeceira do doente, só arredando pé após o seu restabelecimento. Não foram poucas as pessoas que ainda conheci e que confessaram lhe dever a cura. Viajando a cavalo e, mais tarde, num Ford, percorreu os caminhos e carreiros dos campos para atender a chamados distantes. Sua fama, em pouco, se firmou na região, tanto que mesmo após tantas décadas sua memória é venerada. Diziam mesmo os mais antigos que sua alma prosseguia fazendo curas, tantas as promessas atendidas.
De pouco falar era, no entanto, espirituoso, desses que em duas palavras definem uma situação. Conta-se que foi visitado por um cliente, caboclo de enormes cabelos, barbas e bigodes.
- Para que tanto pelo, “Seu” João? – inquiriu.
- É luto, sentimento pela morte da mulher – explicou o homem.
- É, - concluiu o médico, - esse é um verdadeiro sentimento cabeludo!
Uma noite, - relatou um conhecido, - foi chamado a atender o ferido de tiroteio num baile do interior. Para lá se dirigiu, guiando o “Fordeco”, levando em sua companhia o meu informante, ainda estudante.
A vítima gemia numa “tarimba”, um projétil encravado nas costas. Verificou logo que se tratava de ferimento superficial: a bala transfixara outra pessoa, chegando sem força, e ficou presa apenas na pele. Numa manobra rápida, o médico a retirou, exibindo-a ao ferido, e ele, feliz da vida, parou os gemidos e se pôs a agradecer.
- Não agradeça – resolveu o médico brincar, ainda que com a fisionomia séria. – A bala passou pelo corpo do H. P. antes de atingir você. . .
O homem, no começo, não entendeu; depois, aos poucos, esbugalhou os olhos e caiu no desespero. É que o H. P. tinha fama de ser morfético.
Ouvi certa vez que ele teria extraído o coração de um suicida para estudos e dissecação. Por mais que investigasse, não encontrei qualquer indício de veracidade, de maneira que o incluo no rol dos numerosos “causos” em que é pródigo o povo. Meu pai só fazia pequenas cirurgias, uma vez que não havia hospital, instalações e pessoal habilitado para a realização de cirurgias maiores, de forma continuada. Minha mãe recorda a angústia que o acometia quando nada podia fazer, exceto encaminhar o doente para fora, sem saber se chegaria com vida.
Desprendido dos bens materiais, José Athanázio não se preocupava com dinheiro, roupas, vida social. Vestia-se com displicência, os sapatos sempre sem cordões. Fumava “Jockey Club”, cigarro da época, mas jogava-o antes de consumida a metade, para acender outro em seguida. Gostava de lidar no imenso pomar dos fundos da casa, fabricar móveis e andar a pé pelas redondezas da cidadezinha, acompanhado de seu cão São Bernardo, de nome Fumanchu. Durante anos manteve na cocheira o cavalo Tufão, um tordilho negro em que costumava visitar clientes e amigos. Foi também exímio nadador.
Irritava-se com os colegas mais novos, que viviam à caça do dinheiro, e por muitas vezes manifestou sua preocupação com a incipiente comercialização da medicina de seus dias. Não desejava que o filho fosse médico.
Herdou algumas terras, hoje situadas no município de Erval Velho. Relatam os seus amigos que ele gostava de subir ao alto de uma elevação e de lá apreciar a massa dos pinheiros verdes, de copadas farfalhantes. Pinheiro, naqueles tempos, nada valia. Havia até fazendeiros que os derrubavam para que suas grimpas espinhentas não “sujassem” os campos.
- Essa árvore – previa ele – valerá fortunas. Em vinte anos, quem tiver pinheiros estará muito rico.
Os caboclos, ao seu redor, sorriam por dentro e “maginavam” que aquilo era mesmo coisa de doutor de cidade grande.
José Athanázio já era um solteirão. Estava com trinta e dois anos quando resolveu casar. A sua decisão causou espanto entre os amigos, mas a escolhida foi Irma Vieira, filha dos fazendeiros Policarpo Alves Vieira e Olívia Alves Vieira, ele nascido em Curitibanos, ela nos campos de Vacaria. “Seu” Lica era o proprietário da Fazenda do Fundo Grande, onde residia. Numa antiga caderneta de capa preta, minha mãe escreveu em letras caprichadas: “Dia 8 de março de 1932. Fiquei noiva, sendo pedida na Fazenda.” Imagino o velho “Fordeco”, roncando e pulando pelos fundos trilhos campeiros, conduzindo o Dr. Athanázio para o pedido de casamento. Acredito que tenha ido só; nenhum de seus amigos, dentre os que conheci, se recordava de tê-lo acompanhado nessa jornada.
O casamento, porém, só se realizaria mais de dois anos depois, em 26 de maio de 1934, um sábado, pelas 21h, como era de praxe e a noiva registrou no caderninho preto. Eles se conheceram nos bailes e festas do Clube Repentino (que disputava com o Democrata) e de cujo carnaval minha mãe chegou a ser rainha. Lembra ela que papai era inteiramente desajeitado para danças.
As irmãs Irma e Iracy (esta depois se casaria com o advogado e mais tarde deputado Waldemar Rupp) eram bonitas e disputadas a tal ponto que se tornaram meio de comparação. Conta-se que Nhô Justo, morador daquelas bandas, quando queria realçar a beleza de alguma coisa, exclamava:
- Linda que nem as filhas do Lica Vieira!
O casamento, no entanto, só duraria menos de três anos. O casal teve um único filho.
Cercado pelos amigos e sempre às voltas com os livros, José Athanázio, além das leituras de assuntos profissionais, foi um apreciador da História e acompanhava com atenção a política nacional e estrangeira. Das freqüentes viagens ao Rio, voltava carregado de livros. Ele e os amigos, nas tardes de calor, rumavam para o Poço da Bica, nas cercanias da cidade. Deitados à sombra das árvores, liam e discutiam. Depois se banhavam na água cristalina e gelada que escorria da pequena bica de madeira. Num de seus últimos contos, Guido Wilnar Sassi recorda uma dessas tertúlias a céu aberto (“O Naufrágio do Black Ship”).
Nas noites silenciosas se reuniam na imensa sala do casarão de pedras. Ouviam rádio, quando não havia muita “estática”, num dos primeiros (provavelmente o primeiro) aparelhos por lá aparecidos. A voz dos locutores distantes estabelecia a ligação daquela vila perdida nos campos com o resto do mundo. A antena se estendia por muitos metros, fixada em postes que formavam fila ao longo do quintal.
A qualquer pretexto José Athanázio se punha a declamar Camões.  O célebre “Soneto 29” era o preferido:
 
“Sete anos de pastor José servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,  
Que a ela só por prêmio pretendia.
 
Os dias na esperança de um só dia
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela
Em lugar de Raquel lhe deu a Lia.
 
Vendo o triste pastor que com enganos
Assi lhe era negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;
 
Começou a servir outros sete anos,
Dizendo: Mais serviria, se não fora,
Para tão longo amor tão curta a vida.” (3)
 
Grande foi o seu círculo de amigos. Othon D’Eça, ainda solteiro e que viria a ser meu professor na Faculdade; Edmundo Acácio Moreira e José do Patrocínio Gallotti, também meus futuros professores; o Desembargador Sálvio Gonzaga; o juiz A. Selistre de Campos, figura ardorosa e controvertida de magistrado, defensor corajoso dos índios do Oeste Catarinense, foram seus amigos. Mas Antônio Bottini, também médico e mais tarde professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Darcy Pedroso, Paulo Blasi, Ozório Farias e Juventino Lemos eram os mais chegados. Este último foi o seu companheiro no fabrico de móveis, nas lidas de horta e pomar a que gostava de se entregar nas horas de folga, nas freqüentes caminhadas pelas cercanias e até em algumas pequenas viagens profissionais. “Tio Tino”, homem simples, tinha-lhe verdadeira adoração, embora fosse vítima constante de suas troças, das quais até gostava. De uma fidelidade inconcebível nos dias de hoje, contou-me o próprio “Tio Tino” que, quando se excedia no linguajar, meu pai se irritava:
- Cala a boca, Juventino! Deixa de burrices!
Mas ele se deleitava com as estórias de fantasmas e assombrações em que Juventino era pródigo e tinha nele um animado companheiro para os bailes do “Repentino”, pois “Tio Tino” era um grande carnavalesco. Dos seus amigos mais íntimos, foi o único com quem convivi e conheci bem de perto. Algumas passagens de sua vida dariam excelentes crônicas. Juventino guardou até o fim da vida uma dolorosa e sincera saudade do amigo que se foi tão jovem. Já bem velhinho, trôpego e cansado, muitas vezes vi seus olhos marejados quando recordávamos coisas vividas por ele e papai. Homem de passo leve e macio, costumava entrar em meu escritório sem se anunciar, sentando-se numa poltrona, e dali me observava em silêncio. Entretido no trabalho, eu levava um susto quando o avistava.
- Parece que estou vendo o José quando moço! – afirmava, acentuando sempre nossa semelhança física.
Othon D’Eça relembrava as longas conversas com meu pai nas noites silenciosas, caminhando em torno do célebre jardim com seus caramanchões, cedrinhos recortados e cercas vivas bem aparadas. Quando cansavam, depois de muito andar, sentavam-se no banco tosco, na verdade uma tora maciça lustrada pelo uso, diante do hotel em que D’Eça se hospedava, quase ao lado da casa de meus avós paternos, com os quais meu pai residia. A conversa se estendia sob um céu pintalgado de estrelas e às vezes o friozinho se anunciava. Enquanto D’Eça era falante, irrequieto, cheio de gestos, meu pai ouvia muito e falava pouco.
A biblioteca que pertenceu a José Athanázio, na parte que me chegou intacta e que guardo até hoje, era toda em francês, na literatura médica, e parte em francês e latim, na literatura geral.
Charles H. May, Gaston Lyon, E. Macé, Fernand Berlioz, J. Castaigne, H. Paillard, Victor Viau, M. Guibé, Alex Renault, M. Nicolle et J. Magrou, Ch. Debierre, G. Pouchet, Allyre Chassevant, Hermann Eichorst, Ph. Störh, F. Lejars, Rémy Perrier, E. Hédon, L. Testut, G. Dieulafoy, Ganot-Maneuvrier, Fabre, E. Apert, André Broca, A. Richaud, M. Arthus, J. Darier, J. Barozzi, C. Oddo, Simon Duplay, J. Courmont, E. Terrien, Guy Laroche, Georges Laurens, J. Comby, Félix Coste  são alguns autores de sua estante médica. Cícero (“Orationes”), Cesar (“De Bello Gallico”), Jules Verne, Gustave Le Bon, Louis Buchner, excelentes e variadas gramáticas e antologias latinas, francesas e portuguesas, além de inúmeros livros e revistas sobre assuntos da atualidade compunham a parte geral. Não poderia faltar a História de Cesare Cantu.
Em política, formou ao lado de Adolfo Konder, integrando o grupo dos “Coligados.” Candidato a deputado, não foi eleito, embora obtivesse mais votos que o concorrente de sua região. O sistema eleitoral da época, ainda na República Velha, continha dessas armadilhas.
Desde 1936 começou a apresentar problemas de saúde. Não alterou, porém, o modo de vida, trabalhando e atendendo normalmente a clientela. Em novembro desse mesmo ano, apesar de seu empenho e dedicação, falece sua mãe, Bernardina, fato que muito o abala e leva a surdas recriminações contra os limitados recursos médicos de então. Salvara tanta gente, jovens e velhos, e, no entanto, era incapaz de evitar o falecimento da mãe, cuja morte veio a agravar o seu próprio estado. As fotografias dessa época mostram-no triste e abatido.
No início do ano seguinte a sua saúde inspira cuidados. Colegas e amigos temem pela sua vida e se desvelam em tratamentos e cuidados. A 24 de março não se sente bem, permanece acamado, mas conversa com a esposa e recebe os amigos pela manhã. Seus colegas, inclusive de cidades vizinhas, e até um colega de turma, vêm prestar-lhe assistência. Consciente do seu estado, e por certo seguro como sempre no diagnóstico, por volta das nove horas afirma a Paulo Blasi, em francês: “C’est mon dernier jour!” Efetivamente, assinalavam os sinos da velha igreja matriz o meio-dia quando ele deixou de existir. Era uma quarta-feira cinzenta e fria.
Sepultado no dia seguinte, no cemitério de sua terra, quase toda a população o acompanhou. Paulo Blasi, o mesmo amigo inseparável, faz um sentido discurso. “Espírito humanitário, - escreveu ele – encontramos sempre em José Athanázio um amigo dedicado, um amigo nas passagens mais alegres, um amigo nos momentos mais melindrosos, como um abnegado nos transes mais amargos e dolorosos. Desempenhando suas funções de médico, não foi só o profissional, foi o abnegado. Muitas vezes não dava ao pobre só a receita, mas também dinheiro para que pudesse mandar aviá-la.”
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(1)                                                                                 – Sobre Miguel Couto, v. “Enciclopédia Brasileira Globo”, P. Alegre, 1971, Vol. IV.
(2)                                                                                 – A tese foi publicada pela Tipografia Alba, à Rua Maranguape, 17, Lapa/RJ, no mesmo ano de 1923. Tem 45 páginas, divididas em nove capítulos, e a bibliografia arrolada é toda estrangeira, indicando que o assunto era mesmo novo no Brasil.  Há exemplares dela nas bibliotecas de Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba, São Paulo e Rio, bem como em bibliotecas universitárias, como a da UFSC.
(3)                                                                                 – “Obras” – Tomo II da edição do Visconde de Jurumenha. Indicações anotadas num exemplar do soneto encontrado nos papéis de José Athanázio.
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(Transcrito, com acréscimos e correções, do livro “Figuras e Lugares”, Blumenau/SC, Fundação Casa Dr. Blumenau, 1983).
Escrito por Enéas Athanázio, 09/08/2019 às 16h00 | e.atha@terra.com.br

MAR E GUERRA

Em visita ao Rio de Janeiro, para receber os prêmios que me foram conferidos pela União Brasileira de Escritores (UBE/RJ), adquiri numa loja das Livrarias da Travessa um exemplar do terceiro volume dos contos de Ernest Hemingway (1899/1961), integrante de suas Obras Completas (Bertrand Brasil – Rio – 2001). O volume reúne 21 contos de autoria do norte-americano, dentre eles alguns dos menos conhecidos e outros muito longos, talvez fragmentos de romances não concluídos pelo autor. A tradução é de José J. Veiga.

Nesses contos, como em toda a obra do autor, o mar e a guerra são muito presentes. É conhecida a paixão dele pelo mar, pelas pescarias e aventuras marítimas, aos quais se dedicou com intensidade, em especial no período em que viveu na Finca Vigia, em Cuba. Ficou célebre sua lancha Pilar, com a qual muito navegou pelo Gulf Stream e que usou até mesmo para localizar submarinos alemães durante a II Guerra Mundial. Também o fascínio que alimentava pelas guerras é conhecido, uma vez que se tornou herói da I Guerra Mundial, ao ser ferido em missão, na Itália. Depois disso, cobriu outros conflitos e até mesmo participou de operações bélicas, inclusive na Guerra Civil espanhola e na retomada de Paris. Diante disso tudo, é natural que muito dessas experiências transpareça na sua obra em páginas de fundo memorialístico, como acontece em muitos destes contos.

Logo no conto de abertura nos deparamos com o capitão Harry, personagem já conhecido, seu barco e uma perigosa travessia clandestina para contrabandear chineses. É um conto que culmina com muita violência, como se espera do capitão Harry, em que é morto o Sr. Sing, intermediário do negócio, sem que pareça existir motivo. E os chineses transportados, em vez de serem levados a um dos destinos combinados, são largados à própria sorte em Cuba. Conto escrito com maestria, com muito diálogo e que transmite com precisão o ambiente do cais e da gente ribeirinha. O conto seguinte também se envolve com as coisas do mar. E os três que se seguem têm a guerra como pano de fundo. Em um deles é relatada a angústia do combatente na véspera de uma batalha que já sabe perdida e na qual prevê que vai morrer. Esses contos acontecem na época em que o narrador-personagem vivia no Hotel Flórida, em Madri, enquanto a guerra se travava no fim da rua e as bombas explodiam na frente do próprio hotel e às vezes até o atingiam.

Os contos subsequentes também têm a guerra como pano de fundo, um na Espanha e outro em Cuba. São contos “pesados”, conforme a divisão de Monteiro Lobato, tradutor de Hemingway, para distingui-los dos “leves” No primeiro deles, o cinegrafista filma uma batalha ao pé da cordilheira quando observa um soldado francês que está desertando, desiludido com a possibilidade de vitória. É então perseguido e morto de maneira fria e implacável pelos fiscais armados. No segundo conto, numa casa cheia de armas, jovem casal revolucionário tenta fugir. O rapaz é metralhado e a moça conduzida à prisão e à tortura pela polícia do ditador Batista. Nesses contos Hemingway parece dizer que os humanistas apreciam a humanidade cm conjunto, como algo etéreo e distante, mas não suportam os indivíduos isolados, em carne e osso. É um amor platônico pelo ser humano indeterminado – aquele a que chamamos o povo.

No longo conto “Quando o mundo era novo”, o escritor repisa uma de suas antigas obsessões: a velhice deste mundo caduco e que está sempre repetindo os mesmos erros. Nele parece suspirar de doloridas saudades de um mundo jovem, limpo, justo e humano. No fundo, é provável que acreditasse no rejuvenescimento deste mundo velho renovando-se para melhor. E nos demais contos reunidos no volume o leitor vai encontrar todas as paixões do escritor: a África, a Espanha (que considerava a segunda pátria), as touradas, os animais (com predileção pelos grandes – leões, búfalos, elefantes, cães...), as viagens, o movimento, as inquietações, as argutas observações. Sempre e sempre a atividade, as lutas, as vitórias e as derrotas, a vida e a morte, a paisagem, a natureza, o amor, o espetáculo da vida. Nunca a masturbação psicológica de que falava o crítico Wilson Martins. Nick Adams, um de seus mais célebres personagens, também se apresenta. Estes talvez não sejam o melhor Hemingway mas são, sem dúvida, alguns dos grandes momentos da contística universal.

Escrito por Enéas Athanázio, 05/08/2019 às 12h04 | e.atha@terra.com.br

Os últimos anos

Entre as muitas biografias parciais de Ernest Hemingway (1899/1961), nenhuma me parece tão tocante e sincera como “Papá Hemingway”, de A. E. Hotchner (Civilização Brasileira – Rio – 1967). Ela reconstitui os últimos quatorze anos de vida do escritor, desde que o autor o conheceu em Cuba, no célebre bar Floridita, e se tornou seu maior e mais íntimo amigo nessa última fase da existência, acompanhando passo a passo a doença que o levaria ao trágico fim. Como ele próprio afirma, depois de muito ponderar, resolveu “contar toda a verdade, sem ocular nada; contar ao leitor como a coisa realmente aconteceu.” Encarregado por uma grande revista americana de entrevistar Hemingway sobre o tema “O futuro da literatura”, Hotchner embarcou para Havana, em cujas proximidades o escritor vivia, na conhecida Finca Vigia, para tentar arrancar dele algumas declarações a respeito de assunto tão vago quanto imprevisível. Sem coragem de bater em sua porta, o repórter enviou ao escritor um bilhete onde dizia que seu fracasso lhe custaria o emprego. Foi então que Hemingway marcou um encontro no bar e ali se conheceram, dando início a uma sólida amizade, realizando juntos numerosas viagens, caçadas, pescarias, temporadas para acompanhar touradas e longas conversas reveladoras do pensamento do escritor e sua inigualável técnica de escrever. Enquanto isso, Hotchner adaptava para a televisão contos de Hemingway com grande sucesso.

Têm início então as mais incansáveis viagens, tanto pelos Estados Unidos como pela Europa. O carro constituía o transporte predileto do escritor, sentado sempre ao lado do motorista, seu trono particular. Dali – dizia ele – podia contemplar a paisagem, as cidades e as vilas, as pessoas e os animais, os pássaros e a vegetação. Observador atento, tudo retinha na memória e sempre que desejava recordar de algo dizia: “Aperto apenas o botão das lembranças e lá surge a coisa. Se não estiver lá é porque não valia a pena ser conservada.” E durante as viagens conversava muito, tanto sobre o que acontecia no momento como a respeito de fatos passados, histórias e leituras. Foi sempre um inigualável companheiro de viagens.

Quando na Espanha, que considerava a segunda pátria, acompanhava com fervor as touradas, assunto em que se tornou autoridade. Conhecia os toureiros, discutia com eles e até protegeu alguns, e comparecia aos bares onde se juntavam os aficionados. Em várias oportunidades acompanhou as caravanas dos toureiros preferidos nas suas maratonas pelas cidades onde se apresentavam, às vezes muito distantes umas das outras. Toureiros célebres foram seus hóspedes na Finca Vigía, em Cuba. Em compensação, tornou-se conhecido dos frequentadores das touradas e mais de uma vez foi aplaudido pela multidão. Sua mulher foi contemplada com a orelha de um touro, grande homenagem de um toureiro a alguma pessoa de destaque. Além de colecionar milhares de fotos sobre touradas, escreveu livros, reportagens e artigos sobre o assunto.

A vida seguia nesse ritmo ágil e vitorioso quando os problemas começaram a se manifestar. Imperceptíveis no início, só notados pelas pessoas mais chegadas, agravaram-se com rapidez. Tornou-se tristonho, preocupado com ninharias, perdeu peso e parecia frágil. Instalaram-se as ideias fixas e a mania de perseguição. Julgava-se vigiado pela polícia e pela receita federal, imaginava que seus telefones estavam grampeados e enxergava um espião em cada desconhecido. Irritadiço ao extremo, voltou-se até mesmo contra a esposa Mary e o amigo Hotchner, autor do livro. Começa, então, a terrível sequência de internações, a princípio simuladas para evitar escândalos, e depois públicas e do domínio da imprensa. Seguiram-se os tratamentos terríveis da época, com isolamento, eletrochoques, calmantes violentos. Até que ele adotou uma postura dúplice: mostrava-se lúcido e são perante os médicos, mas, tão logo libertado, retornavam todos os sintomas. E foi numa dessas ocasiões, em 1961, que burlou a vigilância da mulher e o tiro fatal ecoou no casarão de Ketchum, sua última morada. Tinha 62 anos e o mundo perdia um dos maiores escritores do Século XX.

Escrito por Enéas Athanázio, 29/07/2019 às 09h33 | e.atha@terra.com.br

O HÓSPEDE

O senhor Almeida se dedicava à agricultura. Vivia num sítio perdido no ermo, aprazível e silencioso, onde as preocupações mais urgentes se relacionavam às condições do tempo, em geral favoráveis, propiciando boas colheitas. Gastava seus longos dias sugando grosso palheiro e, pela tarde, se ajeitava à beira do fogão de lenha, matutando ideias nunca reveladas, enquanto a mulher preparava um jantar simples mas delicioso. Com o correr do tempo, porém, outra preocupação começou a toldar sua paz. É que o tranquilo sitiante tinha nada menos que nove filhas, algumas já passadas e outras em pleno viço, todas simpáticas e bonitonas. Como naqueles ínvios pouca gente de fora aparecia, as pobres moças não encontravam pretendentes e todas corriam o risco de ficar para titias. Em conversas com a mulher, Almeida se convenceu de que teria que mudar de lugar e de profissão em benefício da prole casadoira.

Passou a ler com atenção os anúncios dos jornais até que encontrou a solução. Numa estância de águas, não distante dali, estava à venda um amplo e antigo hotel. Almeida tratou de vender o sítio, com o gado, os cavalos, as ovelhas, as roças e tudo o mais, apurando considerável importância. Logo em seguida, sem maiores problemas, adquiriu o estabelecimento. Em pouco tempo, ele e a família estavam instalados no Grande Hotel, tão grande que possuía quartos em profusão, corredores imensos e salas espaçosas, além de ficar bem próximo das fontes minerais.

Ansiosa, toda a família ficou aguardando a chegada dos hóspedes, mas eles tardavam a aparecer. Mal administrado pelos antigos donos, o hotel não gozava de grande conceito. Mas vai que um dia, afinal, apontou na curva da estrada o primeiro e tão esperado hóspede. Tratava-se de um senhor Garcia, já entrado em anos, acometido de mal dos nervos e que procurava um recanto sossegado onde aplacar o mal que tanto o afligia. Foi recebido com toda cortesia e alojado no melhor quarto, com ampla vista para a cidadezinha e as verdejantes matas da região.

Desde o primeiro instante, foi o hóspede tratado com as maiores gentilezas. Bastava manifestar qualquer desejo e seu Almeida estava pronto a satisfazê-lo.

- O senhor Garcia quer um copo d’água! – gritava para dentro. E não tardava a aparecer uma das nove, toda elegante e brejeira, levando o líquido numa bandeja recoberta por uma toalha de crochê.

Tão logo servida a refeição, acorria o senhor Almeida, todo cheio de mesuras, em busca do precioso hóspede.

- Meninas! – bradava ele. – Preparem um lugar para o senhor Garcia!

Durante a refeição os salamaleques se repetiam.

- Sirva-se mais, senhor Garcia! Experimente esta coxa de frango crioulo. Este é um feijão especial, preparado para o senhor.

Constrangido, o hóspede agradecia, embora lamentasse no íntimo a conspiração contra o sossego e a solidão que tanto procurava. Até que um dia, enjoado daquilo tudo, tomou uma séria decisão.

Na calada da noite, quando todos dormiam, arrumou sua tralha, desceu a escadaria e deixou sobre o balcão da portaria o pagamento da hospedagem.

Em completo silêncio, sumiu na noite sem deixar rastro. Delicadeza em excesso enjoa e cansa!

Este é o resumo simplificado de um capítulo do romance “Vida Ociosa”, obra-prima de nossa literatura, publicado em 1920, e que consagrou o escritor mineiro Godofredo Rangel.

Escrito por Enéas Athanázio, 22/07/2019 às 13h20 | e.atha@terra.com.br

GÊNIO E REBELDE

Tristan Tzara foi uma figura célebre e controversa na Paris da belle époque. Frequentava o mesmo café onde se reuniam os membros da chamada “geração perdida”, entre os quais Ernest Hemingway, em cujas obras se encontram referências a ele. Nascido Samuel Rosesnstock (1896/1963), de família judia, veio ao mundo na Romênia e faleceu em Paris. Adotou o pseudônimo com que se tornou célebre, cuja tradução livre é “triste em meu país.” Desde muito cedo se revelou um contestador e vanguardista, colaborando em periódicos de seu país. Viveu na Alemanha, na Espanha e em Paris, onde se fixou em definitivo, tendo adquirido a nacionalidade francesa. Estudou Ciências Humanas e Filosofia em Zurique. Durante a II Guerra Mundial sofreu perseguições antissemitas, obrigando-se a se refugiar no sul da França, tendo participado da Resistência Francesa como elo de ligação com intelectuais simpatizantes.

Com outros escritores, poetas e artistas, criou o Movimento Dadaísta, cujo manifesto foi lançado em 1918 com intensa repercussão. Nele, o grupo investia contra a poesia convencional, os valores estéticos, culturais e morais imperantes, propondo a destruição dos cânones vigentes numa sociedade que considerava em franca decomposição. Suas ideias revolucionárias teriam sido inspiradoras do Surrealismo. Não obstante, é considerado um dos grandes expoentes da literatura francesa do Século XX.

Para ele, a poesia haveria de ser transgressora e rebelde, alheia aos significados lógicos da linguagem, mesmo que não fosse entendida pelo vulgo. Propunha a associação de termos incompatíveis entre si e uma sucessão de ritmos caóticos. Entre seus princípios estavam: a abolição da lógica, de toda hierarquia, da memória, das profecias, do futuro e das dores crispadas, dos grotescos e das incongruências. O entrelaçamento dos contrários e de todas as contradições eram alguns de seus postulados. Autor de uma obra vasta e complexa, aliava a rebeldia agressiva a um socialismo utópico.

Para orientar os interessados, forneceu a receita de um poema dadaísta. Leia um artigo de jornal, - instruiu ele – depois use uma tesoura e o recorte. Em seguida, com muito cuidado, recorte palavra por palavra, ponha tudo num saquinho e sacuda de leve para misturar. Vá tirando e copiando cada uma das palavras e você terá um poema muito parecido com você e repleto de sensibilidade, embora ninguém o entenda e talvez nem mesmo seu autor (digo eu). Com base nessas instruções, vamos construir um

POEMA DADÁ

Com prisões guerra deputado institucional
Tendências erramos disputa casas política
Contato continuidade membros da justiça
Usurpar aproximou destroços gabinete segura
Para xadrez a da chinês judiciário
Assembleia chegam ministério máximo final
Paz debates mira pacheco extra
Zona da poder mais e para crítico
Mesa alerta faltou é do inovação
Importantes xis minha história estrutura
A em que o da ao . . .

O leitor entendeu?
Confesso que também não!
Será mesmo parecido comigo?

Escrito por Enéas Athanázio, 15/07/2019 às 09h09 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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